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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
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10 dezembro 2018

“João sem Deus”?



Na última semana, em entrevista ao programa global do jornalista Pedro Bial, a holandesa Zahira Lieneke, uma das mulheres presentes, denunciou o médium João Teixieira de Faria – o João de Deus – por abuso sexual.

João de Deus atua há mais de 40 anos fazendo cirurgias e outras ações de curas espirituais no município de Abadiânia, interior de Goiás. A Casa Dom Inácio de Loyola, onde os procedimentos são realizados, tornou-se mundialmente conhecida e recebe cerca de 10 mil pessoas por mês para tratamento.

Ontem, no programa Fantástico, outro grupo de mulheres veio a público para declarar que foram vítimas de abusos e estupros, supostamente cometidos pelo paranormal, entre os quais, um relato de quem foi abusada na adolescência. A situação tomou tal proporção que o Ministério Público, que apura o caso, já conta com mais de 200 pessoas que querem depor contra João de Deus.

Eu não sei se João é culpado, a polícia e a justiça devem decidir isso, mas se ele for condenado, eu posso afirmar, com convicção, que nele operou-se o mesmo princípio que opera em Lúcifer: a “Síndrome de Deus”.

As Escrituras não negam a existência da paranormalidade, há casos, tanto no Velho Testamento quanto no Novo, onde encontramos a liberação de poder sobrenatural através de magos, místicos, feiticeiros e paranormais, os quais operaram coisas extraordinárias, inclusive curas.

Portanto, sim, é dom de Deus, uma vez que, conforme Tiago: “Toda dádiva e todo dom perfeito vem do alto, do Pai das Luzes...”. Tg. 1:7. Paulo, complementando esse conceito, nos informa que “Os dons de Deus são irrevogáveis”, conforme Romanos 11:29, ou seja, o dom está na pessoa, mas pode ser usado, tanto para o bem, quanto para o mal, tudo é uma questão de consciência.

Assim, João, se culpado, é uma vítima de sua própria soberba, de um egocentrismo despudorado, pois, sendo usado por Deus, achou que em si mesmo pudesse haver tal poder sobrenatural, como se ele fosse a fonte primária dessas realizações. Ainda que recitasse, conforme relatos, que nada daquilo era feito por ele, no fundo, seu coração já havia se corrompido, era apenas um mantra psicológico, mas sem qualquer reverberação para a vida.

A verdade é que homem algum suporta existir no lugar de Deus, a glória de Deus é veneno para nós, mortais, o poder de Deus, mal utilizado, desconstrói nossas estruturas psíquicas e nos leva ao surto diabólico que produz o desejo de ser como ele é. Aí o indivíduo não teme mais nada, nem ninguém, está acima do bem e do mal, pode realizar qualquer coisa, transformar pedra em pão e subir no pináculo do templo, ele cura, ele salva, ele liberta, pois ele é Deus!

O capítulo 28 do Livro do Profeta Ezequiel nos revela essa fenomenologia associada ao rei de Tiro. Na metade do texto, todavia, faz um paralelismo com o próprio Satanás, mostrando-nos que o princípio que operava em um, é o mesmo que operava no outro. O resultado final, inexoravelmente, é a destruição do ser, a corrupção da alma e a desapropriação do coração, homens, mesmo sem perceber, podem transformar-se em diabos.

João, se culpado, esqueceu-se que, para quem é de Deus, não basta apenas fazer o bem, tem de faze-lo da forma certa, movido pelo amor, mas sem esquecer-se de cerca-se, por todos os lados, pela ética, pela verdade e pela justiça.

Esperemos, todavia, a comprovação dos fatos, aqui não há um juízo temerário, apenas a revelação da fenomenologia que já foi constatada em situações semelhantes (só neste ano, Maury Rodrigues da Cruz e Sri Prem Baba).

Desta forma, se culpado, “João sem Deus”, mais do que nunca, precisará da misericórdia de Deus, pois, na medida em curou milhares, adoeceu e feriu a outros tantos. O perdão do Pai, certamente, não lhe faltará, mas o castigo e a justiça dos homens, todavia, não lhe serão negados


Carlos Moreira




12 junho 2012

Seja quem For, Seja Você!




