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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

26 novembro 2010

Enterrado Vivo


“Deus está morto, e o seu túmulo é a igreja”. A frase famosa de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, filho de uma família luterana, homem que pensou em seguir o sacerdócio, mas que “rejeitou a fé” durante a adolescência para dedicar-se a filosofia, é de chocar, a primeira vista. Mas para entender o pensamento de Nietzsche, primeiramente, você deve lê-lo. Criticá-lo utilizando-se de frases feitas por fundamentalistas é por demais clichê. A leitura de um filósofo é como a leitura de um profeta, nunca deve ser feita fora de sua matriz existencial, de seu tempo, sua cultura e sociedade. São estes matizes históricos que constroem o mosaico sobre o qual o pensamento e as palavras de alguém ganham significado.

As críticas de Nietzsche ao cristianismo e as suas asseverações sobre a “morte de Deus”, sobretudo aquelas encontradas no livro “Assim Falou Zaratustra”, precisam levar em consideração a herança medieval que a igreja de seu tempo trazia consigo. O “Deus” que o filósofo afirma que está morto é o ídolo que entorpece os sentidos e percepções humanas, o ser castrador, manipulador e egocêntrico criado pela Instituição, o “Deus” do dogma, da repressão, do medo e da punição.

Se Nietzsche vivesse em nossos dias, observando as aberrações praticadas em nossas igrejas, seus escritos seriam transmutados de profanos para proféticos! O que se faz hoje, comparado com o que se fez na Idade Média, transforma os monstros da santa inquisição em criancinhas dóceis de escola dominical.

Creia-me, em termos de bizarrice, deformidade, estelionato e manipulação, nada se compara ao que estamos assistindo ao vivo e em cores nos cultos de algumas denominações, nos shows gospel de astros evangélicos, nas campanhas e correntes de fé, onde o sincretismo associa práticas judaizantes, religiões de mistérios, macumba, feitiçaria e espiritismo, tudo em nome de Deus!

Essa afirmação de Nietzsche de que o túmulo de Deus é a igreja não é despropositada. No passado, era prática comum enterrar as pessoas dentro de igrejas, sobretudo aquelas que possuíam maiores posses. Famílias influentes, ricas e poderosas, tinham seus próprios jazigos nos corredores e assoalhos das catedrais e igrejas. Sacerdotes também eram enterrados no “solo sagrado”, sobretudo em locais próximos ao altar ou mesmo abaixo dele.

Com a pandemia da peste negra na Europa do século XIV, que dizimou aproximadamente 75 milhões de pessoas, o sepultamento em igrejas tornou-se algo inviável.

Nessa época, sobretudo por questões de saúde pública, os cemitérios começam a ser implantados nos grandes centros. Assim, os sepulcros sacros, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora das igrejas, foram totalmente abandonados, ficando a prática restrita apenas ao clero que, em determinados lugares, ainda mantinha o ritual.

Tudo isso me veio à mente porque eu tenho considerado a igreja dos nossos dias como cemitério de gente, com uma distinção fundamental em relação ao passado: hoje as pessoas estão sendo enterradas vivas! Desgraçadamente, elas vão sendo sepultadas paulatinamente, em doses homeopáticas. A afirmação é terrível, mas a explicação é lógica e simples.

O sujeito existe no mundo sem Deus, sem qualquer tipo de espiritualidade ou de relação com o sagrado. Não raro, sua vida está arrebentada, ele vive desacreditado de tudo, desencontrado de quem de fato é, de sua própria alma, cético e, por vezes, cínico.       

Em muitas situações, sua família está esfacelada, isso quando ele já não vem separado. Os filhos, em muitos casos, são outro grande problema, pois ou cresceram com péssimas referências, ou estão sendo criados pela TV e pelas babás.

Sexo é outra dificuldade. A grande maioria vem de relacionamentos reciclados, com parceiros dos mais diversos com os quais trocaram não apenas fluidos, mas, sem perceber, simbiotizaram suas próprias almas e espíritos com gente de todo tipo. Isso dilui o ser, torna a substância interior uma pasta, muda referências e até padrões comportamentais e psicológicos.

Não bastasse tudo isso, há questões periféricas, mas que também são importantes. Por exemplo: a vida financeira quase sempre está desarrumada. Movidas pela concupiscência dos olhos e pela necessidade de manter aparências, as pessoas de nossa sociedade fazem do cartão de crédito uma arma apontada para suas próprias cabeças! 

