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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

17 março 2015

"Pagãos" Ativos e Cristãos Passivos

A Receita Federal divulgou que, em 2011, instituições religiosas arrecadaram 20,5 bilhões de reais. Para se ter uma ideia, com esse número, seria possível custear o programa Bolsa Família do Governo Federal por 1 ano. E aqui fica uma questão: para onde vai todo este dinheiro? Por que instituições religiosas vendem e compram imóveis, tornam-se acionistas de companhias privadas e recebem dividendos do mercado de ações? A verdade é que esse é um tempo onde as empresas agem com mais solidariedade contra a miséria e a fome do que as igrejas. E o que é mais triste é constatar que a esmagadora maioria dos cristãos está dormente dentro de templos suntuosos, inertes quantos a estas questões, displicentes para o fato de que a sociedade está definhando vitimizada por uma infecção generalizada, produzida pela gangrena ética, e os pobres agonizam em meio a bolsões insalubres de doença e pobreza. Assista esta mensagem e tente ficar impassivo! Discirna o que Jesus ensina sobre a solidariedade e a vida.

25 fevereiro 2015

Fé Anabolizada: O Doping da Consciência

Vivemos em uma sociedade onde é preciso estímulo para tudo. A palavra de ordem no mundo corporativo é motivação! Em busca de resultados, o homem contemporâneo corre atrás de meios que possam produzir estímulos capazes de alavancar o seu sucesso, pois só recebe vantagens e benefícios quem alcança as metas proposta. Este tipo de comportamento tem produzido no meio religioso uma fé anabolizada. Trata-se de um tipo de espiritualidade onde Deus é apenas um facilitador do seu sucesso, a igreja, uma grande academia de musculação de almas e as doutrinas, conceitos anabolizados para “bombar” sua consciência com vistas a lhe catapultar na vida. Assistindo a esta mensagem você saberá como se precaver disto ou, se for o caso, como combater os efeitos colaterais desta patologia espiritual.


04 fevereiro 2015

Assim Você me Mata



Uma das coisas que eu mais queria fazer em Paris era ir ao Museu do Louvre. Mesmo sem poder ficar o tempo necessário, uma vez que não dá para ver 35 mil obras numa manhã, ao menos, algumas das mais famosas, como “La Gioconda”, a “Vênus de Milo” e “A Pietà”, eu veria.

Portanto, no primeiro dia na Cidade Luz, caminhei do hotel até o Louvre, cerca de 20 minutos, para usufruir de um banho de cultura e história. E o museu não decepcionou! Foram horas de encantamento e estupefação. A cada corredor, esculturas, quadros, objetos, fragmentos da capacidade de criação do homem no decorrer dos séculos. Ali estavam culturas entrelaçadas – grega, romana, egípcia, persa – era uma overdose de sensações e sentimentos.  

Pois bem, depois de certo tempo andando, subindo e descendo escadas, me deu vontade de fazer xixi. Segui acompanhando as placas informativas e cheguei a um lugar onde se podia fazer necessidades fisiológicas, mas era pago. Confesso: aquele foi o xixi mais caro da minha vida, € 2,50, ou seja, cerca de R$ 9,00.  Como se diz: "A necessidade tem cara de herege".

Quando entrei no toilette, entretanto, algo inusitado aconteceu! Enquanto estava concentrado, fazendo aquele xixi que, diga-se de passagem, era o xixi da minha vida, não só pelo preço, mas, sobretudo, pelo Louvre, comecei a ouvir ao fundo uma certa canção, sim, aquela que traz em sua “poesia” a estrofe: “Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego”. Acredite: eu estava no museu mais famoso do mundo, na cidade de Paris, fazendo xixi e ouvindo Michel Teló com sua música: “Ai Se eu Te Pego”.

Como bom roqueiro, o choque foi imediato. Pensei comigo: “Meu Deus! Saí do Brasil e vim ao Louvre para ouvir Michel Teló?!”. Mas não havia como negar, era o próprio. Na melodia pobre, ele sussurrava com voz de deboche: “Assim você me mata”. E eu? Bem, eu resmungava baixinho comigo mesmo: “sim, assim você me mata!”.  

Terminei o que estava fazendo, lavei as mãos e o Michel cantarolando: “Ai, ai, se eu te pego”. Enquanto ruminava a situação, lembrei de George Orwell, escritor inglês, que afirmou: “A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa”. Sim, era inevitável a contestação de que, com a globalização, a mídia, mais do que nunca, passou a moldar a cultura, definindo aquilo que as massas vão consumir.

Como se sabe, no capitalismo de mercado, o que importa não é se o que vai ser vendido é bom ou ruim, mas apenas, se vai ter escala, ou seja, pode ser uma merda, contanto que venda! É assim que funciona a indústria da música, dos cosméticos, da alta costura, enfim, o mercado gira em torno daquilo que é consumido e é a mídia quem faz a engrenagem girar.