É muito comum, em conversas pastorais, encontrar aqueles que se tornaram refém dos anseios e desejos de pessoas: pais, cônjuges, filhos, patrões, “amigos”. Eles afirmam que não possuem identidade, que se tornaram uma projeção de outros, um holograma material do que é imaterial e só existe como desejo reprimido, que acabaram encarnando um “personagem”, vivendo uma vida que não é deles, tudo com vistas a agradar aqueles que, sobre eles, alimentaram expectativas das mais variadas. Isso, creiam, provoca um sofrimento sem medida e um desgaste existencial sem precedentes...  

Neste contexto, encontro aquele que se casou com quem não gostava, aquela que exerce uma profissão para a qual não se sente habilitada, o que passou a assumir determinados pensamentos e comportamentos que lhes são estranhos, ou mesmo inaceitáveis, a outra que evita a polêmica, a exposição, o firmar posição, tudo em prol de jamais romper o “cordão umbilical emocional” que os torna, de certa forma, escravos psicológicos de outrem, uma vez que a consciência viciou-se em não ter sua própria “voz”. Desastrosamente, aqui temos algo que, por fim, estabelece um estado existencial em que a pessoa se torna prisioneira de um outro alguém em seu próprio ser! 

Analisando mais detalhadamente, percebi que muitas destas situações, não raro, estão associadas a questões econômicas, ao mundo competitivo em que nós vivemos, a essa sociedade movida pelo supérfluo, ao capitalismo que, segundo Bauman, estabeleceu a seguinte máxima: “consumo, logo existo”. Desta forma, em prol de manter vantagens e benesses, as pessoas acabam, às vezes sutilmente enganadas, se sujeitando ao imponderável.

É o filho que tem que assumir o próspero negócio da família, ainda que não tenha qualquer vocação para tal. É a moça que tem que agüentar situações constrangedoras e até assédio por causa do bom emprego que possui. É o cinquentão que tem de se submeter a situações vexatórias, pois, caso seja dispensado, não encontrará mais oportunidades no mercado. É o rapaz pobre, que se casou com a socialite rica, e, agora, tem de atender-lhe as demandas para poder manter privilégios. E por aí vai...

O resultado de tudo isto é o estabelecimento de uma sociedade movida a disfarces, a interesses, ao “jogo de empurra”, ao “toma lá, dá cá”, a cultura da vantagem, dos que vivem “em cima do muro”, do impessoal, do “politicamente correto”. Raramente vemos pessoas que se posicionam, que assumem riscos, que sejam firmes, que mantenham convicções e por elas estejam dispostas a ir as últimas conseqüências! Somos uma geração de homens e mulheres sem “palavra”, de caráter afrouxado, de valores relativizados, de comportamentos marionetizados. Sintetizando, como bem afirmou Groucho Marx: “esses são os meus princípios; se você não gostar deles, eu tenho outros...”. 

Quem é você? No que você acredita? Quais os disfarces que possui a sua face? Quantas pessoas existem dentro de você? São perguntas intrigantes, inquietantes. Respondê-las, inclusive, lhe expõe, faz com que seu pensamento seja conhecido, suas idéias venham à baila, sua opinião se torne pública. É perigoso demais! Para que fazer isto? Que vantagens algo desta natureza lhe trará?

Bem, reconheço que, de fato, você lucrará pouco ou quase nada se passar a fazer tais coisas ou, muito provavelmente, terá enormes problemas e dificuldades, mas, estou certo que, seja você quem for, é melhor que seja sempre você mesmo! No livro "Coragem para Mudar", utilizado no Al-Anon, encontramos “...jamais senti que pudesse ser eu mesmo perto das outras pessoas. Eu estava ocupado demais, tentando ser o que eu achava que os outros queriam que eu fosse, com medo de que eles não me aceitassem do jeito que eu era". Por isso, pense, não dói; fale, não é proibido; posicione-se, não é pecado!

