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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

19 novembro 2010

Uma Mulher de 40 é igual a Soma de duas de 20


Como pastor tenho aconselhado muitos casais em crises conjugais e, não raro, em processos de separação, alguns dos quais litigiosos, outros, mais raramente, amigáveis.

É triste ver uma família se desfazer, implodir, ruir perante os olhos perplexos, sobretudo, dos filhos, que quanto mais novos mais sofrerão as conseqüências do litígio. Como bem disse o Caio Fábio – e ele têm autoridade no tema, não só pelo que viu, mas também pelo que sofreu – separação é uma amputação, algo que se faz quando a conjugalidade atingiu um grau onde a convivência se tornou insalubre, ou seja, viver junto produz morte e não vida. Aí, ou corta a parte “gangrenada”, ou o corpo todo morrerá por septicemia.    

Existem muitas relações que já estão em estado de putrefação. Elas “fedem” em meio a mentiras, disfarces, subterfúgios, e toda sorte de arranjo existencial quando se tenta, sabe-se lá porque, salvar o que é irremediavelmente irrecuperável. Às vezes é por causa do patrimônio, outras por conta dos filhos, outras por que ambos já possuem vidas duplas, há também os casos em que a coisa é pura safadeza mesmo. E por aí vai... Como disse um colega, “desgraça pouca é bobagem”.  

Não sou fundamentalista. Aprendi que a misericórdia de Deus vai além de meus juízos humanos e minhas exegeses de 3ª categoria de textos bíblicos complexos. Já deixei a muito tempo de “esfregar” na cara das pessoas coisas do tipo “o que Deus uniu não o separe o homem”. Minha hipocrisia já não dá para tanto... E isto por um motivo muito simples: tem coisas que, simplesmente, Deus não uniu. E mais... Creio firmemente que alguém que vem a Cristo tem a chance de reescrever a própria história. Se for um escravo, poderá ser liberto; se sua liberdade representa dessignificação existencial, poderá tornar-se escravo da lei do amor e da graça. Em síntese, quem conhece a “Verdade” é liberto de todas as suas mazelas e inquietudes. O mais, é doutrina barata de “igreja”...

Mas, voltando ao gabinete pastoral, tenho observado um fenômeno social curioso, e isto não apenas no meio “evangélico”. Homens de meia idade separando-se de suas esposas, quase sempre de idade próxima, e assumindo relações com mulheres bem mais novas. Alguém recentemente me disse: “pastor, troquei minha mulher de 40 por uma de 20. Aí eu perguntei: “e como está agora? ”. Ele me respondeu com uma melodia conhecida dos Beatles: “Love, Love, Love... All you need is Love”.   

Nas minhas pesquisas mais aprofundadas, quando converso com a “macharada” mais a sério, o que ouço é que mulheres de 20 anos são extraordinárias. Em primeiro lugar elas são facilmente manipuladas por homens mais maduros, sobretudo se houver um cartão de crédito e um carro bacana. Em segundo lugar porque fazem sexo como ninguém, estão ávidas por noites ardentes, e são capazes até de “ressuscitar mortos”, segundo um me comentou. Além do mais, elas não exigem grandes demandas relacionais, não querem fazer “DR” todo dia, e não tem muito assunto para conversar, quando muito papo de faculdade. Assim, o tempo é gasto mesmo com festa, sexo, sexo, festa, festa, sexo e, para variar um pouco, sexo e festa.

Como todos sabem, sou avesso a generalizações. O que trago aqui é apenas a observação de conversas pastorais e a percepção sobre o que vem acontecendo na sociedade como um todo. Nem estou dizendo que todo homem de meia idade quer ninfetas para se relacionar, nem tão pouco que mulheres de 20 ou 25 anos são fúteis, frívolas, ou esvaziados de conteúdos. Sei que existe gente boa por aí, gente que gostaria muito de encontrar o seu “sapato velho”, que aquece o frio e, para tal, basta você o calçar...

Mas o fato é que a banalização das relações afetivas chegou ao seu limite. Homens e mulheres relacionam-se hoje sem que haja, por vezes, qualquer tipo de sentimento envolvido. É apenas sexo pelo sexo. Como diria o poetinha, numa das poucas frases dele que não concordo: “é melhor está mal acompanhado do que só”. É o que eu chamo de “tirania do está a dois”, ou seja, tantos são os preconceitos e as questões que envolvem estar sozinha(o) que a “moçada” acaba “pegando” qualquer coisa apenas para não aparecer só num barzinho, num casamento, num clube, num aniversário de criança, e por aí vai. É o típico caso de dois que jamais fazem-se um...

