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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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14 julho 2018

Os “Dias” de Cada Geração




"E, como foi nos dias de Noé..., nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam...”. Mateus 24:37-39
Noé era um homem bom e justo vivendo em meio a uma sociedade corrompida e empedernida, uma geração vitimada pelo “espírito do tempo”, algo capaz de anestesiar mente e coração e impedir que o mal que se avizinhava fosse discernido. 

Eclesiastes, em sua sabedoria, ensina que na existência há tempos e tempos, e cada tempo tem o seu próprio fim e também o seu próprio “espírito”. 

Quando olho para a minha geração, neste dia chamado hoje, percebo, claramente, a atuação desse mesmo “espírito” que operou nos dias de Noé, a mesma complacência, a mesma displicência, a mesma resistência a Verdade e a Justiça. 

Sim, nem mesmo aqueles que se dizem “salvos” e que fizeram da religião seu guia e do templo sua morada são capazes de perceber o que está acontecendo, pois a igreja tornou-se um covil de salteadores, a doutrina transformou-se em alucinógeno, os profetas estão mortos, não há quem faça o bem, não há quem busque a Deus! 

Todavia, como nos dias de Elias, Deus continua a se mover, e junta para si aqueles que não se dobraram às potestades, que não sucumbiram a instituição, que não reverenciam ritos e dogmas, liturgias e paramentos, gente que se vestiu com as vestes do Evangelho, que não se rendeu a “tradição da igreja”, algo tão assemelhado a “tradição dos fariseus” dos dias de Jesus. 

Só cego não enxerga, e não falo de cegueira física, mas de cegueira espiritual, estamos diante de gente que olha sem vê, uma vez que os olhos do coração estão vendados e a mente cauterizada, impedida de compreender aquilo que procede da verdadeira fé. 

Creia, há muitas “nuvens” sob nossas cabeças, há muitos “gases” condensados, principados se movem, silenciosamente, e articulam o plano final, tecem o script que fará com que o Anticristo se revele. 

É como nos dias de João, que afirmava que a maldade imperava, mas ele discerniu, pela revelação, o que estava por vir, jamais foi surpreendido. 

Sim, a surpresa arrebatará a igreja neste tempo, pois os que se dizem Discípulos do Reino vivem como nos dias de Noé, fazem marchas, movimentos e empreendimentos, comem a maldade e folgam com a injustiça, embriagam-se em seu próprio egoísmo, deseumanizam-se olhando a dor do outro e afirmando: “Eu não tenho nada com isso”. 

Mas eles não tardam por esperar, o “dilúvio” está vindo e ninguém poderá escapar das suas “águas”, os homens se afogarão em sua vaidade, serão submersos em meio ao caos que eles mesmos produziram. 

A verdadeira igreja, todavia, será preservada, assim como a Família de Noé foi. E aqui não estou falando de grife religiosa, nem de grupeto com placa na fachada do templo, muito menos de confraria denominacional ou agremiação eclesial, estou falando dos lavados e remidos no Sangue do Cordeiro, aqueles que carregam o selo do Espírito, que foram marcados com as Marcas da Cruz e o fogo da Palavra. Estes jamais serão confundidos ou envergonhados, estes são os que reinarão com o Senhor e desfrutarão da vida eterna. 

Abra seus olhos! É tempo de discernir... 


Carlos Moreira



12 junho 2017

E Daí que Você Está Sozinho?



E daí que você está só? Você preferia estar numa relação amarga, onde a cumplicidade acabou e o que sobrou foram cobranças ácidas e reclamações cáusticas?

Você preferia estar numa relação neurótica, onde há gritos e xingamentos, ofensas e descomposturas?

Você preferia estar numa relação abusiva, com chantagens e manipulações, com violência emocional e física, deitando com um vampiro que chupa sua alegria de viver?

Você preferia estar numa relação anoréxica, onde não há confiança, onde a magreza da alma é o resultado de traições e mentiras, de escusas e joguetes perversos?

Você preferia estar numa relação retalho, onde o outro se dá por partes, onde você não é prioridade e o que lhe sobra é apenas um pedaço da pessoa?


Você preferia estar numa relação berçário, onde se tem que cuidar da infantilidade do outro que nunca cresce, que insiste em andar com fraldas na mente e mamadeira na boca?

Você preferia estar numa relação patológica, onde a doença de um alimenta a insanidade do outro, onde a simbiose do ser mixou o que havia de pior em ambos, de tal forma que um faz o bem ao outro fazendo o mal de cada dia?

Você preferia estar numa relação sem sintonia, onde as estações não combinam, onde os gostos são díspares, onde não há encontro nem de corpo, nem de alma, nem de espírito?

Você preferia estar numa relação blazé, onde todos os apetites pelo outro foram se perdendo ao longo do caminho e mantém-se o convívio apenas por questões financeiras e patrimoniais?


Você preferia estar numa relação berçário, onde se tem que cuidar da infantilidade do outro que nunca cresce, que insiste em andar com fraldas na mente e mamadeira na boca?


Você preferia estar numa relação promíscua, onde o sexo é feito mecanicamente, tendo um na cama e outro na mente, onde o corpo está no lugar e o coração viajando numa outra órbita?

