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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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16 novembro 2018

Jesus, Cristão, ou Jesus, o Cristo?




O Jesus que a igreja nos ensinou é o líder da maior religião do planeta, o cristianismo. O Jesus da igreja se converteu, tornou-se cristão, abraçou suas doutrinas, seus catecismos, suas confissões, seus ritos, suas representações históricas, seus costumes e suas tradições.

É incrível, mas o que o judaísmo não conseguiu – que foi converter Jesus num praticante de uma religião morta – o cristianismo julga ter alcançado. O Jesus cristão é membro de igreja, adepto de denominações, seguidor de teologias, é um deus domesticado, encaixotado, industrializado, abestado, que fala língua estranha, bebe suco de uva na ceia, dá dízimo e ouve música gospel.

Eu tenho gasto minha vida tentando destruir essa imagem de Jesus para que as pessoas encontrem a um outro Jesus, antes dele ter se convertido ao cristianismo, antes da igreja o ter transfigurado nesse ser caricato preso a uma ideologia! O que eu tenho tentado mostrar é como era Jesus antes de ser reinventado pelas artimanhas da igreja, desnudar o que ele pensava, o que falava, o que ensinava, como vivia, no que cria!

Mas talvez você me diga: eu já sei de tudo isso, eu já li um livro a esse respeito, já li a bíblia, o pastor me ensinou, a EBD me catequisou, o congresso do “big shot” da vez me instrumentalizou, o seminário teológico me informou. Mas eu não estou falando disso, eu não estou falando do que lhe ensinaram, eu estou falando do que nem carne, nem sangue podem ensinar, porque só pode ser discernido por revelação do Espírito Santo, aquela verdade que testifica em nosso espírito que ele é quem ele diz ser.

O Jesus que lhe apresentaram, acredite, é um vestígio tosco do original, porque o Jesus das Escrituras começou a desaparecer no início do século II, na era dos pais apostólicos. Em seguida, ele foi sendo sufocado pelos apologistas e polemistas dos séculos II e III e na, sequência, foi soterrado pelos pós-nicenos, do século IV.

Assim, alvejado duramente, continuou se esvaindo em meio a uma fé simbiotizada com a filosofia grega neo-platônica e com a lógica do aristotelismo. Mas foi com a criação do cristianismo constantiniano que ele sofreu o seu mais duro golpe, institucionalizou-se, virou o proprietário de uma organização.

Daí para frente, quase morto, Jesus arrastou-se pela história. Na idade média, em meio a uma igreja prostituída e desnorteada, foi conivente com matanças e latifúndios feudais, com indulgências e simonias, com torturas e escravizações. No século XVI, todavia, já na idade moderna, quando estava desvalido, tentaram ressuscita-lo, com a Reforma Protestante, mas não deu certo... era só uma dieta eclesial. Na verdade, ele continuou sendo diluído, aos poucos, homeopaticamente, e quando chegou o iluminismo, já era quase um apagão.

No século XVIII, em meio à revolução industrial, ele foi posto de lado, o homem tornou-se a medida de todas as coisas. Depois Nietzsche tentou mata-lo, mas ele, surpreendentemente, sobreviveu, acabou ganhando novo ânimo no avivamento da Rua Azuza, no início do século XIX.

Maltrapilho, com os pés sujos, foi se arrastando, lentamente, e cambaleou no século XX, alvejado pelo multiculturalismo e pelo existencialismo de Sartre. Hoje, em nosso tempo, ele é essa coisa que os neopentecostais creem, esse híbrido de divindade e homem de negócio, esse esboço de deus, essa carranca pseudo-espiritual.

Jesus, o da Escritura, sempre andou ao largo de tudo isso, em movimentos marginais, entre desvalidos, excluídos, entre os sem "pedigree", mas sempre a "Porta da Igreja", batendo, esperando que alguém abra a Catedral para ele entrar.

Ora, diante de tudo isso, e com profundo respeito, eu só tenho uma questão para você: o seu Jesus é cristão, ou ele é o Cristo de Deus? 


