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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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10 março 2018

A Cartilha dos Crentes: Orar, Jejuar e Ler a Bíblia



Nos dias de Abraão não existia bíblia, a tradição para se ensinar algo era oral, o pai repassava para o filho as verdades da fé enquanto caminhava com ele no chão dos dias e aquilo ia sendo introjetado como verdade e bem.

Mas quando Jesus fala de Abraão para os Fariseus, diz que ele viu o “Seu Dia” e se alegrou, ou seja, o Patriarca não leu nada sobre isso em um livro, mas fez uma leitura da vida da perspectiva do Espírito, ele não discerniu a partir da letra, mas leu espiritualmente o que estava por vir e isso era para ele mais real do que qualquer texto, "... As palavras que eu lhes digo são espírito e vida". João 6:63, lembram?

É muito comum, no meio evangélico, existir uma certa neurose compulsiva pela leitura da bíblia. Aliás, o trinômio “orar, jejuar e ler a palavra” é quase um mantra na boca dos crentes, revela um sinal de saúde espiritual e quem segue essa “disciplina” está em paz com Deus.

Ora, eu sei que quando se afirma isso ainda se está olhando para a religião judaica, para a oração do templo, que foi substituída por vigílias e cultos, para o jejum meritório, onde se tencionava mover a divindade na direção daquilo que se desejava, e para a leitura do texto sagrado, com o livro nas mãos, hora e local definidos.

Mas em Jesus, todas essas coisas foram extintas, não há mais geografia para o culto, uma vez que ele se faz em todo lugar e a qualquer hora, a oração é em Espírito e em Verdade, interage com as dinâmicas dos fatos, o jejum é aquele ensinado por Isaías, que quebra o jugo da injustiça e me torna solidário a dor do meu próximo, e a leitura da palavra passa a ser a encarnação da Palavra, que é Jesus, em mim, ou seja, eu passo a ler a bíblia a partir daquilo que eu encarno conforme o Evangelho que está em mim, não é mais um fetiche pelo texto, é um chamado a tornar o texto realidade existencial.

Ora, com isso não estou dizendo que não se possa pegar o livro e ler, ainda que eu entenda que o livro já está em mim, na minha consciência, mas que praticar o que se leu é melhor do que ler e não tornar esse saber em nada que não seja “carne e sangue”, não materializar as Verdades das escrituras como concretude no passadiço do quotidiano. Você gosta de ler a bíblia? Fazes bem, até os demônios a leem. Mas você faz a bíblia ser lida em você?


Carlos Moreira



20 novembro 2017

Desculpe, mas Eu não Quero ser um "Ministério"



No meio cristão é muito comum você ouvir a expressão “Esse é o meu ministério, a cruz que tenho que carregar”. Sim, para muitos, viver a fé é carregar pesos, é sofrimento, é amargor de espírito e fastio de alma.

Quando esse entendimento se torna o farol da consciência, todo caminho é de pedra e todo chão é terra rachada e seca.

Creia: eu não quero ser um “ministério” na vida de ninguém, não quero ser tolerado, não quero receber um amor “piedoso”, culpado, imposto. Eu não quero ser um “ministério”, não desejo ouvir palavras embaladas em meias verdades, não quero andar com quem me assassina todo dia no coração, que me censura com olhares velados e me despreza com abraços falsos e risos toscos. Não, me desculpe, eu não quero ser um “ministério” em sua vida, não desejo sua compaixão de ocasião, motivada por uma espiritualidade que se professa com arrogância, uma santidade que exclui, um sentimento de pertencimento a uma casta da qual só os “iluminados” podem fazer parte.

Assim, deixe-me longe de tudo isso, não me dispense, sequer, um minuto de atenção, como bem disse o Cazuza, “Estou farto da caridade de quem me detesta”, portanto, fique longe de mim se, por algum motivo, me tornei um saco de chumbo nas suas costas ou um azorrague rasgando a sua carne.

Que se acheguem a mim os impuros, os imperfeitos, os “desviados” da religião, gente que abraça com vigor, que senta em mesa de bar e dá risada dobrada, que liga nas noites frias e diz coisas que só os poetas embriagados são capazes de falar. Sim, quero ser o alvo de flechas de amor, quero ser transpassado pela solidariedade de quem sabe o que é lamber o chão da vida porque a queda se tornou inevitável, estou em busca de gente sem pedigree espiritual, mas com coração de carne, gente que não tenha a plástica religiosa e a performance do templo, aqueles que desprezam a homilética teológica que se tornou glacê para compor um discurso que congela até o sangue nas veias.

A verdade é que cansei dessa santidade feita de madeira de cedro, cansei de gente que não enverga, que fez da letra sagrada uma arma para matar o outro, que se sente bem em excluir e que ama os primeiros lugares na fila da indulgência e do cinismo. Quero andar com os profanos que se alegram com coisas simples, com os caídos que ainda sabem sorrir do nada, com os pecadores que despejam sentimentos que aquecem a gente em dias sombrios, com os desvalidos que sentam no meio fio quanto a noite chega, só para dizer “Eu estou por aqui...”.

Definitivamente, e me perdoe por tal, mas eu não quero ser um “ministério” na sua vida...


Carlos Moreira



14 junho 2017

O Ópio do Povo



Quando vi as ações dos últimos dias contra os viciados da Cracolândia de São Paulo, me lembrei de Jesus expulsando os vendilhões do Templo de Jerusalém, que faziam comércio do sagrado.

Sim, a despeito de uma discussão mais ampla sobre a ação da Prefeitura do Dória, pois o problema, visivelmente, não se resolve apenas expulsando as pessoas daquele lugar, o que temos ali é uma indústria de entorpecimento, um espaço público de culto ao vício, de morada de excluídos e marginalizados, de abrigo de bandidos e traficantes.

Como se pôde ver, a polícia vai lá, desmantela tudo, retira as pessoas a força, queima barracas, remove entulhos e, no dia seguinte, eles estão lá novamente, reerguendo o espaço que é o símbolo do descaso da sociedade com quem está a margem da vida.