Ora, meu amigo(a), eu vejo isso todos os dias, vejo gente que seria muito melhor se estivesse solitário, tendo reverência por si mesmo, seguindo seu caminho com paz e quietude no ser. Como bem disse Fernando Pessoa: “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.

Portanto, feliz Dia da Solidão para você! Celebre o fato de não ter se rendido ao comércio do amor, a negociata da paixão, ao tráfico do sexo! Sim, você é um sobrevivente de um mundo sem sentimentos, onde conviver com o outro, não raro, é apenas viver uma solidão a dois, como bem afirmou o poeta...


Carlos Moreira

11 junho 2017

Tatuador e Tatuado: Ambos são Culpados e Inocentes




OS FATOS

Um adolescente drogado, sem emprego, sem estudo, sem opções, é autor de pequenos furtos e delitos.

Dois jovens que não acreditam nem no Estado nem na Polícia se tornam justiceiros locais e realizam tortura psicológica e física como forma de punição do indefeso infrator.

A sociedade viraliza, nas redes sociais, o vídeo desta tortura e desperta todo tipo de sentimento, alguns apoiando, outros condenando a ação. Uma “corrente do bem” é iniciada com vistas a “resolver” o problema da inscrição “Sou ladrão e vacilão” feita na testa do infrator. A ação visa, através de uma arrecadação de fundos, realizar cirurgia reparadora do dano epidérmico da tatuagem.

OS FEITOS

O infrator será em breve cirurgiado, removerá da testa a inscrição maldita, terá recomposta a pele, mas continuará tatuado na alma, vitimado que foi por esta ação violenta.

O texto acusatório pode até desaparecer, mas os dizeres que estão na consciência não têm como ser removidos: “Eu sou um sujeito sem esperança”, “Eu sou um drogado e prostituído”, “Eu não tenho estudo nem opções”.

A questão é: até onde ele é vítima e até onde é vilão? Como chegou a este estágio? Como sairá dele? Qual foi o seu passado, qual é o seu presente, qual será o seu futuro? São questões que ficarão abertas, não têm como ser reparadas ou removidas.

Quanto aos dois justiceiros valentões, serão punidos com os rigores da lei. Sim, eles não são membros de um grupo de extermínio profissional, fosse assim, o infrator estaria morto, mas se sentiram no direito de fazer a ação como forma de punição pública, representam o cidadão comum indignado e cansado com um Estado ineficaz e injusto, que prende por 5 anos um homem por carregar pinho sol consigo e absolve, com farto material provatório, o Presidente da República enredado com corrupção até o pescoço.

Eles representam, ainda, a insatisfação da sociedade com uma Polícia que resolve apenas 5% dos assassinatos do país, que mata o preto e o pobre, que se alia, não raro, com os marginais, para receber “pedágio” e propina, que é despreparada e mal paga, mal aparelhada e pouco eficiente.

E nós, na qualidade de cidadãos brasileiros, continuaremos com essa “indignação de ocasião”, nos movendo via redes sociais para realizar ações cirúrgicas e paliativas.

De fato, eu e você continuaremos alimentando esta hidra de muitas cabeças que é o Estado, que não fornece educação, segurança, saúde, emprego, e relega os habitantes desta nação a sobreviver como se estivessem numa selva de pedra e cimento, onde as regras servem para uns e não servem para outros, onde a polícia mata o pobre, a justiça absolve o rico, a economia serve os bancos, os políticos são parasitas se alimentando de benesses, os mega-empresários são desonestos e corruptores, e o povo é indolente com a perda da moral e leniente com a falta de ética.

A ação “reparadora” que está sendo feita, tem seu valor, mas serve, flagrantemente, como desculpa para, no fundo, amenizar nosso descaso com o que acontece diante de nossos olhos todos os dias. Vamos remover a tatuagem infame do rosto do garoto, mas não poderemos remover tudo o que está tatuado em nosso coração e consciência e que reverbera como imobilismo e desprezo pela dor humana, como insensibilidade com a tragédia social que está na porta de nossa casa e como falsa religiosidade que nos faz sentar nos bancos da igreja e ignorar o que acontece para além das paredes do templo.


Carlos Moreira




10 abril 2017

Eu Não Quero...



Eu não quero ser escravo de qualquer máquina que me chantageie com avisos sonoros, recados falantes e imagens instigantes, não preciso me tornar seu refém estando obrigado a responder tudo o que ela me manda, com e sem propósitos, nem ter que viver “conectado” a algo que não tem conexões em mim.

Eu não quero ser dependente de redes sociais virtuais que me obrigam a exibir em selfies e vídeos uma vida que não é minha, demonstrando uma alegria que não passa de brilho de aluguel, expondo cenas que são construções plásticas, liberando intimidades que são encenações flagradas para agradar ao freguês.

Eu não quero viver sobre a bandeira da ideologia partidária, achando que o mundo se divide entre “nós” e “eles”, rechaçando o bem que é feito pelo outro por causa da cor da sua bandeira, ou das letras de seu partido, negando a verdade de fatos irretocáveis por causa de suas origens políticas, invalidando discursos óbvios por não se respaldarem nos meus teóricos de bolso e em minhas filosofias de gaveta.

