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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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15 dezembro 2018

João de Deus e a Cidade “Santa”



Pobre Abadiânia. Sim, tu, pequena Abadiânia, estais fadada a experimentar dias de desolação, pois o cenário econômico-religioso que te fazia prosperar, atraindo turistas e visitantes em busca de cura e libertação, está com os dias contados. 

É curioso como o fenômeno da religião tem esse poder de imantar pessoas e lugares, de sacralizar indivíduos de carne e osso e construções de tijolo e cimento. Sempre que algo desta natureza ocorre, logo se percebe a necessidade de se erigir um templo, um centro, uma casa de milagres, um espaço onde o sobrenatural aconteça de tal forma a atrair as pessoas, é o "Tanque de Betesda" em forma arquetípica. 

Por isso Jesus jamais se fixou em lugar algum, fosse assim ele abriria a Casa de Yeshua, e logo os discípulos estariam “trabalhando” no negócio do sagrado, vendendo quinquilharias, dando passes e derramando água benzida sobre enfermos e possessos. 

O tempo passa, o mundo gira, mas o fenômeno ainda é o mesmo... Abadiânia, Aparecida, Juazeiro, e outros lugares milagreiros são, na sua medida, a Jerusalém dos dias de Jesus, a cidade “santa”, onde existe o lugar sagrado, o homem do sagrado, as curas milagrosas, as unções de poder, as intercessões libertárias, os transes histéricos, as intermediações negociadas, os ascetismos estéticos, as purgações meritórias. 

Por isso o Galileu entrou naquele espaço e denunciou que ali se fazia comércio da Fé, pois se vendia todo tipo de objeto imantado, se operava o câmbio do dinheiro, se comprava animais para o sacrifício, animais estes criados nas fazendas dos comerciantes ricos da cidade, se consumia as ofertas de manjares, todas feitas a partir da plantação das fazendas agrícolas, era um negócio rentável - produzir, transportar, vender, aplicar - e todo mundo levada algum, até mesmo o sinédrio tinha o seu quinhão. 

Em Abadiânia não é diferente. Tem a água benta, a garrafa da água, o rótulo da garrafa, a indústria que produz, o caminhão que carrega, a barraquinha que vende, é uma cadeia de negócio, tudo entrelaçado, e é isso que faz a “roda girar”. E tem medicamentos, tem souvenirs, tem pousadas, restaurantes, lugar para comprar lembrancinhas, camisas, livros, tem de tudo, e todo muito ganha com o tráfego de gente e o comércio do sagrado. 

Por isso os Espíritas tem restrições ao João de Deus, pois no Kardecismo não se cobra nada para ser fazer o bem, coisa bem diferente dos neopentecostais evangélicos, que além dos dízimos cobram pedágios em suas campanhas para realizar curas e produzir libertação. 

João será preso, não tenho dúvidas, e Abadiânia vai precisar de outro “santo” para sobreviver, um “Roque Santeiro” fazedor de milagres, pois, doutra forma, como irá se sustentar? Fica a dica para o Macedo, o Estavan Hernandes, o Agenor Duque e o Valdemiro, gente especializada em fazer negócio com o povo em nome de Deus. Se um destes topar, fique certo, Abadiânia crescerá o dobro do que é hoje, quiçá, se tornará a capital de Goiás.


Carlos Moreira




10 dezembro 2018

“João sem Deus”?



Na última semana, em entrevista ao programa global do jornalista Pedro Bial, a holandesa Zahira Lieneke, uma das mulheres presentes, denunciou o médium João Teixieira de Faria – o João de Deus – por abuso sexual.

João de Deus atua há mais de 40 anos fazendo cirurgias e outras ações de curas espirituais no município de Abadiânia, interior de Goiás. A Casa Dom Inácio de Loyola, onde os procedimentos são realizados, tornou-se mundialmente conhecida e recebe cerca de 10 mil pessoas por mês para tratamento.

Ontem, no programa Fantástico, outro grupo de mulheres veio a público para declarar que foram vítimas de abusos e estupros, supostamente cometidos pelo paranormal, entre os quais, um relato de quem foi abusada na adolescência. A situação tomou tal proporção que o Ministério Público, que apura o caso, já conta com mais de 200 pessoas que querem depor contra João de Deus.

Eu não sei se João é culpado, a polícia e a justiça devem decidir isso, mas se ele for condenado, eu posso afirmar, com convicção, que nele operou-se o mesmo princípio que opera em Lúcifer: a “Síndrome de Deus”.

As Escrituras não negam a existência da paranormalidade, há casos, tanto no Velho Testamento quanto no Novo, onde encontramos a liberação de poder sobrenatural através de magos, místicos, feiticeiros e paranormais, os quais operaram coisas extraordinárias, inclusive curas.

Portanto, sim, é dom de Deus, uma vez que, conforme Tiago: “Toda dádiva e todo dom perfeito vem do alto, do Pai das Luzes...”. Tg. 1:7. Paulo, complementando esse conceito, nos informa que “Os dons de Deus são irrevogáveis”, conforme Romanos 11:29, ou seja, o dom está na pessoa, mas pode ser usado, tanto para o bem, quanto para o mal, tudo é uma questão de consciência.

Assim, João, se culpado, é uma vítima de sua própria soberba, de um egocentrismo despudorado, pois, sendo usado por Deus, achou que em si mesmo pudesse haver tal poder sobrenatural, como se ele fosse a fonte primária dessas realizações. Ainda que recitasse, conforme relatos, que nada daquilo era feito por ele, no fundo, seu coração já havia se corrompido, era apenas um mantra psicológico, mas sem qualquer reverberação para a vida.

A verdade é que homem algum suporta existir no lugar de Deus, a glória de Deus é veneno para nós, mortais, o poder de Deus, mal utilizado, desconstrói nossas estruturas psíquicas e nos leva ao surto diabólico que produz o desejo de ser como ele é. Aí o indivíduo não teme mais nada, nem ninguém, está acima do bem e do mal, pode realizar qualquer coisa, transformar pedra em pão e subir no pináculo do templo, ele cura, ele salva, ele liberta, pois ele é Deus!

O capítulo 28 do Livro do Profeta Ezequiel nos revela essa fenomenologia associada ao rei de Tiro. Na metade do texto, todavia, faz um paralelismo com o próprio Satanás, mostrando-nos que o princípio que operava em um, é o mesmo que operava no outro. O resultado final, inexoravelmente, é a destruição do ser, a corrupção da alma e a desapropriação do coração, homens, mesmo sem perceber, podem transformar-se em diabos.

João, se culpado, esqueceu-se que, para quem é de Deus, não basta apenas fazer o bem, tem de faze-lo da forma certa, movido pelo amor, mas sem esquecer-se de cerca-se, por todos os lados, pela ética, pela verdade e pela justiça.

Esperemos, todavia, a comprovação dos fatos, aqui não há um juízo temerário, apenas a revelação da fenomenologia que já foi constatada em situações semelhantes (só neste ano, Maury Rodrigues da Cruz e Sri Prem Baba).

Desta forma, se culpado, “João sem Deus”, mais do que nunca, precisará da misericórdia de Deus, pois, na medida em curou milhares, adoeceu e feriu a outros tantos. O perdão do Pai, certamente, não lhe faltará, mas o castigo e a justiça dos homens, todavia, não lhe serão negados


Carlos Moreira




05 outubro 2018

A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS. FAÇA A SUA!



Jesus chorou, olhando para Jerusalém, pelo fato do povo não ter reconhecido a oportunidade da visitação de Deus. Sim, eles rejeitaram um Reino de bondade e justiça e escolheram ficar debaixo do jugo Romano, que viria a destruir a Cidade Santa, através do general Tito, no ano 70 depois de Cristo. 


Mas toda tragédia tem sua própria anatomia, ela vai sendo construída pacientemente. No caso dos Judeus daqueles dias, duas escolhas foram decisivas para que a ruína começasse a ser tecida, o que durou, aproximadamente, 40 anos. 

A primeira escolha desastrosa foi a escolha de Caifás como sumo-sacerdote, uma jogada que envolveu a indicação política dos Romanos em conluio com o comando religioso do Sinédrio. 

Caifás era genro de Anás, que ocupava o cargo ante de sua posse, portanto, aquele era um “negócio de família”, uma vez que diversos interesses econômicos e políticos estavam em jogo na sensível relação dos Judeus com o Império. 