Carlos Moreira


31 janeiro 2017

Espiritualidade da Alma




“Espiritualidade da Alma” é a forma como chamo o fenômeno da histeria presente em muitas igrejas de linha “renovada”, pentecostal e pós-pentecostal. Sim, é a volta da doutrina grega repaginada da catarse, algo que se podia ver não só na religião, mas também na medicina e filosofia da antiguidade.

Os rituais visavam à libertação, expulsão ou purgação de tudo o que fosse estranho à essência ou natureza de um ser, aquilo que podia corrompê-lo. Portanto, certos “cultos de liberta
ção” em nosso tempo, sob o manto da busca da santidade, nada mais são do que essas práticas reeditadas com glacê místico e pirotecnia moderna, tudo regado a muito “louvor”, algo capaz de embalar o estado de frenesi que neles se instalam.

Indivíduos como Benny Hinn e outros “apóstolos” e “bispos” da igreja contemporânea, figuras carimbadas no mundinho gospel, nada mais são do que “indutores” para a liberação de manifestações de gente com distúrbios na psique e fragilização emocional. 


Eles são, na verdade, a “mídia”, o meio pelo qual repressões de natureza psicológica, abusos, recalques, castrações, sublimações, estoques sexuais reprimidos e toda sorte de “energia” acumulada no ser vem à tona, daí tanta pirueta, tanta queda, tanto tremilique, compulsões, risos desenfreados e choros compulsivos.

O que é tudo isso? Carne, nada mais, a alma vazando larvas de vulcão, tudo que se acumulou no esgoto do ser ao longo de uma vida inteira, algo que, raramente, produz efeito para além do culto, ou seja, mudanças profundas que tenham desdobramentos reais na vida real.

Ora, esses acontecimentos não são uma exclusividade do pentecostalismo surgido no início do século XX, e do qual herdamos modelos e doutrinas através dos missionários americanos. Se você for estudar os avivamentos pós-reforma protestante, verá que eles eram seguidos das mesmas manifestações, ainda que o caráter e conteúdo da pregação fossem outros, algo totalmente diferente do que é apresentado nos nossos dias.

Assim, o fenômeno é espiralizado, pode retrair-se e expandir-se conforme contextos sociais e culturais da humanidade, somem e surgem de geração em geração, mas podem ser facilmente discernidos por todo aquele que carrega em si a consciência do Evangelho. 


Carlos Moreira


19 abril 2016

Crente Profissional?



Quanto mais a igreja foi se afastando do “Movimento do Caminho”, registrado em Atos dos Apóstolos, tanto mais foi se transformando em uma organização. A singeleza da fé e a simplicidade da vida foram dando lugar a doutrinas sofisticadas, criadas por uma necessidade apologética a partir do II século, e também a estruturas mais robustas, decorrentes da estatização da igreja por Constantino no IV século, o que desembocou, dentre outras coisas, no complexo compêndio litúrgico e na burocratização clerical.

A igreja medieval se desenvolveu como uma poderosa organização. A figura Papal era uma símile dos Reis da Europa, não só no uso dos símbolos – mitra/coroa, cátedra/trono, anel do bispado/anel real, báculo/cetro – mas também como establishment do empoderamento religioso, a representação de uma potestade terrena e espiritual, uma instância de poder travestida de inerrância e sob a delegação do próprio Deus como Seu representante na Terra.

Na idade moderna, sob o zeitgeist da Revolução Industrial, a Igreja Católica já se apresentava como uma organização muito bem estruturada. Segundo Leon C Megginson, professor de marketing na Universidade de Baton – EUA, a “Representante de Cristo”, por ter de lidar com uma expansão mundial, precisou desenvolver processos administrativos para manter “íntegra” a sua missão. O uso de métodos e diretrizes, associados a uma robusta estrutura organizacional, fez com que a igreja influenciasse, positivamente, a administração e a gestão modernas. Fantástico!

E assim, com um brevíssimo resumo de 20 séculos de história, já é possível perceber de onde vêm termos bastante utilizados no meio religioso, tais como: “ministério de evangelização”, “departamento infantil”, “presidente da denominação”, “líder do louvor” e “tesoureiro”. 
Sim, há igrejas que mais se parecem com uma empresa varejista! A fé é o negócio, a catedral ou o templo central é a holding, as demais igrejas são as distribuidoras, o produto é Jesus, o mercado é o mundo e os crentes são os profissionais da religião trabalhando ativamente em prol deste grande business! Quem lucra com isso? Ora, Deus! Será? ...