Eu não quero seguir uma religião que se acovarda entre quatro paredes de um templo mórbido, onde a gordura da consciência impede a ação solidária em favor do meu igual, não tenciono viver preso a liturgias que reverenciam Deus em formas estéticas, mas que não transformam a vida em culto libertário e o próximo em altar para o meu serviço amoroso, não desejo existencializar uma fé que fecha o céu para quem não crê igual a mim nem segue as doutrinas que construí para meu desplante, já sei, desde sempre, que meu Deus é mais indulgente comigo do que com os outros.

Eu não quero ser um cidadão de mente sedentária, manipulado por uma mídia perversa, que tem na agenda os interesses de predadores da alma humana, não posso fazer vista grossa para o que me diz respeito e está no entorno da minha casa como se fosse apenas um problema do Estado, nem desejo me fossilizar como um teórico que sonha em mudar o mundo, mas não tira a bunda do sofá da sala de estar.

Eu não quero ser um escravo do desejo, nem um indivíduo preso na coleira do consumo, viciado em comprar o que não preciso e tornando-me um acumulador de supérfluos tecnológicos, eu não vou viver exibindo o que se constitui a “última moda”, nem vou possuir o modelo mais usado pelos gestores dos padrões e etiquetas culturais, aqueles que vivem uma vida performática, os que debaixo de suas maquiagens e grifes agonizam em angústias noturnas, tendo que amargar o personagem que os consome o ser.

Eu não quero ser vítima de relações abusivas, nem ser chantageado em nome de um amor que vicia, não preciso que ninguém trague a minha alma nem estupre o meu coração, ou faça de mim o seu objeto de consumo tedioso, eu não sou coisa, sou gente, não posso ser usado e descartado, meu espírito é infinito, não pode ser jogado no lixo do cotidiano.

Eu não quero poder dizer que não quero por causa de partido político, igreja, pessoas, ideologias, modismos culturais, tendências tecnologias, filosofias existencialistas, pensadores libertários, ou qualquer outra coisa que me torne refém de algo que não esteja em mim, não faça parte de mim, ou que em mim não aconteça como verdade e amor. Simplesmente, não quero...


Carlos Moreira


13 março 2017

A "Cura Gay" e a Danação da Alma Humana





Em 34 anos caminhando com Jesus, tenho ouvido e convivido com centenas de pessoas homossexuais. Os dramas são inimagináveis e o que a igreja diz fazer por eles, “em nome de Deus”, é algo da mais grotesca intenção.

Eu creio firmemente que, se estivéssemos na idade média, com todo o poder que a instituição tinha, os gays seriam dizimados pelos senhores da ortodoxia, pelos perseguidores das diferenças, pelos exterminadores do amor, pelos executores da “moral e dos bons costumes”. Sim, em nome de Deus já se matou e torturou muita gente, e os gays comporiam essa lista, seriam queimados em fogueiras, arrancados de suas casas e torturados, pressionados a confessar estar possessos de demônios.

Eu não quero essa religião para mim, nem quero crer num Deus que não aceite alguém numa condição existencial diferenciada. E aí me falam: “Mas Deus cura!”. Sim, Deus é Deus, ele faz o que quiser sem dar satisfações, mas olhando a existência como ela é, e não como eu gostaria, as coisas não sucedem dessa forma.

Todos sabemos, o mundo é caído, a Terra passou a produzir “cardos e abrolhos”, a linguagem figurada do Gênesis, cheia de simbolismos, não pode ser entendida pelos escribas deste tempo, examinadores de códigos sem nenhuma competência hermenêutica, gente que estupra a Escritura em nome da sua fé.

Os impactos da queda são profundos e se movem em todas as direções, no físico e no emocional, no mundo animal, vegetal e mineral, na natureza e na substância das coisas, por isso Paulo fala que a criação geme e aguarda sua redenção, o estrago foi aterrador!

No entanto, a Graça redime, o amor cura, Deus fez a sua parte, a Cruz destruiu quem eu sou, o Sangue o que eu faço, toda a dívida foi exterminada, mas os homens costuram o véu novamente, e trazem Levítico para substituir Mateus, eles preferem Moisés a Jesus, são os que fazem gestão da misericórdia, os porteiros do céu que nem entram e nem deixam quem quer se salvar entrar.

Eu lido com centenas de homossexuais, alguns são amigos íntimos, outros estão na comunidade, são gente boa, pessoas amigas, leais, generosas, eles fazem o trabalho do Reino com devoção e responsabilidade. Não poderia estar mais honrado pela presença dos tais entre nós, estou agradecido a Deus por poder tê-los conhecido. Eles me confessam que tentaram de tudo, o imponderável para serem “curados” da maldição que a igreja lhes impõe, a dor é dilacerante.

Cura gay? De um gay que nasceu gay? De alguém que aos 3 anos de idade se percebe disforme dos seus iguais? De alguém que os pais já identificaram, ainda usando fraldas, que é diferente dos outros? Creio nessa cura como creio que a mangueira possa dar laranjas. Creio nessa cura como creio que Deus pode dar visão a um cego de nascença, em condições especiais, mas não como obra do catecismo dos crentes, nem de correntes de oração ou cultos catárticos de milagres, nem de processos de invasão de mente e alma com um doutrinamento perverso e violento.

