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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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29 agosto 2018

O Triunfo do Brasil será o seu Fracasso





O povo brasileiro está doente e a culpa, em boa parte, não é sua. Sim, esta patologia que nos aflige é fruto de séculos de descaso com a coisa pública, do escárnio com a vida daqueles que não possuem representatividade, pois são invisíveis sociais, e também é resultado de uma ignorância endêmica mantida programaticamente por um sistema perverso que visa produzir alienados em série.

É fato, pois a história nos revela, que grandes nações do mundo viveram este mesmo “estado das coisas”, ainda que há séculos atrás, é bem verdade, mas nós temos o atenuante de sermos um País relativamente novo, com apenas 500 anos, ainda temos muita “merda” a fazer...

Pois bem, eu estou convencido que o Brasil precisa do Jair Bolsonaro, ainda que eu jamais possa conceber em votar nele. Bolsonaro, não à toa, representa um mito que foi pacientemente construído no imaginário nacional, ele não é real, é uma “carranca”, assumiu uma personalidade fruto do inconsciente coletivo, não passa de uma projeção da indignação e do descaso do povo contra a política, assumiu ares messiânicos, é reverenciado como um ser acima do bem e do mal, pois dele se espera a solução para os nossos problemas.

O Brasil precisa de Bolsonaro porque só será possível experimentarmos um novo tempo quando esta “era” terminar, quando estivermos, irreversivelmente, mergulhados no caos, quando os mitos morrerem, quando o desencanto nos for jogado na cara sem mais alternativas para desculpas ou escapismos.

Os Gregos, de quem o ocidente é filho, só deu seu salto civilizatório quando os mitos morreram abrindo espaço para o surgimento do pensamento filosófico, inquieto por natureza, questionador em sua essência, escrutinador da verdade. Foi olhando para a realidade e para os fenômenos tangíveis que eles avançaram como sociedade, o “caos” produziu a centelha de lucidez necessária às mudanças, deuses, bestas e feras ficaram para trás, não passavam de representações da infância da consciência e do saber.

Na mesma perspectiva, outro evento que mudou drasticamente o ocidente foi a Queda da Bastilha na França do século XVIII. Ali encontrava-se uma sociedade corrompida, onde os ricos e aristocratas refestelavam-se na opulência e o povo morria de fome as portas do Palácio de Versalhes. Foi o “caos” que produziu o “Haja Luz” da França, a decadência econômica foi o combustível que alimentou o motor de propulsão para fazer explodir a revolta popular que levou para a guilhotina o rei Luiz XVI e sua esposa Maria Antonieta e pavimentou o caminho para que o País se tornasse a potência que é hoje.

Um pouco antes, no século XVI, outro acontecimento de importância ímpar para o ocidente teve suas origens no “caos”. Falo da Reforma Protestante, do século XVI, que quebrou, na idade média, o ciclo de séculos de escuridão e obscurantismo de uma igreja decadente e corrupta. As Teses de Lutero, restritas a esfera religiosa, tiveram desdobramentos intangíveis na economia e na política, como bem escreve Weber no clássico “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Mas assim como todos os outros, este foi um evento tecido pacientemente pelo tempo, como uma teia de aranha, até que todas as condições para a insurreição estivessem devidamente alinhadas.

O trabalho do historiador é preservar a memória dos fatos e o dos filósofos questionar seus fundamentos. Assim, do ponto de vista da fenomenologia do que sucede no Brasil, estamos avançando no trilho que nos levará ao caos, o que me faz alimentar uma esperança de que, em algumas décadas, talvez, vejamos um novo Brasil surgir das cinzas.

Desta perspectiva, penso, Bolsonaro é a melhor alternativa, não porque seja o mais preparado, o mais experiente ou o menos corrupto, mas porque representa a melhor alternativa para chegarmos rapidamente ao fim da linha.

Portanto, não adianta você argumentar, mostrar números, falas, pensamentos, questionar a falta de competência, a falta de habilidade, de capacidade de gestão, nada fará os eleitores de Bolsonaro desistirem dele, pois “mitos” só morrem quando expostos a luz da realidade do cotidiano humano.

No fundo, Bolsonaro não passa de uma antítese da Dilma, que fez a primeira parte da lição para quebrar o Brasil. Ela é mulher, ele homem, ela é descasada, ele é o baluarte da família, ela é “comunista”, ele é de extrema direita, ela é subversiva, ele é militar, ela é “gestora”, ele aprovou em 17 anos meia dúzia de projetos na Câmara, ela é agnóstica, ele é cristão. Dilma, para mim, foi a tese; Bolsonaro, caso eleito, pode vir a ser a antítese. A síntese, todavia, e para minha esperança, será acordarmos, definitivamente, deste “berço esplêndido” no qual somos ninados deste o descobrimento do País.

Outubro está aí, falta só mais um pouco, quem viver, verá...


CM – Carlos Moreira



** Este pequeno post não tem o objetivo de ofender eleitores de Bolsonaro ou de Dilma, muito menos tem a pretensão de demove-los de seu voto. Da minha parte, estou apenas analisando, ainda que muito superficialmente, o atual fenômeno social e político do Brasil. Portanto, não tenha raiva de mim, nem me atire pedras – kkkk – eu não pretendo, em absoluto, ser o dono da verdade e da razão.

19 setembro 2017

"CURA GAY"?



Durante a era clássica, Estado e Igreja criaram e mantiveram estabelecimentos de controle e exclusão com vistas a neutralizar “devassos”, “feiticeiros” e outros desviantes para que não tivessem contato com a sociedade.

Em seu livro sobre a “História da Loucura”, Michel Foucault nos expõe essa realidade dramática e revela que, entre os “desviantes”, estavam também ou loucos, portadores da desrazão e, por isso, necessitados de ser isolados dos demais. A regra, portanto, visava o extermínio social, algo como: já que não consigo lidar com isso, então melhor que eu ampute essa gente do viver civilizartório.

A decisão de ontem de um Juiz Federal sobre liberar profissionais da saúde mental a exercer a chamada “Cura Gay”, ou seja, o uso de métodos não reconhecidos cientificamente para buscar erradicar a natureza homossexual de pessoas assim assumidas, ao meu ver, estabelece grande retrocesso no trato com a situação e os direitos dos homossexuais, além de representar, ainda que sutilmente, a necessidade de confinar, senão numa cela, mas num “diagnóstico”, aquele que não é igual a mim.

A decisão representa um desejo presente no inconsciente coletivo brasileiro, impregnado por questões religiosas ultra-conservadoras, que afirma algo como: “Já que não podemos trancá-los, institucionalizá-los ou amordaçá-los, vamos tratá-los como doentes, assim enquadramos seu comportamento como patologia e reforçamos nossa tese de que essa gente se constitui seres com “defeito de fabricação”.

Na verdade, o que está posto lida com a questão da homossexualidade como comportamento, e não como orientação, algo totalmente diferente, pois o comportamento pode ser mudado, a orientação não, pois representaria uma violência contra a natureza do indivíduo.

Eu tenho a certeza de que, profissionais sérios de saúde que lidam com estas questões, uma vez procurados por alguém com dificuldades com sua sexualidade, farão o possível para ajudar sem que a causa tenha contornos ideológico-religiosos. Contudo, uma vez que o Estado legisla sobre algo, e dá certa "legalidade" ao tema, abre precedentes não só jurídicos, mas sociais e filosóficos, para que haja o recrudescimento da questão e um retrocesso em conquistas adquiridas com muita dor e sofrimento.

Assim, repudio a decisão, repudio a cassação, repudio o preconceito, repudio a tentativa de tornar igual quem é diferente, e repudio a tese religiosa de que Deus não ame o homossexual não existindo para ele a possibilidade da salvação. Em Jesus, não há héteros ou homossexuais, a Graça foi derramada sobre todos, para todos e quem a abraçar terá a chance de celebrar, no último dia, a Festa do Perdão!

Portanto, não estamos diante do auxílio a pessoas que não estão confortáveis com sua condição sexual, mas do uso de métodos de "regressão", através de instrumentos não científicos, que na esmagadora maioria dos casos se revelaram inócuos e só serviram para aumentar traumas e medos, com vistas a tornar o indivíduo "normal" segundo um olhar profundamente ideologizado.

Quem quiser deixar de ser gay que deixe, por livre e espontânea vontade, e que busque meios sadios para tal, quem quiser ser, assumindo-se como de fato é, que seja, e que a sociedade respeite a escolha de cada um, pois ser homossexual nem é doença, nem crime, nem atentado a nada ou ninguém.

Carlos Moreira






10 abril 2017

Eu Não Quero...



Eu não quero ser escravo de qualquer máquina que me chantageie com avisos sonoros, recados falantes e imagens instigantes, não preciso me tornar seu refém estando obrigado a responder tudo o que ela me manda, com e sem propósitos, nem ter que viver “conectado” a algo que não tem conexões em mim.

Eu não quero ser dependente de redes sociais virtuais que me obrigam a exibir em selfies e vídeos uma vida que não é minha, demonstrando uma alegria que não passa de brilho de aluguel, expondo cenas que são construções plásticas, liberando intimidades que são encenações flagradas para agradar ao freguês.

Eu não quero viver sobre a bandeira da ideologia partidária, achando que o mundo se divide entre “nós” e “eles”, rechaçando o bem que é feito pelo outro por causa da cor da sua bandeira, ou das letras de seu partido, negando a verdade de fatos irretocáveis por causa de suas origens políticas, invalidando discursos óbvios por não se respaldarem nos meus teóricos de bolso e em minhas filosofias de gaveta.