Essa é justamente a questão que Jesus está tratando no texto abaixo: 
Pois veio João Batista, que jejua e não bebe vinho, e vocês dizem: ‘Ele tem demônio’. Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e vocês dizem: ‘Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores.’”. Lc. 7:33-34. 

É certo que o Galileu nunca sofreu crise de identidade, não se dobrava aos interesses do Sinédrio, nem de Herodes, ou do Império Romano, nem de seu ninguém! Isso porque não tinha compromissos que lhe levassem para além de sua própria consciência e fé, estava disposto apenas a obedecer ao Pai, pois, até mesmo a Escritura se tornara relativa diante dEle uma vez que, Jesus, o Cristo, veio a se constituir a única chave hermenêutica através da qual a “letra” pode ganhar sentido e significado.

Essa passagem de Lucas nos trás uma situação corriqueira. Sua análise concentra-se no fato de que João Batista, que tinha voto de nazireu, ou seja, vivia como um ermitão, comia gafanhotos, mel silvestre, vestia-se de trapos, peregrinava pelo deserto, não era casado, não bebia vinho, orava, jejuava, pregava o arrependimento, mas, ainda assim, os religiosos diziam que ele tinha demônio! Ou seja, João, segundo Jesus, havia se tornado o maior de todos os homens nascidos de mulher, contudo, não era capaz de agradar àquela multidão.

Com o Nazareno, todavia, a questão era diferente! Comia, bebia, se alegrava, sentava com pecadores, ia à casa de publicanos, conversava com meretrizes, andava com samaritanos, curava em dia de Sábado, acolhia os enfermos, libertava os endemoninhados, quebrava as tradições, fazia tudo ao contrário de João, mas ainda assim era tido como subversivo, alguém andando na contra mão do “sistema”, um “rebelde” com causa, sendo condenado do mesmo jeito, porque o que as pessoas queriam era ver um boneco, um fantoche, um profeta de “brinquedo”. Mas Jesus “quebrou a banca!”. Boa!

O que sei é que quando você não é o que é, não há mais o que se possa ser! O que sei é que toda a sua vida se resume na busca de você tentar se encontrar com você mesmo, de “tornar-se aquilo que é”, e isso tem a ver com o propósito do que Deus planejou para que você experimentasse debaixo do sol, no solo árido da existência humana, pois, ou você é em Deus, ou você já se tornou não-ser, ou seja, algo que parece que é, mas que está longe de ser...   

Carlos Moreira


25 maio 2012

Os “Brutos” Também Choram




Ainda hoje eu me perturbo quando penso no sepultamento de meu pai. Só sabe o que é isso quem já enterrou alguém querido na vida. Das muitas lembranças, todas muito doídas, uma me atormentou até bem pouco tempo atrás: o fato de não ter conseguido derramar uma única lágrima em seu funeral.

Quando você perde alguém que ama, sempre acha que poderia ou deveria ter feito algo a mais. Essa sensação de culpa, não raro, faz as pessoas adoecerem. Comigo não foi diferente. Filho único, vi meu pai ser vitimado pelo câncer em 2006, três meses após detectar a doença. Racionalmente, sabia que havia feito o possível, o que estava ao meu alcance. Mas, inconscientemente, carregava culpas infundadas, punia-me por não ter realizado o impossível: salvá-lo.

Quem me viu no enterro, naquela manhã de segunda-feira, se não me conhecia bem, provavelmente achou que eu não estava sentindo absolutamente nada. Minha expressão era serena, apesar de circunspecta, a voz projetava-se suave, agradecendo a solidariedade de parentes e amigos, não havia lágrimas em meus olhos, nem desespero em minha face. Era meu pai quem estava ali, morto, no caixão, mas sei que, para muitos, parecia um qualquer dos tantos que, como pastor, já enterrei.

Passados alguns meses, processadas as dores, vivenciado o luto, tomadas todas as resoluções inerentes a um falecido, eu enfim, “descansei”. E foi justamente aí que os problemas começaram... Três meses haviam se passado quando meu corpo resolveu “falar”, tomou uma decisão unilateral de expelir tudo àquilo que minha alma guardara só para si, aprisionara nos escaninhos mais profundos do meu ser.