Garotas de 20, 25 anos são fantásticas para viver com homens da mesma idade, envoltos nos mesmos dilemas, partícipes dos mesmos dramas, contradições e desafios. Eles possuem linguagem comum, sabem o que é Blog, Twitter, Facebook, Orkut, coisas que muitos quarentões não sabem, pois não raro não tem “saco” de ver ou usar. Não estou afirmando que não existam mulheres novas com cabeças mais maduras, mas essa exceção, estatisticamente, é muito baixa.

Por outro lado, mulheres de 40 anos ou mais são fascinantes! Eu tiro pela minha, que quanto mais velha, vai ficando melhor. Acho que ela aos 80 estará no auge da forma, e eu serei um velho cheio de rabugices... Mulheres na faixa dos 40 ou mais são mais sofridas, são mais vividas, são mais “espertas”. Elas já andaram bastante e sabem o que querem. Dificilmente você as verá colocando “remendo novo em vestido velho”, ou seja, estou cansado de ouvir: “pastor, o “mercado” está muito ruim, prefiro ficar só”. E eu retruco: “melhor só que pessimamente acompanhada”.

Mulheres de 40 são fascinantes porque tem conteúdo, porque dá para tomar um vinho e conversar sobre dimensões da vida que as de 20 ainda não viveram. Elas transitam bem em todos os temas, desde política, passando por cultura geral, religião, filosofia, cinema, etc. Já notei que mulheres de 40 gostam muito de ler, gostam de ver filmes, gostam de teatro, gostam de museus. Elas já estão em outra fase da vida, onde a plasticidade neurótica das academias de ginástica foi substituída por um bom programa com uma pessoa que valha a pena sentar na mesa e conversar, ou por uma tarde no parque, ou por um cineminha básico.

O sábio do Eclesiastes me ensinou que tudo na vida tem o seu tempo. Acho o texto perfeito. Se pudesse fazer um pequeno retoque, incluiria apenas: “tempo de namorar mulheres de 20 e tempo de namorar mulheres de 40. É que tudo na vida tem um tempo determinado, até o amor precisa ter suas estações próprias...

Eu não gostaria que as mulheres de 20 ficassem com raiva de mim pelos comentários deste texto. Vocês são maravilhosas, fantásticas, mas para uma “outra turma”. Para nós, quarentões vivendo crise de meia idade, é necessário mulheres que entendam a vida do ponto de vista de nossas inconcretudes, inseguranças, de nossos medos bobos, de nossas contradições, máscaras, vivências existenciais que não se aprendem vendo filmes, mas apenas experimentando e degustando os sabores e aromas da vida, as sombras e silêncios, as cinzas e o pó do caminhar pela terra.

Sei que na sociedade da imagem, onde parecer é melhor do que ser, na sociedade das aparências, onde o botox, a lipoaspiração, as plásticas corretivas para tirar, aumentar, modelar, os cosméticos, e todo este exército que aguça sentidos está à disposição das mulheres, para enfeitiçar os homens que ficam, diante de tanto esplendor, totalmente “vendidos”. Deixo-lhes, contudo, dois conselhos: o primeiro é que o invólucro nunca é mais importante que o conteúdo. Mas isto, por vezes, só se descobre com muito sofrimento. E o segundo, citando Stendhal é que “as mulheres muitíssimo belas surpreendem menos no dia seguinte. E eu ainda vou mais além: esta surpresa, via de regra, é proporcional ao teor alcoólico ingerido na noite anterior. Agora é com você...

Carlos Moreira

18 novembro 2010

Evangelho Anticorpos


Uma série de doenças contagiosas sempre assolou a humanidade desde os seus primórdios. Surtos de Peste Negra como o de 1347 a 1350 que dizimou boa parte da população européia do mundo medieval deixam em pânico a sociedade e até bem pouco tempo atrás causaram bastante estrago pelo mundo a fora.