Ora, Lucas afirma, no capítulo 3 verso 2, que o ministério de João Batista, filho do Sacerdote Zacarias, da Tribo de Arão, começou na mesma época do sacerdócio de Caifás. João, como sabemos, prepara o “Caminho do Senhor”, e segundo Jesus, entre os nascidos de mulher, ninguém era igual a João. Ele, portanto, era a escolha certa, tinha a hereditariedade, tinha o chamado do Espírito Santo, tinha as qualificações para exercer um ministério profético, mas foi rejeitado pela elite religiosa e pela demagogia política. 

A segunda escolha desastrosa, que dispara o mecanismo que vai levar o povo a ruína, foi a escolha entre Jesus e Barrabás. 

No pátio do Palácio de Pilatos, os Judeus daquela geração não escolheram apenas soltar um preso político e agitador, para livrá-lo da sentença de morte, eles escolheram entre o Reino de Deus e o Reino de Roma, escolheram entre a salvação e a danação, escolheram entre a vida e a morte. 

Manipulados pelas autoridades judaicas, que já estavam articuladas com a autoridade do governador da Palestina, o povo escolheu seu próprio destino ao afirmar: “Crucifica-o!”, em relação a Jesus. 

Fosse isso pouco, ainda disseram, em tom arrogante: “Caia sobre nós e sobre os nossos filhos o seu sangue”. 40 anos depois, o grande General Romano entrou em Jerusalém, destruiu a cidade e o templo, profanando o lugar sagrado e fazendo ali sacrifícios pagãos, mantando centena de milhares de pessoas. 

A vida é feita de escolhas. Por vezes, lemos os textos, mas somos incapazes de articular o mosaico mais amplo da história. Na verdade, religião e política são duas potestades que sempre andam juntas, por isso, no livro do Apocalipse, elas são representadas por duas bestas. 

Quem puder discernir o que digo, que discirna... 

Neste domingo, o Brasil está diante de uma escolha que poderá mudar os rumos da nação para sempre. Espero, em Deus, que você faça a escolha correta e que aquele que for subir a rampa do Palácio esteja, realmente, pronto para governar e tomar as medidas que o nosso convalido País necessita. 

Que o Senhor nos livre, portanto, de escolhermos errado e de vermos o sangue de inocentes caindo como cachoeiras em nossas cabeças. Oro para que sua decisão seja conforme o Espírito que vemos em Jesus e a consciência que há no Evangelho. Deus os abençoe!




Carlos Moreira


21 julho 2017

Católicos X Evangélicos: Seis por Meia Dúzia.



Evangélicos criticam as procissões católicas e fazem a “Marcha para Jesus”.

Criticam os santos católicos e adoram os artistas gospel.

Criticam as velas católicas e pedem fogo do “espírito” para incendiar a igreja.

Criticam as vestes dos sacerdotes e usam Armani e Ermenegildo Zegna.

Criticam que os católicos não leem a bíblia, enquanto eles leem e não entendem.

Criticam o Papa, mas aceitam presidente de denominação.

Criticam a adoração a Maria e adoram Paulo, Lutero e Calvino.

Criticam catedrais suntuosas e fazem templos para 20 mil pessoas.

Criticam o uso do crucifixo, mas não se constrangem com shofar e menorá.

Criticam o terço e ao mesmo tempo ouvem o Cid Moreira lendo os Salmos.

Criticam a “Ave Maria” e oram o “Pai Nosso” como um mantra.

Criticam o celibato, enquanto se separam por qualquer coisa.

Criticam o purgatório, mas não se cansam de mandar todo mundo para o inferno.

Criticam missa de sétimo dia e fazem culto im memoriam.

Criticam o batismo de criança, mas permitem que adultos se batizem sem saber o que fazem.

Criticam as romarias e fazem campanhas e correntes de oração.

Criticam os símbolos romanos e ungem copo com água, sal e lenço.

Criticam a salvação pelas obras, mas são incapazes de realizar obras que testemunhem a fé.

Criticam a simonia, mas cobram dízimos para ensinar a prosperidade.

Criticam a penitência, mas vivem disciplinando os “desviantes”.

Criticam a confissão individual de pecados a um sacerdote, mas não se constrangem de fofocar publicamente sobre a vida do pastor.

Criticam os dogmas, mas aceitam a “tradição da igreja”.

Criticam os teólogos católicos e leem o “Poder da Mente” de Lair Ribeiro.

Criticam a crisma e fazem profissão de fé. Criticam o canto gregoriano e aceitam orações histéricas em línguas estranhas.

Criticam a entronização do santíssimo sacramento, mas aceitam a entrada da arca da aliança.

Criticam o turíbulo, mas aceitam gelo seco para apresentações de música e dança.

Criticam o altar, mas aceitam o púlpito de acrílico.

E eu, quanto mais vivo, mais me torno cético quanto a tudo isso...


Carlos Moreira





18 junho 2017

OS DOIS LADOS DA MESMA MOEDA



Hoje, 18 de junho, foi o dia da “Marcha do Orgulho LGBT” em São Paulo. Exatamente há uma semana atrás, Evangélicos ocuparam as ruas da cidade, só que na zona norte, na “Marcha para Jesus”, igual em magnitude, mas oposta em propósito e proposta. Será?

LGBT e Evangélicos representam, nos dias atuais, expressivas fatias da sociedade brasileira, cada qual com suas idiossincrasias, mas ambos lutando contra preconceitos atrozes e discriminações ferrenhas. Os Evangélicos, historicamente, são perseguidos pela mídia; os LGBT, por sua vez, pela religião institucional. Cada um, ao seu jeito, tenta abrir espaço na multidão para ter vez e voz, obter respeito e ser reconhecido.

As semelhanças, contudo, não param por aí... A Marcha LGBT é marcada pelo excesso, não só na extravagância das fantasias, mas em atitudes extremadas, gestos histriônicos e, não raro, ofensas theofóbicas, ou seja, desrespeito a símbolos e crenças da religião cristã. Os Evangélicos, por sua vez, homofóbicos em sua maioria esmagadora, representados mais expressivamente na marcha por pentecostais e neopentecostais, extravasam uma “alegria” esfuziante, regada a cânticos, danças, pulos e malabarismos, atitudes que só cabem na rua, pois seriam, sem dúvidas, rechaçadas no espaço do “templo” e reprimidas pela ortodoxia doutrinal.

Outra coisa que, incrivelmente, aproxima os grupos tão antagônicos é o fundamentalismo ideológico. Sim, homossexualismo e cristianismo são, por assim dizer, duas religiões, com suas regras e costumes, seus objetivos político-sociais e suas propostas de hegemonia colonizadora. Um apregoa a doutrina da libertação da “moral” careta, o outro defende a plástica comportamental baseada nos valores da tradição judaico-cristã. No fundo, os “apóstolos” das duas crenças não passam de "gayzistas" e "crentinos", ambos defendem suas convicções a ferro e fogo, desejam ser maioria de forma irremediável, donos do status quo, estão dispostos a ultrapassar até mesmo os limites da razão e do bom senso para defender posturas, muitas vezes, irreconciliáveis com a bondade e a justiça.

E seguem as coincidências... LGBT e Evangélicos também desfilam em praça pública com o objetivo claro de demonstrar para a sociedade a força que possuem. Sim, no primeiro caso, o manifesto é uma ovação a frase histórica do Zagalo, algo como: “nós estamos aqui, reconheçam, pois vocês vão ter que nos engolir!”. Marginalizados, excluídos e discriminados, gays, lésbicas, bisexuais e transexuais vão as ruas, antes de tudo, para protestar, exigir o respeito que merecem e buscar a dignidade que vem pela aceitação da massa. Evangélicos, por sua vez, estão numa “batalha espiritual” contra o “mundo”, querem mostrar um Jesus romano, belicista, conquistador, dominador, que é cabeça, não cauda! Esse deus, contudo, parece mais com Thor, uma divindade nórdica, do que com o Deus hebreu que se revela na figura do Carpinteiro de Nazaré, o Deus que deixou o trono da majestade celeste e veio servir aos homens, lavando-lhes os pés e os pecados.