Eu não quero seguir uma religião que se acovarda entre quatro paredes de um templo mórbido, onde a gordura da consciência impede a ação solidária em favor do meu igual, não tenciono viver preso a liturgias que reverenciam Deus em formas estéticas, mas que não transformam a vida em culto libertário e o próximo em altar para o meu serviço amoroso, não desejo existencializar uma fé que fecha o céu para quem não crê igual a mim nem segue as doutrinas que construí para meu desplante, já sei, desde sempre, que meu Deus é mais indulgente comigo do que com os outros.

Eu não quero ser um cidadão de mente sedentária, manipulado por uma mídia perversa, que tem na agenda os interesses de predadores da alma humana, não posso fazer vista grossa para o que me diz respeito e está no entorno da minha casa como se fosse apenas um problema do Estado, nem desejo me fossilizar como um teórico que sonha em mudar o mundo, mas não tira a bunda do sofá da sala de estar.

Eu não quero ser um escravo do desejo, nem um indivíduo preso na coleira do consumo, viciado em comprar o que não preciso e tornando-me um acumulador de supérfluos tecnológicos, eu não vou viver exibindo o que se constitui a “última moda”, nem vou possuir o modelo mais usado pelos gestores dos padrões e etiquetas culturais, aqueles que vivem uma vida performática, os que debaixo de suas maquiagens e grifes agonizam em angústias noturnas, tendo que amargar o personagem que os consome o ser.

Eu não quero ser vítima de relações abusivas, nem ser chantageado em nome de um amor que vicia, não preciso que ninguém trague a minha alma nem estupre o meu coração, ou faça de mim o seu objeto de consumo tedioso, eu não sou coisa, sou gente, não posso ser usado e descartado, meu espírito é infinito, não pode ser jogado no lixo do cotidiano.

Eu não quero poder dizer que não quero por causa de partido político, igreja, pessoas, ideologias, modismos culturais, tendências tecnologias, filosofias existencialistas, pensadores libertários, ou qualquer outra coisa que me torne refém de algo que não esteja em mim, não faça parte de mim, ou que em mim não aconteça como verdade e amor. Simplesmente, não quero...


Carlos Moreira


21 abril 2016

A Pisada de Bola de Bolsonaro e o “Pecado” de Deus



Diante da polêmica sobre o discurso de Jair Bolsonaro no Congresso, uma fala curta, mas carregada de ódio, uma vez que exaltou Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da Ditadura Militar, acabei lendo um comentário de alguém que disse: “Ora, vocês cristãos criticam torturadores, mas amam um Deus que irá torturar, indefinidamente no inferno, almas condenadas à danação?”.

Na verdade, a citação era uma entre muitas, num diálogo bizarro, cheio de agressões, tendo como protagonistas crentes raivosos e um ateu astuto. Pois bem, a certa altura do imbróglio, que já adentrara no tema do inferno, o ateu citou a parábola do “Rico e Lázaro”, descrita por Lucas no capítulo 16. Foi um vexame! Os crentes silenciaram, ficaram estupefatos, não puderam contrapor a fala do próprio Jesus que assevera sobre um Homem Rico que foi condenado a sofrer os horrores do inferno e, sendo assim, é consumido por suas chamas implacáveis. Achei curioso o ateu saber mais bíblia que os crentes, mas...

Na verdade, a ideia de inferno que habita o inconsciente coletivo do ocidente cristão, nada tem a ver com o Evangelho ou com Jesus. Ler os textos que tratam do inferno no Novo Testamento sem ter conhecimento histórico e filosófico sobre o tema nos levará, irremediavelmente, a acreditar no inferno de Dante Alighieri, escritor italiano do século XIII, autor de famosa obra – O Inferno de Dante – sobre a “Casa do Tinhoso”, esse lugar onde há lagos de larvas, câmaras de tortura, fogo, enxofre, bestas insanas e homens desgraçados.

O inferno cristão é uma construção teológica que se inicia no exílio judaico, na simbiose de crenças babilônicas e egípcias com as concepções do Velho Testamento. Durante cerca de 400 anos, rabinos organizaram uma nova metafísica para o pós-morte, a qual sofreu, por último, a aditivação de elementos da cultura helênica, zeitgeist dominante no mundo antigo desde 300 a.C. Portanto, o “Ades” do Novo Testamento não tem nada a ver com o “Sheol” do Velho, é, por assim dizer, uma crença pagã convertida ao judaísmo.

Dito isso, chego à parábola do “Rico e Lázaro”, explicitada por Jesus. De fato, o que temos não é um texto elucidativo sobre o inferno, mas sobre o drama de se viver sem Deus no mundo, ainda que cumprindo os rigores da Lei. O público ao qual a mensagem se destina é essencialmente religioso, por isso o “Rico”, “abençoado” pelo Senhor, vai parar no tormento do inferno de fogo, enquanto “Lázaro”, um pobre purulento, tem como destino o céu e vive a graça de estar junto a Abraão.

Ora, parábolas são contos que tem como objetivo transmitir um ensinamento moral. Elas se utilizam de metáforas e alegorias, um universo rico em imagens e símbolos, sempre com o fim de facilitar o entendimento. Assim, a lição óbvia que Jesus traz na parábola do “Rico e Lázaro” é que devemos encarnar uma espiritualidade que nos leve a amar a Deus tendo a vida do nosso próximo como altar, ou seja, não devemos deixar que ninguém agonize em nossa porta, pois quando deixamos de fazer algo aos pequeninos, ao Senhor o negamos.

Observe que a parábola começa na Terra, passa pelo céu e pelo inferno, e retorna novamente a Terra, onde os irmãos do “Rico” estão a viver de forma descuidada e desafeiçoada. O inferno nesse conto é apenas uma cenografia, algo que já habitava o inconsciente daquela geração, por isso Jesus o utilizou como uma poderosa imagem para tratar do essencial, que é o fato de que não devemos deixar que em nós se instale o que há de pior para a vida. Inferno, muito antes de ser um lugar, é um sentir, você pode estar possuído do inferno mesmo sem, literalmente, vir a habitá-lo.

Portanto, ainda que de forma muito simplista, uma vez que num texto curto não dá para explorar o tema com profundidade, quero dizer que essa especulação de que Deus irá torturar indefinidamente as pessoas num caldeirão de fogo é uma crença mitológica e infantilizada. E com isso não estou negando a existência do inferno, tema que deixarei para abordar em outra oportunidade, mas apenas abrindo um espaço mental para novas percepções.

É mister esclarecer que todo texto que fala de inferno o faz de uma perspectiva filosófica, especulativa, uma vez que ninguém nunca foi lá e voltou para fazer um relato. Eu sei que a ortodoxia vai citar os textos do Apocalipse de João e os escritos de Paulo quanto ao cenário de horrores, mas, como disse, toda leitura sobre o tema deve partir da perspectiva das crenças vigentes nos dias de Jesus e também do fato de que os textos estão em linguagem apocalíptica, recheados de arquetipias, metáforas e alegorias, e assim devem ser interpretados. 


Para mim, todavia, vai para o inferno aquele que odeia a vida, pois ele é o destino de quem insistir em viver sem Deus, como acontece com os demônios. Inferno é a existência sem a possibilidade de Deus, seu maior castigo é permitir que os indivíduos convivam com o pior de si mesmos sem uma alternativa para o arrependimento e o perdão. Esse é o significado do fogo que não se extingue, um símbolo da perpetuação daquilo que consome o ser para a morte e a não existência de salvação ou esperança.

Finalmente, quero lhe dizer que a bondade de Deus não combina com a maldade do inferno dos cristãos. A justiça de Deus foi feita na Cruz, onde tudo foi pago! Deus amou o mundo, não condenou o mundo, pois a misericórdia, por fim, triunfará sobre o juízo! Deus, um torturador? Jamais! Quem o conhece, sabe do que estou falando...


Carlos Moreira

31 março 2016

Quando a Religião Serve à Política



A religião, historicamente, sempre foi usada como ferramenta de manipulação das massas pela política. Constantino que o diga... A simbiose entre estas duas potestades, produz, ao menos, quatro fenômenos sócio-religiosos, conforme a seguir.

O primeiro é a criação de uma cultura do medo, onde os sacerdotes são alçados a uma categoria de mitos divinizados, pois, tocar no “Ungido”, é tocar em Deus! Com o policiamento comportamental, pessoas são controladas pela via do medo do castigo, seja ele em forma de disciplina eclesiástica pública, seja pela via do bullying fraterno, onde os “irmãos” se afastam daquele que violou o código de conduta coletiva, seja pela ação raivosa de “Deus”, que pune quem não segue a “regra do jogo”. Para a religião, não basta o sacerdote se interpor entre os homens e o Criador, ela precisa controlar também as relações entre os homens e seus semelhantes.

O segundo é a alienação do fiel quanto às dinâmicas da vida, ou seja, quanto mais religião, mais separação do “mundo”, é o noeploatonismo embalado para consumo religioso. Desde há muito, a igreja prega um Evangelho que exclui o indivíduo da realidade cotidiana, suprimindo dele o apreço pela arte, pela cultura, pela política, pela economia. A alienação religiosa é um poderoso meio de controle, cria uma geração de descerebrados, produz na linha de série da igreja-indústria gente que lê a bíblia, mas não lê o jornal, indivíduos que se envolvem com a agenda de programas da denominação, mas que não tem tempo para ir ao cinema, a um show artístico, ou até para investir nos estudos e na profissão. A religião produz um apagão intelectual, isola o sujeito entre as paredes do templo, torna a existência um subproduto das doutrinas da igreja, tenciona impermeabilizar o contato com o mundo real.