Ética é também outro tema confuso. Isso aparece mais claramente quando estamos tratando de práticas profissionais. Percebo que em muitas situações, para manter privilégios ou garantir oportunidades, pessoas estão dispostas a relativizar o absoluto e absolutizar o relativo, negociam tudo, até suas próprias almas, se preciso for.
 
Quando uma pessoa chega a uma comunidade de fé com toda essa bagagem, naturalmente espera que ali possa encontrar pacificação e alívio. Mas a ilusão dura pouco, apenas o tempo necessário para ela constatar como as coisas, de fato, funcionam...

A máquina institucional-religiosa é cruel e não poupa ninguém. Não há fé que resista, não há paixão que suporte. A morte compulsória começa justamente aí, é o enterro antecipado, o sepultamento desdobrado em módicas parcelas.

Massacrado por práticas perversas, dogmas irrefutáveis, liturgias alucinógenas, ritos, mitos, medos e modos, além de um compêndio de doutrinas bizarras, que vão dos absurdos “usos e costumes” até o pagamento do imposto-dízimo, o fiel vai tendo a sua consciência cauterizada, suas emoções anestesiadas. Suas inquietações vão aumentando ao invés de diminuírem, e suas contradições vão se tornando ainda mais realçadas. Em resumo, o indivíduo passa a viver na igreja em situação pior do que vivia fora dela. Pode?!

De fato, creio que a igreja tornou-se novamente um cemitério, um lugar onde a morte é mais propagada que a vida. Ela vem embalada de várias maneiras: nas leis eclesiais, nas proibições, nas castrações, na propagação do medo – medo do inferno, do diabo, do castigo, da alegria, da diversão, da cultura, do saber, e até medo de Deus!

A cada domingo, a cada culto, a cada pregação, o sujeito vai perdendo a vida, não da forma como Je -sus falou, que é a perda que produz ganho, mas da pior forma possível, a perda que produz frustração e angústia existencial.

Há muitos anos, aprendi algo importante: o lugar mais rico da terra é o cemitério. Sim, o cemitério é o lugar onde muitos sonhos foram enterrados. Nele há livros que nunca foram escritos, canções que nunca foram compostas, ideias que nunca se materializaram, negócios que jamais se realizaram e relações que nunca foram a lugar algum. Tudo, absolutamente tudo ali foi tragado pela morte. É um tesouro incontável, mas que não tem qualquer proveito.

Como é triste ver igrejas se transformarem em cemitérios. Como é de estarrecer ver pessoas sendo enterradas vivas! Não morra desta forma! Não perca sua alegria, não permita que sua esperança sucumba, não consinta com o sepultamento de sua consciência, de sua razão, de sua autocrítica, sua sensibilidade, seu gosto pelo belo, pela arte, pela música, pela dança, pelo amor!

Fuja de todo radicalismo, de toda ortodoxia neurótica, de todo fundamentalismo insano, de toda dog-matização presunçosa. Nada disso tem a ver com o Evangelho ou com Jesus de Nazaré, pois seu convite é para que experimentemos a vida, nunca a morte!

Georges Clemenceau, jornalista francês, escreveu: “Os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituí-veis”. Tenho convicção de que para Deus você é irrepetitível e insubstituível! Ele não lhe vê como mais um, pois você não é um número nem um rosto na multidão. Não é apenas um dizimista, ou alguém que executa funções na igreja. Para Deus, você é singular!

Muito em breve chegará o dia em que serei sepultado. Não sei quem fará o ofício, mas espero um funeral de categoria, com muita música e alegria.


Quero que celebrem a minha vida, nunca a minha morte, pois, naquele momento, estarei indo de en-contro para aquilo a que fui predestinado, para ser integral, conhecer como sou conhecido, para não mais ver por espelho, mas face a face, existir em es-sência, com corpo ressurreto e vida eterna.

Apesar de tudo isso, não estou com nenhuma pressa de morrer e muito menos de ser sepultado antes da hora, principalmente, porque ainda estou vivo! E mais: Deus não está morto, mas vive, não pode, todavia, ser algemado a uma religião, pois, por sofrer de claustrofobia, não é possível ser contido ou enclausurado. Quem puder entender que entenda...