Quer mais? LGBT e Evangélicos patrocinaram, cada um a seu modo, um evento que movimentou milhões de reais. A Causa da liberdade sexual despertou não só a atenção do mercado corporativo, promoveu seu total envolvimento com o business. Marcas como Boticário, AMBEV e Uber se tornaram patrocinadoras do evento, todos de olho no “Pink Money”. Mas o negócio não para por aí, ainda tem artistas renomados, políticos inflamados, heróis de ocasião e muita, muita grana sendo gerada no movimento que atiça o comércio local. Já os Evangélicos, por outro lado, não ficam atrás. Eles também tem seus políticos, seus artistas gospel, seus trios elétricos e muito merchan no share do mercado religioso. Subir nesses palcos preparados pela Marcha para Jesus, seja para discursar ou cantar, custa caro, vale tempo de rádio, de TV, percentual de grana do patrocínio público e não falta quem queria pagar para fazer sua propaganda pessoal. Aliás, o dono da Marcha para Jesus, Estevan Hernandes, foi durante anos profissional de marketing de empresas como Xeroz e Itautec, sabe fazer a “roda girar”, Jesus, para ele, é apenas mais uma commodity na prateleira. Isso sem falar nas propagandas de outros produtos, como a BemPrev, a previdência privada para evangélicos que foi anunciada durante a micareta dos crentes.

Até naquilo que é trágico os grupos se assemelham. A violência sofrida injustamente pelo movimento LGBT, que coloca o Brasil hoje como destaque mundial de assassinatos contra adeptos das práticas, pode também ser comparada a violência histórica sofrida pelos Evangélicos no final do século XIX e primeira metade do século XX, onde igrejas foram incendiadas, missionários assassinados e participantes de cultos apedrejados. A coisa era tão absurda que o aparato militar e policial, usado na defesa da lei e do cidadão, foi usado como instrumento de coerção e intimidação, o que pode ser comprovado com uma pequena pesquisa histórica.

Bem, quem sabe como esses jogos são jogados, não tem ilusões sobre os objetivos destas marchas... Tenho respeito pela homossexualidade humana e por outras expressões de sexualidade não convencional, mas desprezo pelo movimento ideológico. Possuo gays como amigos pessoais e, em minha comunidade, eles são tratados sem discriminação ou preconceito, podem exercer funções e viver sua fé sem ser molestados, mas jamais me convidem para me aliar a esses que fazem da ideologia sexual sua bandeira existencial.

Quanto aos Evangélicos, tenho amor pela esmagadora maioria das pessoas que ali estão. Sei que, em grande parte, trata-se de gente alienada, que ainda não percebeu que não passa de massa de manobra nas mãos de lobos vorazes. Sim, há muita gente boa e ingênua na “Marcha para Jesus”, achando que O Galileu está vibrando com o mega-evento da fé. Tolice. O Reino de Deus não se estabelece com fanfarras e demonstrações de poder terreno, mas em manifestações de paz, amor e justiça, sobretudo, no serviço aos pobres e desamparados. A Marcha da igreja não é nas ruas da cidade, com ufanismo e catarse emocional, mas nas favelas e cracolândias do Brasil, nos presídios e nos hospitais, visitando órfãos e viúvas, cuidando de indefesos e invisíveis sociais, tudo no anonimato, pois o sal salga e dá sabor ao alimento sem ser, sequer, percebido...

Portanto, concluo reconhecendo que o grupo LGTB realizou, de fato, um estrondoso evento hoje! Gays, lésbicas, transexuais e bisexuais conscientes, contudo, sóbrios e cônscios de seu papel social e da responsabilidade que carregam em se assumir como são, sabem que o que estou falando é coerente com a Verdade. Aos Evangélicos, por outro lado, credito todo o "sucesso" do mega-evento realizado, ainda que isso não tenha nada a ver com o Evangelho é, sem dúvida, uma demonstração de força diante de uma sociedade hipócrita e de um país que se intitula cristão e é o campeão da corrupção e da desigualdade social.

Para ambos os grupos, todavia, deixo um chamado a reflexão. Vocês são tão diferentes e tão parecidos, tão antagônicos e tão próximos, tão distintos e tão iguais. Na verdade, quando olho para vocês não consigo ver esta distância abissal que muitos apregoam, vocês são, sim, os dois lados da mesma moeda...


Carlos Moreira



11 junho 2017

Tatuador e Tatuado: Ambos são Culpados e Inocentes




OS FATOS

Um adolescente drogado, sem emprego, sem estudo, sem opções, é autor de pequenos furtos e delitos.

Dois jovens que não acreditam nem no Estado nem na Polícia se tornam justiceiros locais e realizam tortura psicológica e física como forma de punição do indefeso infrator.

A sociedade viraliza, nas redes sociais, o vídeo desta tortura e desperta todo tipo de sentimento, alguns apoiando, outros condenando a ação. Uma “corrente do bem” é iniciada com vistas a “resolver” o problema da inscrição “Sou ladrão e vacilão” feita na testa do infrator. A ação visa, através de uma arrecadação de fundos, realizar cirurgia reparadora do dano epidérmico da tatuagem.

OS FEITOS

O infrator será em breve cirurgiado, removerá da testa a inscrição maldita, terá recomposta a pele, mas continuará tatuado na alma, vitimado que foi por esta ação violenta.

O texto acusatório pode até desaparecer, mas os dizeres que estão na consciência não têm como ser removidos: “Eu sou um sujeito sem esperança”, “Eu sou um drogado e prostituído”, “Eu não tenho estudo nem opções”.

A questão é: até onde ele é vítima e até onde é vilão? Como chegou a este estágio? Como sairá dele? Qual foi o seu passado, qual é o seu presente, qual será o seu futuro? São questões que ficarão abertas, não têm como ser reparadas ou removidas.

Quanto aos dois justiceiros valentões, serão punidos com os rigores da lei. Sim, eles não são membros de um grupo de extermínio profissional, fosse assim, o infrator estaria morto, mas se sentiram no direito de fazer a ação como forma de punição pública, representam o cidadão comum indignado e cansado com um Estado ineficaz e injusto, que prende por 5 anos um homem por carregar pinho sol consigo e absolve, com farto material provatório, o Presidente da República enredado com corrupção até o pescoço.

Eles representam, ainda, a insatisfação da sociedade com uma Polícia que resolve apenas 5% dos assassinatos do país, que mata o preto e o pobre, que se alia, não raro, com os marginais, para receber “pedágio” e propina, que é despreparada e mal paga, mal aparelhada e pouco eficiente.

E nós, na qualidade de cidadãos brasileiros, continuaremos com essa “indignação de ocasião”, nos movendo via redes sociais para realizar ações cirúrgicas e paliativas.

De fato, eu e você continuaremos alimentando esta hidra de muitas cabeças que é o Estado, que não fornece educação, segurança, saúde, emprego, e relega os habitantes desta nação a sobreviver como se estivessem numa selva de pedra e cimento, onde as regras servem para uns e não servem para outros, onde a polícia mata o pobre, a justiça absolve o rico, a economia serve os bancos, os políticos são parasitas se alimentando de benesses, os mega-empresários são desonestos e corruptores, e o povo é indolente com a perda da moral e leniente com a falta de ética.

A ação “reparadora” que está sendo feita, tem seu valor, mas serve, flagrantemente, como desculpa para, no fundo, amenizar nosso descaso com o que acontece diante de nossos olhos todos os dias. Vamos remover a tatuagem infame do rosto do garoto, mas não poderemos remover tudo o que está tatuado em nosso coração e consciência e que reverbera como imobilismo e desprezo pela dor humana, como insensibilidade com a tragédia social que está na porta de nossa casa e como falsa religiosidade que nos faz sentar nos bancos da igreja e ignorar o que acontece para além das paredes do templo.


Carlos Moreira




23 maio 2017

ESTOU SUFOCADO!



A religião precisa do método para se sustentar. Sim, sem regras, sem obrigações, sem liturgias ordenadas, o religioso entra em pânico, sente-se sem chão, vê-se nu e em pecado.

Ora, nós sabemos o quanto o Evangelho de Jesus chocou os Fariseus justamente por isso, pois as leis judaicas, em número de 613, acrescidas das tradições dos anciãos, que podiam até dobrar esse número, se constituíam o manual de conduta daquela gente, o método que disciplinava e ordenava a vida do fiel.