O terceiro é a conformação com a miséria, uma vez que o religioso é ensinado que a vida aqui na Terra deve ser uma experiência de sofrimento e renúncia, de privação e desprazer. A verdade é que crente bom é crente pobre! Transportar toda alegria e prazer que alguém pode experimentar para uma vida vindoura, com a promessa de um paraíso perfeito, tem por finalidade produzir uma letargia existencial, um anestesiamento de mente, cultivar a cultura da subserviência, induzir uma subjugação social, levar o povo a ser domesticado tornando-o inofensivo. Ora, essa doutrinação foi largamente utilizada, sobretudo, na América Latina, marcada historicamente por governos totalitários e ditatoriais, pobreza extrema, tanto no campo quanto nas cidades, além de baixos níveis de escolarização e acesso a serviços essenciais. Bem afirmou Dom Hélder Câmara, “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

Por último, temos a rendição da crença às questões metafísicas, ou seja, quanto mais “espiritual” melhor, quanto mais à fé aponte para o sobrenatural, mas riqueza haverá na experiência com o sagrado. A metafísica religiosa amputa uma parte essencial da doutrina de Jesus, que é a preocupação com a justiça e com os dramas sociais, produz uma espiritualidade mágica, catártica e performática, revela um Deus fantasioso e vicia os “pagantes” à necessidade do espetáculo. Por isso, tanto “demônio” e tantos “milagres”! Vender religião é vender, sobretudo, o impossível, o intangível, e a metafísica religiosa se locupleta desta necessidade do ser humano de alcançar o divino para entretê-lo com a pirotecnia litúrgica, cultos teatrais com efeitos spilberguianos, muitos carismas disponíveis para uso, mas quase nenhum caráter que seja apto para torná-los úteis a qualquer coisa proveitosa para o bem.

Em minha experiência pastoral, tenho encontrado um sem número de pessoas marcadas por todos ou alguns destes tópicos acima. A violência religiosa é uma violência contra a alma humana, é um estupro da consciência, produz, por vezes, danos irreparáveis. Num tempo e numa sociedade onde o matrimônio está cada vez mais fragilizado, o casamento entre política e religião continua firme, e dando muitos frutos...

Carlos Moreira.

03 fevereiro 2016

O Diabo Veste Prada




O Velho Testamento fala no diabo 35 vezes, aproximadamente. O Novo Testamento, por assim dizer, cita-o 7 vezes mais, cerca de 140 ocorrências e isso certamente por influência das crenças persas e gregas que moldaram a cultura de certo período do mundo antigo.

Na verdade, o diabo foi se tornando mais glamoroso à medida que o pensamento humano foi evoluindo, ele foi se desenvolvendo tanto mais as percepções e inquietações dos indivíduos se adensaram. O terreno onde o diabo mais cresce é na mente das pessoas, onde há medo, angústia e ansiedade, há também ambiência fértil para que o diabo se “materialize”.

Portanto, é o homem que faz o diabo a imagem e semelhança do que pior existe em si mesmo e esse diabo varia de acordo com os "diabos" que estão dentro dele! Assim, o diabo do homem é do tamanho de sua culpa e é por isso que gente perdoada, que bebeu nas fontes da misericórdia, não tem medo nem de diabos nem de assombrações.

Eu não nego a existência do mal, nem tão pouco a de Satanás, mas não acredito em quase nada que lhe é atribuído pela religião. Esse diabo de "igreja" é por demais caricato, é o diabo de Dante Alighieri – do Inferno de Dante – um ser bestializado sob medida para assustar gente tola.

O diabo, mesmo, é muito mais sofisticado e sutil e, por isso, tão mais perigoso. A Escritura não se refere a ele com chifres e tridentes, mas como anjo de luz! Sim, tem gente que se assustaria se visse o diabo como ele é, não de medo, mas de estupefação!

Cristãos que imaginam que o diabo está distante, despachando no inferno, se enganam redondamente. O diabo, acredite, está sentado nos bancos de suas igrejolas, dando risada das aloprações que presencia, se deliciando com tanta ingenuidade e meninice...


Carlos Moreira

27 janeiro 2016

Meu Nome é “Legião”



Na vida, você pode ser possuído por dois tipos de espíritos: o dos demônios e o espírito do próprio homem. Sim, gente pode possuir gente para o bem e para o mal, pois todo encontro humano é, de certa forma, possessão.

Portanto, tenha cuidado com aquele que você convida para entrar no íntimo do ser, pois a “variedade” promíscua, ao invés de proporcionar experiência, fomenta, na verdade, a decadência da alma, exila o indivíduo para o mar do abandono dentro do seu próprio corpo.

Pessoas que tem por hábito cultivar relacionamentos fortuitos, gente que se entrega a um rosto bonito ou um corpo esculpido, não percebe o mal que faz a si ao trazer para o coração uma mistura enorme de sentimentos, o que faz com que a mente se torne compulsiva pela busca de novas possibilidades.

Tenho pena dos que imaginam que se entregam pelo prazer e que isso nada lhes custará, pois, mais cedo ou mais tarde, perceberão que perderam sua essência, diluíram-se dentro de si mesmos, já não possuem mais identidade nem unicidade, se você lhes perguntar o nome, tristemente, responderão: “meu nome é legião”.

Desta forma, percebo que o indivíduo que tem reverência pela sua solidão é mais feliz do que aquele que fez das trocas relacionais uma orgia de encontros descompromissados, onde o sexo rolou frouxo e a busca pela satisfação constituiu-se o único objetivo a ser alcançado. Quem vive imbuído apenas em sentir prazer experimentará angústias inesgotáveis quando ele lhe faltar e, tenha certeza, isso acontecerá, cedo ou tarde...

Carlos Moreira

02 setembro 2015

A Relatividade das Revelações




Percepções espirituais, além de serem muito pessoais, estão impregnadas de nossas próprias visões de Deus e do sagrado. A fenomenologia da revelação muda de indivíduo para indivíduo, podendo construir elaborações particulares ou arquetipias coletivas.

Moisés, por exemplo, viu o paraíso como um jardim, num contexto lúdico, cheio de beleza e poesia. Já o apóstolo João, que se radicou durante muitos anos em Éfeso, a segunda maior metrópole do mundo antigo, viu o paraíso como uma cidade, a Nova Jerusalém, que assumia a representação de uma nova sociedade, construída com os valores do Reino de Deus.

Paulo, por outro lado, em seu arrebatamento extático, não quis fazer asseverações concretas daquilo que viu e ouviu sobre a eternidade e o mundo por vir, o que denota o quão pessoal e intimista foi sua experiência.

Mas alguém pode perguntar: como é, então, o paraíso? Um jardim, selado por Deus depois da queda e guardado para ser usufruído apenas pelos salvos em Cristo? Uma cidade, aos padrões das metrópoles imponentes, com casas, ruas árvores e praças? Uma ambiência dimensional, tão distante de nossa realidade que é impossível descrevê-lo ou compará-lo a algo?

Ora, aquilo que hoje vejo e sobre o que penso, por mais subjetivo que seja e por mais metafísico que se represente, ainda está possuído pelas minhas percepções humanas, meus condicionamentos e minhas relatividades. Assim, toda visão que possuo, mesmo produzida por uma ação divina, ainda carrega as impressões do meu próprio olhar do mundo e da vida.

Ao despois, todavia, quando o que é em parte se tornar perfeito e o corruptível se revestir de incorruptibilidade, àquilo que é subjetivo se tornará concreto e definível, pois Deus fará com que mente e coração convirjam com vistas a compreensão de todas as coisas.

Sim, creia, um dia nós veremos com os olhos do Pai, discerniremos todas as coisas a partir dele, o que é e o que não é. Hoje, já há algo de divino em nós, mas continuamos a existir como o agora e o ainda não. Amanhã, todavia, seremos o que, irremediavelmente, fomos destinados para ser, conhecendo como somos conhecidos, refeitos e ressignificados para a glória e o propósito insondável do Senhor.

© 2015 Carlos Moreira

21 julho 2015

Melhor do que dizer “Por quê?” é dizer “Por que não?”.



“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos”. A frase é de Salomão, rei de Israel, e está registrada no livro de sabedoria do Eclesiastes, escrito cerca de mil anos antes de Cristo.
Pois bem, no século XIX da nossa era, o naturalista Charles Darwin, em sua observação científica sobre a evolução das espécies, chegou a uma conclusão muito semelhante à de Salomão, ainda que sua fonte de observação fosse outra. Ele afirmou: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.
Ora, se há uma síntese possível para ambas às análises, do ponto de vista da fenomenologia da existência humana, é que, em cada estação que nos está proposta, torna-se imprescindível desenvolver uma capacidade específica de adaptação a ela.
A maioria das pessoas que conheço e que se entendem fracassadas em alguma área de suas vidas, assim se sentem porque falharam nesta disciplina: não conseguiram se adaptar ao que lhes sobreveio. Portanto, minha hipótese é que, na vida, o que vale não é “vencer ou vencer”, mas “sobreviver ou sobreviver”!
Deixe eu lhe afirmar uma coisa: a existência nem é boa, nem é ruim: ela é como é. Cada dia trás seus próprios desafios e, na verdade, você nunca sabe o que será servido no cardápio seguinte. Neste momento, há pessoas sorrindo na maternidade, enquanto outras estão chorando no cemitério. Hoje, um casal se casou na catedral e, ao mesmo tempo, um outro concretizou o divórcio no cartório. Um empresário recebeu a averbação da junta comercial para começar seu negócio e o outro foi visitado pela justiça com a decretação da falência.
Na verdade, você precisa discernir qual estação você está vivendo! E mais do que isso: você precisa se adaptar a ela! A maioria das questões da vida são reversíveis, o vento, não raro, muda de lado ou, como bem disse o Cazuza, “... Ainda estão rolando os dados”. Eu não sei se você quebrou, se foi traída, se ficou deprimido ou está se sentindo velho? Sei, contudo, que é imprescindível se adaptar ao que está acontecendo agora e os que conseguirem fazer isso, sobreviverão!
Então, você pode se sentar na calçada da vida, ficar choramingando e se maldizendo, ou pode se levantar, sacudir a poeira, se vestir de esperança e começar a fazer algo novo! Não me diga que não há mais tempo, que você não tem forças ou que a situação é por demais complexa. Você precisa de decisões, não de desculpas!
No fundo, a vida é bela, mas o mundo é mau, e nele, sobreviverá aquele que não se deixar sucumbir pela amargura, que aprender a rir do fracasso, o que regar com lágrimas a semente de sonhos bons e embeber o coração em ternura e gratidão. Não é fácil para ninguém, mas é possível para todos. Por isso, melhor do que dizer “por quê?”, é dizer: “por que não?”.
©2015 Carlos Moreira

15 julho 2015

Será Eterno o Inferno?




