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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

13 maio 2013

Eu Porém vos Digo...



Quando Jesus começou a anunciar o Reino de Deus, sua proposta não se referia a mudanças na religião de Israel, mas tratava da transformação da consciência dos indivíduos. Estava claro que seu objetivo não era fazer remendos na debilitada lei judaica, mas instaurar um novo proceder que fosse para além das questões relativas à norma.

“Ouvistes o que foi dito...”, afirmava o Galileu. Sua fala referia-se aos velhos ditames da Torá. Ele estava confrontando àquilo que era discernido como espiritualidade, mas que, na verdade, envenenava a alma. Aquela geração vivia calcada em regras estéreis, baseadas na estética comportamental, que valorizavam a performance. Jesus, todavia, oferecia conteúdos éticos, que transformavam interiores e regeneravam o ser.

“Eu porém vos digo...”, insistia Ele. Era uma proposição que visava ressignificar práticas existenciais. A lei havia caducado, transformara-se num conjunto de doutrinas perversas e tradições histórico-culturais. Chegara a um ponto em que era melhor deixar alguém sofrendo com um aleijão do que curá-lo em dia de sábado. Instaurara-se no coração dos homens a condescendência com a hipocrisia.

Estou certo de que um dos maiores perigos da religião é quando ela vira ideologia. Se perguntarmos a alguém em uma comunidade se ele já aceitou a Cristo, ouviremos: “sim, eu tomei essa decisão. Certo dia levantei minha mão e dei um passo à frente”. Esse ato, todavia, raramente é seguido de qualquer mudança interior, pois o que o sujeito fez foi dizer que concorda com as regras seguidas pela coletividade.

É um tipo de “decisão” que não possuiu qualquer desdobramento para dentro, restringiu-se ao que se pode perceber do lado de fora. Ela fez com que o sujeito incorporasse trejeitos, mudasse o tom da fala, alterasse a agenda. Tudo isso, contudo, jamais se projetou para o ser. Conversão, de fato, diz respeito a mudar a consciência, com vistas a que se possa materializar no caminho “frutos dignos do arrependimento”.

Quando isso acontece, a pessoa é capaz de perceber o outro, solidarizar-se com os caídos, tornar-se reverente com a dor do que sofre, aceitar o diferente, buscar a justiça, falar a verdade, amar sem ser amado. Não existe fé que não se desdobre! Uma espiritualidade voltada para si mesmo adoece todo aquele que dela se torne refém.

“Se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”. Essa é a difícil constatação de Jesus. Tenho percebido que há mais gente de bem fora das igrejas do que dentro delas. Vejo cristãos se esforçando para tentar chegar à média comportamental da sociedade. Triste ver que somos um povo cheio de carismas, mas totalmente esvaziados de caráter.      

Em tempos de prosperidade, falsificação doutrinária, barganhas com o sagrado, querer viver o bom e simples Evangelho coloca a pessoa na contra-mão do fluxo. Fazer o quê? Talvez, lembrar de Isaías: “Senhor, quem deu ouvidos a nossa pregação?”.

Carlos Moreira

11 fevereiro 2013

Tem Gente que Vem, Tem Gente que Vai



Todos os dias é um vai-e-vem , a vida se repete na estação. Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar. E assim, chegar e partir”  
Milton Nascimento e Fernando Brant 

O trecho acima é parte da canção Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Confesso que, para mim, já se tornou hábito analisar a vida através das lentes dos poetas, pois eles, não raro, revelam-nos a realidade através do que, a princípio, parecia só abstração

Eis, então, algo que vi na vida: nada é capaz de marcar tão profundamente a alma humana quanto a passagem de uma pessoa. Sim, seres humanos deixam rastros por onde pisam, sobretudo se o terreno é o ser da gente. Há pegadas que se projetam do chão da existência para o sagrado do coração, deixam tatuadas impressões, sentidos e sentimentos.  

Por isso, tenha muito cuidado com quem entra e sai de sua vida, pois você pode acabar acolhendo quem só lhe fará mal ou despedir quem só lhe fez bem.

Tem gente que chega pra ficar...”. Estes, de preferência, devem ser os que nos trazem paz e alegria. Semeá-los em nós revelará sábia decisão, pois, quem acha um amigo, encontrou na lida da vida um abrigo. Deixe que entrem, que sentem, que façam morada duradoura, que nos dias difíceis nos sejam alívio e nas noites sombrias, alento.