Aí veio Jesus, falando de liberdade e de consciência, e reduziu mais de 1.000 preceitos legislativos em apenas dois: amar a Deus e ao próximo. Foi fatal! A crentaiada entrou em pânico! Para eles, viver de forma tão simples e leve revelava-se absurdo, era preciso submeter à existência aos rigores assépticos, as lavagens litúrgicas, aos sacrifícios purgatórios, as orações repetitivas, aos jejuns despropositados e as ofertas, em forma de dízimos, desprovidas de compaixão.

Na verdade, o Galileu bagunçou o quengo da moçada, propôs o Caminho da Consciência do Evangelho, onde não há lugar sagrado, nem dia sagrado, nem sacrifício sagrado, nem homem do sagrado, e com isso pôs fim, de uma feita só, no templo, no sábado, na intermediação dos sacerdotes e na oferta de cordeiros e pombas.

O Evangelho é um convite a quebrar as regras da religião para nos levar a liberdade de ser em Deus, ele nos tira do fordismo metódico e industrializado da igreja, para nos propor a Lei do Espírito e da Vida, que nos faz seguir pacificados e perdoados, sem pesos e sem demandas.

É simples assim, mas o Cristianismo não suportou nada disso, colocou de volta no velho odre da religião o vinagre do judaísmo repaginado com uma pitada de platonismo e a lógica do sistema grego de Aristóteles.

A partir daí, construiu templos, para congregar os "santos", ordenou Papas e Padres, para ministrar sacramentos, santificou o domingo, para o "culto" a Deus e reconstruiu as pesadas liturgias "sagradas", para metodizar a fé, pôs “ordem” na “desordem” proposta por Jesus.

Quando olho para tudo isso, dá certa tristeza, vê no que foi reduzida a fé de muitos, perceber o quanto a religião escraviza o indivíduo com ordenanças sem fim... Mas fazer o quê? Para quem o “Está Consumado!” não basta, o que sobra é viver com o “Estou Sufocado!”. Agora durma com um barulho desse...



Carlos Moreira

31 março 2016

Quando a Religião Serve à Política



A religião, historicamente, sempre foi usada como ferramenta de manipulação das massas pela política. Constantino que o diga... A simbiose entre estas duas potestades, produz, ao menos, quatro fenômenos sócio-religiosos, conforme a seguir.

O primeiro é a criação de uma cultura do medo, onde os sacerdotes são alçados a uma categoria de mitos divinizados, pois, tocar no “Ungido”, é tocar em Deus! Com o policiamento comportamental, pessoas são controladas pela via do medo do castigo, seja ele em forma de disciplina eclesiástica pública, seja pela via do bullying fraterno, onde os “irmãos” se afastam daquele que violou o código de conduta coletiva, seja pela ação raivosa de “Deus”, que pune quem não segue a “regra do jogo”. Para a religião, não basta o sacerdote se interpor entre os homens e o Criador, ela precisa controlar também as relações entre os homens e seus semelhantes.

O segundo é a alienação do fiel quanto às dinâmicas da vida, ou seja, quanto mais religião, mais separação do “mundo”, é o noeploatonismo embalado para consumo religioso. Desde há muito, a igreja prega um Evangelho que exclui o indivíduo da realidade cotidiana, suprimindo dele o apreço pela arte, pela cultura, pela política, pela economia. A alienação religiosa é um poderoso meio de controle, cria uma geração de descerebrados, produz na linha de série da igreja-indústria gente que lê a bíblia, mas não lê o jornal, indivíduos que se envolvem com a agenda de programas da denominação, mas que não tem tempo para ir ao cinema, a um show artístico, ou até para investir nos estudos e na profissão. A religião produz um apagão intelectual, isola o sujeito entre as paredes do templo, torna a existência um subproduto das doutrinas da igreja, tenciona impermeabilizar o contato com o mundo real.

O terceiro é a conformação com a miséria, uma vez que o religioso é ensinado que a vida aqui na Terra deve ser uma experiência de sofrimento e renúncia, de privação e desprazer. A verdade é que crente bom é crente pobre! Transportar toda alegria e prazer que alguém pode experimentar para uma vida vindoura, com a promessa de um paraíso perfeito, tem por finalidade produzir uma letargia existencial, um anestesiamento de mente, cultivar a cultura da subserviência, induzir uma subjugação social, levar o povo a ser domesticado tornando-o inofensivo. Ora, essa doutrinação foi largamente utilizada, sobretudo, na América Latina, marcada historicamente por governos totalitários e ditatoriais, pobreza extrema, tanto no campo quanto nas cidades, além de baixos níveis de escolarização e acesso a serviços essenciais. Bem afirmou Dom Hélder Câmara, “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

Por último, temos a rendição da crença às questões metafísicas, ou seja, quanto mais “espiritual” melhor, quanto mais à fé aponte para o sobrenatural, mas riqueza haverá na experiência com o sagrado. A metafísica religiosa amputa uma parte essencial da doutrina de Jesus, que é a preocupação com a justiça e com os dramas sociais, produz uma espiritualidade mágica, catártica e performática, revela um Deus fantasioso e vicia os “pagantes” à necessidade do espetáculo. Por isso, tanto “demônio” e tantos “milagres”! Vender religião é vender, sobretudo, o impossível, o intangível, e a metafísica religiosa se locupleta desta necessidade do ser humano de alcançar o divino para entretê-lo com a pirotecnia litúrgica, cultos teatrais com efeitos spilberguianos, muitos carismas disponíveis para uso, mas quase nenhum caráter que seja apto para torná-los úteis a qualquer coisa proveitosa para o bem.

Em minha experiência pastoral, tenho encontrado um sem número de pessoas marcadas por todos ou alguns destes tópicos acima. A violência religiosa é uma violência contra a alma humana, é um estupro da consciência, produz, por vezes, danos irreparáveis. Num tempo e numa sociedade onde o matrimônio está cada vez mais fragilizado, o casamento entre política e religião continua firme, e dando muitos frutos...

Carlos Moreira.

25 agosto 2015

A Igreja e sua Responsabilidade Social e Política



Jesus não era um homem do templo, mas das ruas. Ele não vivia de conchavos na coxia da religião, nem frequentava os bastidores do sinédrio, não estava entre os teólogos de Israel, ortodoxos calcificados de coração e gangrenados de consciência.

Na verdade, o Galileu era um homem de atitudes e muitas de suas ações foram, por assim dizer, ações sociopolíticas. Não há Evangelho nem salvação que seja o bastante para alguém com fome e com medo. As marcas do Reino de Deus ainda são amor e justiça!

Por isso o Senhor deu pão aos famintos de Betsaida, nos desafiando, assim, a assumirmos a responsabilidade com as questões ligadas a miséria e a fome. Ele entrou na aldeia dos leprosos, excluídos do convívio social, demonstrando que seus seguidores deveriam invadir os guetos e os antros das cidades e passou pela terra dos samaritanos, gente expurgada da vida pelo preconceito religioso, sinalizando que o caminho do Evangelho deve nos levar a busca do respeito e da tolerância.

Sim, o meu Jesus conversou com o “sindicato” dos coletores de impostos, na casa de Mateus, denunciou o comércio da religião, que era a mola da economia de Jerusalém e condenou as ações políticas do Rei Herodes, um fantoche nas mãos do Império Romano.

A igreja, equivocadamente, se excluiu do debate social e político porque só tem interesses no Reino dos Céus, esquece que o Reino proposto por Jesus é um Reino de consciência! Há anos ouço líderes evangélicos afirmarem que Jesus nunca misturou política e religião, pois vaticinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Nunca vi uma exegese tão fajuta e fraudulenta!

Desta perspectiva, Jesus era um indivíduo dicotômico, que departamentalizava as dinâmicas da existência, separava o natural do espiritual. Absurdo! Ele nunca fez isso! Viveu com intensidade cada instante, não se privou de nada nem fugiu daquilo que entendia ser a dádiva do Pai no banquete da vida.

O fato é que Jesus vivia numa teocracia, o imperador de Roma era um deus, adorado e cultuado como tal, um déspota legislando o que bem entendia. O imposto, naquela circunstância, foi só o pano de fundo da armadilha dos fariseus. Eles, contudo, não puderam entender a resposta do Senhor e a maioria dos religiosos, até hoje, ainda não pode.

Eu creio que Jesus afirmou: “Dai a César o que é de César”, referindo-se ao fato de que um deus terreno só pode receber o que provém da terra, no caso, o pagamento do imposto. Era com isso que César se importava e se satisfazia. Mas ele complementou: “Dai a Deus o que é de Deus”, ou seja, dê ao todo-poderoso aquilo que lhe é devido – glória, honra, louvor e devoção verdadeira – pois o Pai procura a estes que assim o façam. Ele não fez separação de coisa alguma, mas pôs tudo em seu devido lugar.