Sobretudo no ocidente, a ideia de inferno povoa a mente da grande maioria das pessoas. Talvez esta seja, inclusive, uma das grandes inquietações do ser humano em todos os tempos: qual será o seu destino após a morte?

Céu e inferno são conceitos que estão intrinsecamente associados à religião. A Bíblia está repleta de citações onde ambos aparecem, o primeiro como sendo o destino dos bons e justos, o segundo como lugar de castigo eterno para os maus.

No que diz respeito ao cristianismo, foi na Idade Média em que as ideias sobre o inferno mais se popularizaram. Ao observarmos as pinturas daquele período, constatamos produções realmente bizarras, como o Diabo e seus anjos cozinhando pessoas em caldeirões de óleo fervente, por exemplo. Imagens como esta são símbolos que servem para criar conceitos e propagar valores. Sem dúvida, esse era o objetivo já naquela época.

Mas o que realmente é o inferno? Um lugar? Um sentir? Perguntas como essas só podem ser respondidas do ponto de vista da teologia ou da filosofia, pois ninguém jamais foi até ele ou de lá voltou para nos dar qualquer depoimento.

Por outro lado, há quem afirme que as Escrituras são muito claras com relação ao inferno. Ora, isso depende de quem as interpreta. Os textos que falam sobre inferno usam uma linguagem recheada de metáforas, alegorias e arquetipias — presentes na apocalíptica judaica e, por conseguinte, na escatologia cristã.

O conceito de inferno, como nós o entendemos hoje, foi sendo desenvolvido nas Escrituras. No Velho Testamento, ele simplesmente inexiste. Já no Novo, o que encontramos é uma construção cultural-religiosa que é consequência da história do povo Hebreu pós-cativeiro babilônico.

No que diz respeito ao Velho Testamento, o pensamento sobre o pós-morte e o inferno pode ser compreendido na leitura de Eclesiastes capítulo 9. Lá está dito: “Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mor-tos nada sabem; para eles não haverá mais recompensa, e já não se tem lembrança deles”, (v.5). Em seguida encontramos: “O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria”, (v.10).

O que vemos nesse texto é algo que denota uma espécie de apagão. Para os hebreus antigos, quando a vida terrena findava, se alguém morresse sem a consciência de Deus e de sua Graça, restava apenas ser semeado na terra. Em sombra e silêncio, a alma deveria aguardar o juízo final. Tais indivíduos passavam então a habitar o Sheol, termo hebraico que significa túmulo. Portanto, neste período, não existia a ideia de inferno.

Para entendermos como esta concepção mudou, precisamos voltar à época da destruição de Jerusalém pelo rei Nabucodonosor e o inevitável exílio ao qual o povo hebreu foi submetido. Naqueles 70 anos de escravidão, os israelitas tiveram contato com os persas e depois com outros povos. Eles já traziam em suas religiões as crenças a respeito de anjos, céu e inferno. Isso pode ser constatado tanto no zoroastrismo como no confucionismo.

A partir de então, rabinos judeus “simbiotizaram” esses saberes universais sobre o mundo invisível com as doutrinas vétero-testamentárias, o que culminou numa nova consciência: a imaterialidade escatológica. Ela pode, inclusive, ser percebida na literatura apócrifa do período intertestamentário.

Por isso, quando começamos a ler o Novo Testamento, logo percebemos a mudança, pois nos deparamos repetidas vezes com o nome grego “hades”, o qual, na cultura helênica, predominante naquele mundo, representava o deus das camadas inferiores e dos mortos.

Na verdade, aquele “novo pensamento” era, em síntese, o resultado de séculos de tradição rabínica inculcada na mente e no coração do povo. Essa foi à fenomenologia que produziu as representações que passaram a conceituar o pós-morte e o inferno.

Curiosamente, todavia, é “lendo” Jesus que melhor compreendemos o que é o inferno. O Galileu nos revela com clareza que há, pelo menos, dois tipos dele: um existencial e o outro escatológico.

O inferno existencial trata de uma ambiência onde a alma humana, não raras vezes, sucumbe. Podemos encontrá-lo em duas alegorias expostas no Evangelho de Mateus. A primeira está no capítulo 5 e fala daquele que mata o seu irmão com a língua, que reduz o outro ao desprezo absoluto e o segrega ao estado do não-ser.

A segunda está em Mateus 18 e trata do “credor incompassivo” que, mesmo após ter sua dívida impagável perdoada, age com inclemência contra aquele que lhe devia uns trocados. Em ambos os textos está dito que o indivíduo culpado será remetido à “prisão” e “dali não sairá até que pague o último centavo”.

Portanto, este é um tipo de inferno de onde se pode “entrar” e “sair”. Eu já estive neste “lugar” algumas vezes, em agonia de alma, solidão, sofrendo dores lancinantes em meu ser. Sim, este sentir pode também ser percebido na fala do salmista quando afirma: “laços de morte me cercaram e angústias do inferno, se apoderaram de mim; caí em tribulação e tristeza...”. Sl. 116.

Esse tipo de inferno existencial nós provamos em vida. Ele não é habitado, ao contrário, instala-se no coração de todo aquele que se deixa persuadir pelo mal. Sentimentos e ações que manifestam ódio, medo, julgamento, egoísmo ou inveja, dentre tantos outros, acabam enraizados no ser e, por conseguinte, transformam nossos “ambientes interiores” em masmorras escuras e frias.

O segundo tipo de inferno, o escatológico, nos revela que aqueles que se negarem a aceitar a Graça de Deus ficarão numa espécie de lapso de memória/tempo. Jesus se refere a ele afirmando que se trata de um “lugar” onde “o verme não morre e o fogo não se apaga”.

Essa expressão, na verdade, é uma alegoria que aponta para o vale de Hinom. Este local, nos arredores de Jerusalém, ficou conhecido como um lugar de morte e perversidade. Foi lá que o rei Manassés sacrificou seus filhos a moloque, um deus pagão. A prática passou então a ser feita pelos filhos de Israel, o que veio a se constituir abominação ao Senhor.

Nos dias de Jesus, o vale de Hinom chamava-se Geena e havia se transformado no lixão de Jerusalém, onde o fogo não se apagava, em decorrência dos incêndios que visavam incinerar os dejetos ali colocados. Era também um lugar fétido e pútrido, pois havia degeneração de restos alimentares e humanos, o que favorecia a ambiência para a proliferação de vermes.

Quando Jesus falou de inferno, usando o nome Geena, todos os que pertenciam àquela cultura imediatamente fizeram a associação ao local e compreenderam que se tratava de uma comparação.

Todavia, ao longo dos tempos, a interpretação da igreja acabou tornando literal o que era apenas alegórico, transformando assim o inferno num lugar de fogo e enxofre, de demônios e vermes, sofrimento e miséria. Em Jesus, está mais do que claro que o inferno não é localizável, pois não se enquadra em categorias espaço-temporal. Não se trata de um local, mas de algo de natureza dimensional.

E aqui cabe perguntar: será eterno este inferno? Será. Mas isto do ponto de vista da eternidade, onde o khronos (tempo) não é algo como em nossa dimensão. Na eternidade, a “medida” que vale é o Aeon, um tempo sagrado, desprovido de uma medida precisa, um tempo onde as horas não passam cronologicamente, o tempo de Deus.

Caio Fábio afirma: “o inferno durará uma eternidade, mas a misericórdia de Deus vai de eternidade a eternidade”. Assim, o que se pode deduzir, e isso com fundamentação bíblica, é que até mesmo o inferno terá o seu fim, pois, como sabemos, “a misericórdia triunfa sobre o juízo”. Sim, a Graça já proveu todas as coisas!

Eu penso que a grande questão a ser entendida é que o inferno não foi criado para homens e sim para o Diabo e seus anjos! Quem pode acreditar num Deus de amor que, uma vez tendo concluído o seu plano, julgados os pecados de sua criação, irá enviar para um lugar de trevas, fogo e dor eterna as almas dos que não corresponderam às suas expectativas? Quem quiser que creia nesse deus! Menos eu!

O apóstolo Pedro pode nos levar a entender melhor este inferno escatológico. Em 1ª. Pe. 3:19, lemos: “no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão que há muito tempo desobedeceram, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé”.

