Pesquisar Neste blog

Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
Mostrando postagens com marcador desabafo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador desabafo. Mostrar todas as postagens

16 novembro 2011

4 Verdades que Aprendi Sobre a Vida




Ficamos porque acreditamos...
Não consigo fazer nada se não estiver apaixonado. Mesmo que possa parecer pieguismo, confesso: só tenho êxito quando realizo coisas que me dão prazer, algo que faça meu coração acelerar.

Por isso a mesmice me apavora, a rotina me enfada, o conforto me desencanta. Tenho medo do fracasso. Sempre tive... É daí que vem essa ânsia de realizar, de construir, mesmo quando o melhor seria ficar parado.  No fundo, é o desespero, lembrando de Nietzsche, de não me tornar nunca aquilo que sou, ser apenas um rosto na multidão, ou, como diz a frase da música do Pink Floyd, “apenas um tijolo a mais na parede”.

Quando eu fico, é porque acredito. Minha obstinação consegue ser obtusa. Sou capaz de perseverar até mesmo no erro. Por vezes, vou de encontro à razão, ao óbvio. Para mim, abandonar algo é uma das coisas mais difíceis da existência, seja um amor, um trabalho, um sonho ou uma amizade.

Fugimos porque nos desiludimos...
Alegoricamente falando, eu sou Hebreu. Sim, sou um ser desalojado, um andarilho da existência, homem de “tendas”... Já dei muitas voltas ao mundo sem sair do meu “cantinho”... Detesto a fixidez, o dogma, a norma, a lei. Fujo daquilo que é hermético, tenho horror à censura, não curto regras nem dominação. Bem disse a Rita Lee: “será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral, ou engorda?”. Desculpe... Não se escandalize...

Mas creia-me, há situações em que é preciso largar, deixar ir, deixar-se levar... Parece covardia, mas não é! Trata-se de virar a página, renovar “aromas”, saber que “é claro que o sol vai voltar amanhã, mas uma vez, eu sei...”. Só a desilusão é capaz de me remover, arrancar as estacas que finquei no chão da vida, me tirar de algo ou de alguém. Sim, quando me desiludo eu fujo, “peço a conta” e vou embora, não meço, sequer, as conseqüências.

Voltamos porque estamos perdidos...
“Caindo em si, disse: vou voltar...”. Foi à decisão do “filho pródigo”. Caiu em si... Caiu para cima e para dentro, teve a ousadia de perceber-se incompleto, a petulância de reconhecer-se como, de fato, era. Sim, nós voltamos quando nos perdemos, sobretudo, quando nos desencontramos de nós mesmos...

Mas isso só os "grandes" podem realizar, porque o caminho de volta é sempre doloroso e solitário. Quem volta sempre tenciona “chegar por cima”, com “ares de festas e luas de prata”. Mas, não raras vezes, ao retornarmos, a única coisa que trazemos na “bagagem” é apenas um punhado de desilusões...   

Morremos porque nos comprometemos...
Fico pensando até onde vai a minha fé, se eu seria capaz de morrer pela causa do Evangelho? Viver por Jesus é fácil. Morrer por Ele...? Nietzsche afirmou certa vez que no ocidente cristão já houve um tempo em que as pessoas estavam dispostas a morrer por Deus, pela pátria e pela família. Contudo, para ele, esse tempo já havia terminado.

Parece mesmo verdade... Ninguém está disposto a morrer por mais nada. Somos uma geração sem referências, sem destino e sem consciência. Já dizia o Raul Seixas em sua canção: “eu não sou besta pra tirar onda de herói...”. Talvez eu seja um dos últimos “tolos”, alguém que ainda se angustia com estas questões... É, talvez eu morresse por Jesus; talvez...  

“Ficamos porque acreditamos. Fugimos porque nos desiludimos. Voltamos porque estamos perdidos. Morremos porque nos comprometemos”.

Este texto não é “religioso”. Nele não tem doutrina, nem apologética, nem tão pouco sistematizações. Não fiz citações bíblicas, não me utilizei da hermenêutica, nem mesmo fiz alusão a algum dos personagens das Escrituras. Por isso, é provável que não lhe sirva para absolutamente nada. Ele é apenas um desabafo. É que eu estou fazendo uma faxina na alma, revirando “entulhos”.

Por isso, digo-lhe de todo o coração: o que afirmei é, para mim, verdade. Sei que sou responsável e culpado por aquilo que escrevo, mas não pelo que você entende...

Carlos Moreira

24 junho 2011

É Parada...


Nestes últimos dias estamos vivendo a “febre das paradas”. É parada pela legalização da maconha, parada dos Bombeiros do Rio, parada pela liberdade de expressão, parada gay, parada dos “evangélicos” – marcha para Jesus? – e ainda tem a parada de 7 de Setembro pela independência do Brasil. Haja parada! 

Algumas destas manifestações eu até entendo... A legalização da maconha, por exemplo, não é só um problema de saúde pública ou de polícia, o “buraco” é muito mais embaixo... As ramificações do tráfico são tantas, e tão complexas, que discutir se libera ou não, para mim, é como coar o mosquito e engolir o camelo.

A questão dos Bombeiros é legítima; são profissionais que se arriscam, estão sempre de prontidão, prestam um valoroso serviço a sociedade e ganham salários pífios. Acho que o governador do Rio excedeu-se, extrapolou seu poder e autoridade.   

Quanto à questão da liberdade de expressão, num país que viveu durante décadas debaixo de uma ditadura militar, nunca é demais fazer uma passeata para avivar em certas mentes velhos preceitos. A democracia é o estado de direito que permite ao povo manifestar-se, ser ouvido.

Já a parada gay, há muito tempo deixou de ser uma manifestação deste grupo da sociedade exigindo respeito e dignidade, para tornar-se um desfile anárquico, com exageros dos mais diversos, hostilidades, baixarias, pois os gays, tentando combater a homofobia, tornaram-se heterofóbicos, criaram a ditadura da homossexualidade.

O desfile de 7 de setembro celebra a independência do Brasil. Tem sua importância do ponto de vista do fato histórico, mas não reflete a realidade sócio-econômica do país pois, num mundo globalizado, todo mundo depende de todo mundo e nós, do 3º mundo, dependemos ainda mais.

Agora, a tal da marcha para Jesus, do meu ponto de vista, é de amargar! Apesar de nunca ter ido a uma, pois sempre achei o evento bizarro, acompanho a cada ano as notícias sobre a dita cuja nos meios de comunicação. Assim como a parada gay, que perdeu seu propósito, esta marcha, se um dia já teve algum, há muito ele desvaneceu-se.  

Hoje, esse corso de “carnaval evangélico”, com trio-elétrico e tudo, essa passeata de políticos "crentes" – espertalhões, falsários e corruptos – essa grande massa amorfa de gente caminhando pelas ruas, só me faz lembrar da música de Zé Ramalho que afirma em um de seus versos: “...e ver que toda essa engrenagem, já sente a ferrugem lhe comer... Êeeeeh! Oh! Oh! Vida de gado. Povo marcado, êh! Povo feliz!...”. Que o povo é marcado, eu tenho certeza, mas será que o povo é feliz? 

Meu amigo, minha amiga, se você ainda tem algum juízo em sua cabeça, se você ainda tem algum sopro de Deus em sua consciência, se você é capaz de, ao menos, ouvir o sussurrar do Espírito Santo, não se junte a este trágico desfile! Eu lhe aconselho, no nome do Senhor, fique em sua casa, junte sua família, alguns irmãos, e ore por esta “igreja” que, nem de longe, é um Corpo, mas apenas uma massa desconjuntada de membros esquartejados!

Essa marcha nem é nem nunca foi para Jesus e isso qualquer tolo pode ver... Quem foi que disse que Jesus quer um bando de gente “marchando” por ele nas ruas? Quem foi que disse que Jesus está atrás de ser notícia no Jornal Nacional ou na Veja? Quem foi que disse que o Senhor de toda a Terra está em busca deste tipo de publicidade? Será que você é tão ingenuo que não percebe que tem um grande business por trás de tudo isto!?...