Acredite, a igreja sempre foi chamada a se envolver com as questões políticas e sociais e continuar a negligenciar isto é abdicar de influenciar os destinos deste mundo. Do jeito que está hoje, a igreja é uma organização com pouquíssima finalidade, existe de si para si mesma, enclausura-se em seus programas e exclui-se de tudo o que não for concernente à doutrina e a fé. Eu penso que a igreja só poderá ser relevante neste tempo se estiver envolvida com todos os processos e dinâmicas da vida e isso inclui as demandas políticas e sociais.

É mister, então, compreender, que não há como contribuir de forma propositiva com a sociedade apenas com louvor e pregação. Uma igreja que tenha algum significado para a história de sua geração precisará, a todo custo, sair do átrio do templo para as ruas, precisará aprender a lotar as galerias do Congresso, onde as leis estão sendo feitas, ao invés de lotar as galerias dos teatros, em busca de ouvir artistas gospel.

É tempo de agirmos! O mundo carece de líderes e de pessoas com boa consciência, gente do bem, para influenciar sindicatos, partidos, organizações e políticos! E acredite: você pode ser um destes...

© 2015 Carlos Moreira

13 julho 2015

Perdas & Danos do Apagão Religioso




Em tempo de doutrinas espúrias e igrejas insalubres, doença pouca é bobagem. Sim, é impossível ser exposto a estas coisas e não se contaminar para o mal, não adoecer alma e coração. Um sem número de pessoas me procura com os sintomas do que eu chamo de “apagão religioso”, uma síndrome contemporânea que se manifesta após o contato com o suposto sagrado.

A religião sempre foi o abrigo dos oprimidos e refúgio dos desesperados. O indivíduo que está vivendo dores existenciais não pensa ou age da melhor forma, sobretudo, quando se trata de discernir enganos. Igrejas são hospitais, bem sabemos, acolhe moribundos e “feridos de guerra”, mas cresce assustadoramente o número de instituições que se tornaram manicômios, lugares que não recuperam ninguém para a vida e, pior ainda, ajudam a aprofundar as patologias pré-existentes e fomentam novas anomalias.

Na verdade, quanto mais tempo a pessoa ficar exposta às dinâmicas destes lugares – cultos, programas, campanhas – tanto mais sofrerá os danos. Os conteúdos inoculados, ministrados por “sacerdotes qualificados”, não passam de doutrinas sincretizadas, interpretações fraudulentas, manipulações cirurgicamente preparadas para iludir e domesticar o sujeito levando-o a se tornar uma commodity na igreja-fábrica. O objetivo final é a serialização total, a padronização de comportamentos e a unificação de pensamentos.

Para veicular este tipo de alucinógeno espiritual, é necessário um ambiente adequado. Sim, quanto mais você excita o indivíduo, tanto mais ele poderá responder a esses estímulos de forma “satisfatória”. A mente religiosa é condicionada para só se satisfazer em meio a uma overdose de sensações e sentimentos, tudo é feito para exacerbar emoções, é o clímax da alma, mas não há absolutamente nada para a mente e a razão.

Cultos catárticos, com manifestações pseudo espirituais, onde anjos e demônios aparecem com frequência e onde curas milagrosas se proliferam, faz qualquer um imaginar que está pisando em solo sagrado, que o mediador que ali está é imantado por Deus, que tudo agora é apenas uma questão de fé, pode acontecer, o milagre está a caminho. Ora, quem pode sobreviver a algo desta natureza, quem pode ficar são inalando este veneno?

O dano mental se dá, sobretudo, porque a mente que foi hipnotizada pela religião fica viciada neste processo que explicamos. Libertar alguém desta prisão dá trabalho. Quase sempre, a readaptação à vida normal leva tempo. O indivíduo religioso, ao ver-se livre dos condicionamentos aos quais foi exposto, sofre em muitos casos da síndrome pós-traumática da liberdade culposa, ou seja, demora a agir normalmente porque ainda acha que tudo o que pensa ou faz é pecado.

O tempo que leva para que haja uma rearrumação da psique é proporcional ao tempo de exposição ao qual a pessoa foi submetida a estas dinâmicas. É triste, mas em muitos casos, esses danos são irreversíveis. O sujeito alvejado de forma intensa, passa a sofrer de diversos tipos de transtornos, tais como: delírio religioso, pânico, psicose, neurose, depressão e, desgraçadamente, jamais consegue se recuperar totalmente. Psiquiatras e psicólogos sabem muito bem do que estou falando.

A premissa do Evangelho de Jesus é: “conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará”. O chamado é para uma profilaxia de alma, para o quebrantamento do coração e para a transformação da mente, reajustada a novos valores e princípios que produzem paz e bem na vida. A luz da revelação de Deus, em nós, produz esperança, aponta-nos o Caminho de reinvenção de nós mesmos, da morte de quem fomos para a ressurreição de quem seremos.

© 2015 Carlos F. S. Moreira

09 junho 2015

Eu Tenho Medo...



Não, eu não sou homofóbico, mas também não faço apologia ao homossexualismo. Amo e acolho homossexuais em sua condição existencial, entendendo o sagrado do coração de todo aquele que precisa de paz e misericórdia.

Mas quero confessar: eu sou “Cristianismofóbico”. Sim, eu tenho medo do cristianismo! E não deveria ter? Ora, não foi o cristianismo que se aliou ao império romano e se constituiu, por meio de conchavos, dogmas, confissões e da criação de santos, aliado poderoso na manutenção da opressão e da hegemonia ditatorial? 

Não foi o cristianismo que ajudou a desenvolver o feudalismo na Europa, em conluio com os ricos e os políticos, achatando seres humanos, promovendo a escravidão, espoliando sonhos e esperanças?

Não foi ele que fez guerras medievais em nome de Deus, matou, destruiu, tudo com o intuito de aumentar latifúndios e constituir o Reino dos Homens, ao invés do Reino de Deus? 

Não foi o cristianismo que apoiou inquisições, genocídios, latrocínios, caças aos diferentes, mortandade aos que pensavam e criam de uma outra forma, que impôs a fé a força e a fórceps? 

Não foi ele que queimou desafetos, cerceou o saber e a ciência, aprisionou a literatura em seus mosteiros, que investiu na ignorância e no medo como forma de domínio e controle? 

Não foi em nome dele, também, que se invadiu nações, sobre o pretexto da colonização, espoliou-se gentes, dilacerou-se culturas, massacrou-se índios, tudo em nome da ética capitalista que atribuía aos tais a gestão das riquezas da Terra? 

Eu confesso, tenho medo do cristianismo, pois ele apoiou regimes facistas na Europa “evangelizada”, ditaduras militares na América, sempre se aliando ao que de pior existiu em termos de proposição econômica, com fins escusos e em nome da ganância. 

Sim, tenho medo deste cristianismo que persegue gays, cartomantes, hippies, roqueiros, babalorixás, espíritas, que se levanta contra tudo e contra todos em nome de sua ortodoxia biônica, de um Evangelho sem amor e de uma Fé baseada na retórica, onde a Graça é para poucos, que anuncia uma Cruz elitista, um Sangue que só serve a interesses sectários, um Cristo esquartejado, repartido entre milhares de confissões e interesses. 

Eu tenho medo, não escondo, do cristianismo que elege deputados no Congresso Nacional, gente que vive de fazer negociatas, que legisla em prol de suas denominações, que não reconhece o bem comum nem colabora para que haja justiça entre todos os homens. 

Eu admito, tenho medo, tenho muito medo mesmo do cristianismo... E não deveria ter?



Carlos Moreira

01 maio 2015

Jesus e o Anti-Marketing Religioso



Em 355 a.C, próximo a Atenas, Aristóteles fundou o seu Liceu para repassar ensinamentos aos discípulos que desejassem aprender sobre lógica, física, matemática, retórica, ciências, entre outros saberes.

Tratava-se de um amplo espaço, com um enorme bosque, onde havia aulas regulares pela manhã e a tarde, com públicos diferentes, com vistas a fomentar a filosofia e o desenvolvimento do pensamento para o bem da vida.