No caso de Jerusalém, a medida da ação de Jesus foi proporcional a sua indignação, pois o Templo havia se tornado uma fábrica de entorpecimento de mentes e corações. De fato, os sacrifícios estavam dessignificados, os sacerdotes eram traficantes de influência junto ao Altíssimo, os levitas haviam se extraviado, ali se vendia religião a quilo, quinquilharias em nome da fé, o negócio do Templo movia a economia da cidade, e todo mundo ganhava alguma coisa e ficava feliz.

O Galileu quebrou tudo, virou mesas, distribuiu chibatadas, apregoou verdades, mas, no dia seguinte, eles reergueram tudo novamente, porque o crack religioso, fumado no cachimbo da espiritualidade farisaica, aquela que se reveste de boas obras, mas que revela, no íntimo do ser, a podridão da alma, uma vez absorvido pelas narinas, entre na mente e contamina o coração.

Religião vicia tanto quanto qualquer outra droga e entorpece, de tal forma, que o viciado não enxerga mais sua própria loucura, age como zumbi, tem olhos, mas não vê, tem ouvidos, mas não ouve, tem inteligência, mas não pensa, tem coração, mas não se apieda, tem convicções, mas elas para nada aproveitam, pois são apenas retórica oca e discurso vazio e não a manifestação de vida que reverbera atos de amor e justiça.


Carlos Moreira



28 maio 2017

A Mente de Cristo




Paulo era um homem com uma mente para além de seu tempo, certamente era o indivíduo mais qualificado intelectualmente do primeiro século.

Não obstante todo esse saber, tanto da filosofia grega, quanto da lei romana e da teologia judaica, ele prefere afirmar que considerou tudo isso como “esterco”, com vistas a alcançar um tipo mais excelente de sabedoria, a sabedoria do alto, aquela que nem carne nem sangue podem desenvolver, pois ela só se constrói por meios espirituais.

Ora, é por isso que escrevendo sua carta aos Coríntios, Paulo afirma que nós temos “A Mente de Cristo”, que é o que nos capacita a pensar de outra forma. Diferentemente, todavia, do que alguns inocentemente imaginam, a “Mente de Cristo” não é uma mente superdotada, com poderes cognitivos avançados, uma mente para além daquela que possuía Eistein ou Steve Jobs. A “Mente de Cristo” é uma mente que foi reconfigurada pelo Espírito Santo, ela recebeu o down load dos valores éticos do Reino de Deus e das Verdades do Evangelho com vistas a aparelhar a todo aquele que a possui a discernir coisas espirituais.

Portanto, quem tem a “Mente de Cristo” olha a vida com os olhos de Jesus, percebe as coisas como ele percebia, pensa como ele pensava, age como ele agiria. Mas não é só isso! Até a própria leitura e interpretação das Escrituras não pode prescindir deste “novo olhar”, pois sem esta capacidade de perceber o texto para além da letra, o que sobra é a interpretação caduca do código de regulamentação religioso.

Sim, o mesmo Paulo afirma que essa forma de crer produz morte, pois a letra precisa do Espírito para ganhar significado e propósito. Fora disto, o que sobra são regras infindáveis, liturgias ocas e sacrifícios tolos, os ditames de uma espiritualidade mórbida, algo tão bizarro que levou Jesus a perguntar a Nicodemos, o velho ancião do sinédrio, em tom sarcástico: “Você é mestre em Israel?”.

Já há algum tempo, tenho evitado discutir sobre a interpretação das Escrituras. Há mentes que se tornaram tão fechadas, danificadas que foram pelo espírito da letra, que não podem mais discernir nada para além do mandamento de Moisés.

Argumentar com tais pessoas é como falar de física quântica com uma criança, algo sem qualquer proveito ou benefício. Assim, estou certo, os que são de Deus ouvem a sua voz e se alegram com toda canção de paz. Os que não são, todavia, continuam nas praças esperando a velha cantiga religiosa, pois nada mais os alegra ou motiva.

Eu sei que pensar assim é algo totalmente desconforme, mas eu não sei mais pensar de outro jeito. Como bem afirmou Nietzsche: “E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”.


Carlos Moreira



25 maio 2017

Os Pecadores que Amam



Eu não acredito que ninguém possa conhecer a Deus, através de Jesus e do Evangelho, e ainda assim se tornar uma figura retórica, apática, expressando uma espiritualidade tão etérea que não dura para além do culto de domingo.

Conversão, para mim, é visceralidade, é uma experiência de uma violência tal, que as marcas ficam tatuadas na alma, há uma mudança no olhar, no falar e no sentir, o indivíduo nunca mais será o mesmo, algo avassalador lhe revolve as entranhas, um outro ser, cresce dentro de si, pede licença para vir a superfície dos dias, esmaga e consome a velha natureza.

Eu olho para esta geração, para as catedrais lotadas, para os 60 milhões de evangélicos e os 140 milhões de católicos no Brasil, e o que vejo é apatia, é superficialidade, é gente que não tem um centro de gravidade espiritual, nem um caráter modificado, nem gestos largos, nem cicatrizes que marcam a vida.

Na verdade, somos a geração dos crentes de plástico, gente sem alma, sem emoção, sem paixão ou zelo pelas coisas do Reino, sem espírito sacrificial ou compaixão, sem solidariedade. Amontoamos saber teológico, e carecemos de ações de misericórdia, decoramos catecismos e confissões, e nada sabemos da prática da fé expressa na troca com o outro, decoramos versículos bíblicos, e esquecemos as lições elementares de Jesus no Sermão do Monte, somos os reis da retórica e da falácia, mas estamos esvaziados de obras que referenciem a experiência de fé.

Lucas, em seu evangelho, nos fala de Jesus visitando a casa de um fariseu chamado Simão. Na narrativa do cronista, o anfitrião, devidamente acomodado, foi surpreendido pela entrada em cena de uma “Mulher da Vida”. Ela não havia sido convidada, jamais poderia estar ali, mas quebrou todo o protocolo e correu todos os riscos para estar com Jesus.

Diz o texto: “Em seguida, virou-se para a mulher e disse a Simão: "Vê esta mulher? Entrei em sua casa, mas você não me deu água para lavar os pés; ela, porém, molhou os meus pés com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Você não me saudou com um beijo, mas esta mulher, desde que entrei aqui, não parou de beijar os meus pés. Você não ungiu a minha cabeça com óleo, mas ela derramou perfume nos meus pés. Portanto, eu lhe digo, os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pelo que ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama". Lucas 7:44-47.