Eu, pessoalmente, detesto massificação. Eu sou aquele cara que, certa vez, curtiu o fato de meu Pai me levar a um alfaiate, na rua da Imperatriz, para ele me fazer duas calças de gabardine sob medida. Na verdade, a industrialização, como fenômeno de transformação do século XVIII, mudou não só a forma de fazer as coisas, mas, concomitantemente, moldou a forma de como essas coisas seriam consumidas. Daí por diante, o paradigma contemporâneo passou a ser: se todo mundo usa, eu tenho que usar também, mesmo que isso seja a mais pura idiotice.

Por fim, paguei a conta do xixi e fui andando pelos corredores do Louvre, com o Michel Teló na “cabeça”... Findo o tempo de que dispunha, saí do museu e me dirigi à estação do metrô para o próximo compromisso. Enquanto descia as escadas rolantes, comecei a ouvir algo... Era uma harmonia robusta, com cordas ao fundo, um som cativante. Avancei ansioso pelo corredor e, finalmente, deparei-me com uma violinista solitária, tocando as “Quatro Estações” do compositor italiano Vivaldi, a troco de algumas poucas moedas.

Segui meu caminho, peguei o trem, sempre pontual e permaneci pensando: “Como é possível ouvir, na rádio francesa, Michel Teló, que, indubitavelmente, é um sucesso mundial, enquanto, no corredor do metrô, Vivaldi ressoa de forma tão desprestigiada? A resposta, caro amigo, foi muito óbvia e simples: “Tempos Modernos!”, como diria o Chaplin. Eu, contudo, segui conjecturando: "Assim vocês me matam"...


© 2015 Carlos Moreira
Outros textos podem ser lidos em http://anovacristandade.blogspot.com

25 janeiro 2015

Um Trem para Londres



Eu cheguei uma hora antes da partida do trem na estação central de Bruxelas. Meu destino era a cidade de Londres, um sonho de consumo antigo, uma metrópole como poucas no mundo.

Vencida a imigração, um tanto autoritária, sentei-me e fiquei esperando o trem da Eurostar chegar. Imaginei, com um pouco de ansiedade, as maravilhosas horas que se seguiriam. Um dia antes, havia feito o caminho de Amsterdam para Bruxelas, vendo paisagens inimagináveis, campos verdes, moinhos solitários, raios de sol rasgando o cinzento chumbo do céu, um pouco de neve preguiçosa teimando em se manter como cobertor sobre a terra.

Enquanto flertava com meus devaneios, a voz rouca do maquinista – deve haver outro nome, mas eu sou das antigas – informou em francês, inglês e alemão que o trem ia partir. Sentei-me perfilado, olhei pela janela, suspirei com sofreguidão e agucei os olhos para o espetáculo que se seguiria...

Confesso que os primeiros minutos foram um tanto frustrantes, pois a paisagem era aquela de periferia urbana, muitas casas amontoadas, nada mais do que tijolo e cimento. Mas em seguida, quando a cidade foi ficando para trás, o cenário começou a se descortinar. E então, veio a grande frustração! É que o trem não andava, ele voava a mais de 200 km por hora!

Sim, aquele trem deslizava pelos trilhos frios em direção a Londres numa velocidade de fórmula 1. Na verdade, ele é o resultado do progresso, da tecnologia que insiste em me lembrar em que tipo de mundo eu vivo. O trem corre, voa, não apita, não tem fumaça, não faz barulho! Esse é um trem para gente ocupada, que precisa chegar rápido, que tem reunião marcada, que vai enfrentar o trânsito, que precisa remir o tempo.

E foi com tristeza que segui me deslocando para Londres, de forma melancólica, vendo as paisagens borradas, pessoas que não tinham rostos, as imagens me imploravam para se agarrar a janela, mas eram despejadas pela força do vento, ficou tudo sem sabor, sem luz, sem poesia. Corre trem, sufoca a alegria, rasga o tempo porque a hora urge, rouba de nós a beleza do sol fazendo sombra nas árvores, dos pingos de chuva balançando nas folhas, das bolinhas de neve aglomeradas no teto das casas.

Corre trem, ninguém se importa mesmo com a paisagem, o que interessa não é o que há no caminho, mas apenas chegar ao destino. Corre trem, rouba de nós sonhos contidos, sufoca sensações adormecidas, faz a vida acontecer sem graça, com a brevidade que sequestra dos olhos aquilo que poderia virar soneto no coração. Vai trem, corre trem...

E assim eu cheguei em Londres, na hora certa, na estação correta, mas um tanto frustrado. Cheguei cheio de malas e vazio de emoções. A contemporaneidade nos roubou as coisas mais simples, amputou nossa sensibilidade, gangrenou nosso coração. Somos gente de lata, com nervos de aço, somos iguais ao trem da Eurostar, frios, rápidos e precisos.

Londres, inverno de 2015.
© 2015 Carlos Moreira
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