Pois bem, eu confesso estar imensamente intrigado por que Jesus não andou neste mesmo “mover”, por que não seguiu a receita de sucesso daqueles que vieram antes de si, por que não fez uso de estratégias de multiplicação? Sim, encasqueta-me o juízo saber por que Jesus foi tão obtuso e não se valeu de seu enorme potencial homilético, de seu imenso carisma e, sobretudo, de sua capacidade extraordinária de realizar milagres?!

Em tempos de “expansão” de ministérios, de pregadores televisivos, de construções de templos salomônicos, de aumento da população evangélica com vistas a se tornar a religião hegemônica no Brasil, parei para refletir sobre a vida de Jesus e seus discípulos...

Na verdade, a dúvida sobre os métodos de Jesus não é só minha, não. A própria família do Senhor também não entendia por que ele usava estratégias tão ultrapassadas e não fazia qualquer marketing pessoal. Em Jo. 7:4, o Galileu ouviu dos de casa o seguinte: “Ninguém que deseja ser reconhecido publicamente age em segredo. Visto que você está fazendo estas coisas, mostre-se ao mundo". Mas, curiosamente, ele insistia na simplicidade e na fé...

O que eu queria mesmo era que Jesus tivesse alugado um espaço, quem sabe próximo ao Templo de Herodes, numa área nobre de Jerusalém, e botasse pra quebrar! Sim, fico pensando numa mega catedral, com cultos, ao menos, três vezes por dia, louvor gospel com bandas extravagantes – assim atrairia também a juventude – e mensagens bombásticas para os miseráveis daquela região. Ia ser o pipoco! O Sinédrio ia esquentar a chapa e teria que se cuidar com a nova concorrência!

Na verdade, com a capacidade que o Galileu tinha, certamente conseguiria levantar muitos fundos entre a classe dos publicanos. Com estes recursos, poderia construir o Liceu de Jesus, um lugar para treinar novos evangelistas e enviar obreiros para abrir igrejas em todo o Oriente! Ao invés de apenas 12 discípulos, ele teria 12 mil pastores sendo preparados para detonar com a doutrina da Lei Mosaica dos Judeus. Além de inovador, seria imbatível!

Fico pensando em Jesus realizando milagres de todo tipo, pirotecnia pra todo lado, descendo voando do pináculo da catedral e aterrizando, suavemente, no altar central? Ô benção! Ele ao invés de anunciar o Evangelho do Reino, pregaria sobre a Teologia da Prosperidade, acabaria com aquela fixação estranha de morte na Cruz e se voltaria para o Palácio de Pôncio Pilatos, o qual, inclusive, devidamente “trabalhado”, certamente se constituiria num poderoso aliado.

Ah Jesus... Quanto poderia ter sido feito... Mas você, Senhor, optou pelo caminho mais difícil, pela porta estreita, por fazer a vontade do Pai, abraçando a proclamação da Verdade e escolhendo o cuidado dos pobres e necessitados da Terra. Que enorme desperdício!

Mas nem tudo está perdido, meu Senhor... Hoje, seus “discípulos” estão remendando a história, colocando a “igreja”, novamente, nos trilhos da “fé”, realizando o que você se negou a fazer. Eles constroem templos suntuosos, manipulam a sã doutrina, esfolam o povo para tirar-lhes dinheiro e se regalam nas benesses do “evangelho”.

Olha, Jesus, tenho de admitir que eles estão executando tudo o que você nunca fez, mas também esperam que o Senhor, ao final, os receba na glória eterna, com banda de música, confete e serpentina! Então Senhor, por favor, não vá os decepcionar, pois eles estão fazendo tudo ao contrário, mas estão alcançando um sucesso inquestionável...

© 2015 Carlos Moreira

09 janeiro 2015

Tiete da Religião ou Filho do Evangelho?



A religião muda rotinas. 
O Evangelho muda pessoas...
A religião se propõe a ocupar prédios.
O Evangelho se dispõe a ocupar mentes...
A religião molda as pessoas. 
O Evangelho muda as pessoas...
A religião consegue transformar pessoas boas em más.
O Evangelho é capaz de transformar pessoas más em boas...
Na religião, a Verdade é uma ideologia.
No Evangelho, a Verdade é uma pessoa...
A religião anestesia o pensamento.
O Evangelho reconstrói a consciência...
A religião se ocupa em edificar impérios.
O Evangelho se compromete a edificar pessoas...
A religião desafia você a ler as Escrituras.
O Evangelho instiga você a encarná-las...
Na religião, a confissão é uma liturgia do culto.
No Evangelho, a confissão é uma liturgia da vida...
Na Religião:
“Sem dízimos, nada podeis fazer.
No Evangelho:
"sem Mim, nada podeis fazer"...
Na religião, arrependimento é um pesar por aquilo que eu faço.
No Evangelho, arrependimento é a consciência sobre quem eu sou...
A religião põe a bíblia em suas mãos.
O Evangelho a põe em seu coração...
A religião propõe uma Reforma.
O Evangelho, uma nova forma...
Na religião, há muitos culpados e muita culpa.
No Evangelho, há muitos culpados e nenhuma culpa...
A religião raciocina com a categoria do "todos por Um". 
O Evangelho, com a factualidade do "Um por todos"...
A Religião muda à forma.
O Evangelho muda a "fôrma"...
Vem e segue-me, propõe o Evangelho. 
Vem e senta-te, propõe a religião...
O Evangelho lhe desafia a seguir a Jesus.
A Religião lhe propõe seguir-se a si mesmo...
A religião nos leva a buscar coisas.
O Evangelho nos desafia a abraças causas...
O Evangelho propõe: "Negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me".
A Religião propõe: "Negue a sua cruz, tome a si mesmo e siga-se"...


Agora, a pergunta que não quer calar: você é religioso ou é gente do Evangelho?

Carlos Moreira


26 dezembro 2013

Quando o Amor não é o Bastante



Em Recife, o tradicional Quartel do Derby, sede do comando da Polícia Militar, foi palco de duas grandes celebrações nestes dias natalinos: uma no dia 24 de dezembro, que reuniu os católicos na tradicional “Missa do Galo”, e a outra, no dia 25, que reuniu os evangélicos para o culto: “Que Haja Paz na Terra”. 

As celebrações reuniram milhares de pessoas e tiveram momentos de fé, alegria, e gratidão a Deus. Também foi possível apreciar, em ambos os encontros, as belíssimas apresentações de grupos musicais, além das homilias que lembraram o nascimento de Jesus. A mensagem dos católicos foi proferida pelo arcebispo de Recife e Olinda, Dom Fernando Saburido e a dos evangélicos, pelo presidente da Assembléia de Deus local, Pr. Ailton José Alves 

Tudo foi muito bonito! Só uma coisa, todavia, não foi possível de se ver: os dois grupos celebrarem este momento de gratidão a Deus juntos! Sim, para tristeza dos que percebem o que acontece nos bastidores da religião, ambas as confissões não puderam, com suas ações, anunciar a maior de todas as mensagens: a Boa Nova do Evangelho que afirma que Deus encarnou entre os homens para dar-lhes a esperança da Salvação. 

Não foi possível para os católicos, ter os evangélicos em sua celebração, assim como não foi possível para os evangélicos, ter os católicos na sua. É que este encontro poderia ser explosivo! A inimizade é histórica, e desperta os mais hostis sentimentos. Ambos os grupos, inclusive, atrevem-se a se considerar a única e verdadeira igreja de Jesus Cristo sobre a Terra. Também é fato que os dois reivindicam para si a chancela dos céus e o direito de propriedade ao uso do nome de Deus. 

É um contra-senso, mas é real! A posição assumida por estas duas igrejas, contudo, vai violentamente de encontro ao ensino de Jesus. Em sua oração sacerdotal, em João capítulo 17, o Galileu afirmou: “Pai, eu oro para que eles sejam um, assim como Tu ó Pai e Eu somos um... Faço isso para que o mundo creia que Tu me enviastes”. Para o Cristo de Deus, o amor bastava. Mas, para os cristãos...

De fato, uma celebração conjunta não seria mesmo viável. O bispo católico, por exemplo, iria ser criticado por suas vestes sacerdotais e, ao mesmo tempo, o pastor evangélico, por sua homilética mais exaltada. Não seria possível também realizar a eucaristia, pois um grupo crê na transubstanciação e o outro se divide em posições teológicas distintas, tais como: um memorial, a consubstanciação e a presença mística. Em resumo, no altar que celebra a Deus, se um grupo se fizesse presente, o outro seria excluído. 