Alguma vez você viu nas Escrituras Jesus incitando algo deste tipo? Você já o imaginou dizendo aos discípulos: “vamos juntar uma moçada lá em Cafarnaum e fazer um grande desfile para que se saiba, até em Roma, que eu sou o Rei dos Reis!”. Você imagina Paulo entrando em Atenas, em cima de um carro de boi, vociferando as verdades do Reino, seguido de um bando de “crente” com cornetas e apitos, com seus rostos pintados e carregando faixas com os seguintes dizeres: “aceitem Jesus!”?

Acorda rapaziada! Não é com passeata de 2,0 milhões de “evangélicos” que, não raro, nem sabem pelo que estão marchando, pessoas que nunca leram nem os 4 Evangelhos, gente que nunca foi discipulada, um “exército” de “soldados” com carisma, mas sem nenhum caráter, que a nossa sociedade vai perceber que o caminho é Cristo! Ah, isso nunca!

O Reino de Deus é subversão silenciosa, discreta, pacata, vida sendo gerada na vida de outras pessoas através dos encontros humanos, de casa em casa, nas esquinas da existência, tudo de forma simples. Precisamos é de gente que acolha o necessitado, que visite o preso, que solidariza-se com o faminto, que ore pelo enfermo, que ande pelos “antros” da terra anunciando com ações a Boa Nova de que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não imputando aos homens os seus pecados”.

E digo-lhe mais... Para fazer isto, não precisamos de passeata, publicidade, carro de som, trio-elétrico, multidão, mas apenas de um punhado de gente que teve o coração pacificado pela graça que acolhe os caídos do mundo. O mais, meu mano, é fanfarra de “crente”, micareta “evangélica”, corso de “figueiras cheias de folhas”, mas sem qualquer fruto de justiça ou misericórdia.

Não gostou? Então coloque a sua “fantasia” e vá para a rua! Não tem fantasia? Então vá disfarçado de você mesmo... Um a mais, um a menos, que diferença fará? Se existem exceções? É óbvio! São os que estão, a cada ano, deixando de participar desta prosopopéia! Sabe o que significa o termo?  Trata-se de uma figura de linguagem que dá vida e sentimentos aos seres inanimados... Não cai como uma luva?

Carlos Moreira

22 junho 2011

Uma Mesa no Deserto



Quem me vê sorrindo, não conhece os meus dramas; quem me vê sonhando, não discerne as minhas limitações; quem me vê chorando, não entende os meus motivos; quem me vê sofrendo, não compreende as minhas razões.

Hoje estou me sentindo como Sansão, vencido pelos dilemas, soterrado por contradições. Estou girando em torno da roda de moinho da existência. Já dei várias voltas ao redor do mundo sem sequer sair do lugar. Sim, eu sei que há dias nublados, cinzentos, há dias de dor e solidão, “tempo de chorar e tempo de sorrir”...

Descobri, já faz algum tempo, que eu sou de osso, não de aço. Não faço parte desta geração que não sente dor, que não sente medo, que não fica doente, que não peca, que não se contradiz. Fui formado em uma “forma” diferente, sou o mais comum dos comuns, ainda permaneço como substância informe, meu interior é coberto de sombras e silêncios, sou ser por fazer-se, incompleto, inconstante, imperfeito.

Estou com fome de vida, preciso de um gole de esperança. Sinto dores por fora, calafrios por dentro. Talvez você não entenda o que é isso, pois provavelmente você foi feito numa outra “linha de produção”. Você é mais maduro, mais moderno. Eu não. Eu sou ser da terra, feito do barro, criado do pó. O Espírito Eterno soprou em minhas narinas e eu ganhei um pequeno fôlego de vida, coisa passageira, tênue. Logo, logo, eu sei, ele se extinguirá.

Já andei pelos lugares altos, e sei também o que é se arrastar com a cara no chão. Aprendi a viver mais com o não do que com o sim. De tanto apanhar da vida, acabei aprendendo a dar significados as minhas derrotas. Eu vivo de restos; aquilo que outros desprezam eu colho como frutos de misericórdia. Tenho semeado com lágrimas, por isso ainda espero um dia colher algo com um pouco de alegria... 

Há momentos em que eu me sinto como alguém que caminha pelo deserto, um beduíno, um andarilho sem destino. Eu não sei qual foi a porta que eu abri mas, quando dei por mim, já estava aqui. Curioso, também, é que eu não sei como sair; as portas daqui só possuem maçanetas pelo lado de fora! Aqui é todo canto e lugar nenhum...

Deus é a minha esperança, e isso é tudo o que a minha alma sabe. Enquanto o pó da existência se acumula nos meus pés cansados de tanto caminho, lembro-me das palavras do “pequeno príncipe” – não o de Exupery – e faço a minha prece: “prepares para mim uma mesa na presença dos meus adversários, uma mesa no deserto, e então derrame óleo sobre a minha cabeça para que o meu cálice transborde”.

Ensina-me, eu te peço, a viver com retidão, a não desprezar a correção, a meditar em tua palavra e a guardar puro o meu coração. Eu sei que se isso eu fizer, certamente “bondade e misericórdia me acompanharão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”.  

Quem puder entender, então que entenda... Quem não puder, apenas leia... Quem não ler, melhor fará...


Carlos Moreira

16 junho 2011

O Homem Acordado


Cada vez que paro e reflito sobre as coisas com as quais estou envolvido sinto que “corro atrás do vento”. Boa parte daquilo que eu faço não me levará a lugar algum; constato com tristeza.

Percebo isso com mais clareza quando o meu corpo exausto de uma rotina sem sentido adoece. As doenças, em alguns casos, são as melhores amigas do ser humano porque o fazem perceber a sua loucura.

Elas nos ajudam a sair de nós mesmos e ver como são fúteis os projetos nos quais estamos envolvidos. Como observou Nietzsche certa vez: “É preciso sair da cidade para ver a que altura fica às torres”.

Estamos afundados até o pescoço em uma grande ilusão. Aquilo que chamamos erroneamente de “ganhar a vida”, não passa de algo que nos ajuda
a perdê-la. Como dizia uma antiga música de Belchior: “caminhamos para a morte pensando em vencer na vida”.

As nossas muitas e fúteis atividades não nos deixam tempo nem para mastigar a comida que comemos. Fazemos uma coisa pensando na próxima, nos deitamos hoje pensando no trabalho de amanhã.

Um dia me apanhei comendo enquanto caminhava para o local de trabalho porque para mim tornou-se comum comer andando e dirigir comendo. Como podem ser saudáveis e felizes pessoas que comem enquanto andam?

A maior parte das coisas que fazemos tem finalidades egoístas e mesquinhas. Além do mais, as pessoas com quem nos relacionamos todos os dias, em sua maioria, sentiriam grande prazer em nos verem arruinados.

Tudo isso não poderia ser diferente uma vez que objetivos mesquinhos geram pessoas mesquinhas. Não passamos de máquinas burras de trabalhar que deveriam procurar fazer menos e ser mais.

Somos escravos das próprias necessidades que criamos em um ato de loucura e disparate. Falamos de liberdade e vivemos cada vez mais cativos; forjamos as próprias correntes que nos prendem nas trevas como os homens do mito da caverna de Platão!

Talvez o antídoto para tudo isso seja deixar um pouco de lado a realidade, dormir e sonhar. Pois, como explicou Erich Fromm: “no sono, o reino da necessidade cede lugar ao da liberdade”. Só somos livres de fato enquanto dormimos!

Talvez precisemos primeiro adormecer para só depois despertar. O homem acordado dorme, mas aquele que sonha realmente acordou.


André Pessoa via Século XXI

21 abril 2011

A Ressurreição Transformou-se num Feriado!




As estradas de São Paulo estão intransitáveis. Pudera, com o feriadão pela frente todo mundo desceu para o litoral. No carnaval estive por lá. Fui para São Bento do Sapucaí, uma cidade serrana. Sete horas de viagem que poderiam ter sido feitas em duas e meia. Aí tinha o trânsito...