Eu sentia dores no corpo, no abdômen, nas costas, sentia palpitações no coração, falta de ar, pressão no peito, compressão na alma, desespero e medo. Algumas vezes, de tanta agonia, fui até o hospital, mas quando examinado, não possuía nada. Fiz check-up, tudo quanto foi tipo de exame, nada, absolutamente, nada!

Durante quase toda a vida havia sido uma pessoa trancada, travada. Hoje consegui as explicações para alguns comportamentos, desde um temperamento recluso, tímido, até uma criação super-protetora, asfixiante. Mas até descobrir estas coisas, precisei “cavar” fundo até chegar ao interior do ser, embarquei para dentro de mim mesmo em busca de quem eu sou, decidido a me encontrar de qualquer maneira.

Muito aos poucos, como alguém que está tateando no escuro, comecei a liberar algumas emoções, antes reclusas. Era como se tivesse tomado o controle que o ego exercia sobre minha consciência e entregue ao “Id”, que “habita”, grosso modo, o meu inconsciente, aqui me referindo aos conceitos da teoria psicanalítica de Freud.

O que posso dizer hoje, passados alguns anos, é que alterações profundas aconteceram e ainda continuam acontecendo em minha alma. Desde que comecei a me abrir para a vida, a ser mais sensível, alternando em meu ser a sensibilidade do poeta com o pragmatismo do profeta, passei a perceber a existência por outros matizes, aprendi que chorar faz bem, por isso as Escrituras afirmam que o caminhar humano deve ser regado por lágrimas, pois elas se tornam sementes de esperança sob o solo empoeirado da vida.

O melhor, todavia, ainda estava por vir... No ano passado, no dia dos pais, resolvi fazer uma singela homenagem ao meu “velho” no blog. Escrevi um punhado de palavras, duas dúzias, e coloquei o vídeo do Fábio Júnior cantando a canção “Pai”. Montei tudo no blogger, publiquei, e fui escutar. Estava no meu escritório, no apartamento onde moro, e era tarde da noite, horário que normalmente escrevo.

De repente, como um vulcão em erupção que “cospe” larvas as alturas, comecei a chorar. Lembrava do meu pai, dos momentos bons que vivemos, dos momentos difíceis e tristes, era um caldeirão de emoções com meus sentimentos “borbulhando” dentro de mim, e eu ali, absorto, na solidão daquela noite inesquecível. Sim, eu chorei intensamente, anos depois de sua morte, tudo o que não havia chorado no dia de seu enterro. Deus sabe o quanto aquilo foi libertador para mim, quanta alegria eu tive em chorar daquele jeito.  

Eu creio firmemente que um dos maiores desafios do Espírito Santo é reconstruir nosso interior, o qual, não raro, foi “ferido” de muitas maneiras diferentes pela vida. Por conta disto, acabamos nos monstrificando, nos tornando seres de aço, nos esquecendo que somos, simplesmente, pó e osso. Hoje acredito que a vida só pode ser vivida na sua singularidade maior se pudermos sentir todas as emoções que cada momento nos reserva e nos remete. 

Por isso Jesus me fascina tanto, pois ele encarna o verdadeiro Homem, expondo-nos todas as suas dimensões e revelando-nos todas as suas emoções. Sim, o Galileu chorava, se alegrava, falava contundentemente e se calava de forma inquietante. Nunca se furtou de experimentar nem a doçura nem o amargor, nem a ternura nem a dor, fazia tudo com intensidade, por isso era Totalmente Homem e Totalmente Deus. De fato, como diz karl Barth, ele era mesmo o “Totalmente Outro”. 

Carlos Moreira

 

08 maio 2012

Prisões que não Possuem Grades



“Quem dormiu no chão deve lembrar-se disso... Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”.
Graciliano Ramos

Memórias do Cárcere é uma obra póstuma de Graciliano Ramos publicada em 1953. Preso na época do “Estado Novo” sob a falsa acusação de ligação com o Partido Comunista, o escritor foi deportado para o Rio de Janeiro, onde permaneceu encarcerado por cerca de dois anos.