Outro problema que precisaria ser enfrentado diria respeito às canções a serem entoadas. É que os evangélicos rechaçam a adoração a figura de Maria, mãe de Jesus, e se recusariam a cantar algo que fizesse alusão a ela. Ao mesmo tempo, os católicos possuem aversão aos líderes da Reforma do século XVI, que compuseram alguns dos belíssimos hinos que estão presentes no hinário protestante. 

E assim, por total impossibilidade de celebrarem conjuntamente o nascimento do Deus que se fez homem, em Recife, católicos e evangélicos tiveram duas celebrações. Mas é importante que se diga que Jesus encarnou para salvar a humanidade, da qual fazem parte católicos, evangélicos, espíritas, budistas, islâmicos, judeus, pois, conforme a Escritura, a única religião de Deus é o amor. 

Portanto, na celebração do Natal, os cristãos podem até dizer uma parte da passagem do Evangelho que afirma: “Glória a Deus nas alturas!”, mas, em definitivo, não podem dizer a conclusão da citação que expressa: “E paz na Terra aos homens de boa vontade.”.

Carlos Moreira

13 junho 2013

Ser Maior não Significa Ser Melhor



Gosto de Fórmula 1 desde pequeno. Mesmo com a morte do Senna, continuei assistindo as corridas e amargando o fato de não termos mais um representante à altura de nossas tradições.

A F1 é um esporte curioso. Contraditoriamente, nem sempre a maior equipe é a melhor na competição. Veja o caso da Ferrari. Sem dúvida, ela é a escuderia mais poderosa, pois sua marca é a mais famosa e sua estrutura a mais glamorosa. Contudo, mesmo tendo o maior piloto do mundo, além de milhões de dólares investidos em tecnologia e pesquisa, a Ferrari não é o melhor time.

Intrigante, mas esse fenômeno parece acontecer também com os Protestantes no Brasil. O protestantismo “brazuca”, herdeiro do americano, tem historicamente como uma de suas características o desenvolvimento de uma mentalidade altamente voltada para números. Ele sempre perseguiu metas, porcentuais, quantidades. Não é difícil encontrar entre evangélicos uma neurose culposa que visa alcançar os perdidos, evangelizar os caídos, de alguma forma, tornar a “massa do bolo” maior.

Segundo o último censo do IBGE, em 2010 esse segmento chegou à expressiva marca de 42,3 milhões de fiéis – 22,2% dos brasileiros – o que representa um aumento de 61,45% em relação aos dados do ano de 2000. “Extraordinário”! Mas aqui surge uma questão: o crescimento numérico dos evangélicos se desdobra, também, num crescimento qualitativo?

Ora, que eles cresceram numericamente é fato! Mas não foi só isso. Esse crescimento produziu uma representatividade que se alastrou em outras esferas. Hoje, o grupo possui uma forte bancada no Congresso Nacional, emissoras de televisão, rádios, gravadoras, veículos de comunicação dos mais diversos a serviço da “fé”.

Evangélicos se tornaram pop stars, empresários bem sucedidos, profissionais liberais, funcionários do alto escalão de empresas, membros do governo. Eles estão nos esportes, nas artes, em praticamente todos os segmentos da sociedade civil organizada. Pasmem, mais eles estão até na Rede Globo!

De fato, parece que os evangélicos encontraram mesmo o seu lugar ao sol. Não há mais como ignorá-los, pois eles possuem “prata e ouro!”. Falta-lhes, todavia, graça e poder para proclamar aos aleijados da existência: “levantem-se e andem!”. 

Mesmo sendo um grupo maior, os evangélicos não se tornaram um grupo melhor. Eles representam cerca de 20% da população do país, mas isso não se traduziu em bem para a sociedade, aumentaram de tamanho, mas isso não reverberou mudanças significativas.

A questão é bem simples: o discurso e a prática estão tão distantes quanto dista o oriente do ocidente. Ser evangélico no Brasil é sinônimo de obscurantismo e fundamentalismo. Se você perguntar a alguém que não é parte da confraria, perceberá que a opinião pública tem deles a pior impressão possível. Bem diferente do que acontecia com a igreja em Jerusalém, que louvava a Deus e tinha a “...simpatia de todo o povo”. At. 2:47.

O grupo cresceu, é bem verdade, mas não apareceu. Tornou-se poderoso, mas ineficiente, expressivo, mas insipiente, reconhecido, mas não respeitado. Ele não produz diferenças em termos de caráter, não obstante ter muito "carisma", não denuncia abusos sociais, não se envolve com causas ambientais, tudo para eles resume-se às questões metafísicas e sobrenaturais. Muita religião e pouca ação, ou, em outras palavras, fé sem obras! Tg. 2:18.

Dificilmente você verá evangélicos lutando por questões ligadas à melhoria da dignidade humana, ou engajados em ONGS, movimentos sindicais ou partidos políticos. Há exceções, mas cada vez mais escassas. A grande maioria vive alienada dentro de “templos”, em “campanhas”, “correntes”, fazendo alquimia de doutrinas, esquecida de que o mundo agoniza com infecção generalizada, lentamente flutua à deriva na maré da vida.

De que adianta ter evangélicos no poder, no comando, ser “cabeça” ao invés de “cauda”? Sim, para que serve se isso não se traduz em graça, misericórdia e salvação! Qual a vantagem de ter igrejas cheias de pessoas vazias? E assim, em busca de alcançar a vida eterna, eles acabaram esquecendo que ainda há vida aqui na Terra.

Tristemente, o que se vê em meio a tanto “crescimento”, é escândalo em cima de escândalo. “Pastores”, “bispos”, “apóstolos” e outras “entidades” do mundo eclesiástico cometem todo tipo de torpeza e arbitrariedade. É “crente” que mente, que é ganancioso, fofoqueiro, malicioso, beligerante e avarento. Gente que quer vencer no mundo e não vencer o mundo! Casamentos falidos, filhos criados à revelia, desordens financeiras, vida profissional fraudulenta, e por aí vai. Essa é minha rotina há 10 anos, atendendo gente todos os dias. Gente “evangélica”...

Há salvação? Há. “se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua nação”. 2ª. Cr. 7:14.

O Brasil, como se sabe, é o maior país Católico do mundo. E daí? Também somos o país da malandragem, dos juros escorchante, da má distribuição de renda, das estruturas perversas, do nepotismo, dos miseráveis, das mortes violentas, da ladroagem, do sucateamento da saúde, da educação... Em suma, somos o melhor do pior! E viva a Copa de 2014! Brasiiiillll !

Ah... Você acha que se fôssemos o maior país evangélico do mundo tudo seria diferente? Acha mesmo!? 


Carlos Moreira


13 maio 2013

Eu Porém vos Digo...



Quando Jesus começou a anunciar o Reino de Deus, sua proposta não se referia a mudanças na religião de Israel, mas tratava da transformação da consciência dos indivíduos. Estava claro que seu objetivo não era fazer remendos na debilitada lei judaica, mas instaurar um novo proceder que fosse para além das questões relativas à norma.

“Ouvistes o que foi dito...”, afirmava o Galileu. Sua fala referia-se aos velhos ditames da Torá. Ele estava confrontando àquilo que era discernido como espiritualidade, mas que, na verdade, envenenava a alma. Aquela geração vivia calcada em regras estéreis, baseadas na estética comportamental, que valorizavam a performance. Jesus, todavia, oferecia conteúdos éticos, que transformavam interiores e regeneravam o ser.

“Eu porém vos digo...”, insistia Ele. Era uma proposição que visava ressignificar práticas existenciais. A lei havia caducado, transformara-se num conjunto de doutrinas perversas e tradições histórico-culturais. Chegara a um ponto em que era melhor deixar alguém sofrendo com um aleijão do que curá-lo em dia de sábado. Instaurara-se no coração dos homens a condescendência com a hipocrisia.

Estou certo de que um dos maiores perigos da religião é quando ela vira ideologia. Se perguntarmos a alguém em uma comunidade se ele já aceitou a Cristo, ouviremos: “sim, eu tomei essa decisão. Certo dia levantei minha mão e dei um passo à frente”. Esse ato, todavia, raramente é seguido de qualquer mudança interior, pois o que o sujeito fez foi dizer que concorda com as regras seguidas pela coletividade.