A conclusão é de uma obviedade flagrante: quem foi perdoado, quem nasceu de novo, quem foi regenerado pelo Espírito, quem teve a consciência ressignificada, quem sofreu a violência gentil da mudança de natureza, quem experimentou ter o coração de pedra transformado em carne, ama, e o amor cancela todos os pecados cometidos no chão da vida. O resto é etiqueta religiosa, é receber a Jesus sem dar-lhe a importância devida, é seguir prescrições, mas sendo esvaziado de todos os significados mais profundos da fé.

Sim, a lição de Jesus é tão clara, mas apenas aqueles que são como crianças é que poderão entender. O Nazareno não disse que era preciso frequentar templos, nem decorar textos, nem dar dízimos e cumprir liturgias, ele não fala de sacrifícios, de manuais comportamentais, nem de lutas frenéticas contra o diabo, apenas disse que quem ama, está perdoado, e João complementa: “Quem ama, conhece a Deus!”.

Eu não quero andar com “teólogos”, nem com “apóstolos”, nem com os big shots da religião, não quero mais me ocupar de discussões doutrinárias, ou de projetos eclesiais, mega-eventos, marchas ou coisas semelhantes, eu estou em busca de encontrar pecadores que amam, gente que chora e se compadece das dores dos homens e da Terra, gente que me inspire a viver a fé e seguir, a suportar estes dias que são tão difíceis...


Carlos Moreira


05 fevereiro 2016

Até que a Morte nos Separe... Só que Não!




Casamento é tema recorrente no aconselhamento pastoral: traição, separação, finanças, mesmice, os dramas se repetem e cansa ter de dizer, sempre, as mesmas coisas...

É difícil falar de casamento, sobretudo, para quem não está casado, e aqui digo casado não me referindo a quem acha que casamento é altar e cartório, ou seja, cumprir liturgias e rituais da Igreja e do Estado e viver na aridez, mas aos que se encharcaram de amor, os que penetraram não apenas o corpo do outro, mas os que invadiram alma e chegaram até o espírito!

Deixe eu lhe dizer uma coisa com a autoridade de quem está casado há 25 anos: casamento tem crise e, se não tiver, ele é a crise, pois a relação gangrenou e você não se apercebeu porque, provavelmente, já não se importa mais com o outro. Dependendo do que se carregue no coração, viver na mesma casa, dormir na mesma cama, comer na mesma mesa e fazer sexo com a mesma pessoa não é atestado de saúde conjugal, mas de esclerose relacional!

Eu sei que anos de convívio vão impor desafios hercúleos à relação: superar pequenas diferenças – que ficaram grandes, vencer a mesmice, reapimentar o sexo, cultivar o carinho, mas é fato que, mesmo com todo esforço, por vezes, o casamento acaba! Sem esforço, então, já nasce morto, dura de dois meses a dois anos, no máximo.

Portanto, um casamento acabar não é o fim do mundo, não obstante ser uma das maiores dores que um ser humano pode enfrentar, mas o problema, mesmo, é ele acabar sem acabar, ou seja, é você manter-se “casado” por causa do patrimônio, dos filhos, pela preguiça de separar, ou por questões religiosas. Aí, sim, é o fim!

Casamento acabado que não acabou é um horror, é como manter o vovô, morto, na sala de estar da casa, em estado de putrefação, degenerando-se lentamente na presença da família. Sim, óbvio, todos percebem: seus filhos – principalmente, os funcionários, os vizinhos, até o cachorro! E você ali, firme, como o capitão do Titanic, afunda com o barco, mas não perde a pose, e ainda mantém seu orgulho idiotado de poder afirmar que está casado, com a mesma mulher, há trocentos anos. E viva a hipocrisia!

Mas nada é mais bizarro do que casamento de crente que acabou e não acabou. Sim, é triste ver como as pessoas podem ser sequestradas de mente e alma pela religião, como um dogma aplicado de forma perversa sobre a existência castra sonhos e arrasa corações. E o sujeito-homem, defensor da moral e dos bons costumes, da indissolubilidade do matrimônio, do meio de sua amargura asfixiante, reza todo dia para a mulher cometer adultério – o que lhe daria a prerrogativa “legal” para a separação, ou que Deus leve sua “amada” para junto de Si, de tal forma que, pela via da viuvez, a vida possa, enfim, ser refeita.

Não sou dos que advogam o divórcio por qualquer idiotice, muito menos acredito em relações frívolas, mas creio que, por vezes, amputar o membro é melhor do que perder o corpo inteiro por septicemia. No que tange ao divórcio, Jesus afirmou: “Não foi assim desde o princípio...”, alertando-nos que, o melhor de Deus é casar e manter-se casado, mas, num mundo caído, onde nascem “cardos e abrolhos”, a vida é como pode ser, não como deveria ser, portanto, na falta de escolha, escolha o mal menor!

E assim, digo, com toda a responsabilidade que carrego, se teu casamento te faz pecar, corta-o e arranca-o fora, pois é melhor entrares divorciado e casado novamente no Reino de Deus, do que casado uma única vez, em meio a uma relação fraudulenta e cheia de perversidade piedosa, viveres, já aqui, no inferno da tua alma e, ao depois, na eternidade, quem sabe onde?

© 2016 Carlos Moreira

26 janeiro 2016

O Jejum que Alimenta o Coração




O jejum, no meio evangélico, é uma espécie de “Espinafre do Popeye”, o sujeito faz uso dele como um suplemento espiritual com vistas a se fortalecer, tornar-se mais ungido, mas destemido na sua luta contra o diabo, é algo travestido de sobrenaturalidade, não obstante não passe de uma prática supersticiosa e vazia.

Sim, o Jejum de Jesus foi feito como preparação para a oferta de si mesmo ao mundo, portanto, correlatamente, ele deve ser algo que aguça a consciência e fortalece o coração para a ação solidária e generosa com o outro no chão da vida.

O jejum tem, sim, esse poder de nos mover para fora de nós mesmos, ele leva a fixar o olhar para o que está no entorno, para as realidades dramáticas que nos cercam, como a dor, a miséria e a injustiça contra aquele que é nosso igual.