Mas o “fenômeno” não acontece só em Sampa não! Em todas as cidades do Brasil está todo mundo de malas prontas, seja para ir à praia, seja para ir ao campo, seja até para estar em clubes de veraneio próximos a cidade, pois a ordem é sair de casa, da rotina, buscar um pouco de descanso, afastar-se da asfixia provocada pelos grandes centros.  


Como pastor tenho testemunhado algo desalentador: o esvaziamento das igrejas no feriado da “semana santa”. Na celebração da data mais importante do cristianismo, as pessoas preferem estar se bronzeando no sol, andando de cavalo, tomando banho de piscina, fazendo rapel, subindo em dunas, relaxando no ofurô, ou visitando lugares pitorescos e históricos. Sim, com tristeza constato que a Ressurreição transformou-se num feriado!


Que o nosso povo não tem memória, isto já é fato consumado. Basta olhar para o Congresso Nacional e ver que ele se dá ao desplante de trazer de volta ao poder corruptos e estelionatários contumazes. Que os nossos heróis são esquecidos, e aqui cabe citar Tiradentes, que foi esquartejado em busca de ideais de liberdade, e que tem a sua morte lembrada no dia de hoje, 21 de abril, tudo bem, pois heróis precisam ser altruístas, eles não necessitam de reconhecimento. Mas o que falar da morte e Ressurreição do Filho de Deus? Era para passar incólume também?


Quando olho os cultos esvaziados das congregações em todo o país, chego à triste conclusão de que o coelhinho da páscoa possui mais admiradores e notoriedade do que o próprio Jesus. E o Rubinho Pirola, com seu humor peculiar, provoca no seu cartoon postado no Genizah: “coelhinho da páscoa o que fizestes por mim?”.


É triste ver que a vida que levamos não nos permite mais parar para refletir, orar, jejuar, agradecer, celebrar, dimensões vivenciais da fé que fazem do cristianismo uma religião de esperança, de conforto, de reconciliação, pois é fato que, naquela cruz, “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens os seus pecados”.


Mas que importa tudo isto? Qual a relevância disto para mim hoje? Agora? O que está feito, está feito? Valeu Jesus! Brigadooooo! Mas, aqui pra nós, deixa eu curtir meu feriadão que eu não sou santo e, se fosse, seria santo de barro, portanto, vai “devagar com o andor” que eu posso “quebrar”, sobretudo se não descansar...


No domingo, em nossa comunidade, teremos 4 cultos. O primeiro deles é às 6:00h. da manhã. Chamamos de Culto da Ressurreição! Em seguida, virão os cultos normais, pela manhã, tarde e noite. Mas quantos estarão por lá? Sinceramente, não sei.


O que sei é que quando a Ressurreição se transforma em feriado, a cruz vira artefato histórico, o sangue vertido torna-se bizarrice romana, a morte passa a ser mito, o plano de salvação constitui-se dogma, a fé descamba para o fanatismo, a ceia é “transubstanciada” em ovo de páscoa e, Jesus, creia-me, é substituído sem grandes constrangimentos pelo incomparável coelhinho.

Diante de tudo isto, eu me pergunto: fazer o quê? Feliz Páscoa para você...

Carlos Moreira

14 março 2011

Carnaval e Cristianismo


O carnaval é a antítese do cristianismo. O reinado de Momo inverte toda a lógica cristã e subverte a ordem das coisas proposta pela igreja.

Enquanto o cristianismo louva o comedimento, o carnaval brinda o excesso. A frugalidade é o ensino cristão, a extrapolação é a tônica do carnaval.

Durante o carnaval não existe pecado e nem pecador. No carnaval “o homem é Deus”, criador, onipotente e sem limites, brindando à vida enquanto tilintam as taças cheias de prazeres.

O cristianismo prega a vida eterna, o carnaval a eternidade da vida (ainda que ela só dure quatro dias). Aquele olha para o céu, este se volta para a terra.

O carnaval subverte toda a ordem, o cristianismo se esforça por mantê-la. O cristianismo é a norma, o carnaval a reviravolta, o mundo de ponta-cabeça!

O cristianismo, platônico que é, exalta o espírito e as idéias puras. O carnaval, por sua vez, nietzscheniano em sua essência, dá ênfase a carne, ao dionisíaco e não ao apolíneo.

O carnaval é a festa do mutável, da transformação, das múltiplas faces expressas nas inúmeras fantasias. O cristianismo cultua o dogma, o imutável, o estático, a permanência.

O cristianismo é recolhimento e solidão, é retiro espiritual, é quietude monástica. O carnaval é multidão, é contato, é fusão de corpos e almas.

O carnaval é a festa daquilo que é concreto e palpável, enquanto o cristianismo honra o abstrato. O cristianismo gosta do que não vê, o carnaval se entorpece com o que toca.

Confesso que nem me empolgo demasiadamente com o carnaval e nem reverencio o cristianismo. O que eu gostaria mesmo de ver era um carnaval mais cristão e um cristianismo menos carnavalesco. Seria isso possível?

André Pessoa

28 fevereiro 2011

Faz Parte do Meu "Show"


O “espírito” do hebreu é um “espírito” errante, desalojado, sem solidez, desarraigado, livre. Ele não permite que se cavem estacas profundas ou que se construam armações de concreto. O hebreu é viajante, é caminhante da terra, é ser sem destino, homem de tendas, construtor de altares. Tal como a brisa que passa, ou a pegada que se apaga na areia enquanto se caminha, assim é o hebreu, um caminhante da existência.

Eu não sou filho de Abraão, não pertenço a nenhuma das 12 Tribos, não possuo o “DNA” dos israelitas, não estou incluído nas Promessas, contudo, fui enxertado na “Videira” e convidado ao “banquete”, pois me tornei filho e herdeiro de todas as coisas mediante a fé em Jesus de Nazaré. Desta forma, passei a fazer parte da Família, recebi do mesmo Espírito, bebi do mesmo “cálice”, fui crucificado na mesma cruz e batizado na mesma morte, ressuscitei mediante o mesmo Poder e, tendo nascido de novo, recebi o desafio de andar como caído redimido.

Quando eu achava que tudo já havia se acomodado dentro em mim, que as “pedras” do caminho, todas elas, já haviam sido recolhidas ao abrigo, chegou à hora de levantar novamente a minha tenda e me lançar ao sabor do vento. Depois de tantos anos, pensei que havia encontrado um porto seguro. Mas aquele que veio morar dentro de mim me chamou a novas paragens e a novos desafios.

Foram 14 anos desde a última “mudança”. Tempo de crescimento, tempo de dores. Aliás, sem dores não se cresce, não se amadurece, não se expande nem a mente nem o coração. Foi um tempo de conhecimento, de preparação, talvez, para algo maior. Sou grato por estes anos, por tudo o que eles produziram em mim, cicatrizes de amor, marcas de esperança, tatuagens de sonhos acalentados.

Decepções? Tive muitas... A maior de todas, comigo mesmo. Conheço-me melhor agora, bem mais do que me conhecia antes, sei do que sou capaz, percebo minhas inconcretudes, ansiedades e contradições. O tempo me fez mais fraco, mais manso, mais quebrantado. Um dia destes pensava ser de aço. Hoje, sei que sou apenas de osso. Do pó vim e ao pó voltarei.

Meu amigo André Pessoa me ensinou que crente é feito gato, apega-se a lugares, não a pessoas. De fato, sempre que parti e deixei algo para trás, jamais consegui manter o que dantes havia construído. As amizades se esvaem, os projetos se desfazem, os sonhos se esfarelam como estátuas feitas com areia do mar. Tudo passa, se perde, se esquece, se apaga...

Fiz um balanço dos últimos anos... Para minha tranqüilidade, errei muito mais do que acertei, perdi muito mais do que ganhei, encontrei-me em contradição muito mais do que calcado em certezas. É bem provável que tenha produzido mais lágrimas do que sorrisos, ferido amigos, frustrado ouvintes, decepcionado até os que jamais me conheceram. Servi menos do que deveria, ouvi menos do que poderia, amei menos do que pretendia. Não raro meu discurso produziu apenas eco, pois as palavras não se materializaram no chão da vida. Ergui castelos e vi-os cair diante de meus olhos. 