É um tipo de “decisão” que não possuiu qualquer desdobramento para dentro, restringiu-se ao que se pode perceber do lado de fora. Ela fez com que o sujeito incorporasse trejeitos, mudasse o tom da fala, alterasse a agenda. Tudo isso, contudo, jamais se projetou para o ser. Conversão, de fato, diz respeito a mudar a consciência, com vistas a que se possa materializar no caminho “frutos dignos do arrependimento”.

Quando isso acontece, a pessoa é capaz de perceber o outro, solidarizar-se com os caídos, tornar-se reverente com a dor do que sofre, aceitar o diferente, buscar a justiça, falar a verdade, amar sem ser amado. Não existe fé que não se desdobre! Uma espiritualidade voltada para si mesmo adoece todo aquele que dela se torne refém.

“Se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”. Essa é a difícil constatação de Jesus. Tenho percebido que há mais gente de bem fora das igrejas do que dentro delas. Vejo cristãos se esforçando para tentar chegar à média comportamental da sociedade. Triste ver que somos um povo cheio de carismas, mas totalmente esvaziados de caráter.      

Em tempos de prosperidade, falsificação doutrinária, barganhas com o sagrado, querer viver o bom e simples Evangelho coloca a pessoa na contra-mão do fluxo. Fazer o quê? Talvez, lembrar de Isaías: “Senhor, quem deu ouvidos a nossa pregação?”.

Carlos Moreira

12 junho 2012

Preocupados com a Vida Eterna, os Cristãos Desprezam a Vida na Terra




Acho curioso como, tão escandalosamente, a religião se contrapõe à proposta de Jesus. Enquanto o Evangelho se propõe a pacificar o coração dos homens, a religião promove o seu distanciamento; um sugere a transformação da consciência, a outra uma mudança comportamental; um trata do perdão dos pecados, a outra da realização de obras meritórias; um chama as pessoas a reconciliação com o Criador, a outra tenta convencer o Criador a aceitar as criaturas.

Não é a toa que muitos filósofos e pensadores, olhando para a história da civilização humana, mantiveram diante da religião um olhar crítico, cético e por vezes, cínico. Heinrich Heine, escritor e poeta alemão, num tom sarcástico, afirmou certa vez: “bem-vinda seja uma religião que derrama no amargo cálice da sofredora espécie humana algumas doces, soníferas gotas de ópio espiritual...” Marx, pai do socialismo científico, não economizou “tinta”, e vociferou à seu tempo: “a religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração. É o ópio do povo”. Hegel, um dos mais respeitados filósofos, pai do idealismo absoluto, apesar de ter estudado no seminário protestante de Württemberg, era outro que via a religião como alienação da essência humana.

Friedrich Engels, um dos criadores da teoria do materialismo histórico e dialético, no século XIX, fez uma avaliação bastante lúcida sobre a religião cristã ao longo do tempo. Ele afirmava que, primeiramente, a cristandade foi uma religião dos pobres, dos desterrados, dos condenados e oprimidos. Todavia, não demorou muito para, no século III, se estabelecer como ideologia estatal do Império Romano. Em seguida, já na idade média, alinhou-se perfeitamente com a hierarquia feudal européia e, logo depois, a partir da revolução industrial, já na modernidade, amalgamou-se a sociedade burguesa.

Eu penso que uma das coisas mais imprescindíveis nestes tempos difíceis que vivemos é manter um olhar analítico e crítico a respeito de nossa própria história. Nosso objetivo deve ser repensar que papel nos cabe no mundo que vivemos, na sociedade na qual estamos inseridos, com vistas a materializarmos, com ações concretas, as propostas que possam vir a ressignificar o que afirmamos ser a fé em Jesus Cristo.

Contudo e, tristemente, o que tenho visto, cada vez mais, é o entorpecimento, a alienação, a “massa manipulada”, a “teologia” do comodismo que sacrifica sobre o altar da conveniência, a substituição da singularidade da unidade pela burrificação da unanimidade. Vejo os cristãos preocupados com a vida eterna, “labutando” em busca de garantir o futuro, sonhando com o galardão prometido, enquanto a humanidade se esvazia por completo de qualquer possibilidade de encontrar na existência significados, e a Terra agoniza pela exploração de seus recursos cada vez mais escassos.

Olho as igrejas lotadas de gente, não raro, vazia, egoísta, vivendo uma espiritualidade adoecida, que olha para si mesmo, mas não é capaz de perceber o próximo. Os cristãos estão enredados com movimentos, programas, seminários, shows, cultos, atividades que são justificadas pela velha máxima: evangelizar os perdidos! Você dificilmente encontrará essa gente em passeatas que reivindiquem questões sociais importantes, ou engajadas em ONG´s e outras organizações que lutem por direitos dos menos favorecidos, ou participando de projetos que viabilizem o desenvolvimento sustentável do planeta. Não, o “negócio” dos “crentes” é buscar o sobrenatural! Deixa que o natural se acabe, se desmantele, se extinga...    

Eu cresci ouvindo chavões do tipo: “crente não se envolve com política”; “a Terra está sendo “entesourada” para o fogo eterno”; “temos de cuidar dos da família da fé”. Por isso os políticos evangélicos são os mais corruptos do Congresso Nacional, a Terra está sofrendo com "dores de parto", levada a superar todos os seus limites, e os que não fazem parte de nossa “confraria” agonizam pelas ruas, nas cracolândias da vida, nas sarjetas da existência, nos hospitais, nos presídios, nas favelas. Só de pensar tenho calafrios... "Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes". Mt. 25:41-43

Nossa religião é “espiritualidade” de ocasião, com choro de encenação e contrição de momento. Tiago, em sua epístola, escrevendo para os judeus da dispersão, gente ainda impregnada pela “religião de Israel”, afirmou que essa religiosidade calcada sobre a fé, mas que não possui boas obras, para nada aproveita. Parafraseando o apóstolo, poderia perguntar: “mostra-me onde estais, com a tua fé, e eu, com o meu engajamento em questões prementes da humanidade, te mostrarei a minha!”. 

Gramsci, filósofo e cientista político italiano do século XIX, analisando na sociedade contemporânea a cultura religiosa, concluiu que ela é “a utopia mais gigante, a mais metafísica que a história jamais conheceu, desde que é a tentativa mais grandiosa de reconciliar, em forma mitológica, as reais contradições da vida histórica”. Em outras palavras, a religião é artigo de luxo, serve apenas para “anestesiar a alma”, mas tem pouca ou nenhuma utilidade para o espírito dos homens.

Enquanto a “igreja” continuar alienada entre quatro paredes, embevecida com suas próprias obras, pensando na vida no além, o mundo padecerá com “cólicas” sociais, milhões morrerão de fome, de frio, de sede, de maus tratos, gente que não poderá ser “evangelizada” porque estará enterrada numa cova rasa! Sim, enquanto ficamos apenas “orando” e “louvando” ao “senhor”, os rios estão sendo poluídos, as matas devastadas, o ar contaminado, os animais extintos, a camada de ozônio destruída. “Aleluia irmãos!”...

Com a ajuda que estamos dando ao “diabo”, ele nem precisa se ocupar em fazer o que Jesus afirmou: “matar, roubar e destruir”. Pode tirar férias e ir para Boca Raton! Minha oração nestes dias é ver menos gente “entulhada” dentro da “igreja”, ou seja, aqueles que não fazem nada, não tem compromisso com nada, e mais gente em sindicatos, OSCIP´s, organizações de direitos humanos, gente que se interesse pelo que seu candidato evangélico está fazendo, gente que vá as ruas, que proteste contra tudo o que ferir a dignidade humana, que seja “Elias” em nosso tempo, profetas que denunciem a injustiça e a maldade, e não aspirantes de feiticeiros, adivinhando o futuro dos outros. 

Se eu creio na vida eterna? Claro que sim! Se eu a espero? De todo o coração! Se estou na expectativa da volta de Jesus? Oxalá fosse hoje! Mas até que tudo isso se torne realidade para mim, tenho muito o que fazer aqui na Terra pois, parafraseando Paulo, ainda não completei a carreira para poder guardar a fé e receber a minha coroa, a qual o Justo Juiz me dará naquele dia! Sim, afirmo com toda autoridade: quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz a Igreja! 

Carlos Moreira

 

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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