Algumas dessas doenças podem ser causadas por bactérias, fungos, protozoários e outras ainda pela ação nociva dos vírus. Graças a Deus e a sua sublime inteligência manifesta na natureza o corpo humano é capaz de desenvolver mecanismos de defesa contra os agentes etiológicos (organismos causadores de doenças) através dos anticorpos.

As células do sistema imunológico produzem os anticorpos responsáveis por combater as patologias e impedir a morte do indivíduo infectado. A produção de anticorpos também pode ser colocada em marcha pela administração de vacinas que estimulam o sistema imunológico no cumprimento de sua função.

E o que tem o evangelho a ver com essa pequena aula de biologia? Percebi que aquilo que é bom para o corpo em se tratando de doenças endêmicas e epidêmicas é ruim para a religião quando se trata de “pregação do evangelho”.  Talvez você continue perguntando que relação existe entre estas duas coisas.

Eu explico. Enquanto no ser humano a própria exposição ao agente etiológico é benéfica porque estimula a produção de anticorpos impedindo a grande mortandade de pessoas afetadas  por um vírus ou uma bactéria, no evangelismo é exatamente o contrário que acontece.

Quanto mais as pessoas forem submetidas a uma pregação vazia, monótona e sem verdadeiro e profundo significado espiritual, mais resistente a ela se tornará. Aquilo que estamos fazendo e intitulando de pregação do evangelho não passa da estimulação do ateísmo e da proliferação de “anticorpos” contra a própria igreja.

Encontro diariamente com dezenas de pessoas em todos os lugares que embora mantenham um respeito solene e nostálgico quanto à pregação evangélica não querem em hipótese alguma freqüentar uma igreja por que já desenvolveram “anticorpos”, defesas contra a mensagem pregada por evangelistas entusiasmados que se aventuram debaixo do sol escaldante do domingo.

Nenhum ser humano sensato e medianamente instruído tolera uma mensagem tão banal como a pregada normalmente pela igreja. Jargões amplamente disseminados por igrejas neopentecostais e tradicionais como “Deus é bom e Jesus é fiel”, “aceite Jesus pra ir morar no céu”, “Deus sabe todas as coisas”, “Jesus tem um plano para a sua vida”, “conta o teu problema a ele”, tudo isso já não surte mais efeito nas pessoas.

Estas frases feitas que deveriam servir para evangelizar prestam na verdade um desserviço à igreja evangélica brasileira. O problema é que o homem contemporâneo,  acossado pela quebra de paradigmas e pela confusão pós-moderna, não é atingido por essa mensagem superficial cujos jargões são repetidos em cultos de oração sem sentido e em treinamento de evangelistas pouco eficientes.

A igreja está clamando no deserto, jogando palavras ao vento, atirando em um alvo que não existe, lutando contra moinhos de vento pensando que são dragões. As pessoas estão dia após dia se tornando mais invulneráveis a este tipo de mensagem estereotipada e vazia que comunica apenas tradições eclesiásticas e não o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo.

Certos evangelistas não passam de caricaturas bizarras de leviatãs eclesiásticos que mesmo pensando que estão colocando ordem no caos estão apenas destruindo o restinho do que sobrou da igreja brasileira. Se ainda restava alguma possibilidade de fé no coração das pessoas estes arautos das frases feitas estão dizimando-a.

Como resolver este problema? Renovando aquilo que nós chamamos erradamente de igreja, repensando o evangelho, buscando o seu sentido mais profundo e se arrependendo de ter feito da estrutura eclesiástica um palco de lutas políticas e currais eleitorais, derrubando pastores profissionais que destroem o rebanho com as suas mentiras e voltando ao primeiro amor!

André Pessoa via Século XXI

17 novembro 2010

Errar é Humano. Permanecer no Erro Também é.

Carlos Moreira



É bem provável que você já tenha ouvido falar da Torre de Pisa. Aliás, talvez muitos já, inclusive, tenham visitado-a. Trata-se de um campanário da Catedral da cidade, que fica por trás da igreja, e compõe juntamente como o batistério o Campo dei Miracoli.