Eu não prego a “Cura Gay”, eu prego o Evangelho que salva gays e todos os outros pecadores. O resto é com Deus, e você que não gosta que se entenda com ele. Se ao ser julgado, no último dia, o Senhor me imputar essa culpa, eu direi: “Perdoa-me, Pai, eu queria que todos os gays fossem salvos pelo teu amor. Se agi errado, tira, então, a minha porção da árvore da vida”. Serei honesto com Deus, direi isso de cara limpa e coração puro, ele sabe que aqui não minto nem faço jogo de cena, pago um preço muito alto para ser quem sou e fazer o que faço, não há nenhuma vantagem nisso.

Portanto, prefiro ver um gay curado pelo amor, sendo quem é e vivendo com reverência e discrição, do que “curado pela igreja”, negando sua natureza, introjetando ser o que não é, fazendo uma mutilação na sua alma, casado com uma irmãzinha e tendo pulsões pelos irmãozinhos, se escondendo atrás de ministérios e gemendo na solidão da cama, dando testemunho de libertação e chorando horrores por viver um simulacro. Sim, é isso o que acontece, e quem é gay e passou por esse processo não me deixará mentir. A cura para o gay é o amor, e a igreja que aí está dificilmente entenderá isso...

Carlos Moreira










15 fevereiro 2017

Toda Nudez Será Castigada?



Sobre a evangélica passista que vai sair nua no carnaval do Rio 2017 - segue link da matéria - http://extra.globo.com/noticias/carnaval/evangelica-passista-vai-desfilar-sem-roupas-em-carro-alegorico-da-rocinha-20920663.html.

Há duas questões aqui e elas dizem respeito às “decisões” e “cisões” que somos chamados a fazer no chão dos dias.

Do ponto de vista das decisões, não se deve invadir o direito à individualidade e a privacidade de cada um, escolhas já demandam a responsabilidade de quem as toma de viver com suas consequências.

Portanto, ninguém tem o poder de legislar sobre a alma do outro, muito menos a igreja e seus líderes – padres, pastores e bispos.

Isso também diz respeito, analogamente, a nossa profissão, pois se você trabalha de forma honesta para quem é desonesto – o caso dos executivos da Odebretch – por exemplo, deve, ao depois, arcar com as demandas de seus atos, não haverá “imunidades” no seu caminho por você ser uma pessoa religiosa, Deus não blinda ninguém contra os desdobramentos de suas ações.

A moça é livre para sair vestida ou pelada onde ela bem entender, desde que esteja disposta a lidar com a reverberação existencial de tudo isso. Se essa é a sua profissão, deve arcar com os “custos” e seguir o que manda a consciência. Agora, se compete ou não, aí já é outra coisa.

Em segundo lugar, do ponto de vista das “cisões” necessárias ao viver do homem, neste tema específico, sigo o que recomenda Paulo: “... Cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra”. 1ª Ts. 4:4.

Abraçar a fé em Jesus e existencializar o Evangelho em ações práticas demandará algumas cisões na vida. Sim, não há como encarnar tudo isso sem que amputações não sejam feitas, cortes profundos que demandarão coragem, pois separam, definitivamente de nossas vidas, aquilo que sempre fez parte dela.

Eu acredito que um discípulo de Jesus não deva expor o seu corpo para além dos limites do que pede o bom senso, não há pudores morais aqui, mas apenas o equilíbrio de quem deseja caminhar em outras direções.

Quando Jesus trata do tema do Eunuco, em Mateus 19, ele afirma que há alguns destes, que abraçaram tal estado na vida, por causa de uma decisão pessoal, e finaliza dizendo que nem todos estão aptos a compreender tal escolha, pois ela é tomada a partir de pressupostos ligados aos valores que o indivíduo introjetou.

Da mesma forma, há determinadas cisões que precisam ser feitas na vida por questões de consciência e fé, mas reconheço que nem todos estão aptos a fazê-las...



Carlos Moreira

18 março 2016

O Rei que se Arrepende



Davi, rei de Israel, me impressiona por muitos motivos, mas, sobretudo, porque ele é um homem que se arrepende do mal.

Eu chamo o episódio de Davi com Bate-Seba de: “A Maior de Todas as Derrotas!”. Sim, o mavioso salmista nunca havia perdido uma batalha, mas foi derrotado dentro de sua casa. Mesmo velho, cobiçou a mulher de seu general, deitou com ela e, sabendo da gravidez indesejada, tentou ardilosamente ludibriar os fatos.

Mas Urias era um homem de valores e de uma envergadura moral inquebrantável. E assim, vendo Davi que não era possível demovê-lo, tramou seu assassinato, deu ordens específicas a Joabe para matá-lo de forma desleal e desumana. Ao depois, posou de bacana assumindo a viúva e imaginou que seria feliz para sempre...