Mas não é a vida assim?! O que esperava eu? A perfeição? O aplauso? O elogio? O reconhecimento? A unanimidade? Ora, quem sou eu a não ser homem feito de barro, suor e sangue. Quem sou eu a não ser alguém que caminha para dentro em busca de si mesmo. Quem sou eu a não ser um miserável resgatado pela graça, um perdido encontrado pela misericórdia, um desviado perseguido pelo amor, um errante salvo pela fé?

Sou tudo e não sou nada, sou ser por fazer-se, o agora e o ainda não, parte de mim é divina, outra parte é humana, pois, mesmo tendo sido resgatado, ainda existo como condenado, estou preso ao meu próprio corpo, aos seus desejos e paixões, apenas sou livre em minha consciência. No fundo, sou andarilho em busca da eternidade, existente caído almejando encontrar a perfeição, humanidade partida, dividida, viajante em busca de reencontrar a árvore da vida.   

Mas agora virá um novo tempo... Parte de mim vai, outra parte fica. São tantas as partes nas quais me decompus que não tenho mais como juntá-las novamente. Hoje sou metade, estou ao meio, sou fragmento de mim mesmo, fui dissolvido como o sal, dissipei-me, misturei-me ao todo, tornei-me parte da vida, cidadão do mundo, luz que brilha nas trevas, clarão que rasga a escuridão para atormentar o tormento.

Agora deixe-me partir... Chegou a minha hora. Não me diga adeus, não soe clarins, não me mande recados, não me escreva, nem telefone... Não deixe que a banda toque canções de despedida, não solte fogos, não bata palmas, não acene... Deixe-me ir incólume, despercebido, deixe-me ir da mesma forma como cheguei, sem ser notado, percebido, destacado.

É assim que sou e, provavelmente, é assim que serei. As mudanças, creia-me, produzem-se lentamente, levam toda uma vida. Há tanto em mim que precisa mudar que seriam necessárias dezenas de vidas para que fosse eu alguém melhor do que sou. Mas, como só tenho esta vida para viver, aquilo que sou está se projetando para o dia em que as minhas incertezas e medos serão confrontados com o “Totalmente Outro”. Aí, então, verei não mais por espelhos, com os olhos embaçados, mas conhecerei como sou conhecido, pois o verei face a face, Ele será o meu Deus, eu serei o Seu filho. 

Desculpe por tudo e por nada. Aceite-me como sou, errante, as vezes perto, as vezes distante, semeador de sonhos, adorador do sagrado, construtor de altares, profeta do cotidiano. Sim, aceite-me assim, pois tudo isto “faz parte do meu “show””, é a forma que tenho de te mostrar que sou humano, que sou o que sou.

Carlos Moreira 

26 janeiro 2011

O Diabo vai ao Analista


Todos nós possuímos certos mecanismos que,
em psicologia, são chamados de mecanismos de defesa. Eles têm por finalidade reduzir manifestações que podem colocar em perigo a integridade do “ego” – uma instância da personalidade definida como o nosso eu mais perceptível.


Quando o indivíduo não consegue lidar com de-terminadas situações, entram em ação esses mecanismos de defesa, processos subconscientes ou mesmo inconscientes que acabam permitindo que a mente encontre uma solução para o conflito que não pôde ser resolvido no nível da consciência.

Esses mecanismos de defesa têm por base a angústia. Quanto maior a angústia, mas fortemente eles atuam. Freud estudou bastante este tema e nos revelou que um dos mais importantes mecanismos é a “projeção”. Trata-se da transferência de atributos pessoais de determinado indivíduo – pensamentos inaceitáveis ou indesejados, por exemplo – para outra pessoa.


O filósofo Ludwig Feuerbach estabeleceu para-lelos entre sua teoria da religião com a ideia de projeção psicológica, e escreveu como uma de suas conclusões que “a concepção de uma divindade antropomórfica trata-se, na verdade, de uma projeção dos medos e ansiedades dos homens”. Foi dentro deste contexto que, em uma de suas frases mais famosas, declarou: “Deus foi criado à imagem e semelhança do homem”.


Posto isso, base mínima para as argumentações que se seguem, quero especular sobre um fenômeno que tenho presenciado sistematicamente ouvindo pessoas: a atribuição ou transferência de culpa de atitudes dos indivíduos para a figura do “diabo”.

Em nossos dias, o “diabo” é o grande culpado por boa parte dos problemas que enfrentamos e este “fenômeno”, pasmem, carrega em si até certo grau de espiritualidade, pois, afinal de contas, o sujeito está sendo “atacado por satanás”! O diabo na igreja é criatura das mais conhecidas e reverenciadas. Não

raro, ganha status de ator hollywoodiano, pop star, gospel, chega a dividir com Deus boa parte das citações em um culto ou sermão.

Até hoje, todavia, ninguém havia avaliado os supostos estragos que eventuais acusações e transferências causaram na alma do “tinhoso”. De tanto ser culpado por coisas que jamais realizou, atos que não cometeu e situações das quais não participou, o diabo começou a desenvolver certas deformidades comportamentais.


No começo era apenas um leve sentimento de culpa, mas a coisa se aprofundou e começou a virar disfunção de autoimagem. Em seguida, baixa estima, depressão e, por fim, síndrome do pânico!


Apavorado com a situação e de forma recorrente, sendo acusado pelos crentes como culpado de tudo que lhes sobrevém, o diabo resolveu, como recurso último, já num grau de desespero extremo, ir ao analista. O trecho abaixo é parte da anamnese realizada pelo psicanalista no primeiro contato que teve com o “rabudo”.


Terapeuta - Vamos lá, deixe essa timidez de lado, pode falar. O que lhe incomoda?

Diabo – Doutor, eu estou me sentindo muito mal.
Tenho ânsia de vômito, sudorese, taquicardia e, às vezes, pânico!

Terapeuta – Sei... Mas o que você acha que provoca tais sintomas?

Diabo - Bem, doutor, eu estou carregando um far-do muito pesado. Os crentes colocam a culpa em mim por tudo o que lhes acontece. Isso tem gerado um constante estado de angústia. O senhor tem ideia do que é ser acusado de algo que, em absoluto, não realizou?


Terapeuta - Não. Mas isso não é importante, pois estamos falando de você, não de mim. Dê-me um exemplo para que eu possa entender melhor.

Diabo - O cara é um safado; vive no trambique... nota fria, caixa dois e tudo o mais. Um dia, chega a fiscalização e o cretino afirma: “Isso é coisa do diabo!”. Quer mais? O sujeito não ora, não lê a Bíblia, não age conforme o que crê, e aí diz que sua falta de disciplina é “coisa do diabo!”. É pouco, doutor?! Vem um outro... Ele não cria os filhos com valores nem princípios. Em casa, é o pior exemplo possível. Contudo, se os pirralhos se desencaminham na vida, assevera: “Isso é coisa do diabo”!

Terapeuta - Realmente, estou vendo que seu caso é mesmo sério!

Diabo – É, doutor, mas não fica só nisso não... Observe: o sujeito toma uma decisão sem pensar, irrefletidamente. Mas o que ele diz quando bate com a cara na parede: “Isso é coisa do diabo”! Ainda tem mais... Se alguém possui um temperamento descontrolado, iracundo, provocador, toda vez que se desentende com alguém conclui de forma absurda: “Isso é coisa do diabo”! Achou pouco, doutor? E quando um deles se endivida, desorganiza-se financeiramente por não
conseguir segurar o cartão na carteira, sabe o que diz? Que deu uma “brecha para o diabo!”.

Terapeuta - Cidadão, a situação é mesmo complicada...

Diabo – Mas não para aí não... O cara vem cheio de paranoias, uma família pra lá de louca, alma desestruturada, traumas, medos, e diz que a “doideira” dele é “coisa do diabo”. Imagina, doutor?! O sujeito é mal-amado, mal resolvido, carente, e tudo é “coisa do diabo?!”. Se o cara mergulha no vício, o que eu ouço? “Isso é coisa do diabo”. Se vive na mentira, diz que o responsável sou eu, afinal, eu sou o pai da mentira! A desgraça torna-se ainda maior porque eu não ganho nada com isso! Falam o tempo todo no meu nome, mas crédito que é bom, nada! Assim não tem quem aguente!