Neste texto, Pedro usa a expressão “tártaro”, a qual estava associada à cultura helênica e representava uma subdivisão do hades. No tártaro ficavam todos os que haviam pecado deliberadamente contra Deus, ou seja, os homens maus.

Pois foi justamente a este “lugar” dimensional que Jesus se dirigiu quando morreu fisicamente. Ele entrou lá e anunciou: “Vencida foi a morte! Quem deseja aceitar a Graça de Deus?”. E assim, toda aquela geração teve uma nova oportunidade, pois, onde quer que uma consciência se acenda para a Boa Nova do Evangelho, dali sairá imediatamente para entrar na festa do perdão e da misericórdia.

Por outro lado, não é absurdo supor que alguém que chegou um dia a “habitar” o inferno, ainda que por um instante/momento, acabe por se tornar “diabo”. Assim, imagino que haverá aqueles que, deliberadamente, se recusarão a aceitar o Cordeiro e, sendo assim, perecerão. Sim, há um tipo de sentimento que se instala no coração para a morte, pois impermeabiliza o ser para o amor e, desta forma, quem o carrega, receberá justa punição.

Para esses que transgredirem e não aceitarem, em hipótese alguma o amor de Deus, haverá apenas juízo, pois eles serão lançados neste “lugar” e lá ficarão, “até que paguem o último centavo”, usando aqui a alegoria já exemplificada.

Ao final, o que teremos, após o juízo, está revelado no texto de Apocalipse 20:14, que nos afirma que: “A morte e o inferno foram lançados no lago de fogo...”. Nesta ocasião, quem estiver lá “dentro”, tendo rejeitado em todas as instâncias o perdão de Deus mediante sua Graça, estará sendo destruído para sempre.

Tanto o Diabo e os seus anjos, quanto os homens, deixarão de existir. Os homens perderão a consciência de si mesmos, sendo transformados em não-ser e, por fim, se nadificarão.

Eu sei que estou tocando numa questão paradigmática. Há gente, inclusive, que se soubesse que o inferno — tendo como referência este lugar que habita o inconsciente coletivo da cristandade — não existe de fato, talvez deixasse de amar a Deus e caminhar com Jesus.

O que percebo, no epílogo da existência humana, é que tudo é Graça e Misericórdia, pois apenas o que diz respeito ao amor se eternizará. O mais, tudo o mais, será extinto, passará o céu e a terra, mas o amor sobreviverá!

É minha convicção que na eternidade com Deus não haverá paraíso e inferno, ambos coexistindo paralelamente, simultaneamente. O que nos aguarda quando tudo estiver reconciliado com o criador, será aquilo que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano...”, pois Deus assim o quis.

Para mim, inferno sempre remeteu a algo que trata da separação de Deus. Viver sem Deus é existir no absurdo, entregue à própria sorte, e isso, nem mesmo o Eterno permitirá. Como se diz no jargão popular: “quem viver verá!”.

Carlos Moreira


24 maio 2014

Sempre Fará Sentido se Você Tiver Sentido


Virei mundos atrás de um fôlego de vida, mas a maior viagem que fiz foi mesmo para dentro de mim. Andando por ruas desertas encontrei imagens que o tempo apagou, todas estampadas em letreiros desbotados, sucatas da alma, fantasmas moribundos, já não assombram mais, morreram de tristeza e desgosto.

Eu já fui um e já fui muitos. Fui pedaço, partido, perdido, fui inteiro, certeiro e conciso. Andei em voltas, fiz revoltas, espalhei pedras e grafei palavras. Se soubesse pintar e tivesse um pincel de pintor, eu faria quadros e retratos, deixaria marcas em paredes lisas e pálidas. Mas como se diz: meu ofício é outro.

A sabedoria do silêncio não compensa a angústia da solidão, pois quem observa estrelas jamais construirá calçadas. Na régua da vida, uma noite não é nada: nem um traço, nem um paço, apenas espaço. E foi por muita insônia que descobri que há homens que nascem prontos, já outros, precisam fazer-se, camada a camada, sobreposições cuidadosamente esculpidas no tecido dos dias.   

A rima do poeta é mimética, suave, mas o texto do cronista é angústia. Nada é pior do que falar e não dizer, juntar palavras, mas não expressar. Flexionar o verbo é fácil, usa-se a regra como álibi. Difícil é imprimir-lhe significados, resgatar os sentidos que rasgaram a carne no êxtase do instante.

O drama do tempo é ter memória, pois recordar é sofrer duas vezes o mesmo mal. Se não me faço entender é porque, ou você andou pouco, ou dormiu demais. No fundo, o que me aflige, são os modelos prontos, pois percebi que o cemitério da mente está nas prateleiras das lojas. Pegue, pague, peque, tudo é rotina, tudo é rapina, devaneio e desprazer. 

Se eu pudesse, ao invés de andar para frente, andaria para trás. No futuro, posso fazer ainda mais tolices do que fiz até agora. Voltando ao passado, todavia, talvez fosse capaz de concertar erros que ficaram gravados na imensa lousa de bronze. Mas o relógio, como se sabe, é obtuso em seu trabalho, nunca se cansa, nem reclama, segue devorando tudo, até mesmo o tempo.


Se eu juntasse as peças, talvez, a figura do esboço ficasse mais clara. Mas há pedaços em todos os cantos, até embaixo do sofá! Por isso é melhor ir no improviso, tateando entre ruas desertas e becos sem saída. No final, se não for como desejava, não devo ficar chateado. Como imaginava, quem foi que disse que havia alguma garantia? 

Carlos Moreira

31 março 2014

Deixe-me ser Coerente com Minhas Incoerências



Quem foi que disse que o traço perfeito tem de ser reto? Há muito mais beleza nas curvas, no “torto”! Cartilhas do viver, convenções, estereotipagens, tudo bobagem. Quem é andarilho da vida sabe que há planos que se fazem enquanto se caminha, o destino nem foi alcançado e já há mudança de rotas.

Talvez isso seja nossa herança cartesiana, tudo sensato demais, lógico demais... Num mundo dominado por máquinas, os sentimentos viraram software, esboço automatizado do que um dia existiu como desrazão no coração. Em nosso tempo, até amar é mecânico, previsível e chato.  

Odeio a ditadura, sobretudo aquela que tenta serializar o pensamento. Neste sentido, ninguém consegue ser mais fabril do que a religião. A fé deixou de ser uma expressão da relação pessoal com o sagrado para se tornar um conjunto de normas e fluxos aceitos pela convenção do sindicato do clero. Quem crer diferente, está fora! Basta ser normal para não caber na “caixa”...

Os anos, creia-me, passam depressa depois dos quarenta. Um dia hoje vale muito mais do que valia há dez ou quinze anos atrás. Eu olho com interesse redobrado o caminho que trilhei. Quando se é jovem, não há motivação para se guardar nada. Ao depois, todavia, surge certa sensação de perda, dá vontade de colher os pedaços de nós que vão ficando pelo caminho para depois colar e vê no que dá. 

E foi olhando para dentro de mim, para os muitos “eus” que compõem o mosaico de quem sou, que percebi essa enorme desarrumação! Sim, eu já fui Quixote um dia, amante dos impulsos, poeta pessimista, lutando contra moinhos... Mas também fui apolíneo, um Hércules invencível, aquartelado em fortalezas miméticas, prisioneiro do saber e da razão.    

Há uma glória, contudo, que não me pode ser negada: a de que eu fui muitos e único, nunca existi para fora, fugi o mais que pude dos recursos estéticos que plastificam a vida. Na minha incoerência, sempre houve coerência, eu expus no letreiro toda a anarquia interior que, na fábrica do coração, um dia, se fez amor e paixão.  

Portanto, não me amole, não me esfole, nem me moleste com seu senso de perfeição. Não me diga que não dá para ser desse jeito, que é preciso recondicionar minha alma para que o apetite pelo démodé se torne prato do dia. Fique com seus códigos, no meu sistema, o caos é o padrão, não há rotas, a nau se entrega as correntes e vai...

Hoje eu sou, mas, amanhã, quem sabe? Hoje é assim, contudo, tudo pode mudar! Hoje acredito, mas posso vir a duvidar... Já tens quase tudo de mim, não me tire essa loucura derradeira. Há tantas câmeras me filmando, quase me tornei controlável, dá-me, então, um pouco de espaço para ser o que você tem medo até de pensar. 

É que “pau que nasce torno” não vira mobília em museu, só serve para ser vara de boiadeiro rasgando o chão duro da Terra, comendo barro e poeira, descobrindo o sabor das manhãs... 

Carlos Moreira

17 dezembro 2013

De que são Feitos os Homens?



Certa vez me fizeram acreditar que o homem havia sido feito do barro. Mas que nada! Eu sei que o homem veio da borracha. Ele nasce tão flexível, e que incrível, pode até retorcer-se. Não fosse de borracha, ainda nos primeiros anos, sucumbiria. Quedas frequentes, insistentes, o matariam sem constrangimentos. Sim, é de borracha, modela e se adapta, se constrói, põe-se de pé e diz: eu sou!

Os dias, todavia, com apetite insano, avançam, devoram as folhas dos calendários... E eis agora o homem! Passadas fartas em calçadas plácidas ele avança, lindo. Tudo é delícia quando se é jovem. Nesta estação o homem é de aço. Imagina ser inquebrável, invencível. Torna-se duro, impermeável a dor e ao amor. Pensa que é eterno, corre todos os riscos, risca rastros no chão da vida, faz mapas, corta mares, adentra infinitos. Mas tudo isso também passa...