O pecado cega a visão e endurece o coração do homem. Davi expressa isso no Salmo 32 quando afirma: “Enquanto calei o meu pecado, secaram-se meus ossos”. A maior desgraça que um homem pode sofrer em vida é ser evitado por Deus, cometer todo tipo de desatino e torpeza sem que haja consequências, ser um promotor de atitudes déspotas sem ver o juízo cair sobre si como prova de disciplina e amor. Isso poderia ter acontecido com Davi, mas não foi assim, pois, decerto, o Pai corrige a quem ama...

Desta forma, Natã, o profeta, foi enviado a Davi como uma espada de esperança para cortar-lhe a garganta e derrubar toda altivez. “Tu és o homem, ó Rei!”, disse o profeta sem meias-palavras e sem pruridos cerimoniais. Feliz o homem de quem Deus não esquece, felizes aqueles que são julgados pelo Senhor, pois ele é grande em misericórdia e se apressa a perdoar os que lhe buscam.

A Davi restou apenas admitir o inconfessável e render-se ante a poderosa mão do Juiz de toda a Terra. Xeque Mate! Não havia o que ponderar, não restava escapatórias, tudo tornara-se flagrante, o Rei, verdadeiramente, estava nu!

É do caos que nascem os homens... “Pequei contra Deus!”, disse o eterno "Pastor de Ovelhas", arrependido. Nada é mais libertador na existência do que a confissão sincera, a alma que se expõe a verdade e a luz, fugindo da penumbra da vaidade e dos disfarces, é sarada de toda a lepra que a desfigura.

Davi nunca foi tão grande, para mim, quanto naquele momento de absoluta derrota, pois, de fato, há derrotas que são mais valiosas que vitórias. Sansão que o diga...


Carlos Moreira

21 julho 2015

Melhor do que dizer “Por quê?” é dizer “Por que não?”.



“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos”. A frase é de Salomão, rei de Israel, e está registrada no livro de sabedoria do Eclesiastes, escrito cerca de mil anos antes de Cristo.
Pois bem, no século XIX da nossa era, o naturalista Charles Darwin, em sua observação científica sobre a evolução das espécies, chegou a uma conclusão muito semelhante à de Salomão, ainda que sua fonte de observação fosse outra. Ele afirmou: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.
Ora, se há uma síntese possível para ambas às análises, do ponto de vista da fenomenologia da existência humana, é que, em cada estação que nos está proposta, torna-se imprescindível desenvolver uma capacidade específica de adaptação a ela.
A maioria das pessoas que conheço e que se entendem fracassadas em alguma área de suas vidas, assim se sentem porque falharam nesta disciplina: não conseguiram se adaptar ao que lhes sobreveio. Portanto, minha hipótese é que, na vida, o que vale não é “vencer ou vencer”, mas “sobreviver ou sobreviver”!
Deixe eu lhe afirmar uma coisa: a existência nem é boa, nem é ruim: ela é como é. Cada dia trás seus próprios desafios e, na verdade, você nunca sabe o que será servido no cardápio seguinte. Neste momento, há pessoas sorrindo na maternidade, enquanto outras estão chorando no cemitério. Hoje, um casal se casou na catedral e, ao mesmo tempo, um outro concretizou o divórcio no cartório. Um empresário recebeu a averbação da junta comercial para começar seu negócio e o outro foi visitado pela justiça com a decretação da falência.
Na verdade, você precisa discernir qual estação você está vivendo! E mais do que isso: você precisa se adaptar a ela! A maioria das questões da vida são reversíveis, o vento, não raro, muda de lado ou, como bem disse o Cazuza, “... Ainda estão rolando os dados”. Eu não sei se você quebrou, se foi traída, se ficou deprimido ou está se sentindo velho? Sei, contudo, que é imprescindível se adaptar ao que está acontecendo agora e os que conseguirem fazer isso, sobreviverão!
Então, você pode se sentar na calçada da vida, ficar choramingando e se maldizendo, ou pode se levantar, sacudir a poeira, se vestir de esperança e começar a fazer algo novo! Não me diga que não há mais tempo, que você não tem forças ou que a situação é por demais complexa. Você precisa de decisões, não de desculpas!
No fundo, a vida é bela, mas o mundo é mau, e nele, sobreviverá aquele que não se deixar sucumbir pela amargura, que aprender a rir do fracasso, o que regar com lágrimas a semente de sonhos bons e embeber o coração em ternura e gratidão. Não é fácil para ninguém, mas é possível para todos. Por isso, melhor do que dizer “por quê?”, é dizer: “por que não?”.
©2015 Carlos Moreira

17 dezembro 2013

De que são Feitos os Homens?



Certa vez me fizeram acreditar que o homem havia sido feito do barro. Mas que nada! Eu sei que o homem veio da borracha. Ele nasce tão flexível, e que incrível, pode até retorcer-se. Não fosse de borracha, ainda nos primeiros anos, sucumbiria. Quedas frequentes, insistentes, o matariam sem constrangimentos. Sim, é de borracha, modela e se adapta, se constrói, põe-se de pé e diz: eu sou!