Carlos Moreira

25 novembro 2010

O Funeral da Catedral


Introdução


“Quincas Berro D’água”, personagem do livro de Jorge Amado, era um funcionário público, pai e marido exemplar, até a sua aposentadoria. Daí para frente, jogou tudo para o alto e passou a viver no baixo meretrício de Salvador, afundado na bebedice e na jogatina. Quincas morreu de forma triste e solitária. Os amigos, sentindo sua falta, foram ao seu encontro e, sem perceber que ele estava morto, pois estavam embriagados, saíram arrastando-o pelos bordéis da cidade. A gandaia só foi terminar de manhã, num saveiro, onde Quincas, que estava jogado num canto do barco, escorregando pela beirada do mesmo caiu ao mar e desapareceu nas águas da Bahia.


Quando olho para o cristianismo de nossos dias, para a instituição que o representa – a igreja –, para os postulados que tenciona defender, para as convicções que almeja fomentar, para as transformações que pretende introduzir, para os conteúdos que propõe anunciar, para os líderes que consegue produzir, para as dores que deseja aliviar, acabo achando tudo muito parecido com a história de “Quincas Berro D’água”. No fundo, a sensação que tenho é que nós estamos arrastando um “defunto”, talvez até, sem perceber!


Um dos piores problemas do cristianismo sempre foi a sua falta de senso crítico. De fato, de Constantino até os nossos dias, a fé cristã “evoluiu” bastante como religião organizada e institucionalizada, tornando-se, sem dúvida alguma, um fenômeno de massa, um “sucesso”! Entretanto, do meu ponto de vista, involuiu drasticamente como proposta de ressignificação da existência e de apaziguamento do ser através de uma relação íntima com Deus por meio de Jesus Cristo. Myles Munroe, conferencista internacional, no seu livro “Understanding your Potential”, afirma que “o sucesso é o grande inimigo do progresso”. Ele usou a expressão para se referir aos riscos existentes em todo empreendimento quanto ele alcança um expressivo êxito em seus objetivos. Diante do pressuposto, pensei: não seria esta uma das causas que tem levado a igreja ao explícito enfraquecimento atual?


Uma Crise Global: Ética, Moral e Espiritual


O fato é que o cristianismo enfrenta problemas sérios, e isso não tem mais como ser escondido. A exceção de algumas partes do continente Africano, onde os números atestam para uma expressiva adesão a fé em Jesus Cristo, a despeito de qualquer ligação confessional, em boa parte do resto do mundo a coisa vai de mal a pior.


No continente Asiático somos, simplesmente, insignificantes. O Hinduísmo, o Islamismo e o Budismo são maioria absoluta. A famosa Janela 10/40, uma faixa de terra que vai do oeste da África até a Ásia, revela que cerca de 3,2 bilhões de pessoas, que vivem em 62 países, ou seja, mais de 50% de todos os habitantes do planeta, ainda não foram evangelizados. Neste território estão contidas megalópoles como Tóquio, Calcutá, Bagdá e Bancoc. Dados da Junta de Missões Mundiais atestam que no Japão existem 3% de evangélicos, na Índia 1%, no Iraque 0,5% e na Tailândia 0,3%, que são, respectivamente, os países destas cidades citadas anteriormente.


Na Europa, um dos lugares onde a crise é mais grave, a falência do cristianismo é um fato concreto e, talvez, irrecuperável. No velho continente, a igreja cristã, tanto Católica Romana, quanto Protestante, está agonizando. Na Itália, por exemplo, país onde 95% da população está vinculada a Sé de Roma, só 30% vai à igreja. Na França, há cidades onde os Mulçumanos são maioria absoluta em relação aos Cristãos. 40% dos britânicos, tradicionalmente Protestantes, declararam não acreditar em Deus. Em artigo recente, a jornalista Adele M. Stan, articulista do jornal New York Times, escreveu que “a rejeição da Europa ao catolicismo tem menos a ver com a perda da espiritualidade e mais com a falência da instituição”.


Mas a crise não para por aí... Nos Estados Unidos e no Canadá o cristianismo também entrou na UTI. Na América os escândalos de pedofilia da Igreja Romana abalaram o mundo todo, tendo inclusive desencadeado uma forte reação do Vaticano e, em ambos os países, as igrejas Protestantes, algumas de origem histórica, sobretudo a Igreja Episcopal, vem enfrentando graves problemas de desvios doutrinários com questões ligadas a uniões de pessoas do mesmo sexo, inclusive sacerdotes. Um escândalo sem precedentes...