O fato que a torna extraordinária, além de sua beleza magnífica – uma obra em mármore branco projetada pelo arquiteto Guglielmo e Bonanno Pisano em 1173 – é a controvérsia que há sobre o seu “defeito”. A questão é que a torre enfrentou problemas em sua fundação desde o início das obras e, por conta disso, ficou destinada a permanecer ligeiramente inclinada na vertical. Não obstante, permanece incólume na belíssima paisagem de Pisa e constitui-se, sem dúvida, num dos mais importantes pontos turísticos do mundo.

Em 1964 o governo da Itália solicitou ajuda mundial para evitar que a torre viesse abaixo, uma vez que a inclinação estava se acentuando gradativamente. Foi montada uma força-tarefa para trabalhar na estratégia de reparação e, entre 1990 e 2001, reforços ainda mais consistentes foram feitos com o objetivo de evitar a queda. Depreendi, então, destes fatos que “torre que nasce torta, morre torta”. A verdade é que, mesmo com as correções realizadas, colocar a torre em equilíbrio absoluto sempre foi algo impensável e, talvez, até impossível.

A inclinação da Torre de Pisa, com suas sucessivas tentativas de “concerto”, acabou me fazendo lembrar das “inclinações” da natureza humana. Mesmo aqueles que já tiveram suas vidas regeneradas pela “água” e pelo Espírito, intrigantemente, ainda continuam se “inclinando” para aquilo que já não lhes diz mais respeito. Paulo me ajuda a explicar isto com o texto de Romanos a seguir: “Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.” Essa famosa afirmação é uma das mais estudadas e comentadas das Escrituras. Autores notáveis da teologia já nos brindaram com exegeses extraordinárias sobre ela. Mas o que eu gostaria mesmo era sair dos aspectos teológicos, que me apaixonam, e entrar nos desdobramentos existenciais, que tratam das questões práticas e cotidianas da vida.


Você certamente já ouviu a famosa frase de Cícero: “Qualquer pessoa pode errar; mas ninguém que não seja tolo persiste no erro”. Pois bem, na minha insignificância, ouso discordar dela, ao menos de um determinado ponto de vista. E qual é ele? O fato de tratarmos a existência apenas como “coisa” lógica, matemática, científica, exata. Errar duas vezes a soma de (2 + 2) parece algo impensável e despropositado. Mas achar-se em contradições, perceber-se em ambigüidades, flagrar-se cometendo o mesmo pecado ou surpreender-se amedrontado, são eventos que não podem ser tratados desta forma, pois não fazem parte da mesma “categoria” de coisas. Nestes casos, não estamos lidando com a existência cartesiana, mais com vivências existenciais que nos projetam para o inexato, para o terreno pantanoso da alma, das idiossincrasias de cada ser, para as dimensões psicológicas, intrasubjetivas e até inconscientes dos humanos.

Digo isto porque tenho observado, nas conversas com pessoas religiosas, que elas estão se tornando “seres” neurotizados, gente apavorada, ansiosa, que está tentando “domesticar” os impulsos do corpo, as fragilidades da mente, as pulsões da alma e isto utilizando como recurso único as famosas “bulas” do jejum e da oração. Que tragédia! E vou explicar... Não estou afirmando que a santificação seja algo superado para se enfrentar os dramas do mundo contemporâneo. Sei que estas práticas são armas poderosas para destruir sofismas e fortalezas. Mas olhar para certas questões restringindo-as apenas a esfera “espiritual” é produzir um reducionismo na vida que, inexoravelmente, gerará o esvaziamento da fé, a falta de compreensão sobre a graça e a desilusão quanto à misericórdia de Deus.

Minha constatação é que essa bizarrice, filha de uma hermenêutica adoecida, pregada nos púlpitos de muitas igrejas como sã doutrina, apenas nos remete aos ditames e modelos da idade média. Olho para certos comportamentos e me surpreendo ao ver pessoas vivendo práticas monásticas – a “fé” que busca “mortificar” o ser – o que as leva a experimentar um “gnosticismo repaginado”, um “estoicismo reformado”, um sincretismo de doutrinas desviantes de um cristianismo, cada vez mais, agonizante.

Deixe-me lhe dizer algo: há problemas que são espirituais e lutas que são de dimensões metafísicas e, contra estas coisas, não digo que você se dê ao desplante de resolvê-las com “manuais de auto-ajuda evangeliquês” tipo: “10 passos para a vitória em Cristo”. Este vento de doutrina gospel produzirá apenas frustrações, pois estas “teses” não possuem qualquer eficácia contra tais situações. Considerar isto já revela uma espiritualidade infantilizada, crianças brincando de “batalha espiritual”. Em circunstâncias desta natureza, sugiro colocar seus joelhos no chão e, com coração contrito, buscar a face de Deus, conforme Vauvenargues nos ensina, pois “a fé é a consolação dos miseráveis e o terror dos felizes”.