Terapeuta - Bem meu “amigo”, seu tempo, infeliz-mente, acabou. Na verdade, estou achando que você está muito ansioso. Vou ter de lhe receitar um ansiolítico!

Diabo - Para que serve?

Terapeuta - Para controlar sua ansiedade.

Diabo - Você está louco, doutor?! Eu vivo de gerar ansiedade nos outros e você quer tirar a minha? Doutor, creia-me, estou com muito medo de não ter mais nada o que fazer contra a existência humana, tornar-me apenas alegoria de história de criança!

Terapeuta - Mas seu diabo, como é que o senhor ganha a vida?


Diabo - Bem, eu vivo de gerar medo, culpa, angústia e ansiedade nas pessoas. Eu mato seus sonhos, roubo suas sensações, destruo suas almas. Na verdade, sou um grande coreógrafo! Crio cenários para as pessoas atuarem na peça, mas elas é que fazem as escolhas e desempenham os papéis.

A sessão termina. O analista diz: “Bem, vá até a farmácia, compre o medicamento e me ligue! Vamos avançando no tratamento...”. O diabo se despede, sai cabisbaixo, arrastando o rabo, deprimido, mas dirige-se à drogaria mais próxima.


No consultório, toca o telefone na sala do médico. É a secretária. O doutor diz: “Mande entrar o próximo”. A porta se abre e entra o outro paciente... É um crente. O doutor pergunta:


Terapeuta - Bem, meu amigo, qual é o seu problema?

Crente - Doutor, estou meio sem jeito... É que eu dei uma “brecha”, sabe? Uma escapadela! Na verdade, traí minha mulher.

Terapeuta - E quando foi isso?

Crente - Ah doutor, tem sido algo constante. Antes de vir para cá, por exemplo, aconteceu.

Terapeuta – Mas meu amigo, o que você acha que está acontecendo com sua vida afetiva?

Crente - Não sei, doutor! Tenho pensado muito sobre esse assunto e cheguei a uma conclusão: “Isso é coisa do diabo!”.

Nessa hora, não aguentando o absurdo ali proferido, o analista, levantando-se da cadeira exaltado, esbraveja: “Deixe de ser safado! Que diabo coisa nenhuma! O diabo acabou de sair daqui ainda agora, deprimido, mais pra baixo do que rabo de elefante, e você me vem com este papo da carochinha! Tome vergonha na sua cara e assuma a responsabilidade por seus atos...”.

Agora, durma o diabo com um barulho desse...

Carlos Moreira

29 dezembro 2010

Seria Lula um Novo Messias?


Ao ser homenageado na noite desta terça-feira em Pernambuco, estado onde nasceu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de mais uma despedida do cargo e afirmou que continuará ajudando a "resolver os problemas do Brasil". Fonte: O Globo.

Lula é um fenômeno, e eu o respeito por isso. Aliás, respeito-o como meu presidente, pois, ao menos uma vez, votei nele. Reconheço seus feitos, suas realizações, coisas concretas, mensuráveis, admiro o seu carisma incontestável, testifico como positivo o rumo que ele deu ao Brasil nestes últimos 8 anos.

De fato, tivemos um bom governo. Muito foi realizado, nem tudo o que era necessário, é claro, mas, sem utopias ou partidarismos, o que dava para ser feito. A pobreza diminuiu, o emprego aumentou, a visibilidade do país cresceu, os setores da economia melhoraram, alguns serviços básicos também.

Mas não vamos nos perder em ufanismos, deslumbres ou politicagem. Não vivemos no Haiti, é verdade, mas ainda estamos longe de ser o Havaí... Nossos juros são os mais altos do mundo, saneamento ainda é o sonho de consumo da maioria da população e tanto o Senado quanto o Congresso, nossas instituições democráticas mais expressivas, são “casas de horrores”. A violência urbana impera e, para tentar controlá-la, precisamos de uma overdose bélica que reuniu Exército, Marinha, as Polícias e o BOPE! A saúde anda mal das pernas, a educação é sofrível, a infra-estrutura ainda está bastante sucateada, e isto para não aprofundarmos muito...   

Mas, com tudo isto, ainda impressiona-me o Lula. Dizer que não teve competência e não dar-lhe crédito é idiotice de uma oposição burra. Por outro lado, não afirmar que colheu onde não plantou é negar o óbvio e o irrefutável. Se Fernando Henrique Cardoso tivesse “navegado” aos “ventos” e “marés” que teve o Lula, tanto internamente, quanto no campo internacional, talvez tivesse feito o mesmo ou, quem sabe, até mais.

Sei que esta é uma análise simplista, mas aqui está um empresário que conhece um pouco como a “máquina” funciona. Faço-a com isenção, pois apesar de me constituir ser político, não sou politiqueiro nem militante. Não sou filiado a nenhum partido, não defendo nenhuma bandeira, a não ser a bandeira do Reino de Deus, não carrego no peito nenhuma estrela a não ser a Estrela da Manhã, aquela que simboliza a Jesus, o meu Senhor.

Ontem saí tarde do escritório, como de costume. As ruas do Recife Antigo estavam apinhadas de gente. Todos queriam ouvir o presidente. Ao fundo, escutei gritos e ovações, mas o cansaço e mesmo o descaso me fizeram rumar passos largos até o estacionamento para pegar o carro e ir para casa. Mas hoje, depois de ler as matérias publicadas nos jornais, analisando o último discurso de Lula, cheguei a uma importante conclusão: Lula é um novo Messias! Você não acredita? Então, vejamos...

Lula “encarnou” como presidente após sucessivas derrotas em campanhas políticas. Todavia, sua persistência e a de seu partido o levaram, enfim, aos píncaros da glória, ao Palácio da Alvorada. Saiu do interior de Pernambuco, da fome, da miséria, da seca, da boléia do caminhão, do pau-de-arara, para ser operário na cidade de São Paulo, líder sindicalista, e, por fim, presidente da República. Invejável...

Depois de “encarnado” passou, então, a ser considerado a salvação do país. Em seus discursos e em todos os pronunciamentos, dentro e fora do Brasil, exibia-se a si mesmo como o único capaz de trazer a solução para os problemas da nação. Asseverava ter encontrado um Brasil espoliado, destruído, incapacitado e debilitado. Ao seu antecessor restaram apenas críticas, chacotas e desdém. Contudo, no “tempo oportuno”, "Deus", tendo misericórdia de tão sofrido povo, revelou Lula, o “salvador da pátria”.   

Em seguida, acompanhado por um competente gabinete de ministros – poderíamos até parafrasear como seus “apóstolos” – começou a por ordem na casa. Cuidou dos pobres, quebrou protocolos, investiu em favor dos menos favorecidos, manteve programas assistenciais importantes, criou outros, fez de um tudo para ajudar os excluídos e os despossuídos. Fato.

Num determinado momento, quando acusado de ser o diabo em pessoa, quando lhe atiraram pedras, quando pensaram em crucificá-lo e o responsabilizaram pelo maior escândalo da República – “O Mensalão” – calou-se. Numa atitude de “humildade”, preferiu retroceder. “Nunca soube de nada”, foi seu parecer. E mais, mesmo sendo acusado de todos os lados, perdoou os seus agressores e "deu salvo conduto" àqueles que lhe ofenderam e destrataram.

Finalmente, já na reta final, no último lampejo de seu governo, Lula consegue o feito inédito de eleger presidente a primeira mulher na história da nossa nação, Dilma Rousseff. Sai então de cena o homem; entra na história o mito. Lula “morre” para Dilma poder nascer! Enfim, “tudo está consumado”.

Mas no discurso de ontem, diante de uma platéia ensandecida, gritos emocionados, o nosso “messias” não resistiu e veio as lágrimas. E assim, de forma quase que profética, anunciou em alta voz: “eu voltarei”!

Foi aí que eu pensei: pronto, agora está tudo completo: a encarnação, a vida, a “morte”, a promessa de “ressurreição” e, em seguida, a volta. Fica, desta forma, uma pergunta que não vai querer calar, pelo menos durante os próximos 8 anos: não seria mesmo o Lula um novo messias? Menino, sei não viu....