Brasil: Mostra a tua Cara


No Brasil, maior país Católico Romano do mundo, que representa quase metade da América Latina, a crise não parece ser perceptível, porém, certamente, mais cedo ou mais tarde, será. A fé cristã continua perdendo sistematicamente fiéis para as religiões de origem Afro e também para as seitas espiritualistas. Outro fato preocupante é a migração adensada, sobretudo nos últimos 15 anos, de fiéis tanto da Igreja Romana, quanto da Evangélica – tradicionais e históricos – para as chamadas igrejas Neo-Pentecostais.


O neo-pentecostalismo no Brasil é um capítulo à parte. Ele tem como precursor a Confissão Positiva de Gossett e Hagin nos Estados Unidos, na década de 1980. Seu arcabouço teórico é o que denominou-se chamar de “Teologia da Prosperidade”, uma doutrina baseada em promessas de sucesso e felicidade. A estratégia eclesiástica, que tem arrebanhado milhões de pessoas, está baseada no trinômio: discipulado manipulativo, hermenêutica tendenciosa e cultos de catarses. Numa época de “igrejas cegas”, uma que tem um olho vesgo vira majestade!


Não se deixe iludir, a situação é gravíssima! Não acredite em estatísticas triunfalistas, elas são fraudulentas! Infelizmente o último censo do IBGE não contemplou a questão das pessoas que abandonaram igrejas. Gente séria, que lida com dados, estima que o número de evangélicos “desviados” é superior ao número dos que afirmam pertencer a alguma denominação. Se de fato representamos algo em torno de 25 milhões de pessoas, temos, pelo menos, o mesmo número de gente que, tendo aceito de bom grado a mensagem da salvação, acabou vindo a rejeitar a mensagem e o proceder da igreja. Agora, imagine o que acontecerá quando esta legião de gente iludida, que hoje encorpa as fileiras das igrejas Neo-Pentecostais, se decepcionar com “Deus” por não ter recebido a “benção” que lhes foi prometida? Viraremos o novo continente Europeu, onde as catedrais tornaram-se boates? Deus se apiede de nós!


Olhando para Dentro Antes de Olhar para Fora


Se quisermos ser honestos e verdadeiros, veremos que a Igreja Cristã como um todo não está preparada para enfrentar os desafios do século XXI. Aliás, aqui cabe, inclusive, perguntar: você acha que a igreja, do jeito que está, vai sobreviver a este novo milênio? Se não, que igreja, então, sobreviverá? Quais serão suas características? Que perfil terá os seus líderes? Será possível articular e contextualizar a milenar mensagem da salvação às idiossincrasias do mundo pós-moderno? Como usar a hermenêutica e a exegese de tal forma a não desprezar a ortodoxia histórica, nem sufocar as questões prementes de nosso tempo? Não me leve a mal, mas se sua igreja não está refletindo estas questões ela é uma séria candidata a virar defunto, se é que já não virou! Acorde: igrejas também morrem!


Sendo pragmático, creio que a situação do cristianismo ainda não aponta para uma morte súbita. Sua patologia, entretanto, sugere o diagnóstico de uma doença crônica, que vem avançando desde o século XVIII, com o secularismo e iluminismo. No século XX o existencialismo deu mais um duro golpe na fé cristã e, nos dias atuais, uma soma de fatores como o modernismo, o relativismo e o multiculturalismo, servem como elementos desestruturadores da igreja e de sua mensagem. A verdade é que as pessoas estão cada vez mais desiludidas com a proposta cristã. Ser religioso, nos nossos dias, é sinônimo de ser obscurantista, moralista, hipócrita e até manipulador. Eu que sou pastor que o diga...


Olho para a igreja e vejo a tragédia na qual estamos mergulhados. Nossos púlpitos estão esvaziados, a mensagem é direcionada para atender as exigências dos ouvintes, não suas necessidades. O discipulado se resumiu a um enfadonho estudo bíblico, não é mais a vida sendo ministrada através da experiência prática e da convivência fraterna. Os programas, recursos aos quais recorremos para entreter pessoas, ocuparam o lugar da oração, do jejum e do estudo aprofundado das Escrituras. As famílias vivem um drama a parte. Separação já virou coisa natural, até mesmo de líderes e pastores. Por isso tanta miséria social, tanta catástrofe! A Terra foi ferida com maldição, pois os entes familiares não converteram os seus corações uns aos outros. Nossos filhos não sabem nada sobre a nossa fé e, quando sabem alguma coisa, nunca a transformam em prática de vida. Talvez porque faltam-lhes exemplos...