Mas há dimensões da existência que estão no plano horizontal, na instância da normalidade, das circunstanciais triviais, ainda que alguns queiram transformar tudo em “ataques demoníacos”. Ora, existem questões que fazem parte do caminhar do caminho e se elas nos levam, por vezes, a experimentar a “queda”, é apenas para que retomemos o fôlego e voltemos à “batalha”. Há pecados que você vencerá em definitivo em sua história. Contra outros, todavia, você lutará indefinidamente sem, contudo, conseguir livrar-se totalmente deles. O pecado só será extirpado em definitivo de sua vida na Redenção do seu ser, quando não só sua consciência, mas suas próprias entranhas serão reconstruídas pelo poder da Ressurreição de Cristo. Aí, sim, você será como Ele é, com um corpo incorruptível! Até lá, é levantar, cair, e levantar de novo.

Quem assim entender a vida cristã, caminhará com o coração pacificado, pois estará sempre a ouvir “a Minha graça te basta, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Quem quiser teologizar e criar doutrinas baseadas em exegeses de homens será, na melhor das hipóteses, carregador de fardos de fariseus e escribas e, tristemente, verá sua fé minguar e suas forças se esvaírem. Quem viver verá...

Todos nós estamos sendo transformados pelo Espírito Santo – de dentro para fora. Mas Deus é inimigo da pressa! Ele não esmagará a nossa alma nem aniquilará nossos sentimentos no intuito de que possamos atingir rapidamente uma espiritualidade biônica. Não. O que nos certifica as Escrituras é que, “aquele que começou a boa obra em sua vida irá completá-la até o dia de Cristo”. Paulo nos ensina que, mesmo desejando ardentemente experimentar outras dimensões da fé, ainda continua a fazer coisas que abomina. Discerne, todavia, que aquilo já não é mais ele quem faz, e sim o pecado que nele habita. Assim, crê que, um dia, o corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e o mortal de imortalidade.

A Torre de Pisa continuará inclinada, mesmo que esforços tenham sido feitos para corrigir o problema. Alguns dizem que é por causa do turismo, do mito, do inusitado. Outros dizem que é por questões de engenharia, de estrutura, e que é impossível resolver a questão sem destruí-la. Mas que importa? Relevante é o fato que ela dignifica o espírito humano, brinda-nos com sua beleza, desafia as leis da física e, o mais importante, continua de pé!

Antônio Vieira afirma: “Todos atiram ao alvo e poucos acertam, porque o acertar é de uma só vez, e o errar é de muitas”. Você tem um alvo: Jesus. Ele é a plenitude de todas as coisas e para onde tudo converge. Ele é a estatura do homem perfeito, o “arquétipo” do humano preenchido pela excelência do Divino. Por isso saiba: aqui, ali, você errará o alvo; e não serão raras as vezes que se desviará do “caminho”, pois “o cair é do homem, e o levantar é de Deus”. Mas lembre-se: para cada erro seu, existe 70x7 perdões de Deus! E essa medida é apenas para um único dia. No outro, o saldo zera, e a misericórdia renova-se como a aurora. Para os que não sabem o nome disso é Graça.

Carlos Moreira é culpado pelo que escreve. Já está julgado e é réu confesso do Genizah. Outos textos seus podem ser lidos em A Nova Cristandade.



16 novembro 2010

O Crente que Virou Suco

“O Homem que Virou Suco” é um dos melhores filmes brasileiros que eu já assisti. Lançado em 1981 e dirigido por João Batista de Andrade, traz em seu elenco atores fabulosos, destacando-se o extraordinário desempenho do ator José Dumont.