Aí o homem se torna homem, se converte em vidro, fica mais refinado, translúcido, misterioso. Homem de vidro bem sabe dos seus limites, entende que pode facilmente se quebrar, cair e não mais ser. Sendo de vidro, reflete a luz, rouba cenas, mas aparece apenas, sem protagonizar, torna-se caleidoscópio, sintetiza cores, faz desenhos no imaginário. O homem de vidro domina pensamentos, controla sentimentos, rebusca grifos nas páginas do livro dos seus dias, une letras que namoram palavras, palavras que acabam parindo frases e textos.  Fica o dito e tudo o mais escrito, quase eterno, quase...

Vem então o fim, apressado, fora de tempo. O homem sabe que sua beleza já se foi e que as certezas se perderam quais folhas de outono dançando na porta do terraço vazio. Em seu epílogo entre os viventes, o homem se torna de barro. Mesmo em sua aparente fragilidade, o barro possui lindeza por demais. Pode ser moldado, refeito, reinventado. Homem de barro sabe que a vida é silêncio e solidão, é manufatura diária para, ao final do dia, os pés poderem descansar de tantas andanças, de tanto lamento.


Na velhice o homem é de barro, sim senhor, vai se esfarelando pelo caminho, deixando partes de si no solo como semeadura da vida, é, ao mesmo tempo, semente e adubo. E só aí, quando homem e terra começam a se fundir, é que o maravilhoso mistério de ser se desvela. Sim, quando os ventos sopram sobre a face enrugada e fazem os poucos fios de cabelos brancos se agitarem sobre olhos esmaecidos, quando o solo clama pela alma e chama o corpo para repousar na cama eterna, o homem percebe que existir é mais que viver, é ser e sentir, é encontrar o sentido que há em morrer para, finalmente, poder nascer...

Carlos Moreira 

21 junho 2013

Era uma Vez... Mas não é Mais... - Uma Análise dos Últimos Acontecimentos no Brasil



Estamos na pós-modernidade, apesar de muitos ainda acharem que vivemos na idade média. Não há como comparar as manifestações que aconteceram nestes últimos dias no Brasil com nada que, historicamente, tenha ocorrido antes, ainda que os contornos possuam semelhanças com outros acontecimentos libertários, como a “Queda da Bastilha” na França do século XVIII, por exemplo.

Hoje, após um milhão de pessoas saírem às ruas marchando e cantando em mais de cem cidades brasileiras, vimos surgir inquietações de lideranças políticas, sociais, de filósofos e antropólogos que estão em busca de entender o que está acontecendo. Eles perseguem velhos paradigmas e se ocupam com modelos que não servem mais para nos levar a conclusões que, antes, nos saciavam.

Digo isto porque li e ouvi em blogs, nas redes sociais, em canais especializados de informação, pessoas em busca de identificar as lideranças do movimento, a pauta de reivindicações, a agenda com os próximos passos, etc. Ora, quem assim está pensando não analisou o fenômeno com os “óculos” corretos, mas está querendo esmiuçá-lo através de lentes que não mais se adéquam para este fim.

Na verdade, estamos vivendo algo totalmente novo, com uma fenomenologia própria. O que percebemos é que este movimento de protesto é multifacetado, policromático, independente. Ele se articulou através de pequenos grupos, das redes sociais, do marketing viral, não segue as regras que foram utilizadas no passado.

O fato histórico e de suma importância é que o movimento, em poucos dias, conseguiu mobilizar um espectro importante da sociedade, notadamente composto pela classe média, a qual vem reprimindo desejos de manifestações contra as políticas públicas, econômicas e sociais no Brasil. Uma vez que os objetivos mais tangíveis foram alcançados – no que diz respeito às tarifas de transportes públicos – não há mais o que protestar. As pessoas voltam para casa e aguardam uma nova convocação!

Se eu pudesse comparar o que aconteceu, de forma a termos um modelo conceitual, afirmaria que este fenômeno que assistimos é como um furacão, que se forma num determinado momento, concentra uma enorme força reprimida, provoca “estragos” por onde passa e, em seguida, se dissipa. Ele pode se formar novamente, a qualquer instante, bastando que haja condições e fatores necessários para tal.

Ninguém espere que este movimento produza um ícone nacional, ou faça surgir uma nova legenda partidária, ou que se crie a partir dele uma agenda de protestos organizados, etc. Eu acredito que o que o povo descobriu foi uma forma rápida, poderosa e eficiente de se manifestar sem que haja o envolvimento de sindicatos, partidos políticos, associações de classes ou grupos sociais. Se pudéssemos atribuir a um grupo a liderança das manifestações que presenciamos, poderíamos dizer que foi o “grupo dos brasileiros”!

Como se sabe, nem tudo está pronto. E nem era mesmo para estar! O que fica como lição para políticos e governantes é que não há mais como não se aperceber das grandes demandas e insatisfações da sociedade. Não há mais como manipular massas como se fez no passado, utilizando meios de comunicação subservientes e métodos alienantes. Mesmo em meio a uma Copa da FIFA, onde a seleção do Brasil vai bem, o povo foi às ruas deixando claro que a época do “pão e circo” acabou, ficou para trás.

Este novo Brasil que surge não tem um rosto, mas milhões deles, não tem um partido, a não ser aquilo que tome partido em função da coletividade. Este novo Brasil não precisa de canais de TV ou Rádios, usa a internet e as redes sociais – uma mídia que não possui donos – como meio por onde as informações podem trafegar alcançando milhões de cidadãos de forma rápida e objetiva.

O que está acontecendo neste momento, ainda está longe de se poder compreender. Muitos especularão e tentarão dar ao fenômeno uma forma, colocar uma marca, impingir velhas regras e conhecidos controles. Inútil. O que foi, já não é mais.

Daqui há alguns anos, quando falarem do dia 20 de junho de 2013, o dia em que eu e você assistimos a “queda dos poderes”, ainda que ela tenha sido mais moral do que institucional, dirão o seguinte: “era uma vez um país...”, e relatarão o que ocorreu. Hoje, todavia, o que vejo, concretamente, é que nada do que era é mais...

Carlos Moreira

11 fevereiro 2013

Tem Gente que Vem, Tem Gente que Vai



Todos os dias é um vai-e-vem , a vida se repete na estação. Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar. E assim, chegar e partir”  
Milton Nascimento e Fernando Brant 

O trecho acima é parte da canção Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Confesso que, para mim, já se tornou hábito analisar a vida através das lentes dos poetas, pois eles, não raro, revelam-nos a realidade através do que, a princípio, parecia só abstração

Eis, então, algo que vi na vida: nada é capaz de marcar tão profundamente a alma humana quanto a passagem de uma pessoa. Sim, seres humanos deixam rastros por onde pisam, sobretudo se o terreno é o ser da gente. Há pegadas que se projetam do chão da existência para o sagrado do coração, deixam tatuadas impressões, sentidos e sentimentos.  

Por isso, tenha muito cuidado com quem entra e sai de sua vida, pois você pode acabar acolhendo quem só lhe fará mal ou despedir quem só lhe fez bem.

Tem gente que chega pra ficar...”. Estes, de preferência, devem ser os que nos trazem paz e alegria. Semeá-los em nós revelará sábia decisão, pois, quem acha um amigo, encontrou na lida da vida um abrigo. Deixe que entrem, que sentem, que façam morada duradoura, que nos dias difíceis nos sejam alívio e nas noites sombrias, alento.

“Tem gente que vai pra nunca mais...”. Em alguns casos, inclusive, já foi tarde! É sinal de maturidade acatar a voz da consciência e abandonar os sussurros do coração. Há certo tipo de gente que precisa ser arrancada de dentro de nós, pela raiz, de tal forma que jamais brote novamente. Dessas, as piores são aquelas que nos fazem bem nos fazendo mal. Esse vício vicia! Trate-as como erva daninha, deixe a piedade para outra ocasião, corte a própria carne, se preciso for, mas ampute esse mal antes que ele lhe faça “bem”.

“Tem gente que vem e quer voltar...”. Mas seja cauteloso, veja se vale a pena. Alguns relacionamentos têm prazo de validade, não devem ser consumidos após o tempo determinado. Partidas saudosas marcam mais do que chegadas indesejáveis. É melhor a lembrança boa do que o convívio entediante. Há certos encontros humanos que nos trazem coisas boas por um determinado tempo, passado o qual, tendem a afetar o sono e o apetite.

“Tem gente que vai e quer ficar...”. Aprendi que sonhos não devem ser construídos sobre nuvens, mas sobre pedras! Não há coisa mais danosa ao ser do que a convivência passiva com a indecisão, pessoas que estão sempre entre o agora e o ainda-não. Na vida, há mais proveito no fim precoce do que na longevidade tardia. Portanto, ou fica, ou sai, ou entra, ou vai, pois o tempo urge, devora o sentir e o ser.

“Tem gente que veio só olhar...”. Pois é melhor assistir ao circo pegar fogo do que meter a mão no lamaçal para levantar paredes. De que lhe servem milhares de amigos nas redes sociais que assistem, placidamente, a tua dor, num torpor calcificante, de dar nó e dó, de dá medo? A vida não é palco do imaginário, mas crueza do real, não demanda plateia, mas atores que se envolvam na trama do drama, façam parte do enredo, seja ele qual for, co-média ou tragédia.

“Tem gente a sorrir e a chorar...”. Elas vão e vêm, daqui para ali, e você precisará escolher com quem vai sorrir, após ter chorado, e com quem vai chorar, depois de ter sorrido. Lembre-se, todavia: a vida é feita de nuances e contradições, tempos bons e maus, dias pálidos e noites ardentes. Por isso, se possível, nunca deixe a mesa ficar vazia, mas acolha sempre a solidão com reverência, se preciso for.