No livro, Graciliano se ocupou em tornar público, depois de muita hesitação, acontecimentos da vida na prisão. Escrito dez anos após sua libertação, traz em si uma narrativa amarga, não obstante verdadeira.

Já li comentários de que pessoas que foram presas, sobretudo injustamente, jamais voltaram a ser as mesmas. O cerceamento da liberdade traz impactos tão violentos à psique que o indivíduo não consegue mais se reencontrar com sua essência, impõe-se a um autoexílio rumo aos porões do ser, acaba soterrado sob densas camadas de lembranças tenebrosas.  

Eu sei que há prisões que possuem grades, e dessas é muito difícil escapar. Mas há outros tipos de prisões, que vão para além de impor ao corpo a reclusão em um cubículo onde ele permanecerá confinado. Sim, essas masmorras são imateriais, sem grades, sem paredes, são calabouços que aprisionam não só a vontade, o desejo de liberdade, mas o ser e os sonhos.

É fato que tenho encontrado no passadiço da vida muitas pessoas aprisionadas em tais “labirintos”. É gente que, sem perceber, tornou-se refém de sofismas, projeções, carmas, manipulações e toda sorte de situação que produz autoengano e acaba dando forma a uma imagem distorcida de si mesmo. Essa, por sua vez, projetada na tela da existência, reproduz um holograma monstrificado de quem enganosamente se pensa ser.

Não é raro me deparar com pessoas vivenciando tais dinâmicas. É gente que se tornou refém de cônjuge, de sogra, de filhos, tudo pelo estabelecimento de vínculos afetivos adoecidos, que acabam dando ao outro uma espécie de “licença para matar”, e, por assim dizer, produzem, pela via da culpa e do medo, todo tipo de escravidão e subserviência.

Há aqueles que estão presos a determinismos infundados, não raro fruto de comentários recorrentes feitos por pessoas próximas, alguns dos quais se enraizaram na alma desde a infância. É gente que se sente assombrada por um carma, conduzida inexoravelmente por um trilho de onde não se pode sair. No fundo, é como se o indivíduo estivesse fadado a parar sempre na mesma “estação” e seguir sempre pelo mesmo caminho.

Também é comum encontrar os que se viciaram psicologicamente no fracasso, que sentem prazer nas impossibilidades. Trata-se da negatividade alça-da ao platô mais profundo do ser, são pessoas som-brias, que vivem de olhar pelo “retrovisor”, sempre a se lamentar pelo que passou, ansiando pelo que poderia ter sido, mas não foi...

Não menos danoso é o grupo dos que passaram a viver de uma espécie de ração, que esmolam da vida, acomodaram-se em ser o que não são, estagnaram a consciência e amordaçaram o pensamento.
Pessoas assim deixam de acreditar no novo, pois acabam se acostumando com a mesmice, vivem apenas seguindo o fluxo, o curso, a rotina. Estão mortas, mas ainda não foram sepultadas, existem sem ser, sem saber vão, de arrastão em arrastão, vivem dos restos do ontem e dos fragmentos do hoje.

Finalmente, mas não menos triste, há os que adoeceram a ponto de dependerem de medicação para viver, drogas que se aplicam a distúrbios e doenças tais como ansiedade, depressão nervosa, distúrbio bipolar, psicose, pânico, dentre outras..

Nesse estágio há muita dor e desânimo, pois, além dos sintomas próprios de cada doença, ainda há os efeitos colaterais dos remédios, tão diversos quanto possamos imaginar. Eles, sem pedir permissão, mudam as pessoas, alteram gestos e gostos, sorrisos e olhares.