O roteiro da película, que ganhou vários prêmios, tem como pano de fundo a migração de nordestinos na direção da grande explosão industrial da região sudeste. No filme, Deraldo, um poeta popular recém-chegado do Nordeste a São Paulo, tenta a sobrevivência através da venda de suas poesias e folhetos. Confundido com um operário de uma multinacional que mata o patrão, passa a fugir da polícia e a envolver-se numa infinidade de acontecimentos que vão desnudando os dramas dos imigrantes que vivem numa metrópole. Ao final, Deraldo acaba lançando uma espécie de autobiografia – “O Homem que Virou Suco” – que trata da grande lição que ele aprendeu em sua resistência a sociedade opressora, que tenta esmagar o homem e eliminar suas raízes e convicções.

Pois bem, a ligação do filme com este texto tem a ver com um telefonema que recebi esta semana de um amigo que estudou comigo na Faculdade de Administração. Ele estava entusiasmado por ter, finalmente, se “convertido” a uma determinada “igreja”, mas sua fala era desconexa e bastante confusa, uma narrativa entrecortada o tempo todo por chavões religiosos. Lembro bem que, ao final de cada frase, repetia como um mantra as expressões: “Glória a Deus”, “Santo, Santo”, ou “Aleluia”.

A conversa durou cerca de 20 minutos. Nela ele me relatou a forma bizarra – maravilhosa para ele – como vinha vivendo os últimos 2 anos. A narrativa começou com a seguinte frase: “entrei para a lei de crente!”. Assustei-me profundamente! Eu lembrava bem do Flávio – vou usar este nome fictício para resguardá-lo. Era um cara bonachão, gozador, contador de piadas e tomador de cachaça, paquerador inveterado de mulheres. Como trabalhava numa grande multinacional e ganhava bem, era capaz de promover a qualquer um(a) que com ele saísse uma noitada de dar inveja a Giacomo Casanova, o grande sedutor Italiano.

Agora, entretanto, estava eu a falar com um sujeito que me parecia mais santo do que Jesus Cristo. Sua história, todavia, não é muito diferente da de outros tantos que tenho encontrado por aí: uns em gabinetes pastorais, alguns em consultórios psiquiátricos, e a grande maioria de volta a velha existência de onde um dia havia saído. Naqueles vinte minutos sufocantes, Flávio me contou um pouco de sua vida. Disse-me como havia passado em tão curto tempo por 9 denominações diferentes, indo da igreja histórica reformada ao neopentecostalismo. Mudou de ideologia religiosa como quem muda de bar. Em cada uma que ia, encontrava “problemas” que o levavam a ter de buscar uma outra.

E foi assim que começou a descrever sua triste peregrinação. “Mudei de uma “igreja” porque o louvor era fraco. Numa outra o problema era o pregador. Em uma, havia silêncio demais; já em outra, a gritaria era ensurdecedora. Numa falava-se língua estranha; na outra língua esquisita, pois eu não entendia nada sobre os conteúdos do sermão”. E assim, de “igreja” em “igreja” – ou de suplício em suplício – chegou, então, ao “paraíso”. Agora sim, um lugar perfeito. Nesta “igreja” a qual ele se “converteu”, uma vez que lhe ensinaram que até então ainda não havia se “convertido”, ele enfim encontrou-se. Mesmo achando curioso o fato de ter se convertido a “igreja” e não a Jesus, não quis interromper sua narrativa...

Pois bem, neste “santo lugar”, ou seria melhor dizer “santo dos santos”, havia de tudo o que ele sempre sonhara. “Seções de exorcismo”, “correntes de promessas”, “campanhas e batalhas”, “louvor gospel”, “profecias”, “revelações”, “visões”, um pacote completo do “sobrenatural” a serviço da comunidade. Agora sim, o “culto” dava-lhe plena satisfação. O “deus” que ali se “apresentava” era mais performático que Britney Spears. Por fim, disse-me algo estarrecedor: “amigo, tenho dado 35% de dízimo ao “pastor” e, na semana passada, para “glória de Deus”, doei o meu carro para uma grande campanha que estamos empreendendo”. Aí, para mim, foi o fim...

Fiz menção de que tinha de desligar, pois sabia que não havia qualquer condição de argumentar com ele absolutamente nada. Foi então que Flávio me disse: “irmão, estou passando por grande luta. Minha mulher acaba de me deixar, pois disse que eu fiquei maluco. Minha empresa me demitiu, porque eu andei faltando a umas visitas para ir fazer a “obra de Deus”, buscando assim o “reino” em primeiro lugar. Sei que tudo isto é obra de satanás – imagina?! – e quero que o irmão entre em batalha comigo”. Aí, então, eu disse a ele que seria bom nós conversarmos pessoalmente. É que a grande batalha que eu enfrento todos os dias é contra o trânsito da minha cidade.