Somos tão presunçosos que continuamos utilizando métodos e formas do século XIX, como se eles fossem eficazes no século XXI. Não são! É um fato! Precisamos acordar! Muitos dos nossos programas não conseguem mais atingir as pessoas. Perdemos terreno para outras seitas que parecem entender o nosso mundo e as pessoas que nele vivem bem melhor do que nós. Nossos líderes são fracos, não foram treinados, não sabem, sequer, interpretar os textos mais elementares. Até em termos de administração e finanças nós ficamos a dever. Nem avançamos no espiritual, nem damos conta do natural. Trágico, convenhamos!


Diante deste contexto nefasto, há algo que ainda possa ser feito? Há! Mas tem que ser feito logo, de forma inteligente e planejada. Todavia, e é bom não esquecer, devemos começar por onde tudo, em toda a história, sempre começou, quando grandes mudanças aconteceram: no arrependimento. Sem ele, sem um olhar que nos permita ver que estamos “nus”, sem o desejo de continuar reformando aquilo que apenas começou com a Reforma, sem quebrantamento, sem humilhação perante o Senhor da Igreja, sem confissão de culpa, sem desapego de vaidades, sem o desmantelamento de estruturas adoecidas, nunca conseguiremos recolocar a igreja no lugar onde Deus deseja que ela esteja. Creia-me: se esta geração falhar, a bronca ficará para a próxima...


Semelhanças Entre o Passado e o Presente


Foi mais ou menos isto que aconteceu nos dias de Josué. Diz as Escrituras: “Depois que toda aquela geração foi reunida aos seus antepassados, surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel”. Jz. 2:10. O contexto do texto é o estabelecimento do povo Hebreu na terra de Canaã. Moisés, o líder que havia tirado o povo do Egito, já havia falecido. Em seu lugar assumira o “moço que ficava a porta da tenda”; Josué. Aquela geração foi testemunha dos feitos do Senhor e guardou as Suas leis e preceitos, conforme lhes fora ordenado. Contudo, eles falharam no ensino e na propagação da mensagem e esta falha lhes saiu muito caro...


A continuação do texto de Juízes nos mostra as conseqüências desastrosas do que aconteceu. O povo, sem referências de quem era Deus, sem uma vida pautada em princípios, sem experiências práticas que significassem sua fé, foi se extraviando e se afastando do Senhor. Abandonaram o Deus de seus antepassados e seguiram a adorar deuses estranhos, prestando culto a Baal e Astarote. Por conta disto, a ira do Senhor se acendeu contra Israel e Ele os entregou nas mãos dos invasores que os saquearam, havendo para toda aquela geração muita dor e muito sofrimento.


A história está aí para que aprendamos com ela. Se isso não nos for possível, de fato, somos uma geração obtusa e arrogante. Ainda há tempo de reconhecermos nossos equívocos e voltarmos ao Senhor nosso Deus! Estamos vivendo uma espiritualidade banalizada e uma fé dessignificada. Nossas igrejas estão cheias de um amontoado de gente perdida e vazia, que transformou o evangelho em barganhas com o sagrado, que esqueceu dos preceitos e princípios do Reino e passou a viver pelo sistema caído do mundo que nos cerca, adorando aos “deuses” deste tempo.


Fim dos Tempos ou Nova Era?


Por outro lado, correndo paralelamente as fragilidades da igreja, está aí a Nova Era. Diferentemente do que muitos pensam, Nova Era não é uma religião, nem mesmo uma seita, mas uma espécie de “sentir” deste final dos tempos. Ela está misturada a todas as coisas, inclusive, a mensagem de salvação de algumas correntes da igreja. O movimento da Nova Era é uma miscelânea de ensinos metafísicos, de influência oriental, de linhas teológicas, de crenças espiritualistas, animistas e paracientíficas, que tem como proposta um novo modelo de consciência moral, psicológica e social além de integração e simbiose com o meio envolvente, a natureza e até o cosmos. Sim, amigo, eles sabem como “enfeitar o bolo” e “vender a festa”.


A Nova Era está conectada com as demandas deste tempo, com os dramas das pessoas, suas angústias, medos e perplexidades. Para cada questão tem uma resposta clara, objetiva. Fala da necessidade de uma nova ordem mundial de unificação global, ou sobre o fato da cultura ser determinada ecleticamente, respeitando a diversidade dos povos do mundo. Propõe acrescentar ao estilo de vida capitalista elementos do Budismo, Hinduismo, religiões africanas, e outras tradições místicas – tudo conforme o gosto de cada um. É a religião self-service!