Seria pieguice e irresponsabilidade de minha par-te afirmar que a solução para todas estas coisas está na religião. Tolice crer que reunião de oração, jejum e leitura da Bíblia vão resolver o problema. Também incluo aqui bizarrices do tipo: sessão do descarrego, culto de libertação, de unção, do desencapetamento total e outras mandingas do meio evangélico. Nada disso tem sustentação nas Escrituras, sendo assim, não produz nem paz nem bem ao ser.

Acredito, entretanto, que a cura passa pela experimentação da verdade, ou, como disse Tolstoi, escritor russo do século XIX: “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”.

A maior parte dos problemas e dores humanas está associada a não percepção da Verdade, e aqui afirmo Verdade não como paradigma existencial, mas como Caminho a ser caminhado. A verdade nasce da experimentação de valores e princípios que mudam o ser, de dentro para fora, pela via da pacificação produzida pela Graça, em Fé e através do Amor, pela ação do Espírito Santo. Ela é capaz de realizar aquilo que nada nem ninguém pode fazer em definitivo: sarar a alma! Sim, como disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Há prisões que não possuem grades, mas que aprisionam muito mais do que aquelas que prendem os indivíduos, posto que é mais fácil libertar o corpo do que a alma. Como disse em um outro texto: “... eu não sei qual foi a porta que eu abri, mas, quando dei por mim, já estava aqui! Curioso, também, é que eu não sei como sair; as portas daqui só possuem maçanetas pelo lado de fora! Aqui é todo canto e lugar nenhum”.

Gostaria de ver todo aquele que se encontra “encarcerado” livre dessa prisão, das amarras que prendem a mente, a alma e o ser. Sei que só Deus pode livrar-nos disto, mas esta experiência tem de ser vivida por cada um, a seu tempo e do seu próprio modo. Deixo-te, então, com o que escreveu Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.


Carlos Moreira


05 setembro 2011

Auto-sabotagem: Eu Contra Mim Mesmo


Assista a esta mensagem em vídeo clicando no meu acima "Mens. em Vídeo".

“Já enfrentei muitas dificuldades na minha vida. A maioria delas nunca existiu” Mark Twain.

Em 1916, Freud escreveu um artigo de grande repercussão no mundo científico intitulado: “Os que Fracassam ao Triunfar”. Ele tratava de pessoas que possuíam medo de ter satisfação e, por isso, sentiam-se aliviadas quando o que estavam fazendo, ou intentavam fazer, não dava certo.

Aprenda nesta mensagem a discernir os mecanismos geradores desta psicopatologia tão comum nos dias atuais e como combatê-los.

01 setembro 2011

Auto-sabotagem: Eu Contra Mim Mesmo!


“Já enfrentei muitas dificuldades na minha vida. A maioria delas nunca existiu” Mark Twain.

Em 1916, Freud escreveu um artigo de grande repercussão no mundo científico intitulado: “Os que Fracassam ao Triunfar”. Ele tratava de pessoas que possuíam medo de ter satisfação e, por isso, sentiam-se aliviadas quando o que estavam fazendo, ou intentavam fazer, não dava certo.

Com o avanço da psicologia a patologia pôde ser cada vez mais estudada e, em 1978, surgiu à designação “auto-sabotagem”, estabelecida pelos psicólogos Steven Berglas e Edward Jones, os quais haviam feito pesquisas neste campo com comprovado resultado científico.

De forma simplista, quem sabota a si mesmo não consegue usufruir das dinâmicas da vida que geram alegria e prazer porque, cada vez que elas surgem na existência, vêm associadas a um profundo conflito com as crenças primordiais do sujeito. Em síntese, é como se alguém tivesse tudo para ser feliz e, de alguma forma, conseguisse arrumar um jeito para fugir da felicidade. É o famoso “medo de ser feliz”. Mas, como já citava Dostoievski, “A maior felicidade é saber por que se é infeliz”.

Do ponto de vista clínico, a psicopatologia é tão grave que pode provocar obesidade, depressão, cardiopatias, transtornos de ansiedade, pensamentos suicidas, diabetes e, em casos mais graves, até a auto-mutilação, que é quando a pessoa cria flagelos físicos em si mesma para se punir. 