No mais, “é melhor serem dois do que um”, e melhor ainda quando, de dois, se faz um, pois, lembrando Nietzsche: “Na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão, devoram-no muitos”. Contudo, é mister aprender, tem gente que vem e gente que vai, é preciso acolher quem chega, com ares de primavera, e despedir agradecido quem parte, no ocaso da estação outonal.

Carlos Moreira

10 setembro 2012

Meu Vício é Viver




Fazer o quê? Não tenho como negar que há em mim essa disposição incansável de continuar, de persistir e resistir até ao improvável. Desenvolvi uma atração irresistível para tentar fazer o que outros não puderam, ir por onde muitos fracassaram, perseguir o que poucos conseguiram.

Fazer o quê? Eu gosto de frio, de chuva, de dias cinzentos, de engarrafamentos, de observar gente que vai e vem. Gosto da cidade grande, de cafeterias, livrarias, de boas conversas e mentes abertas. Gosto da solidão, da ocasião, de manteiga no pão e de por os pés na aspereza do chão.

Fazer o quê? Eu gosto de correr riscos, me expor e, por vezes, até de me contrapor. Mudo de faixa, mudo de lado, mudo de opinião, mudo às vezes fico, emudeço e deixo a mente vagar, transporto-me para outro lugar, fecho-me em copas, desapareço, saio de mim mesmo, deixo a casa e o ser vazios.

Fazer o quê? Tenho uma atração curiosa por coisas velhas. Admiro o retrô e possuo uma estranha saudade do passado. Não é nostalgia, mas gosto pelo antigo. Já senti muitas vezes que não faço parte deste tempo, deste mundo, desta geração. É pura contradição trabalhar com tecnologia e apreciar o rudimentar, o artesanal, o personalizado.

Fazer o quê? Já conheci muita gente, participei de muitas “rodas”, mas ainda não consegui fazer um amigo. Amizade é coisa difícil de conceituar, difícil de manter e mais difícil ainda de achar. Possuo, sim, muitos conhecidos, mas amigo, amigo mesmo, ainda não; quem sabe, um dia...

Fazer o quê? Eu sou exagerado, passional e ansioso. Tudo o que faço é extremado, é 8 ou 80. Não existe em mim meios-termos, nunca fui comedido, equilibrado, contido ou centrado. Sou excesso e paixão, sou intenso e emoção. A vida, essa sim, me pôs rédeas, o fracasso me impôs a razão e as quedas a ponderação. Mas não se engane, no fundo, ainda sou “bicho solto”.

Fazer o quê? Eu me enfado com a mesmice, não gosto de serializações, de rotinas, de agendas, de programas, de coisas ensaiadas, organizadas. Gosto do inusitado, da aventura, do improviso, do momento. Tenho ânsia em criar, sou movido por espasmos, impulsos violentos, saio do asfalto, ando por atalhos, crio meus próprios mapas, faço rotas onde não há estradas.

Fazer o quê? Apesar de toda a timidez, impensável para quem me aprecia, fato para quem me conhece, gosto de me expressar, sou ser polêmico, de opiniões firmes, convicções quais estacas fincadas no ser, por vezes, inamovíveis. Dificilmente ando de forma cartesiana, estou sempre na contra-mão, no contra-fluxo, do lado “errado” da rua, do lado de fora, onde há pouca ou nenhuma companhia.

Fazer o quê? Tornei-me alguém sem grandes ambições ou muitas pretensões. Como imaginava, na meia idade já conquistei tudo o que desejava meu coração. Um dia, é fato, eu quis dominar o mundo inteiro, mas isso quase me custou perder a minha alma. Ainda tenho uns poucos sonhos, que valem a pena ser sonhados, mas é coisa “rala”, simples e até fácil de se alcançar. 

Fazer o quê? Se ainda há tanto por fazer, e muito mais ainda para ser, não me venha falar em aposentadoria, ócio, feriado ou dia de Santo. Dá licença que eu vou passar, abra espaço que preciso seguir, estou grávido de esperanças e devo em breve parir singularidades. Sim, não espere por mim para o jantar, pois vou por esta estrada imprecisa, nesta ânsia de transcender, de ir além do que sou, tornar-me algo que ainda está por se fazer. E fazer o quê, se meu vício é viver?

Carlos Moreira

 

14 junho 2012

“Diga o Fraco: Eu Sou Forte”



Quando lhe faltar inspiração para fazer o que tem de ser feito e você se perceber como um autômato, uma máquina de repetição, agindo sem sentido, sentindo sem paixão, diga o fraco: eu sou forte!

Quando os dias forem cinzentos, e a estação outonal chegar, quando as flores murcharem e sua beleza se for, quando as nuvens persistirem mesmo depois de todo o aguaceiro, então, diga o fraco: eu sou forte!

Quando os sonhos morrerem, quando os planos falharem, quando a existência se tornar insuportável, e seus olhos estiverem encharcados de tanta realidade, diga o fraco: eu sou forte!

Quando os amantes se forem, quando a festa acabar, se lhe for impossível sorrir, e a cortina se fechar, depois que a orquestra partir e toda música calar, não preste atenção a nada, diga o fraco: eu sou forte!

Quando o silêncio for sua companhia, e tua sombra te acompanhar mesmo à noite, quando te sentires vazio, apagado pavio, aquieta-te então, pois todo caminho caminhado é caminho de solidão, e, assim diga, o fraco: eu sou forte!

Quando a esperança se for, e a tua fé te faltar, quando o absurdo tornar-se razão, e a escuridão vier te abraçar, abre tuas velas ao vento, deixa o porto e o cais, repete contigo mesmo, diga o fraco: eu sou forte!

Quando a alegria partir, e as tuas forças faltarem, quando a doença chegar, sem cura, sem pena, sem nada a te acrescentar, entende que o tempo acabou, segue resignado, não pense em parar, lembra-te, todavia, de algo, diga o fraco: eu sou forte!

Quando os teus bens forem muitos e nada mais te faltar, mas ainda assim tua alma esvaziada ficar, quando não houver mais batalhas, e o último inimigo tombar, olha para tuas conquistas, inúteis, tão fúteis, hão de passar, não te esqueças, contudo, nem um instante, diga o fraco: eu sou forte!

Quando o pecado te arguir, quando o juízo chegar, quando o tempo se cumprir e o teu destino selar, quando não tiveres saída, nem mais a quem apelar, lembra-te que ainda és homem, só Deus pode te salvar, e assim, apele a Ele, diga o fraco: eu sou forte!

* "...diga o fraco: eu sou forte".  Joel 3:10

Carlos Moreira

 

06 junho 2012

Ricardo Gondim: de “Herói” da Fé a Arqui-herege!





Inicialmente, quero lhe dizer que Ricardo Gondim não me conhece; eu o conheço. Sim, porque Gondim é parte da história recente do cristianismo em nosso país e do movimento evangélico, com livros publicados, participações em revistas aclamadas, congressos, simpósios, entrevistas na TV, homem de notório saber, não só do ponto de vista da teologia, mas de outras áreas do conhecimento, líder de uma denominação de expressão, articulista, dentre outras muitas habilidades que o Senhor da Igreja lhe concedeu.

Também não estou aqui para defender Gondim, até mesmo porque eu não tenho nem categoria nem “pedigree” para isso. Aliás, ele sequer precisaria de algo desta natureza: está lavado pelo Sangue do Cordeiro, justificado de suas obras, crucificado com Cristo e com Ele ressuscitado, já assentado nas regiões celestes e, com absoluta convicção, aguarda o dia do juízo para ouvir de Jesus: “vinde, entrai no Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo... Foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei”.

Então, o que quero? Ora, eu busco entender os porquês de algumas coisas. Eu tenciono levar você há pensar um pouco e a questionar as razões de suas ações, como afirmava Nietzsch. Eu quero tentar sair desta “cortina de fumaça” que se formou em torno de Ricardo Gondim, para buscar enxergar práticas que estão em vigor hoje no mundo eclesiástico, almejo, de alguma forma, discernir que “espírito” é este que surgiu entre nós, que zeitgeist vem influenciando o "nosso ethos", o que está tornando-se “material” impregnado, tanto na mentalidade, quanto no inconsciente coletivo dos evangélicos, se é que isto é possível.

Tenho acompanhado o “drama” do Gondim... Afirmo desta forma, pois, há bem pouco tempo atrás, ele era um homem celebrado no meio evangélico, um “herói” da fé. Seus escritos e mensagens abençoavam e alcançavam milhões de pessoas dentro e fora do Brasil. Não tenho dúvidas das centenas de milhares que foram levados a Cristo pela pregação do Evangelho que foi posto em sua boca. Mas, de repente, em função de algumas falas e escritos, a despeito de tudo, desgraçadamente, ele transformou-se em arqui-herege da fé cristã. Interessante...

Eu li e assisti a todo o material que veio a baila nestes últimos tempos. Não o fiz apenas nos blogs na internet, mas, sobretudo, entrei no site de Gondim e desci as “profundezas” de seus pensamentos e ensinamentos, de tal forma que evitasse texto sem contexto, exegese de ocasião, sensacionalismo, e outros recursos mais que, penso, foram usados neste e em outros casos.

Li também e, de forma cuidadosa, analisei, sem “sentimentos” ou inclinações, as articulações dos apologetas sobre Gondim. Diante de todo este cenário, valendo-me da posição que hoje me cabe, como editor assistente do Genizah, com 30 anos de caminhada com Jesus, 10 dos quais como pastor, com formação em teologia e filosofia, com centenas de artigos e mensagens publicados em revistas e blogs, penso que, ao menos, também ganhei o direito de ser ouvido por alguns instantes, ainda que esteja “remando contra a maré”...   