Contudo, há um ponto determinante na proposta da Nova Era que afeta diretamente a Mensagem do Evangelho de Jesus Cristo: o fim das diferenças entre as várias religiões. Segundo seus postulados, todas as religiões adoram o mesmo Deus e, partindo-se de uma cosmo visão ecumênica, todas poderão aprender muito mais umas com as outras e isto, obviamente, permitirá uma melhor compreensão de quem é Deus. No fundo é uma espécie de “todo caminho dá na venda”. É pouco ou quer mais?


Você já ouviu falar do “Ponto de Mutação”? Trata-se de um tratado científico em que o físico Fritjof Capra, com uma aguda crítica ao pensamento cartesiano na biologia, medicina, na psicologia e na economia, explica como a nossa abordagem, limitada aos problemas orgânicos, nos levou a um impasse perigoso, ao mesmo tempo em que antevê boas perspectivas para o futuro e traz uma nova visão da realidade, que envolve mudanças radicais em nossos pensamentos, percepções e valores.


Capra se inspirou nos escritos do I Ching, – Livro das Mutações, um texto clássico chinês, milenar, composto de várias camadas sobrepostas ao longo do tempo – que expressa que "depois de uma época de decadência chega o ponto de mutação". Ele pondera que os movimentos sociais dos anos 60 e 70 representaram na verdade o início de uma nova cultura em ascensão, destinada a substituir as nossas rígidas instituições e suas tecnologias obsoletas. É a era de Aquários! No fundo, as premissas de Capra estão mais do que nunca conectadas aos pressupostos da Nova Era e, desgraçadamente, é esta “mensagem” que está atraindo as pessoas, e não a única mensagem que pode transformar de fato o homem, de dentro para fora, dando a ele valor e significado, a mensagem de Jesus Cristo!


A Nova Era é mais perigosa do que qualquer outra seita ou religião, sobretudo porque não se “vende” como tal. Ela é uma espécie de “oxigênio”, que não se pode ver, mas que se pode sentir. Almeja estar em todo lugar, buscando ocupar todos os espaços vazios de tal forma que, sem ela, nada que possua vida possa existir. Você está preparado para enfrentá-la? E sua igreja, está?


Conclusão


Se a esperança é a última que morre, é bom você começar a passar o terno para o funeral da catedral. A igreja, conforme a conhecemos hoje, ou muda radicalmente sua forma de ser, seus programas, seus modelos, sua estratégia, sua liderança e até mesmo a forma de anunciar a mensagem da salvação, não subtraindo-lhe as verdades e conteúdos, mas repensando os meios e as formas, ou veremos o cristianismo, como religião institucionalizada, perder cada vez mais espaço para outras confissões, mergulhando assim num ocaso sem precedentes.


Diante de tudo isto, o que me deixa tranqüilo e seguro é saber que, mesmo que esta “peleja” seja perdida, o campeonato, contudo, já está ganho. Aleluia! Haverá um dia onde o Leão da Tribo de Judá, reunindo seus anjos e arcanjos virá buscar a Sua Igreja. Se ela será esta que aí está, não sei. Sinceramente, espero que não! Mas, certamente, existe uma Igreja, invisível e indivisível, aconfessionalista, que ama a Jesus mais que a tudo, que guarda os Seus mandamentos e que espera ansiosamente a Sua vinda. Esta, sem dúvida, nunca sucumbirá, pois está destinada ao triunfo e a vida eterna ao lado do seu “Noivo”.


Meu desejo e minha oração é que, tanto eu, quanto você, estejamos sempre almejando por fazer parte desta Igreja, e que jamais venhamos a ser como os amigos de Quincas Berro D’água, que arrastaram o defunto noite a dentro até ele afundar nas águas profundas do oceano. Que tal não aconteça com as nossas catedrais!


Carlos Moreira

23 novembro 2010

Igreja ou Reinismo?

A Igreja do Futuro não pode ser em-si-mesmada, isto é, voltada para si mesma, mas para o mundo, tendo por objetivo primordial a implantação do Reino de Deus. Ela tem que serreinista, em vez de ser igrejista. '

Assim como o Espírito Santo não chama a atenção para Si, mas para Cristo, a Igreja do Futuro não pretende ser o centro das atenções, mas projeta seus holofotes para a nova humanidade, a ser edificada ao redor do Trono.