Os dias, todavia, com apetite insano, avançam, devoram as folhas dos calendários... E eis agora o homem! Passadas fartas em calçadas plácidas ele avança, lindo. Tudo é delícia quando se é jovem. Nesta estação o homem é de aço. Imagina ser inquebrável, invencível. Torna-se duro, impermeável a dor e ao amor. Pensa que é eterno, corre todos os riscos, risca rastros no chão da vida, faz mapas, corta mares, adentra infinitos. Mas tudo isso também passa...

Aí o homem se torna homem, se converte em vidro, fica mais refinado, translúcido, misterioso. Homem de vidro bem sabe dos seus limites, entende que pode facilmente se quebrar, cair e não mais ser. Sendo de vidro, reflete a luz, rouba cenas, mas aparece apenas, sem protagonizar, torna-se caleidoscópio, sintetiza cores, faz desenhos no imaginário. O homem de vidro domina pensamentos, controla sentimentos, rebusca grifos nas páginas do livro dos seus dias, une letras que namoram palavras, palavras que acabam parindo frases e textos.  Fica o dito e tudo o mais escrito, quase eterno, quase...

Vem então o fim, apressado, fora de tempo. O homem sabe que sua beleza já se foi e que as certezas se perderam quais folhas de outono dançando na porta do terraço vazio. Em seu epílogo entre os viventes, o homem se torna de barro. Mesmo em sua aparente fragilidade, o barro possui lindeza por demais. Pode ser moldado, refeito, reinventado. Homem de barro sabe que a vida é silêncio e solidão, é manufatura diária para, ao final do dia, os pés poderem descansar de tantas andanças, de tanto lamento.


Na velhice o homem é de barro, sim senhor, vai se esfarelando pelo caminho, deixando partes de si no solo como semeadura da vida, é, ao mesmo tempo, semente e adubo. E só aí, quando homem e terra começam a se fundir, é que o maravilhoso mistério de ser se desvela. Sim, quando os ventos sopram sobre a face enrugada e fazem os poucos fios de cabelos brancos se agitarem sobre olhos esmaecidos, quando o solo clama pela alma e chama o corpo para repousar na cama eterna, o homem percebe que existir é mais que viver, é ser e sentir, é encontrar o sentido que há em morrer para, finalmente, poder nascer...

Carlos Moreira 

20 julho 2013

Quando Deus Faz o Bem lhe Fazendo “Mal”



Então Deus olhou para a Terra e só havia “João”. Todos eram iguais, todos banais, cada qual vivendo sua própria sina: levantar, comer, trabalhar... Sim, por vezes a existência é puro enfado, o trágico espaço que se resume entre a boca e o prato.

Mas em meio a tanto “João”, Deus conseguiu ver a Jó! Ele era homem reto, íntegro, singular, que se desviava do mal e amava o bem. E Deus pensou: “Dá gosto de ver esse Jó! Quero Lhe retribuir por tudo que tem existencializado. Tratarei Jó como filho muito querido e, junto a Mim, Lhe ensinarei quem eu Sou e ainda deixarei que viva para poder saber quem ele é.

E foi assim que Deus permitiu que as dinâmicas próprias da vida visitassem a Jó. Como aguaceiro que desaba sem aviso prévio, ele foi alcançado por infortúnios, calamidades, perdas inigualáveis. A estação outonal havia chegado trazendo seus matizes próprios, fazendo as folhas despencarem dos galhos das árvores, despindo a vida de tudo o que ainda pudesse representar alegria e esperança.

Como bem sabemos, o dia da tragédia é sempre solitário, é o dia onde Deus parece ter se tornado indisponível. Jó perdera tudo quanto possuía: gado, terras, empregados, e até o que mais amava, os próprios filhos, carne da sua carne. Agora, todavia, restava-lhe render o coração em gratidão àquEle que havia dado e também havia tirado. Se Jó fosse um “João” qualquer, talvez tivesse esperneado, blasfemado... Mas Jó ficou apenas maravilhado, extasiado com a violência do amor com o qual estava sendo amado, um tipo de paixão que está para além de conjecturas e explicações.

Como já se esperava, todavia, Jó entrou em conflito, percebeu-se paradoxo. Mesmo não sendo um “João”, somatizou dores, mixou no ser esperanças e medos, viu explodir em sua pele úlceras e cóleras. Ainda que fosse Jó, tornara-se necessário reconhecer que não era de aço, mas apenas de osso.

Agora sim, Jó havia sido reduzido a nada! Ele encontrava-se exatamente em meio ao caos do qual Deus se locupleta para criar o absurdo de ser. E foi em meio ao inusitado, ao inexplicável, “do meio do redemoínho” da vida, que Deus “saltou” para mostrar a Jó  que apenas Ele é quem pode todas as coisas, e que nenhum de Seus planos será frustrado. Assim, devolveu-lhe o Senhor em dobro tudo o que dantes tinha, pois mais foram os bens de Jó em meio a dor, do que as perdas que sofreu, ainda que por amor.

A história de Jó nos revela que Deus é livre para fazer aquilo que deseja. Ele poderia, para abençoá-lo, tê-lo prosperado ainda mais. Poderia ter lhe dado mais terras, gado, filhos e riquezas. Contudo, quando tencionou torná-lo grande, alguém melhor, quando imaginou algo que pudesse, de fato, fazer diferença em seus dias, algo para levá-lo a conhecer não apenas de ouvir falar, escolheu a dor, a perda, a angústia e a solidão.