Minha fala carrega algumas preocupações...

Em primeiro lugar, preocupa-me como, tão repentinamente, um homem com notórios “serviços” prestados ao Senhor da História, da Vida e da Igreja, tenha se transformado em alguém tão execrado. Como bem afirmou Cáio Fábio – outro que já viveu algo de natureza semelhante, ainda que por questões totalmente diferentes – “a igreja é o único exército que mata os seus feridos”. O homem vem pregando e falando a mesma coisa há décadas e, de repente, por começar a pensar em outras possibilidades e analisar outras “rotas”, tudo o que fez, toda sua história, sua reputação, construída com lágrimas e muito trabalho, foi para o “beleléu”, pois, agora, sentenciado pela multidão que grita “crucifica-o”, ele se “converteu” em inimigo da fé.

Parece-me, grosso modo, que o que se quer é ver o “circo pegar fogo”! Nós perdemos o respeito pelos nossos líderes, somos uma geração sem referências, sem influências, sem heróis. Joga-se no lixo tudo o que um homem fez em sua vida porque ele não está seguindo a risca, para usar uma fala do próprio Gondim, o “evangelho” segundo os santos evangélicos! Pouquíssimos tem, ao menos uma ideia, do "preço" que um homem deste paga para chegar onde chegou. É um custo de vida, aliás, é quase não ter vida, mas vamos "jogar pedra na Geni!", e de forma, não raro, irresponsável. Gondim caiu em desgraça porque ousou pensar diferente, mas cometeu o pior de todos os pecados: tornou isso público! 

Em segundo lugar, preocupa-me a grave crise que vivemos, pois ela é crise de pensamento, é a substituição da intuição pela dogmatização, do questionamento pelo fundamentalismo, da liberdade de expressão pela tirania da letra. Onde os cristãos imaginam que vão parar isolando-se cada vez mais do “mundo”? Como poderá a teologia sobreviver nos dias atuais separada do resto do pensamento e do conhecimento humano? Será que ninguém vê que o mundo mudou? Quem tem coragem e ousadia de articular a ponte que leve a fé ao diálogo com os outros saberes, que a liberte da prisão a qual a "instituição" a remeteu? Gondim vem tentando fazer isso e olha no que deu!? Como bem citou João Alexandre, em uma de suas maravilhosas canções: “é proibido pensar!”. Estou certo: é mesmo...

Estamos vivendo em meio a uma geração movida à repetição, que “segue mapas”. Ainda nos encontramos presos ao século XIX, não ousamos, não avançamos, não dialogamos com os outros, não nos abrimos à reflexão, a auto-análise, não ouvimos críticas, achamos que a teologia é algo que está acima do bem e do mal, somos tão ufanistas que sequer cogitamos que podemos estar equivocados. Estamos debaixo da tirania de Procusto, normatizados pela instituição perversa, nossas consciências se cauterizaram pela pregação de uma mensagem que nada mais tem de Evangelho. Tristemente tornamo-nos a “igreja playmobil”: somos todos iguais, falamos todos iguais, pensamos todos iguais, vestimos todos iguais, cremos todos iguais! 

Em terceiro lugar, preocupa-me o fato de que muitos dos que fizeram análises e avaliações das falas e textos de Gondim sequer têm preparo para sentar com ele numa mesa e conversar, cinco minutos que seja, sobre os temas "malditos". A grande maioria dos líderes e pastores que o detratam são rasos, possuem um conhecimento de "epiderme", nunca investiram nem no estudo das Escrituras nem em estudos de outros campos do saber. Estes, jamais topariam um debate com o Gondim em rede nacional, pois, certamente, ficariam desconfortáveis e, provavelmente, sem argumentos consistentes para refutar pensamos e ideias. Boa parte dos textos “apologéticos” que li fazem “recortes pinçados” daquilo que Gondim afirma, uma espécie de edição via fotoshop, numa clara demonstração de que a análise é, no mínimo, tendenciosa. É a velha práxis de “coar o mosquito” enquanto se engole o “tiranossauro-nosso-de-cada-dia”. 

Apesar de não concordar com alguns pensamentos de Gondim, em nada ele me escandalizou. Pensar diferente não ofende, abre "sendas" para um olhar novo sobre questões antigas. Isso não desconstrói minhas convicções, pelo contrário, por vezes ajuda a sedimentá-las!  Sei que este homem agiu com retidão, abriu o coração, sei de sua seriedade e serenidade ao tratar dos assuntos do Reino, pois, mesmo sem o conhecer, conheço o seu legado e tenho convicção que ele próprio não poderia negar aquilo que passou toda a vida crendo. Seu pensamento avança ainda que, talvez, por terrenos eventualmente “pantanosos”, mas certamente rumo a um platô que lhe ponha firme sobre a Eterna Rocha que, uma vez posta, sendo a Pedra Angular, jamais poderá ser removida: Cristo, Jesus.

Em quarto lugar, preocupa-me a igreja evangélica não está aberta a nenhum tipo de conversação que vá para além da ortodoxia e, em alguns casos, para além do fundamentalismo já posto. Aqui vão me dizer que as “Escrituras são nossa única regra de prática e fé”, e eu assim também creio, mas não me sinto “amarrado” ao ponto de não usar da liberdade que disponho em Cristo para pensar, para fazer conjecturas, para teologizar, como tantos outros fizeram antes de mim, pois nossas crenças estão, usando um conceito de Foucault, sobre “camadas de saber” que foram construídas por outros, desde os Pais da Igreja até os pensadores – teólogos e filósofos – dos nossos dias.

Ora, nós somos o “produto” do pensamento de muitas gerações, de homens e mulheres que, ao seu tempo, ousaram, com aqueles que com eles estavam, refletir, pensar, questionar. Ninguém irá ao “inferno” de fogo por assim agir, isso eu lhes garanto... Toda teologia é temporal e antropológica, produto do tempo, da cultura, da sociedade e do homem em um determinado momento histórico. Mas as igrejas hoje querem apenas seguir a cartilha de sua denominação, pois nelas é pecado mortal pensar de forma diferente ou se abrir a novos saberes. Continuam dizendo que “Jesus é a solução”, mas não têm a mínima idéia do que o mundo está hoje questionando...

Em quinto e último lugar preocupa-me o destino do cristianismo como religião institucionalizada. Quando vejo alguns homens que jugo serem pessoas sérias, coerentes, pensantes, representativas e, sobretudo, gente de Deus abandonando o que aí está posto, quando ouço, por exemplo, um Leonardo Boff falar que o cristianismo deveria se aproximar mais da existência, ou um Cáio Fábio afirmar que hoje vivemos a perversão do Evangelho de Jesus, ou um Gondim romper com o movimento evangélico, fico contando o que sobrou e, sinceramente, assusta-me o que parece nos reservar o futuro! Acho que Deus terá de levantar as "pedras" para pregar, pois faltarão pregadores. Ou então vamos ficar com os estelionatários que aí estão, na TV, no rádio, gente tão perversa que aqui não cabe nem nominar.

Não estou preocupado com a Igreja de Jesus, pois esta sempre estará lutando contra as hostes do mal, defendendo “a fé que foi entregue uma vez por todas aos santos”, pregando a sã doutrina, amparando os caídos da existência, servindo a Deus com coração pacificado, adorando-o com todo ardor e amor, aguardando com ansiedade a volta de Jesus! Todavia, esta igreja invisível e católica – Universal  de Cristo, está inserida dentro das milhares de ramificações do cristianismo, pois é fato que existe uma igreja dentro da "igreja" e só o "Cabeça do Corpo", que a tudo vê, pode discernir quem é "joio" e quem é "trigo". E assim, como partícipe da religião institucionalizada, angustio-me com seus rumos, temo pelos dias vindouros, desencanto-me com suas posturas, percebo sua grave crise, sua "septicemia intelectual", sua falência múltipla em termos de prática e fé.

Bem, tudo dito, agora é só aguardar as PEDRADAS... (risos). Mas quem escreve aqui deve estar sempre preparado. Como de costume, não responderei as críticas, não é falta de respeito, mas de disponibilidade. Isso toma o pequeno espaço de tempo de postar novo artigo para abençoar meia dúzia dos que precisam. Ao Gondim, meu mano querido na fé em Jesus, desejo que seu coração seja inundado de paz e misericórdia, que ele fuja de toda raiz de amargura que esta “saraivada de golpes” pode vir a provocar, que se entregue ao Justo Juiz e sinta-se consolado por seus antecessores, uma grande “nuvem de testemunhas”, os quais foram perseguidos, mortos, torturados, serrados ao meio, caluniados, destratados, injuriados, “homens dos quais o mundo não era digno”, conforme Hebreus, capítulo 11. 

Termino este texto desejando encontrar corações quebrantados e espíritos humildes para entender o que está exposto, que não distorçam as afirmações aqui feitas, pois sou responsável pelo que escrevo, mas não pelo que entendem... Contudo, depois de ler o artigo da Bráulia e ver os comentários tenho poucas esperanças... (risos). Que Deus nos guie a Sua vontade e ao temor do Seu nome. Quanto a você, Gondim, caso leia estas linhas, sei que  sabe que é privilégio sofrer pela causa do Evangelho e pelo nome de Jesus, ainda que muitos não vejam que o que está acontecendo se encaixe neste contexto... Parafraseando-o, então, concluso dizendo:  Soli Deo Gloria!


Carlos Moreira


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