Carlos Moreira

22 dezembro 2010

10 Anos a Mil, do que 1000 anos a Dez


Este tem sido um ano difícil. Para alguém acostumado ao sucesso, a conquistas e vitórias, tive de “degustar” outras sensações como o fracasso, a “derrota” e a perda. Isso escrito em artigo fica filosófico, até intelectual, mas experimentado na vida dói, e dói pra valer...


Um ano para esquecer... Ou, quem sabe, para lembrar pelo resto da vida. Sim, seria melhor guardá-lo para que suas lições não se percam. E foram muitas. Depois de despencar de alguns barrancos, como diria o Lulu Santos, de ver alguns sonhos partidos, de experimentar a incompreensão, a traição, o descaso, a crítica mordaz, a mentira contada com requintes, vieram a reboque à queda dos paradigmas, a quebra dos modelos.

Mas eu sou assim... 100% explícito. Se você não gosta, fazer o que? Sou assim! Não consigo dissimular, fazer caras e bocas, dar beijos e abraços, tapinhas nas costas. Sou ser por fazer-se, cheio de incompletudes, de fragmentações, de desencontros, de medos, mas que não tem receio de botar a cara para bater, de dizer e escrever o que pensa, de ir na contra-mão, no contra-fluxo, o famoso pino quadrado tentando entrar no buraco redondo (Jack Kerouac).

Crítico profissional, fui alvo da crítica de todos. Bem feito, quem manda criticar! Falar é fácil, fazer é que é... Cometi erros, não há como escondê-los. Confessei-os de todas as formas, publicamente e em segredos... Se desse, eu os enterraria... Mas eles estão aí, todos às claras. Errei com Deus, com minha família, com gente que achava que era amigo, com amigos mesmo, com gente da comunidade, gente de dentro, de fora, do lado, de cima e de baixo. Errei. E daí, quem não erra? Errei tentando acertar! Melhor assim do que ficar assistindo da “geral” e apontando o dedo.  

Não sei como será 2011. Não sei se “sobreviverei” a este tsunami. Estou de pé nocauteado; você sabe como é? Sabe nada... Não caí porque sou de uma persistência obtusa, consigo ir contra mim mesmo. E Deus? Ora, está mudo! Calou-se! Recolheu-se! Deixou-me só! Disse-me: "você não é o cara? Não sabe fazer tudo? Não tem os modelos, os métodos, tudo pronto, os planos perfeitos? Então vá lá, faça funcionar sem Mim!". E eu fui... Mas não funcionou! Fiz de tudo, mas não deu certo. Deus insiste em fazer com que os métodos não funcionem. Parece pura implicância, mas, de fato, não funcionam mesmo. E quer saber: dou graças a Ele que não tenham funcionado, pois se desse certo a glória seria minha e não dEle, seria veneno para minha alma, ácido para minha consciência, ópio para o meu coração.

A frase que trás o título deste artigo não é minha, é do Lobão – cantor, compositor e apresentador de TV – em sua música Decadence Avec Elegance  – Decadência como Elegância. De fato, prefiro viver assim, 10 anos a mil a 1000 anos a 10. Prefiro viver intensamente, tentando fazer as coisas, errando, acertando, errando mais do que acertando, é claro! Mas vou tentando, pois tenho pavor da mediocridade, tenho pavor dos que assistem e dão desculpas esfarrapadas para não se envolver com nada, tremo diante da unanimidade, temo a vulgaridade, a commoditização, os simplistas, os que seguem mapas, os que nunca ousam sonhar... Como disse Oscar Wilde, “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.

Enfim, o ano acabou. Tinha a impressão de que ou ele acabava ou eu acabava com ele. Ele venceu... Com ele acabou-se muita coisa. O sábio diz que “melhor é o fim das coisas do que o seu princípio”. Estou constatando na prática. Este ano assisti ao fim de planos, de sonhos, de “amizades”, de projetos, e outras coisas sem relevância. Foi pau, pedra, e o fim do caminho... Deus salvou-me de mim mesmo, pois, em meio a tudo isso, consigo ver seu cuidado comigo.  Ele livrou-me de ter sido bem sucedido em planos nos quais Ele nunca esteve, não porque eu não quisesse, mas por que Ele não quis... É complicado mesmo, não tente entender, apenas leia...


Aprendi com Millôr Fernandes que “há duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos”. Eis aí estão as minhas derrotas. Quem quiser que as saboreie. Se eu tivesse chegado ao “pináculo do templo”, estaria rodeado de “amigos” querendo comer na minha mesa, mas os poucos que tinha me deixaram sós, sequer tiveram a coragem de se despedir. Vão em paz! Vão com Deus! Acha que guardarei mágoas? Não há espaços em meu coração para isso, pois sei que a amargura é como o câncer, corrói por dentro e esvazia o ser deixando o ambiente convidativo aos “fantasmas”. Não, não vou odiá-los, espero que achem boas paragens e paz e bem na vida.

Assim, de boa vontade, por amor de vocês, gastarei tudo o que tenho e também me desgastarei pessoalmente...” 2a. Co 12:15. É o que creio. É o que faço há 27 anos. Ninguém pode dizer que não me gastei por amor das pessoas e do Evangelho. Se errei, foi tentando acertar. Trabalhei muito nestes anos. Vigílias, cultos de oração, encontro de jovens, de casais, cursilhos, seminários, escola dominical, pequenos grupos, aconselhamentos, cultos de louvor, cultos de ação de graças, casamentos, funerais, batizados, formaturas, cultos em empresas, acampamentos, louvorzão, foi tanta coisa que já perdi a conta. Faria tudo de novo. Me gastei e ainda me deixarei gastar, pois sei que “Deus não é injusto para ficar esquecido do meu trabalho para com os santos”.

Não peço sua aprovação, nem seu favor, apenas suas orações. Ore por mim, pois ainda que a intenção tenha sido boa, o resultado parece não ter sido dos melhores. Perdoe-me se lhe feri, se lhe ignorei, se lhe destratei, se lhe faltei com o devido cuidado. Ser empresário, pai, esposo, pastor, estudante, não foi coisa fácil este ano. Além de tudo isto, tem tudo o que sou e que não se desgruda de mim...

Não sei o que será daqui para frente. A coisa que acho que melhor sei fazer na vida é pregar o Evangelho. Vou continuar fazendo isto; não sei onde, não sei com quem, mas é certo que continuarei a fazê-lo.

Desejo-lhe de todo o meu coração um feliz natal e um próspero ano novo! O meu, este ano foi horrível, mas Deus me consolou de todas as minhas lamentações e me curou de minhas enfermidades, fez sobressair sobre mim a Sua luz e raiar sobre a minha face a Sua justiça. O que poderia eu desejar mais?  

Por fim, não me responda nada. Seu silêncio me fará mais bem do que suas palavras. Se gostou, ótimo! Se não, CRTL + ALT + DEL. Ninguém me moleste mais por coisa alguma, pois eu já estou nisto há muito tempo e, penso, ganhei, ao menos, o direito de ser ouvido e respeitado, ainda que você não concorde com absolutamente nada do que disse.  

Em Cristo,

Carlos Moreira







16 dezembro 2010

Só pra vomitar a solidão mais um pouco!

Hoje eu acordei sem entender porque. Acordei por acordar. Assim sem uma razão aparente. Eu só acordei, pronto. Foi o suficiente para perceber que eu não sei o porquê desse relógio ao lado da cama, desses papéis pra assinar, dessa louça pra lavar. Hoje eu chorei sem entender o porque. Chorei só por chorar. Assim sem um motivo plausível. Eu só chorei, ponto. Quando eu choro, o meu estomago chora junto comigo. Quando eu acordo, o meu medo abre os olhos e lamenta o dia seguinte. Só me resta ir ao banheiro e vomitar a solidão embrulhada aqui dentro. O espelho sorri do meu desespero e o telefone me lembra o quanto sou necessária ao mundo lá fora. Ele toca como se dissesse: """"se toca"""". Sim, as pessoas precisam de mim. Até às 18h00. Depois disso, meu mundo silencia e só me resta fazer uma prece para que meu sono chegue logo e dure o tempo da eternidade. Ou, pelo menos, que dure até às 8h00 da manhã do dia seguinte. É quando acordo sem entender o porque. Acordo assim só por acordar. Sem razão aparente ou motivo plausível. Só pra vomitar a solidão mais um pouco, em pausas, entre um alô e outro. Mas, calma: """"é só até às 18 horas"""", penso comigo.