É fácil observar como muitas igrejas se estruturaram para arregimentar e envolver pessoas no negócio da fé. A pirâmide eclesiástica desperta interesses e vaidades e promove, como em qualquer outra organização, lutas pelo poder, políticas perversas, conchavos, inveja, ciúmes, toda sorte de mal. Envolto nestas circunstâncias, numa ambiência altamente competitiva, um crente pode até não se dar bem na sua profissão, pode não ter um título universitário, mas, na igreja, terá a chance de se “destacar”, ser um pastor, um diácono, um professor da escola bíblica ou ainda o supervisor de uma região! Requisitos?
 Na esmagadora maioria dos casos: tempo de “casa”, “dons do Espírito Santo”, submissão à liderança e a doutrina, “boas” relações e uma ajudinha dos “céus”...

Toda essa engrenagem, regada a programas e atividades dos mais diversos, funciona perfeitamente. É bem verdade que ela desestimula o serviço abnegado, o cuidado com os necessitados, o lavar os pés dos irmãos... É que o marketing religioso vive do fomento da personalidade, cria iconoclastias institucionais, alça indivíduos ao palco da igreja-teatro, onde o culto se torna show da fé e a pregação do Evangelho apenas um programa a mais.

Confesso que, mesmo sem muita esperança de produzir resultados, mas apenas para lembrar, em Jesus, e no Evangelho, o maior é o que serve, a grande fonte de lucro da piedade é o contentamento, juntos, fomos chamados a ser Sacerdotes, e por isso, não há gregos, nem judeus, nem homem, nem mulher, todos, Nele, são um, e convém, a despeito de qualquer outra coisa, que apenas Ele cresça e seja glorificado. E é assim porque o Senhor Jesus se despiu de Sua majestade, esvaziou-se a Si mesmo, assumiu forma de homem e veio servir e morrer em nosso lugar! É simples, não? Mas, se você não entender, posso fazer um Power Point e te enviar. Coisas da modernidade...


Carlos Moreira

23 novembro 2011

Isso é de Deus ou do diabo?



Talvez daqui a alguns anos eu escreva um livro só com as “pérolas” que ouço semanalmente conversando com as pessoas. Já pensei até no título: “Confissões & Confusões”.

Uma das atividades mais desgastantes da vida de um ministro do Evangelho é o aconselhamento. Digo isso porque é impossível ouvir os dramas e as dores das pessoas sem, de alguma forma, se envolver com elas.

Mas a escuta terapêutica vem desaparecendo, gradativamente, das funções dos pastores ordenados e isso, para mim, tem um único motivo: escutar pessoas requer um investimento grande de tempo e, “desgraçadamente”, não gera dinheiro. Por isso, muitos pastores têm optado em fazer um curso superior de psicologia, pois aí podem cobrar pelo atendimento profissional.

Pois bem, dia desses me vi diante de uma situação muito frequente quando ouço gente: a suposta obrigação de ter de dizer ao indivíduo se ele deve ou não fazer algo. Concretamente, a questão me foi posta da seguinte forma: “Pastor, depois de ter ouvido tudo o que eu disse, me responda sinceramente: Isso é de Deus ou do Diabo?”. “Bem”, respondi, “nem de um nem do outro, muito pelo contrário!”.

E prossegui: “Meu amigo, eu não sou feiticeiro, nem adivinho, não possuo bola de cristal, não jogo búzios, nem leio cartas. Portanto, não estou aqui para lhe dizer como será o amanhã, nem muito menos para lhe dar uma “profetada”. Posso sim lhe ajudar a refletir sobre alguns cenários possíveis, e isso a partir de suas escolhas. Mas saiba: a decisão final será sempre sua e somente sua”.    

E continuei: “Outra coisa que preciso lhe esclarecer é que nem tudo na vida se resume a ser de Deus ou do Diabo. Na verdade, a maioria das coisas é “do homem”, ou seja, ganha materialidade a partir da projeção das “sombras” que existem em nós, pois, segundo Tiago: “Cobiçais, e nada tendes; matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar... pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para gastardes em vossos deleites”.