A igreja contemporânea (salvo exceções), não passa de uma caricatura mal acabada da verdadeira igreja de Cristo, cujo protótipo pode ser claramente visto nas páginas de Atos dos Apóstolos.

Urge reformularmos nossa concepção eclesiológica.

A igreja enquanto instituição deveria ser vista como a placenta onde a nova humanidade está sendo gestada. Quando chegar a hora do parto, a placenta pra nada mais servirá, e será descartada.

Por isso, não há templos na Sociedade Definitiva vislumbrada por João em Apocalipse.

A igreja é o andaime usado pelo Grande Construtor,que será removido tão logo a obra tenha sido concluída.

A Igreja que perdurará por toda a Eternidade é a Nova Humanidade, a Civilização do Amor, que tem como Cabeça o Novo Adão, Jesus Cristo.

Enquanto a "igreja" insistir em trabalhar voltada para si mesma, e para a manutenção de seus projetos, ela estará fadada a perder a relevância no Mundo. A igreja precisa converter-se ao Mundo, pois foi para o benefício dele que ela foi levantada.

Paradigma Igrejista x Paradigma Reinista

O neologismo “igrejismo” aponta para a concepção eclesiológica vigente em nossos dias, onde a igreja se confunde com o próprio Reino de Deus, e se acha o centro das atividades divinas entre os homens.

O igrejismo é mais do que uma concepção, é uma postura promotora de alienação e sectarismo. A igreja acaba por se tornar um gueto religioso, com sua própria subcultura, repleta de jargões e clichês.

Já o neologismo “reinismo” pretende resgatar uma concepção eclesiológica bíblica e condizente com os anseios da pós-modernidade, onde se mantém a distinção entre o Reino e a Igreja, e o foco deixa de ser as atividades religiosas para ser o agir de Deus na História, envolvendo todas as dimensões da existência humana.

Ser reinista não é apenas pertencer a uma agremiação eclesiástica, mas ser um agente do Reino de Deus, empenhado na transformação do Mundo por intermédio da implementação do conjunto de valores e princípios ensinados por Jesus.

Neste contexto, a igreja é o farol, a humanidade é o navio, e o Reino de Deus é o Porto Seguro.

Um farol não pode apontar sua luz para si mesmo. Seu papel é iluminar o caminho, possibilitando ao navio chegar seguro ao porto. Assim, a igreja tem a missão de ser paradigma civilizatório, a fim de que as nações andem à sua luz. A igreja deve ser uma espécie de microcosmos, de protótipo, de amostra grátis, de plano piloto. Ela, portanto, não é um fim em si mesma.

A Igreja do Futuro deve ser proativa, em vez de reativa. Deve antecipar-se, como fez a mulher que derramou o perfume sobre Jesus. Deve ser vanguardista. O Mundo deve conformar-se aos valores por ela apregoados, e não vice-versa. Ela deve estar sempre um pé à frente, e isso com respeito a qualquer questão de interesse humano. Ela não apenas responde questões pertinentes ao seu tempo, como prevê questões que ainda surgirão, e busca respondê-las ainda antes que se tornem pertinentes.

Embora sua origem seja celestial, ela emerge da realidade em que está inserida. Portanto, ela só pode ser emergente, se for antes, imergente. Ao emergir, ela atrai para si, não os holofotes, mas a responsabilidade por tudo o que diz respeito à condição humana e suas demandas. Por isso, ela é convergente. Sua cosmovisão é ampla e abarca a realidade como um todo, desde a cultura, a educação, as ciências, a justiça social e o meio-ambiente.

Hermes Fernandes via Hermes Fernandes

21 novembro 2010

A Consagração das Toupeiras


Já fazia muito tempo que, entre os bichos da floresta, os ministros religiosos eram escolhidos entre as corujas. As razões que explicam esta preferência eram as mais diversas, citemos algumas: a) As corujas possuíam carinho tal pelos seus, que achavam seus filhos lindos ainda que toda a floresta os visse como criaturas abomináveis. b) há muito tempo, por passar inúmeras noites acordadas, dedicando-se ao estudo, ficaram famosas e foram consideradas símbolos da sabedoria. c) O fato de serem aves e viverem em lugares altos dava-lhes uma melhor visão das coisas que aconteciam lá em baixo. d) Seu aspecto taciturno fazia com que os outros lhe atribuíssem uma grande capacidade de reflexão.