Isaías, no capítulo 58, já advertia a Nação de Israel quanto a esse jejum ascético, auto-indulgente e meritório, que visa fazer chantagem emocional com a divindade com vistas a tirar proveitos dela. Já ali, numa sociedade experimentando um desequilíbrio social grave, há a denúncia do abandono dos pobres em detrimento do exercício de uma espiritualidade oca, que imaginava que Deus desejava que o abastado se privasse de pão por um ou dois dias, enquanto o faminto agonizava sem ter o que comer.

O único jejum que agrada a Deus é aquele que você faz para o benefício do outro, um jejum que remove a lepra da alma para torná-la sensível ao sofrimento humano, o jejum que traz algum proveito alimenta o coração de solidariedade, move mãos e pés na direção dos indigentes da terra, dos esquecidos e soterrados sem qualquer esperança.

Tudo o mais, para mim, é só fuleragem, não é necessário se fazer um curso para aprender o óbvio! Com o que está dito aí, você já está diplomado em jejum, não precisa de mais nada...


Carlos Moreira

18 agosto 2015

Vício Espiritual




Eu vejo o que se faz, hoje, em nome da fé. As pessoas realizam simbiose de templos e doutrinas, elas não criam raiz em canto algum, são desalojados por opção, alimentam-se daquilo que lhes satisfaz os apetites do ventre, um tipo de mensagem que seja conveniente.

Ah, se elas soubessem o que isso produz na consciência...

É a alquimia religiosa tentando unir crenças tão distintas e irreconciliáveis que o produto final é um frankstein. Esse monstro, pasmem, se alimenta de uma matriz de convicções bizarras, costurada grosseiramente para dar forma a uma espiritualidade anômala.

Depois de certo tempo, o sujeito não fala mais coisa com coisa, está massificado por tantas mensagens que ouviu, com tantas ênfases distintas, que a alma se vicia em espasmos emocionais, é a necessidade de saciar a síndrome de abstinência do pseudo sagrado, a dependência criada pela catarse e pela manipulação.

Como qualquer outro vício, o viciado espiritual sofre de ansiedade de alma, precisa de uma divindade mágica que lhe torne o viver possível.

No estágio seguinte, sua mente passa a ser habitada por sofismas e crendices, ele vê fantasmagorias no cotidiano, o diabo assume o papel de protagonista, está em tudo e em todos, o indivíduo converte-se num injustiçado debaixo do sol, o mundo lhe arma ciladas.

Daí para frente vem à destruição da psique e do equilíbrio. Nosso Quixote passa a lutar com seres imaginários, entra na dita “batalha espiritual”, usa pirotecnia das cartilhas dos ghostbuster contra as potestades do mal. O diabo dá gargalhadas! É como tentar matar escorpião com farinha.

Triste, mas absolutamente real!

Encontro gente assim todo dia, marcada pelo desânimo e recondicionada de coração, são os filhos da desilusão que, ao final, é só o que tudo isso produz. Desgraçadamente, eles foram abortados pelo misticismo religioso, mas jamais paridos em fé e amor pelo Evangelho.

Carlos Moreira

13 julho 2015

Perdas & Danos do Apagão Religioso




Em tempo de doutrinas espúrias e igrejas insalubres, doença pouca é bobagem. Sim, é impossível ser exposto a estas coisas e não se contaminar para o mal, não adoecer alma e coração. Um sem número de pessoas me procura com os sintomas do que eu chamo de “apagão religioso”, uma síndrome contemporânea que se manifesta após o contato com o suposto sagrado.

A religião sempre foi o abrigo dos oprimidos e refúgio dos desesperados. O indivíduo que está vivendo dores existenciais não pensa ou age da melhor forma, sobretudo, quando se trata de discernir enganos. Igrejas são hospitais, bem sabemos, acolhe moribundos e “feridos de guerra”, mas cresce assustadoramente o número de instituições que se tornaram manicômios, lugares que não recuperam ninguém para a vida e, pior ainda, ajudam a aprofundar as patologias pré-existentes e fomentam novas anomalias.

Na verdade, quanto mais tempo a pessoa ficar exposta às dinâmicas destes lugares – cultos, programas, campanhas – tanto mais sofrerá os danos. Os conteúdos inoculados, ministrados por “sacerdotes qualificados”, não passam de doutrinas sincretizadas, interpretações fraudulentas, manipulações cirurgicamente preparadas para iludir e domesticar o sujeito levando-o a se tornar uma commodity na igreja-fábrica. O objetivo final é a serialização total, a padronização de comportamentos e a unificação de pensamentos.

Para veicular este tipo de alucinógeno espiritual, é necessário um ambiente adequado. Sim, quanto mais você excita o indivíduo, tanto mais ele poderá responder a esses estímulos de forma “satisfatória”. A mente religiosa é condicionada para só se satisfazer em meio a uma overdose de sensações e sentimentos, tudo é feito para exacerbar emoções, é o clímax da alma, mas não há absolutamente nada para a mente e a razão.

Cultos catárticos, com manifestações pseudo espirituais, onde anjos e demônios aparecem com frequência e onde curas milagrosas se proliferam, faz qualquer um imaginar que está pisando em solo sagrado, que o mediador que ali está é imantado por Deus, que tudo agora é apenas uma questão de fé, pode acontecer, o milagre está a caminho. Ora, quem pode sobreviver a algo desta natureza, quem pode ficar são inalando este veneno?

O dano mental se dá, sobretudo, porque a mente que foi hipnotizada pela religião fica viciada neste processo que explicamos. Libertar alguém desta prisão dá trabalho. Quase sempre, a readaptação à vida normal leva tempo. O indivíduo religioso, ao ver-se livre dos condicionamentos aos quais foi exposto, sofre em muitos casos da síndrome pós-traumática da liberdade culposa, ou seja, demora a agir normalmente porque ainda acha que tudo o que pensa ou faz é pecado.

O tempo que leva para que haja uma rearrumação da psique é proporcional ao tempo de exposição ao qual a pessoa foi submetida a estas dinâmicas. É triste, mas em muitos casos, esses danos são irreversíveis. O sujeito alvejado de forma intensa, passa a sofrer de diversos tipos de transtornos, tais como: delírio religioso, pânico, psicose, neurose, depressão e, desgraçadamente, jamais consegue se recuperar totalmente. Psiquiatras e psicólogos sabem muito bem do que estou falando.