Deus não teve medo de provar a Jó, não ficou com crise de consciência, nem muito menos com receios de que ele seguisse outro caminho. Ele sabia que Jó não era como os outros, ele não era um “João”. Sabia que a vida poderia lhe trazer tanto o bem como o mal, sem que isso alterasse o desejo de seu coração de conhecer a Verdade.  

A história de Jó é a arquetipia existencial de todos nós. Ela é o drama que está para além do certo ou errado, do bem e do mal. Na “novela” de Jó, a existência se catastrofiza do nada para, logo em seguida, voltar ao mesmo “lugar”. O que fica da “tragédia” de Jó é a certeza de que não importam as circunstâncias, pois Deus sempre tramará algo que, ao final, redunde em bem para nosso ser e paz para nossa alma. 

Num mundo habitado por gente que nada mais é do que um “João”, quero ser Jó. Desejo viver a experiência de me perder em mim mesmo para poder ser achado em Deus e assim encarnar a poesia do salmista que me desafia a semear no chão da vida lágrimas de esperança e, a partir delas, colher frutos de misericórdia.

Carlos Moreira

14 junho 2012

“Diga o Fraco: Eu Sou Forte”



Quando lhe faltar inspiração para fazer o que tem de ser feito e você se perceber como um autômato, uma máquina de repetição, agindo sem sentido, sentindo sem paixão, diga o fraco: eu sou forte!

Quando os dias forem cinzentos, e a estação outonal chegar, quando as flores murcharem e sua beleza se for, quando as nuvens persistirem mesmo depois de todo o aguaceiro, então, diga o fraco: eu sou forte!

Quando os sonhos morrerem, quando os planos falharem, quando a existência se tornar insuportável, e seus olhos estiverem encharcados de tanta realidade, diga o fraco: eu sou forte!

Quando os amantes se forem, quando a festa acabar, se lhe for impossível sorrir, e a cortina se fechar, depois que a orquestra partir e toda música calar, não preste atenção a nada, diga o fraco: eu sou forte!

Quando o silêncio for sua companhia, e tua sombra te acompanhar mesmo à noite, quando te sentires vazio, apagado pavio, aquieta-te então, pois todo caminho caminhado é caminho de solidão, e, assim diga, o fraco: eu sou forte!

Quando a esperança se for, e a tua fé te faltar, quando o absurdo tornar-se razão, e a escuridão vier te abraçar, abre tuas velas ao vento, deixa o porto e o cais, repete contigo mesmo, diga o fraco: eu sou forte!

Quando a alegria partir, e as tuas forças faltarem, quando a doença chegar, sem cura, sem pena, sem nada a te acrescentar, entende que o tempo acabou, segue resignado, não pense em parar, lembra-te, todavia, de algo, diga o fraco: eu sou forte!

Quando os teus bens forem muitos e nada mais te faltar, mas ainda assim tua alma esvaziada ficar, quando não houver mais batalhas, e o último inimigo tombar, olha para tuas conquistas, inúteis, tão fúteis, hão de passar, não te esqueças, contudo, nem um instante, diga o fraco: eu sou forte!

Quando o pecado te arguir, quando o juízo chegar, quando o tempo se cumprir e o teu destino selar, quando não tiveres saída, nem mais a quem apelar, lembra-te que ainda és homem, só Deus pode te salvar, e assim, apele a Ele, diga o fraco: eu sou forte!

* "...diga o fraco: eu sou forte".  Joel 3:10

Carlos Moreira

 

03 junho 2012

A Vida não Espera por Ninguém... Viva Logo!




Assista a esta empolgante mensagem em vídeo! A vida não espera por ninguém, segue seu curso, faz seus próprios planos, ruma inexorável na direção que lhe está proposta. No fundo, como disse Chaplin, ela “... é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”.



Sou testemunha de dramas dos mais diversos que as pessoas enfrentam, muitos dos quais por causa de escolhas e decisões equivocadas. Esse fato nos remete a seguinte questão: depois de conhecer a Deus e ter aceito o chamado de Jesus, como devemos viver? Será que o que nós chamamos de vida é, de fato, vida conforme o Evangelho? 


Aprenda nesta mensagem sobre alguns princípios para viver a vida de tal forma que ela seja o desdobramento para fora, de toda graça, pacificação e misericórdia que um dia se instalou do lado de dentro do ser.






Carlos Moreira

08 maio 2012

Prisões que não Possuem Grades



“Quem dormiu no chão deve lembrar-se disso... Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”.
Graciliano Ramos

Memórias do Cárcere é uma obra póstuma de Graciliano Ramos publicada em 1953. Preso na época do “Estado Novo” sob a falsa acusação de ligação com o Partido Comunista, o escritor foi deportado para o Rio de Janeiro, onde permaneceu encarcerado por cerca de dois anos.

No livro, Graciliano se ocupou em tornar público, depois de muita hesitação, acontecimentos da vida na prisão. Escrito dez anos após sua libertação, traz em si uma narrativa amarga, não obstante verdadeira.