Enfim, entre os animais, as corujas pareciam ser, sem sombra de dúvidas, os mais aptos para o sacerdócio, e a sua escolha pelos outros bichos demonstrava que na floresta o critério utilizado para eleger o guru espiritual era bastante rigoroso e levava em conta vários aspectos da vida do escolhido e não apenas alguns, afinal de contas à atividade religiosa mostra sempre que o líder espiritual tem que ser um pouco de tudo.


O tempo passou e as coisas mudaram. Certos paradigmas foram quebrados e muitas revoluções tiveram início. No campo ético, por exemplo, a figura do sacerdote já não era mais associada à honra e ao respeito, pelo contrário, o mercantilismo da fé fazia com que muitos bichos olhassem para as corujas como grandes espertalhonas que não queriam trabalhar e sim ter vida fácil, o que, em alguns casos, era verdade. Por outro lado, muitas corujas tinham dado motivos suficientes para essa desconfiança tendo agido imprudentemente com relação ao dinheiro e ao sexo. Diante de tudo isso os bichos começaram a questionar a aptidão das corujas para o sacerdócio e, depois de muita briga, foi eleito para o ministério religioso o primeiro animal que não era daquela espécie: uma toupeira.


Uma toupeira? Admiravam-se os mais experientes, uma vez que as toupeiras possuíam, entre os animais, a fama de serem bichos desprovidos de inteligência e que sabiam apenas cavar buracos.


A escolha das toupeiras, porém, tinha lá seus motivos, afinal de contas, já dizia um antigo filósofo: “todo efeito tem uma causa”.


Em primeiro lugar, as toupeiras ascenderam ao poder por causa da própria degeneração e inaptidão das corujas que, há muito tempo no poder, julgaram-se seguras e começaram a tratar as coisas do mundo religioso com desdém. Seus sermões já não diziam nada, seus ensinamentos menos ainda, a administração era um caos, a Teologia tinha sumido dos púlpitos e a vida no lar deixava muito a desejar. Portanto, a escolha das toupeiras era o resultado direto da decadência das corujas.


Em segundo lugar, a escolha das toupeiras se deveu também a sagacidade desse animal, que neste ponto tem muitas semelhanças com uma antiga conhecida nossa que habitava os belos bosques do Éden (a serpente).


Muito embora fossem julgados animais pouco inteligentes pela maioria dos outros bichos, as toupeiras souberam aproveitar bem a situação de crise no âmbito religioso e com relativa facilidade alcançaram seus objetivos. Grandes oportunistas, era um termo que definia bem este pérfido animal.


As toupeiras perceberam que uma comunidade pouco instruída, revoltada e em crise, perdia a capacidade de escolher sensatamente seus líderes, o que lhes facilitava o empreendimento. Talvez fosse por isso que odiavam tanto o conhecimento e o estudo.


Elas (as toupeiras) também perceberam que o antigo critério de escolha que levava em consideração vários aspectos da vida do líder antes de escolhê-lo, havia sido suprimido e agora se recomendava para o ministério qualquer um que fosse julgado honesto, inteligente, bom orador ou que tivesse lido o grande livro religioso dos animais 50 vezes. Este último critério revelou-se, ao longo do tempo, como o mais equivocado de todos, uma vez que todo sacerdote deveria, obrigatoriamente, conhecer e ter lido o livro religioso dos animais, mas nem todos que conheciam e tinham lido o livro religioso dos animais tinham sido chamados para exercer o sacerdócio. Essa confusão de conceitos fez muitas vítimas no mundo religioso da floresta, algumas jamais se recuperaram.


Dessa forma, as toupeiras perceberam que não existia nada mais fácil do que ascender ao posto de sacerdote, já que não existia mais critério entre os outros animais para escolher os ministros religiosos. Assim, a crise se instalava tendo como principais protagonistas às toupeiras e algumas corujas que, em pleno exercício de ministérios fracassados, tentavam se manter no poder através de uma política intransigente e legalista.


Enfim, esta é a história da ascensão e consagração das toupeiras aos serviços religiosos. Sobre estas coisas, refletia um macaco solitário que morava no alto de uma árvore na floresta e que dizia consigo mesmo: “Quem não tem coruja apta se vira com toupeira; quem tem toupeira como sacerdote, vai de mal a pior”.

André Pessoa via Século XXI

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