A premissa do Evangelho de Jesus é: “conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará”. O chamado é para uma profilaxia de alma, para o quebrantamento do coração e para a transformação da mente, reajustada a novos valores e princípios que produzem paz e bem na vida. A luz da revelação de Deus, em nós, produz esperança, aponta-nos o Caminho de reinvenção de nós mesmos, da morte de quem fomos para a ressurreição de quem seremos.

© 2015 Carlos F. S. Moreira

11 julho 2015

Até que o "Casamento" os Separe




Casamento, conforme as Escrituras, não se faz nem no cartório, nem na igreja, casamento não é nem civil, nem religioso, não é nem pagão, nem cristão.

Casamento é encontro de propósitos, é consciência apaixonada, é latência do coração enternecido, são olhos que se encontram, bocas que se tocam, abraço apertado, química de sentimentos e mistério insondável.

Casamento é, antes de qualquer coisa, uma união de espírito, homem algum pode celebrar isto, papel nenhum legisla no sagrado da alma de duas pessoas que desejaram se dar por inteiro, uma a outra, sem que nada os sequestre desta entrega despudorada, insana e intensa.

Casamento é abrir mão, é dar prazer, é dar-se de si, do melhor do que se tem, é alegria na alegria alheia, é sofrimento conjunto, é partilha da dor, é lágrima que semeia esperança, e carinho que afaga a pele e faz molhar até as entranhas do ser.

Por favor, não me chame para lhe casar, nem me faça propostas para celebrar suas núpcias com as pompas deste tempo presente, nesta sociedade das aparências, com todos os requintes da festa que acontece do lado de fora, mas que não se projeta para dentro por total falta de entendimento do que se está fazendo.

Não, eu não sou contra a celebração, mas sou contra toda comemoração que aconteça apenas para os holofotes da sociedade, e não parta das dinâmicas que acontecem nos ambientes interiores, onde apenas Deus pode, de fato, fazer soar a música e brotar a alegria.

Ora, eu penso que quando esses pressupostos não se estabelecem como verdade e fé, de tal forma que o que se exteriorize seja apenas a significação do que já acontece no íntimo do ser, o que está sendo feito é apenas uma encenação social.

Portanto, é um enorme equívoco acharmos que algo possa ser sagrado sem proceder do coração, pois sagrado é tudo aquilo que reverencia a Deus no íntimo, e vaza pela vida em expressões de amor e gratidão. Tudo o mais é liturgia oca e sem propósito, é apenas o badalar do címbalo que retine, mas que não produz música para acalentar a alma, nem o prazer desejoso e amante que apaixona os apaixonados.

E assim, eu vos digo, casem-se sem “casamento”, para que seja possível viver junto até o outono dos dias, para que eu não tenha que declarar a confissão litúrgica requintada: “Eu vos declaro marido e mulher até que o casamento os separe”...

Carlos Moreira

05 novembro 2014

A Parábola do Pastor Rico




A PARÁBOLA DO PASTOR RICO

Crentonildo, 45 anos, pastor “bem sucedido”, casado, pai de 4 filhos, com curso de Formação Teológica, versado em inglês, pós-graduado em igreja de renome nos EUA, estava de férias em Israel.

Sentado no local onde, acredita-se, seja o Tanque de Betesda, meditava tranquilamente naquela tarde fria, pôr do sol em Jerusalém, quando, de repente, Jesus apareceu e sentou-se ao seu lado. A partir daí, iniciou-se a conversa que passo a narrar a seguir...

- Crentonildo – Bom Mestre, que posso eu fazer para que minha congregação herde a vida eterna?

- Jesus – Ora, tu não sabes o que propõe o Evangelho? Ama os abatidos, acolhe os caídos, sê solidário com os pobres, abraça o diferente, ensina a Verdade, faz discípulos e tua comunidade será salva!

 - Crentonildo – Bem... É... Deixa eu ver... Mas... Tudo isso tenho feito, Mestre, desde a minha juventude!

 - Jesus – Então, só uma coisa te falta: vende teu templo e tudo o que nele há e dá aos pobres. Faze isso e depois vem e segue-me

 - Crentonildo – Mas Senhor, como bem sabes, tenho uma mega-igreja na minha cidade... E não poderia ser diferente! Para abrigar nossos dez mil membros, é necessário manter aquela enorme estrutura! 

 - Jesus – Por quê?

 - Crentonildo – Ora, como vamos acolher mais de duas mil pessoas em cada um de nossos 4 cultos?

 - Jesus – Para que tanta gente junta?

 - Crentonildo – Como assim?

 - Jesus – Ao invés de uma igreja com dez mil membros, você poderia ter dez com mil membros...

 - Crentonildo – Mais assim eu enfraqueceria a estrutura e fragilizaria o planejamento!

 - Jesus – Pelo contrário! Fazendo desta nova forma, você estaria em mais lugares, alcançando mais pessoas! Assim, fortaleceria a estrutura, pois haveria mais espaços para novos líderes, novos grupos ministeriais, mais gente envolvida, compromissada... A cidade inteira seria beneficiada por esta ação!

 - Crentonildo – Olha Jesus, você não conhece aquela gente... Eles precisam de estacionamento, de vários banheiros, de fraldário, estúdio de gravação, quadra poliesportiva, salas, auditórios, é muita coisa!

 - Jesus – Você é pastor de um igreja ou administrador de um shopping center?

 - Crentonildo – Precisamos de tudo isso se não, não funciona!

 - Jesus – Por que não se reúnem nas casas? Algo mais simples, mas intimista?

 - Crentonildo – São poucos os que estão dispostos a abrir suas casas. Por que você acha que a igreja precisa ser tão grande?

 - Jesus – Porque as casas deles são deles mesmos,  não são minhas, não estão a minha disposição...

 - Crentonildo – E minha equipe pastoral? Como vamos mantê-la? Como poderei pagar os ministros se fragmentar a frequência e distribuir as pessoas em várias comunidades?

 - Jesus – Seus pastores não trabalham?