Maíra Viana através do blog Maíra Viana 

Maíra Viana é escritora, jornalista, poetisa e faz parte de cena cultural e artística de São Paulo. Além disto, é minha prima e eu a amo muito. Depois de vê-la menina, só a descobri mulher! Vez ou outra sua poesia urbana vai pintar por aqui...

04 dezembro 2010

Ensaio Sobre a Dor

Frejat, em uma das suas canções, diz que todo mundo é parecido quando sente dor. A dor, ao que parece, nivela as pessoas e revela os seres humanos tal e qual eles são, humanos. Na dor não há rico ou pobre, feio ou bonito, apenas homens. Nela as máscaras forjadas para distinguir as pessoas caem por terra revelando a semelhança existente entre todos.


Sobre isso diz Oscar Wilde: “diferente do prazer, a dor não usa máscaras”. A dor é na verdade um sublime momento de revelação. Nela temos acesso aos mais profundos recônditos da alma humana e conhecemos as nossas limitações que tão orgulhosamente tentamos esconder no dia a dia.

Na dor todo mundo tem a mesma cara, todos se parecem, ninguém é diferente. Talvez seja por isso que no sofrimento os homens tendem a ser solícitos e solidários uns com os outros, exatamente por que se assemelham. Os que choram e partilham as mesmas dores sempre se abraçam fraternalmente como irmãos.

Vejam como se parecem os homens enquanto choram. Vejam como são igualmente decaídos os semblantes, vejam como rolam iguais as lágrimas que se precipitam dos olhos e caem na terra do nosso coração fecundando-a. Fecundando-a! a dor gera vida e não morte!

A dor, desde que saibamos absorver os seus ensinamentos, será a melhor de todas as mestras. Ela pode até nos redimir. A dor é redentora, somos salvos pela dor. Triste do homem que é incapaz de senti-la, de aprender com ela, de ser redimido por essa grande tutora que nos conduz por um caminho difícil, mas triunfante.

Entretanto, é também igualmente verdade, que devemos lidar com a dor com a cabeça erguida, sem nos entregar a uma tristeza avassaladora. Devemos ser como aqueles “que não se ajoelham para beber água”, que nunca perdem tempo com excessivas lamentações e que não se deixam abater pelos percalços da vida.

Devemos suportar a dor sem lamentar o destino ou supor que estamos sofrendo por causa do que fizemos e não deveríamos ter feito. Pelo contrário, faremos da dor o combustível que nos move velozmente em direção ao futuro.

A dor é algo inerente a natureza e a existência humana. Quem não sofre e não sente dor certamente também não se pode dizer humano e vivo. A grande questão é: o que faremos das nossas dores? Quanto a mim, embora não a cultue, respeito-a e aprendo com ela. E você? O que faz com a sua dor?

André Pessoa via Século XXI

02 dezembro 2010

Táxi, Aeroporto e Hotel


Eram duas horas da manhã e fazia um frio de rachar em Sampa. Cheguei e fui direto para o hotel. Trabalhei até a madrugada quando meu corpo deu sinal de alarme: “low battery”.

Nesse mesmo dia, eu havia acordado muito cedo e o decorrer das horas foram pesadas: trabalho no escritório, trabalho dentro do avião, isso sem contar com o cansaço da viagem em si e o deslocamento todo que ela engloba: táxi, aeroporto e hotel.

Naquela madrugada, sentei-me próximo à varanda do quarto de hotel e me deixei levar pela paisagem da garoa caindo sobre a Avenida Paulista. Enrolado no edredom, sem sono e sem sonhos, me permiti divagar. Pensei que não era só eu, naquele momento, a fitar aquele céu e que deveriam ser muitos os que estavam acordados fazendo o mesmo e desejando dias melhores.

Viajar me causa uma melancolia. Talvez porque eu já tenha rodado demais na vida... Negócios, projetos, parcerias, problemas com clientes, reuniões boas, reuniões ruins, reuniões azedas, reuniões e mais reuniões...

Tanta coisa assim, começando pelo café da manhã e indo até o último gole de vinho, já na madrugada, me faz perder até as percepções mais naturais. Ao final do dia, nem sequer consigo lembrar com quem estive falando. Às vezes, acordo no meio da noite e não sei onde estou. Por isso sempre deixo a janela aberta, pois, olhando para o lado de fora, consigo me localizar melhor. “Tempos modernos”, diria Chaplin.

Táxi, aeroporto e hotel, eles nunca me largam. A noite avança geralmente fria, com os poucos carros que ainda circulam pelas ruas. Na minha cabeça passam mil coisas: “o que fazem as pessoas dentro desses carros? No que elas estarão pen-sando? Será que, como eu, estão no piloto automático — ao fim de mais um dia — na melancolia das horas, contando os minutos para o sono chegar e o “chip” ser desligado?”.

Mas, como de costume, no dia seguinte, começa tudo de novo! E na minha solidão vou seguindo atrás da agenda que nem carnavalesco na Quarta-Feira de Cinzas. Sorriso no rosto, terno impecável, sapato engraxado, mochila com notebook nas costas, iPhone a postos, cartão de visita no bolso, o kit de ataque completo que um executivo precisa ter para tentar fazer dinheiro.

Durante o dia, as máquinas funcionam impecavelmente, desde que haja “link”, mas o meu sorriso se
desfaz como sorvete à luz do sol. É que, para mim, alegria vem de dentro, não é plástica performática estampada no rosto como personagem de novela.

Mesmo que eu feche negócios aos milhões, ao final do dia estarei de novo sentado na janela, enroscado no edredom, olhando para o nada e pensando no que farei na manhã seguinte.

A rotina come as pessoas por dentro. Talvez por isso me sinta, por vezes, oco, vazio, um galpão enorme sem nada dentro.

Sei que Jesus fala para aprendermos a ser gratos. A gratidão é dádiva degustada por poucos. Sou grato pela rotina, ainda que não tenha conseguido lidar bem com ela nestes últimos 30 anos de trabalho.

Mas tenho esperança de que ainda conseguirei. Há dias singulares, mas são poucos... Tenho tentado ser agradecido por cada coisa, até mesmo pela solidão, que me faz querer ir atrás de sonhos que são impossíveis de realizar.

Há, todavia, uma esperança no final do túnel! Nas sextas, tudo volta ao normal. O retorno para casa: hotel, táxi, aeroporto, avião, viagem, planilha aberta no voo... E a velha cerveja no final de mais uma noite fria. Esse é o trajeto que me leva de volta, de Sampa para Recife – horas que parecem não acabar nunca...

O que me espera na chegada é apenas o taxista. Carrego minhas malas e as deposito no carro. Adentro a noite escura de minha cidade seguindo pela Mascarenhas de Moraes até em casa. Entro em silêncio, guardo as malas, tomo um banho quente, deito sem sono, fico olhando o teto e as luzes pela janela... Mais uma jornada cumprida.

Obrigado, Senhor, pela rotina nossa de cada dia. Ajuda-me a dar a ela algum outro significado. É que o atual não dá mais para o gasto. Semana que vem, tem tudo de novo: táxi, aeroporto e hotel.

Carlos Moreira

17 novembro 2010

Errar é Humano. Permanecer no Erro Também é.

Carlos Moreira



É bem provável que você já tenha ouvido falar da Torre de Pisa. Aliás, talvez muitos já, inclusive, tenham visitado-a. Trata-se de um campanário da Catedral da cidade, que fica por trás da igreja, e compõe juntamente como o batistério o Campo dei Miracoli.