Já li comentários de que pessoas que foram presas, sobretudo injustamente, jamais voltaram a ser as mesmas. O cerceamento da liberdade traz impactos tão violentos à psique que o indivíduo não consegue mais se reencontrar com sua essência, impõe-se a um autoexílio rumo aos porões do ser, acaba soterrado sob densas camadas de lembranças tenebrosas.  

Eu sei que há prisões que possuem grades, e dessas é muito difícil escapar. Mas há outros tipos de prisões, que vão para além de impor ao corpo a reclusão em um cubículo onde ele permanecerá confinado. Sim, essas masmorras são imateriais, sem grades, sem paredes, são calabouços que aprisionam não só a vontade, o desejo de liberdade, mas o ser e os sonhos.

É fato que tenho encontrado no passadiço da vida muitas pessoas aprisionadas em tais “labirintos”. É gente que, sem perceber, tornou-se refém de sofismas, projeções, carmas, manipulações e toda sorte de situação que produz autoengano e acaba dando forma a uma imagem distorcida de si mesmo. Essa, por sua vez, projetada na tela da existência, reproduz um holograma monstrificado de quem enganosamente se pensa ser.

Não é raro me deparar com pessoas vivenciando tais dinâmicas. É gente que se tornou refém de cônjuge, de sogra, de filhos, tudo pelo estabelecimento de vínculos afetivos adoecidos, que acabam dando ao outro uma espécie de “licença para matar”, e, por assim dizer, produzem, pela via da culpa e do medo, todo tipo de escravidão e subserviência.

Há aqueles que estão presos a determinismos infundados, não raro fruto de comentários recorrentes feitos por pessoas próximas, alguns dos quais se enraizaram na alma desde a infância. É gente que se sente assombrada por um carma, conduzida inexoravelmente por um trilho de onde não se pode sair. No fundo, é como se o indivíduo estivesse fadado a parar sempre na mesma “estação” e seguir sempre pelo mesmo caminho.

Também é comum encontrar os que se viciaram psicologicamente no fracasso, que sentem prazer nas impossibilidades. Trata-se da negatividade alça-da ao platô mais profundo do ser, são pessoas som-brias, que vivem de olhar pelo “retrovisor”, sempre a se lamentar pelo que passou, ansiando pelo que poderia ter sido, mas não foi...

Não menos danoso é o grupo dos que passaram a viver de uma espécie de ração, que esmolam da vida, acomodaram-se em ser o que não são, estagnaram a consciência e amordaçaram o pensamento.
Pessoas assim deixam de acreditar no novo, pois acabam se acostumando com a mesmice, vivem apenas seguindo o fluxo, o curso, a rotina. Estão mortas, mas ainda não foram sepultadas, existem sem ser, sem saber vão, de arrastão em arrastão, vivem dos restos do ontem e dos fragmentos do hoje.

Finalmente, mas não menos triste, há os que adoeceram a ponto de dependerem de medicação para viver, drogas que se aplicam a distúrbios e doenças tais como ansiedade, depressão nervosa, distúrbio bipolar, psicose, pânico, dentre outras..

Nesse estágio há muita dor e desânimo, pois, além dos sintomas próprios de cada doença, ainda há os efeitos colaterais dos remédios, tão diversos quanto possamos imaginar. Eles, sem pedir permissão, mudam as pessoas, alteram gestos e gostos, sorrisos e olhares.

Seria pieguice e irresponsabilidade de minha par-te afirmar que a solução para todas estas coisas está na religião. Tolice crer que reunião de oração, jejum e leitura da Bíblia vão resolver o problema. Também incluo aqui bizarrices do tipo: sessão do descarrego, culto de libertação, de unção, do desencapetamento total e outras mandingas do meio evangélico. Nada disso tem sustentação nas Escrituras, sendo assim, não produz nem paz nem bem ao ser.

Acredito, entretanto, que a cura passa pela experimentação da verdade, ou, como disse Tolstoi, escritor russo do século XIX: “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”.

A maior parte dos problemas e dores humanas está associada a não percepção da Verdade, e aqui afirmo Verdade não como paradigma existencial, mas como Caminho a ser caminhado. A verdade nasce da experimentação de valores e princípios que mudam o ser, de dentro para fora, pela via da pacificação produzida pela Graça, em Fé e através do Amor, pela ação do Espírito Santo. Ela é capaz de realizar aquilo que nada nem ninguém pode fazer em definitivo: sarar a alma! Sim, como disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Há prisões que não possuem grades, mas que aprisionam muito mais do que aquelas que prendem os indivíduos, posto que é mais fácil libertar o corpo do que a alma. Como disse em um outro texto: “... eu não sei qual foi a porta que eu abri, mas, quando dei por mim, já estava aqui! Curioso, também, é que eu não sei como sair; as portas daqui só possuem maçanetas pelo lado de fora! Aqui é todo canto e lugar nenhum”.

Gostaria de ver todo aquele que se encontra “encarcerado” livre dessa prisão, das amarras que prendem a mente, a alma e o ser. Sei que só Deus pode livrar-nos disto, mas esta experiência tem de ser vivida por cada um, a seu tempo e do seu próprio modo. Deixo-te, então, com o que escreveu Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.


Carlos Moreira


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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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