 - Crentonildo – Meu Deus! Em que mundo você está? Pastor de igreja grande trabalha muito e tem que ganhar bem! É tempo integral!

 - Jesus – Eles poderiam ter trabalhos seculares e exercer o ministério. Espalhados em diversas empresas, seriam oásis de misericórdia e graça em meio a tanto sofrimento. O Paulo, que foi meu apóstolo, tinha seu próprio trabalho, não dependia de igreja para viver. Em alguns casos, talvez fosse bom à dedicação exclusiva, mas isso deveria ser exceção, não a regra. 

 - Crentonildo – Mas Paulo não precisava batizar, casar, enterrar, fazer 15 anos, aconselhamento, bodas de prata, aniversário da sociedade feminina, visitar hospital, ter reunião com os jovens, com os casais, fazer palestras em movimentos...

 - Jesus – E por que você não deixa que o povo realize estas coisas? Em meu Nome, eles podem e devem fazer tudo isso! Se você não os deixa fazer, eles ficam obesos espiritualmente, acomodados, confortavelmente anestesiados.

 - Crentonildo – Você tá de brincadeira! Fazer tudo isso sem ir ao Seminário Teológico? Sem ordenação? 

 - Jesus – Mas eu  já os ordenei quando disse: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”!

 - Crentonildo – Sim, mas isso foi há muito tempo, e foi muito genérico. Ali tudo era muito frouxo, sem organização, sem institucionalização. Agora as coisas são diferentes, ninguém pode ir fazendo o que quer sem ter nosso aval antes.

 - Jesus – Quando criei a igreja, estava criando um organismo vivo, não uma organização morta. Era para todos estarem envolvidos, todos serem usados, pois todos são sacerdotes!

 - Crentonildo – Olha, voltando a questão dos custos, você não tem ideia do quanto pagamos para manter tudo aquilo funcionando? É taxa de energia, bombeiro, água, internet, são os funcionários, o jardim, a manutenção, os impostos sobre tudo isso, é muito gasto!

 - Jesus – Se a estrutura fosse mais simples, com menos despesas, este dinheiro poderia estar sendo utilizado para ajudar os necessitados, da própria comunidade, e outros, de bolsões de pobreza próximos.

 - Crentonildo – Mas nós já damos 20 cestas básicas por mês! E tem o pessoal que faz um sopão nas quintas feiras.

 - Jesus – Estas são ações marginais, apenas pontuais. Vocês poderiam fazer coisas mais relevantes. Ao invés de usar o que vocês chamam de dízimo para cobrir tantos custos, além de manter certos luxos, poderiam adotar uma favela e fazer casas simples para as pessoas. Vocês poderiam ajudar creches nestes lugares, ou solidarizar-se com ações de ONG´s e outros institutos que promovem cursos e tentam viabilizar um tipo de ajuda que promove socialização e dignidade. Lembre-se que Deus deseja ser amado no outro!

 - Crentonildo – Olha Jesus, me desculpe, mas isto está me cheirando a Espiritismo. Esse negócio de ação social, que se preocupa com o material e não traz salvação ao espírito, não serve para nada.

 - Jesus – A sua fé sem obras é morta, já dizia Tiago. Vocês são teóricos da religião, platonistas modernos, desenvolveram uma espiritualidade que se ocupa das coisas do céu e se esquece das demandas da Terra.

 - Crentonildo – Além disso, mesmo que eu quisesse fazer assim, não poderia, pois temos nossas regras internas, nossos cânones, e eles determinam como o dinheiro deve ser gasto. Você sabia que 70% do que arrecadamos vai para pagar a folha da igreja: pastores, músicos, professores, etc.?

 - Jesus – Então a igreja existe para viabilizar o ministério de vocês! Se fizessem uma auditoria, e expuzessem aos membros estes números, eles diriam que nenhuma empresa pode gastar mais do que 40% de suas receitas com folha de pagamento. Como, então, uma igreja pode se dar ao luxo de fazer um despautério destes?

 - Crentonildo – Você pensa que tem muito membro contribuinte? Hoje em dia, só 30% da comunidade oferta regularmente, dá, de fato, 10% de dízimo. O resto fica só olhando... É dureza!

 - Jesus – Eles não dão porque não acreditam no que vocês pregam, nem muito menos no que vocês fazem! Se vissem a aplicação justa dos recursos, todos estariam contribuindo de alguma forma, uns com mais, outros com menos, de acordo com as possibilidades de cada um, conforme Paulo escreveu na carta aos Coríntios, que é o Espírito do meu Evangelho. 

 - Crentonildo – Olha Jesus, nós não somos daqueles que pregam prosperidade não! Nosso dinheiro é mirrado!

 - Jesus – No meu Reino não há acúmulo, mas distribuição. Quanto mais se distribui, mais Eu dou, quanto mais se acolhe ao caído, ao necessitado, mas Eu derramo bênçãos sem medida, de todos os tipos... 

 - Crentonildo – Olha Senhor, queria que você ficasse lá com a gente só um mês, para você ver como aquilo lá funciona. Tenho certeza de que só este tempinho já mudaria sua opinião.

 - Jesus – Olha Crentonildo, eu conheço a sua comunidade. Digo sua, porque ela nunca foi minha. E sei bem o que vocês fazem lá, por isso lhe dei todos estes conselhos. Agora tenho de ir. Mas digo-lhe uma última coisa: o que tens de fazer, faze-o depressa, para que Eu não venha e mova de ti o teu candeeiro e para que tu não te tornes cego, pobre e nu. 

 E assim Jesus levantou-se e saiu, lentamente. O texto, como se pode perceber, é fictício, mas os fatos descritos, são reais. Sim, e quem é pastor, quem é líder, quem sabe como a “engrenagem” funciona, perceberá que fui simplista e exageradamente misericordioso, não expondo coisas que aqui não precisam ser ditas. 

É tempo de repensar a igreja! Não sou contra a estrutura, mas contra toda a estrutura custosa, megalomaníaca, inchada, portentosa. Bom seria que nos reuníssemos em lugares mais simples, quem sabe até alugados, para que não se investisse tanto na aquisição e construção de templos, não raro, asfixiando as pessoas para viabilizá-los. Nós pregamos o desalojamento, dizemos que esta não é nossa casa, que somos peregrinos, e colocamos prata e ouro enterrados no chão, reduzimos a igreja a tijolo e concreto, esquecemos do essencial, que são as pessoas! 