De forma objetiva, o que quero aqui esclarecer é que a tradição cristã, infelizmente, está impregnada desse tipo de pensamento, que nada mais é do que o dualismo grego. Foi a partir da influência dessa filosofia que a existência acabou sendo reduzida a algo binário: zero ou um. Em outras palavras, tudo passou a ser ou de Deus ou do Diabo!

O dualismo grego é uma espécie de dialética hegeliana sem a síntese, ou seja, ele só tem tese e antítese. Separa o físico do metafísico, o sensível do espiritual, o bem do mal, a unidade da pluralidade.

Muitas dessas ideias estão centradas em Platão, pois, para o filósofo, o mundo estaria dividido em duas esferas: a superior e a inferior. O nível mais elevado consistia das ideias eternas. O nível mais baixo era formado pela “matéria”. Esta, por sua vez, era temporal, física e imperfeita. 

É por este motivo, por exemplo, que Platão localiza o trabalho no reino inferior. Para ele, existia um reino espiritual separado e distinto do reino físico. Por isso, quanto mais espiritual a pessoa fosse, me-nos ligada à matéria estaria. No dualismo grego, o ambiente profissional era “carnal”, pois tratava das “coisas terrenas”, tais como o dinheiro.

Agora uma pergunta: você já viu esse tipo de “pensamento” presente na igreja? Mais é claro que sim! O que você talvez não saiba é sua origem. Vamos mergulhar na história?  

A partir do século IV, a cosmovisão cristã começou a sofrer forte influência do neoplatonismo, desenvolvido por Plotino. Tratava-se de uma doutrina que preconizava, dentre outras coisas, o abandono do mundo material para que o espírito pudesse unir-se a uma “entidade superior”.

Pois bem, a porta de entrada do neoplatonismo no pensamento cristão se deu por meio de um de seus mais ilustres representantes: Santo Agostinho. O bispo de Hipona foi, talvez, o principal responsável pela adaptação das ideias de Platão, de tal forma que elas pudessem servir como argumentação filosófica para a apologética da fé cristã.

Um dos desdobramentos desta tradição, durante a Idade Média, impunha aos clérigos a necessidade de atestar sua espiritualidade pelos votos de pobreza, de castidade e de obediência. Era a negação dos elementos do reino inferior com vistas a alcançar uma espiritualidade elevada, ou seja, era a ataraxia estoica grega simbiotizada com a fé judaico-cristã.  

Agora quero lhe fazer uma proposta: olhe para a vida com estas novas lentes e, talvez, você comece a perceber que o dualismo não tem nada a ver com o Evangelho. Essa separação de mundo espiritual do mundo material é pagã, e não cristã. É dela que surgem conceitos tais como: coisas de Deus e coisas do Diabo; arte sacra e arte profana, música gospel e música do mundo, coisas espirituais – orar, jejuar, pregar – e coisas carnais – trabalhar, divertir-se, exercitar-se.  

Fico feliz em saber que a proposta de Jesus é de ressignificação de minha consciência de tal forma que eu encarne os valores e verdades do Reino. Deus é soberano sobre tudo, tanto o que é natural quanto o que é espiritual, pois, para Ele, as duas dimensões são uma coisa só.

Por isso, o que sei é que devo ser santo, como santo é o Senhor, tanto na faculdade quanto na igreja, tanto no trabalho quanto na reunião de oração, tanto no campo de futebol quanto na escola dominical!

Desta forma, nem tudo é coisa do Diabo, como também nem tudo é coisa de Deus. Há, pois, coisas que são do homem, ou seja, escolhas e decisões que são tomadas nos trilhos do cotidiano e que trazem, por si mesmas, as suas consequências, seja para o bem, seja para o mal.

Você pode perceber isso na parábola do “Bom Samaritano”. O caminho era um só, e todos iam por ele: tanto os salteadores quanto o transeunte agredido, o levita, o sacerdote e o samaritano. A única diferença, contudo, era a forma como cada um deles estava caminhando.


Carlos Moreira

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