O fato que a torna extraordinária, além de sua beleza magnífica – uma obra em mármore branco projetada pelo arquiteto Guglielmo e Bonanno Pisano em 1173 – é a controvérsia que há sobre o seu “defeito”. A questão é que a torre enfrentou problemas em sua fundação desde o início das obras e, por conta disso, ficou destinada a permanecer ligeiramente inclinada na vertical. Não obstante, permanece incólume na belíssima paisagem de Pisa e constitui-se, sem dúvida, num dos mais importantes pontos turísticos do mundo.

Em 1964 o governo da Itália solicitou ajuda mundial para evitar que a torre viesse abaixo, uma vez que a inclinação estava se acentuando gradativamente. Foi montada uma força-tarefa para trabalhar na estratégia de reparação e, entre 1990 e 2001, reforços ainda mais consistentes foram feitos com o objetivo de evitar a queda. Depreendi, então, destes fatos que “torre que nasce torta, morre torta”. A verdade é que, mesmo com as correções realizadas, colocar a torre em equilíbrio absoluto sempre foi algo impensável e, talvez, até impossível.

A inclinação da Torre de Pisa, com suas sucessivas tentativas de “concerto”, acabou me fazendo lembrar das “inclinações” da natureza humana. Mesmo aqueles que já tiveram suas vidas regeneradas pela “água” e pelo Espírito, intrigantemente, ainda continuam se “inclinando” para aquilo que já não lhes diz mais respeito. Paulo me ajuda a explicar isto com o texto de Romanos a seguir: “Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.” Essa famosa afirmação é uma das mais estudadas e comentadas das Escrituras. Autores notáveis da teologia já nos brindaram com exegeses extraordinárias sobre ela. Mas o que eu gostaria mesmo era sair dos aspectos teológicos, que me apaixonam, e entrar nos desdobramentos existenciais, que tratam das questões práticas e cotidianas da vida.


Você certamente já ouviu a famosa frase de Cícero: “Qualquer pessoa pode errar; mas ninguém que não seja tolo persiste no erro”. Pois bem, na minha insignificância, ouso discordar dela, ao menos de um determinado ponto de vista. E qual é ele? O fato de tratarmos a existência apenas como “coisa” lógica, matemática, científica, exata. Errar duas vezes a soma de (2 + 2) parece algo impensável e despropositado. Mas achar-se em contradições, perceber-se em ambigüidades, flagrar-se cometendo o mesmo pecado ou surpreender-se amedrontado, são eventos que não podem ser tratados desta forma, pois não fazem parte da mesma “categoria” de coisas. Nestes casos, não estamos lidando com a existência cartesiana, mais com vivências existenciais que nos projetam para o inexato, para o terreno pantanoso da alma, das idiossincrasias de cada ser, para as dimensões psicológicas, intrasubjetivas e até inconscientes dos humanos.

Digo isto porque tenho observado, nas conversas com pessoas religiosas, que elas estão se tornando “seres” neurotizados, gente apavorada, ansiosa, que está tentando “domesticar” os impulsos do corpo, as fragilidades da mente, as pulsões da alma e isto utilizando como recurso único as famosas “bulas” do jejum e da oração. Que tragédia! E vou explicar... Não estou afirmando que a santificação seja algo superado para se enfrentar os dramas do mundo contemporâneo. Sei que estas práticas são armas poderosas para destruir sofismas e fortalezas. Mas olhar para certas questões restringindo-as apenas a esfera “espiritual” é produzir um reducionismo na vida que, inexoravelmente, gerará o esvaziamento da fé, a falta de compreensão sobre a graça e a desilusão quanto à misericórdia de Deus.

Minha constatação é que essa bizarrice, filha de uma hermenêutica adoecida, pregada nos púlpitos de muitas igrejas como sã doutrina, apenas nos remete aos ditames e modelos da idade média. Olho para certos comportamentos e me surpreendo ao ver pessoas vivendo práticas monásticas – a “fé” que busca “mortificar” o ser – o que as leva a experimentar um “gnosticismo repaginado”, um “estoicismo reformado”, um sincretismo de doutrinas desviantes de um cristianismo, cada vez mais, agonizante.

Deixe-me lhe dizer algo: há problemas que são espirituais e lutas que são de dimensões metafísicas e, contra estas coisas, não digo que você se dê ao desplante de resolvê-las com “manuais de auto-ajuda evangeliquês” tipo: “10 passos para a vitória em Cristo”. Este vento de doutrina gospel produzirá apenas frustrações, pois estas “teses” não possuem qualquer eficácia contra tais situações. Considerar isto já revela uma espiritualidade infantilizada, crianças brincando de “batalha espiritual”. Em circunstâncias desta natureza, sugiro colocar seus joelhos no chão e, com coração contrito, buscar a face de Deus, conforme Vauvenargues nos ensina, pois “a fé é a consolação dos miseráveis e o terror dos felizes”.

Mas há dimensões da existência que estão no plano horizontal, na instância da normalidade, das circunstanciais triviais, ainda que alguns queiram transformar tudo em “ataques demoníacos”. Ora, existem questões que fazem parte do caminhar do caminho e se elas nos levam, por vezes, a experimentar a “queda”, é apenas para que retomemos o fôlego e voltemos à “batalha”. Há pecados que você vencerá em definitivo em sua história. Contra outros, todavia, você lutará indefinidamente sem, contudo, conseguir livrar-se totalmente deles. O pecado só será extirpado em definitivo de sua vida na Redenção do seu ser, quando não só sua consciência, mas suas próprias entranhas serão reconstruídas pelo poder da Ressurreição de Cristo. Aí, sim, você será como Ele é, com um corpo incorruptível! Até lá, é levantar, cair, e levantar de novo.

Quem assim entender a vida cristã, caminhará com o coração pacificado, pois estará sempre a ouvir “a Minha graça te basta, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Quem quiser teologizar e criar doutrinas baseadas em exegeses de homens será, na melhor das hipóteses, carregador de fardos de fariseus e escribas e, tristemente, verá sua fé minguar e suas forças se esvaírem. Quem viver verá...

Todos nós estamos sendo transformados pelo Espírito Santo – de dentro para fora. Mas Deus é inimigo da pressa! Ele não esmagará a nossa alma nem aniquilará nossos sentimentos no intuito de que possamos atingir rapidamente uma espiritualidade biônica. Não. O que nos certifica as Escrituras é que, “aquele que começou a boa obra em sua vida irá completá-la até o dia de Cristo”. Paulo nos ensina que, mesmo desejando ardentemente experimentar outras dimensões da fé, ainda continua a fazer coisas que abomina. Discerne, todavia, que aquilo já não é mais ele quem faz, e sim o pecado que nele habita. Assim, crê que, um dia, o corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e o mortal de imortalidade.

A Torre de Pisa continuará inclinada, mesmo que esforços tenham sido feitos para corrigir o problema. Alguns dizem que é por causa do turismo, do mito, do inusitado. Outros dizem que é por questões de engenharia, de estrutura, e que é impossível resolver a questão sem destruí-la. Mas que importa? Relevante é o fato que ela dignifica o espírito humano, brinda-nos com sua beleza, desafia as leis da física e, o mais importante, continua de pé!

Antônio Vieira afirma: “Todos atiram ao alvo e poucos acertam, porque o acertar é de uma só vez, e o errar é de muitas”. Você tem um alvo: Jesus. Ele é a plenitude de todas as coisas e para onde tudo converge. Ele é a estatura do homem perfeito, o “arquétipo” do humano preenchido pela excelência do Divino. Por isso saiba: aqui, ali, você errará o alvo; e não serão raras as vezes que se desviará do “caminho”, pois “o cair é do homem, e o levantar é de Deus”. Mas lembre-se: para cada erro seu, existe 70x7 perdões de Deus! E essa medida é apenas para um único dia. No outro, o saldo zera, e a misericórdia renova-se como a aurora. Para os que não sabem o nome disso é Graça.

Carlos Moreira é culpado pelo que escreve. Já está julgado e é réu confesso do Genizah. Outos textos seus podem ser lidos em A Nova Cristandade.



Mais Lidos

Músicas

O Que Estamos Cantando

Liberdade de Expressão

Este Site Opera Desde Junho de 2010

É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

Visualizações de Páginas

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More