Mas é bom lembrar que, muito em breve, aquele que é o Cabeça da Igreja voltará para buscar a Sua Noiva. Neste dia, não caberão disfarces, encenações ou desculpas, tudo ficará patente diante de nossos próprios olhos. Portanto, quem tem ouvidos para ouvir, ouça, o que o Espírito Santo está dizendo a igreja.

Carlos Moreira

09 janeiro 2014

Dublê Quase Perfeito



O “pecado” da Figueira era o disfarce. Era ter folhas e não ter frutos, estar decorada, mas não ter nada para oferecer, parecer apetitosa de longe, ainda que, de perto, estivesse pálida e seca.

Jesus não suportava esse tipo de estelionato. Ele sabia o quanto isso fazia mal ao ser. Aquela Figueira era uma arquetipia de Israel, uma representação daquela devoção que cumpria as etiquetas da religião enquanto, ao mesmo tempo, asfixiava as fontes da alegria de ser. Era o mal daquela geração: amargar existir apenas para fora. Sem frutos, a árvore secou. No correlato, sem amor, o que se pode aproveitar?

Hoje a Igreja é o Israel de Deus, a Kahal, a assembléia dos chamados à festa onde o perdão é servido como dádiva do amor no banquete da vida. Mas as dinâmicas da religião ainda continuam tão vívidas, privilegiam aparências, disfarces em plena luz do sol ao meio dia.

“Venha para cá!”, eles dizem. “Entre, sinta-se em casa. Aqui acolhemos a todos, sem distinção, sem prediletos”. Mas ao passar pela porta, você é orientado a pegar a sua máscara. Coloque-a sutilmente, ajuste-a levemente e sente-se confortavelmente. Aguarde um pouco e você logo ouvirá: “Não se incomode, aqui todo mundo está escondendo alguma coisa, aqui todo mundo é perfeito”.

Então, sorria! Seja o mais artificial que puder. Todos estão olhando e todo mundo sabe de todo mundo. No fundo, é como um grande baile onde a insensatez é senso comum. Você é fraudulento? Não se importe! Pareça honesto, fale de princípios, defenda a honradez! Nas próximas duas horas de “culto”, você pode ser quem quiser, só não seja você mesmo.

Você é gay? Não se atormente! Mas seja discreto, sente-se como macho, pareça um “pegador” e tudo estará bem. Se tiver um relacionamento, cuidado! Não cometa deslizes! Não vá esquecer de usar os artigos e pronomes sempre no feminino. Ademais, que importa que se saiba a verdade? Aqui, entre os “santos”, não pode haver “manchas” ou “máculas”. Deixe os incômodos para a dura realidade que está do lado de fora...

E assim, de disfarce em disfarce, os dias vão se arrastando... O mentiroso, como num passe de mágica, torna-se assertivo. E no picadeiro do mercado da fé, o fofoqueiro é confiável, o avarento, generoso e o hipócrita, autêntico. Até eu, que sou lixo, sinto-me são neste meio... Quisera, todavia, ser apenas pecador...


Mate-me, se preciso for, mas diga-me sempre a verdade na cara, crua e rara, verdade verdadeira! Não me deixe viver no engodo, não me deixe sucumbir no engano de mim mesmo. Livra-me da embriaguez de me imaginar protótipo de idealizações, projeto perfeito, quase rarefeito, de um Robocop espiritual que, na melhor das hipóteses, não passa de manequim de espantalho travestido de uma espiritualidade arrotada boca a fora, mas jamais encarnada como vida no chão do mundo.  

Carlos Moreira

31 dezembro 2013

Que me Importa...




O ano termina hoje. Muda o calendário, mas segue a vida. Os problemas de 2013, garanto, estarão presentes em 2014. O que pode dar a cada um deles nova significação serão suas atitudes. Não há nenhum tipo de magia na virada de um ano.

No dia 31 de dezembro, é praxe de algumas instituições e empresas fecharem para fazer balanço. Com muitas pessoas também é assim... Elas tentam fazer um encontro de contas com a vida, analisam a contabilidade dos dias, esmiúçam lucros e planos, perdas e danos, e chegam assim ao resultado da operação. Por vezes, ele é positivo, mas, não raro, acaba-se por perceber que o ano trouxe mais tristezas do que alegrias, deixando o saldo da conta no vermelho.

Quando isso acontece, nossas ambiências interiores são invadidas por aquele sentimento de fracasso, de vazio. Olhamos para trás e verificamos que não valeu a pena. Gastamos tempo, dinheiro, esforços, gastamos vida, e o retorno, simplesmente, não veio. Plantamos e não colhemos, amamos sem ser correspondidos, trabalhamos muito para pouco resultado, corremos e não conseguimos alcançar, choramos, mas não houve quem nos consolasse.

Contudo, estou decidido: não vou guardar nenhum tipo de sentimento ou alimentar qualquer tipo de pensamento que não seja argamassa para construir escadas e não muros. Em 2014, farei ainda melhor do que fiz em 2013! Trabalharei com mais paixão, servirei melhor as pessoas, gastarei mais tempo com meus amigos, aprenderei a sorrir mais e a reclamar menos, pois, que me importa se nem tudo saiu, exatamente, como eu queria?

Que me importa se eu amei e não fui correspondido? Amor é uma coisa que nunca se esgota, quanto mais agente dá, mas ele em nós se renova. Além do que, o amor não faz balanço, nem acerto de contas, se há desigualdades, ganha sempre quem deu mais de si ao outro. Se você amou sem ser amado, se se doou e não foi compensado, se deixou-se gastar por quem não lhe deu o devido valor, que importa?! Melhor foi amar do que represar as fontes do coração e tornar árida a alma. Quem dá o melhor de si, sempre receberá como paga da vida paz e bem para o ser.
    
Que me importa se o governo me frustrou e deixou aquela sensação de que fui roubado? Creia, não será sua incompetência que irá me fazer sonegar, ou deixar de agir com responsabilidade. Seu descaso não me levará a burlar as leis ou desrespeitar a constituição. Pelo contrário, minha revolta será a minha fome e sede de justiça, minha indignação se revelará pela minha honradez, ainda que todos façam errado, e torçam para que dê errado, eu permanecerei fiel aquilo em que acredito. Farei uma revolução primando pela verdade, começando por mim mesmo, darei o exemplo de que agir de forma correta não é diferencial, é obrigação!