Desliguei o telefone e pensei comigo: “eis aí mais um crente que virou suco”. Ele é o retrato de uma geração que está se desmaterializando psíquica, emocional e espiritualmente. Do desmantelo deste trinômio, outras desgraças acabam surgindo em seqüência. Para mim ficou claro que sua mente está totalmente cauterizada, pois ele parecia ter sofrido uma lavagem cerebral. O sincretismo de tantas “doutrinas” diferentes, criado a partir das várias denominações que freqüentou, construiu em sua consciência a configuração de um tipo de “evangelho” que nada tem a ver com Jesus Cristo. Sua matriz de valores é um aglomerado de conceitos tortuosos que mistura crendices, misticismo e “profetadas”.

Não tenho a intenção de ofender ninguém neste artigo. Se você pertence a uma “igreja” que tem essas características, caia fora de lá hoje, agora! E mais... Se alguém achar ruim, principalmente seu pastor, peça a ele para entrar em contato comigo! Terei prazer em conversar com ele... Meu querido(a), isso não é igreja, isso é macumba! É ambiente de mistura religiosa que sincretiza práticas medievais, doutrinas judaizantes, feitiçaria, religiões de mistérios e outras maluquices para espoliar gente inocente ou desesperada. Você não está lidando com profetas, mas com patifes! Não está tratando com homens do sagrado, mas com traficantes de ilusões, vendedores de barganhas com a “divindade”, intermediários de promessas ilusórias, feiticeiros da religião institucionalizada, gente perversa que age de forma pervertida.

Não acredite em nada do que estou falando. Eu posso ser um “agente de satanás” para afastá-lo do “verdadeiro caminho”. Contudo, eu lhe suplico: abra as Escrituras, releia os Evangelhos e as Epístolas, ore ao Espírito Santo para lhe esclarecer as verdades da fé e lhe dar discernimento espiritual e, em seguida, compare suas conclusões com as práticas que estão sendo executadas nestes terreiros religiosos. Tenho a certeza de que isso será suficiente para lhe revelar os contornos de quem serve a Deus, de quem serve a si mesmo e, não raro, de quem serve a satanás!

Flávio, meu amigo, ficou de encontrar-se comigo esta semana. Não sei se será possível fazer algo por ele. É que sua alma virou pasta e sua consciência suco. Ele perdeu as referências mais básicas da vida, o senso crítico e o poder de avaliar as coisas com isenção. Foi engolido pelo “sistema”. Talvez já tenha ido tão longe que terá por destino fazer parte das estatísticas. Irá, mais cedo ou mais tarde, parar num consultório psicanalítico, com vistas a tratar as profundas distorções geradas em sua psique, ou voltará ao tremedal de lama de onde um dia imaginou ter saído, tornando-se exposto, aí sim, a ser possuído por espíritos sete vezes piores que os que, eventualmente, o atormentavam.

A construção de uma espiritualidade sadia e sustentável não passa por mudanças exteriores, as quais são apenas capazes de criar uma “caricatura espiritual”, um “boneco da religião”, um ser com linguagem de gueto, crenças distorcidas e comportamentos bizarros. Ela também não está associada a sucessivas mudanças de igrejas, seja por que questão for. Ouça meu conselho: ache uma séria, e fique nela. Viva a fé com simplicidade, relacione-se com um pequeno grupo de discípulos, leia com regularidade as Escrituras, ore com freqüência, e você verá que estes “fantasmas” que, eventualmente lhe assombraram, desaparecerão.

Por fim, deixe que Deus opere em você as mudanças que se fazem necessárias. E lembre-se: Ele não descaracteriza ninguém, não muda sua beleza e singularidade, não avilta suas características básicas, não desconstrói sua alma, mas, em amor, pacientemente, ressignificará sua consciência para que você possa materializar uma espiritualidade conseqüente. Como bem disse Dom Helder Câmara “é preciso mudar mundo para ser sempre o mesmo”. Creia-me: as mudanças virão, mas não lhe tornarão alguém que você, de fato, não é.


Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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