Apesar de parecer algo bizarro – não esqueçamos que se trata de uma doença – quem se auto-boicota sente prazer pelo desprazer, ou seja, quanto mais a vida se torna difícil, através de situações adversas e portadoras de sofrimento, tanto mais a pessoa se satisfaz, chega a ter prazer em ser maltratada ou sentir dor. É uma reação provocada pelo inconsciente que faz com que o sujeito sinta atração por tudo o que produz destrutividade, um comportamento ativado por uma forte negatividade e um complexo de inferioridade crônico.

Como bem citou Kelly Young “O problema não é o problema – o problema é a atitude com relação ao problema”. A grande maioria dos “dramas” da alma humana, como a auto-sabotagem, tem cura, mas exige determinação e, particularmente neste caso, uma mudança significativa em hábitos e atitudes. 

Nas Escrituras nós encontramos um caso que, ao meu ver, aplica-se ao que estamos falando. Trata-se do aleijado do tanque de Betesda, descrito no capítulo 5 do Evangelho de João. Sua atitude de auto-sabotagem fica muito clara quando Jesus lhe pergunta: “queres ser curado?”, e ele responde: “Senhor, não tenho quem me coloque no tanque”. Era o paradoxo de quem desejava a cura e, ao mesmo tempo, tinha medo dela. A pergunta de Jesus era objetiva, a resposta do aleijado subjetiva. A questão é que já havia se instalado em sua alma, pelas dores e pelo tempo, os mecanismos inconscientes de auto-sabotagem.  

Quando Jesus encontrou-se com aquele homem, que se arrastava por aquela casa de agonia havia 38 anos, ele “scaneou” sua alma, discerniu todas as suas desconformidades e doenças. Seu aleijão já se projetara do físico para o emocional, por isso, duas coisas eram necessárias ser feitas: 1- Jesus precisou quebrar o “padrão de pensamento” daquele moribundo – “levanta-te, toma o teu leito e anda”; 2- com a mudança instantânea das crenças subjacentes que haviam se acumulado em sua alma ele finalmente liberou a fé necessária para ser curado.     
    
Os psicoterapeutas são unânimes em afirmar que o processo de cura para este tipo de doença emocional passa, irremediavelmente, pela tomada de consciência de que, não só estamos nos auto-sabotando, como também dos danos que tais atitudes demandarão. Eles descrevem que, quando o paciente descobre os “padrões” que estão embutidos nestes “mecanismos intra-subjetivos”, torna-se possível reformular a matriz cognitiva de valores e crenças que desencadeia as atitudes destruidoras. Como bem afirmou Albert Schweitzer: “A maior descoberta de uma geração é que os seres humanos podem mudar sua vida modificando seus pensamentos”, ou, como disse o apóstolo Paulo, numa outra “versão”, “transformai-vos pela renovação da vossa mente”.    

Não raro tenho encontrado na caminhada pastoral pessoas com este tipo de problema. Elas precisam ser amadas e tratadas, entendidas e confrontadas. O processo de cura, nesses casos específicos, necessita do apoio do trinômio: psicoterapia, ação medicamentosa e discipulado.

Ora, afirmar isto não significa que estou eliminando o poder exclusivo que há no Sangue de Jesus para a remissão de pecados e a salvação para todo aquele que crer, mas apenas adicionando alguns elementos que julgo necessários em tais situações os quais pôs Deus a nossa disposição através do apoio da ciência. Nossa única regra de prática e fé são as Escrituras, e elas afirmam que é o arrependimento - mudança no pensamento seguida de mudança de comportamento - produzido pelo Espírito Santo, que nos conduz a convicção de pecado e a necessidade de nos reconciliarmos com Deus. Isso reforça ainda mais o que afirmamos acima.

Deixo como ponto de reflexão final a frase de Frank Outlaw: “Cuide de seus Pensamentos, porque eles se tornam Palavras. Escolha suas Palavras, porque elas se tornam Ações. Compreenda suas Ações, porque elas se tornam Hábitos. Entenda seus Hábitos, porque eles se tornam seu Destino.”

Carlos Moreira

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