Que me importa que eu não tenha ganhado com minha profissão aquilo que entendo ser justo? É triste, mas eu sei que muitos estão terminando o ano mais pobres e endividados. Num mundo em que as pessoas são julgadas pelo que possuem e não pelo que são, é de desanimar. Mas fazer o quê? Mudar de atividade? Tentar a ilicitude? Não. É certo que eu ganhei menos do que merecia, mas com minha atividade ajudei a tornar a sociedade um pouco melhor. Não fiz das circunstâncias um trampolim para o oportunismo, nem esmaguei aqueles que estavam sob minha gestão. Não maximizei lucros economizando com a justa remuneração de outros, nem fiz intrigas ou me submeti a jogos de poder. De uma coisa, todavia, estou absolutamente certo: busquei fazer o melhor que pude com os dons e habilidades que recebi. Nem sempre o resultado daquilo que fazemos é financeiro, por vezes, ele se traduz por um simples sentimento de dever cumprido.
 
Que me importa que eu não tenha sido o mais esperto, ou o que tirou mais vantagens das oportunidades? Ora, se para tal era preciso negar valores, barganhar princípios, lotear o coração por preço e tornar a consciência venal, melhor que tenha sido assim mesmo. Estou orgulhoso de ceder a posição para alguém mais velho, ou de dar oportunidade para o outro me passar no trânsito, ou ainda de não ter feito negócios que não reconheçam os direitos da propriedade e autoria. É provável que o mundo não tenha ficado melhor com minhas pequenas iniciativas, mas eu certamente fiquei! A esperteza, por vezes, é inimiga da destreza, e eu prefiro saber fazer, do que já levar feito.

Que me importa se eu me dei, se fui amigo, se agi com lisura, e não fui compensado ou mesmo compreendido? Eu sei que a ingratidão é coisa doída, que fere o ser com a aspereza do metal que rasga a carne, mas eu aprendi que é melhor dar do que receber. Como dizia a velha canção de Dominguinhos: “amigos a gente encontra...”. Eu sei que dá medo abrir a casa e o coração, e mais medo dá quando tornamos alguém íntimo do nosso ser e ele nos rouba a privacidade de existir entre cortinas de seda. Há os que te apunhalaram com o punhal da língua afiada, e os que te desprezaram em meio ao aguaceiro que caiu na escuridão da noite. Não te deixes abater pelo amor que te foi negado, segue resignado que o amanhã trará novamente o sol.
    
Que me importa se a minha fé parece utopia e as minhas crenças me levam a andar na contramão? Ora, não há prêmio sem lágrimas, nem vitória sem luta! Em meio a uma sociedade baseada na imagem, eu quero ser real, em meio a uma geração que deseja apenas ser feliz, eu quero ser perfeito, as voltas com um tempo onde consumir é a marca de existir, eu quero continuar repartindo. O Deus em quem acredito é diferente dos demais, ele chora, sorri e sangra. Abriu mão da sua glória para tornar-se homem comum. Não se parece com um super-herói, pois não sabe lutar, não tem uma armadura e sua única arma é o amor. O símbolo da minha fé não é uma espada, ou uma estrela, mas uma cruz. Eu sei: estou mesmo indo no contra-fluxo, mas a fé é mesmo absurdo...
 
E por tudo isso, e muito mais, que eu conto outro dia, feliz 2014 para você. Se 2013 não foi como você pensava, ou gostaria, na verdade, foi como deu para ser, foi como podia...  

Carlos Moreira

18 janeiro 2013

Eu, Dublê de Deus?



“Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?”. MT. 16:13


Curioso Jesus fazer esta pergunta? Não parece coisa de gente insegura, que está preocupada com a opinião pública? Para mim, todavia, Jesus estava interessado em saber o que os discípulos pensavam, e não a multidão, pois, logo em seguida, questionou: “e vocês? Quem vocês dizem que Eu sou?”. Pedro, impetuoso como sempre, foi quem declarou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”. 

Entretanto, o mesmo Pedro, que fez a “confissão bombástica”, não muito depois, foi duramente repreendido pelo Senhor: “arreda daqui satanás, pois és para mim uma pedra de tropeço”. Como pode, num momento alguém ser usado por Deus e, no outro, pelo diabo? Por que isto acontece? 

A questão gira em torno de dois eixos importantes para a nossa espiritualidade: a confissão e o testemunho. Confessar é algo fundamental, pois, conforme as Escrituras, se cremos com o coração precisamos declarar com a boca aquilo que foi introjetado na consciência por meio da fé. Mas o processo não para por aí... Quem confessa algo, deve materializar na prática aquilo que exprime crer como reflexo do ser. A confissão em si mesma é como uma lata vazia, que apenas ressoa os sons que dentro dela são produzidos. 

Para nossa tristeza, assim tem sido o cristianismo, muito parecido com a confissão de Pedro, retórica pura. Muita falação, mas pouco testemunho. É uma religião de garganta, verborrágica, contudo sem respaldo da vida, sem ações e desdobramentos que transformem os conteúdos em prática existencial. A pergunta de Jesus, todavia, não vai calar: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. Quem é Jesus para você? Melhor ainda: como você transmite isto às pessoas?

Perceba, se sua resposta é apenas um discurso teológico, sem respaldo das ações práticas, você pode ter se tornado um teórico da religião, que confessa algo com a boca, mas que não materializa com a vida. A melhor forma que há para se dizer as pessoas quem é Jesus é a partir de sua própria encarnação dEle – “já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” – como se você fosse um dublê, alguém que assumiu o papel do outro. Isso, de forma alguma lhe descaracterizará, pelo contrário, você será mais você tanto mais a vida dEle esteja simbiotizada com a sua, pois o propósito eterno de Deus é ser o Pai de uma grande família de muitos filhos semelhantes a Jesus! 

Finalizo com as palavras sábias de São Francisco de Assis: “viva o Evangelho. Se necessário, fale sobre ele”. 

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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