“Tem gente que vai pra nunca mais...”. Em alguns casos, inclusive, já foi tarde! É sinal de maturidade acatar a voz da consciência e abandonar os sussurros do coração. Há certo tipo de gente que precisa ser arrancada de dentro de nós, pela raiz, de tal forma que jamais brote novamente. Dessas, as piores são aquelas que nos fazem bem nos fazendo mal. Esse vício vicia! Trate-as como erva daninha, deixe a piedade para outra ocasião, corte a própria carne, se preciso for, mas ampute esse mal antes que ele lhe faça “bem”.

“Tem gente que vem e quer voltar...”. Mas seja cauteloso, veja se vale a pena. Alguns relacionamentos têm prazo de validade, não devem ser consumidos após o tempo determinado. Partidas saudosas marcam mais do que chegadas indesejáveis. É melhor a lembrança boa do que o convívio entediante. Há certos encontros humanos que nos trazem coisas boas por um determinado tempo, passado o qual, tendem a afetar o sono e o apetite.

“Tem gente que vai e quer ficar...”. Aprendi que sonhos não devem ser construídos sobre nuvens, mas sobre pedras! Não há coisa mais danosa ao ser do que a convivência passiva com a indecisão, pessoas que estão sempre entre o agora e o ainda-não. Na vida, há mais proveito no fim precoce do que na longevidade tardia. Portanto, ou fica, ou sai, ou entra, ou vai, pois o tempo urge, devora o sentir e o ser.

“Tem gente que veio só olhar...”. Pois é melhor assistir ao circo pegar fogo do que meter a mão no lamaçal para levantar paredes. De que lhe servem milhares de amigos nas redes sociais que assistem, placidamente, a tua dor, num torpor calcificante, de dar nó e dó, de dá medo? A vida não é palco do imaginário, mas crueza do real, não demanda plateia, mas atores que se envolvam na trama do drama, façam parte do enredo, seja ele qual for, co-média ou tragédia.

“Tem gente a sorrir e a chorar...”. Elas vão e vêm, daqui para ali, e você precisará escolher com quem vai sorrir, após ter chorado, e com quem vai chorar, depois de ter sorrido. Lembre-se, todavia: a vida é feita de nuances e contradições, tempos bons e maus, dias pálidos e noites ardentes. Por isso, se possível, nunca deixe a mesa ficar vazia, mas acolha sempre a solidão com reverência, se preciso for.

No mais, “é melhor serem dois do que um”, e melhor ainda quando, de dois, se faz um, pois, lembrando Nietzsche: “Na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão, devoram-no muitos”. Contudo, é mister aprender, tem gente que vem e gente que vai, é preciso acolher quem chega, com ares de primavera, e despedir agradecido quem parte, no ocaso da estação outonal.

Carlos Moreira

18 janeiro 2013

Eu, Dublê de Deus?



“Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?”. MT. 16:13


Curioso Jesus fazer esta pergunta? Não parece coisa de gente insegura, que está preocupada com a opinião pública? Para mim, todavia, Jesus estava interessado em saber o que os discípulos pensavam, e não a multidão, pois, logo em seguida, questionou: “e vocês? Quem vocês dizem que Eu sou?”. Pedro, impetuoso como sempre, foi quem declarou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”. 

Entretanto, o mesmo Pedro, que fez a “confissão bombástica”, não muito depois, foi duramente repreendido pelo Senhor: “arreda daqui satanás, pois és para mim uma pedra de tropeço”. Como pode, num momento alguém ser usado por Deus e, no outro, pelo diabo? Por que isto acontece? 

A questão gira em torno de dois eixos importantes para a nossa espiritualidade: a confissão e o testemunho. Confessar é algo fundamental, pois, conforme as Escrituras, se cremos com o coração precisamos declarar com a boca aquilo que foi introjetado na consciência por meio da fé. Mas o processo não para por aí... Quem confessa algo, deve materializar na prática aquilo que exprime crer como reflexo do ser. A confissão em si mesma é como uma lata vazia, que apenas ressoa os sons que dentro dela são produzidos. 

Para nossa tristeza, assim tem sido o cristianismo, muito parecido com a confissão de Pedro, retórica pura. Muita falação, mas pouco testemunho. É uma religião de garganta, verborrágica, contudo sem respaldo da vida, sem ações e desdobramentos que transformem os conteúdos em prática existencial. A pergunta de Jesus, todavia, não vai calar: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. Quem é Jesus para você? Melhor ainda: como você transmite isto às pessoas?

Perceba, se sua resposta é apenas um discurso teológico, sem respaldo das ações práticas, você pode ter se tornado um teórico da religião, que confessa algo com a boca, mas que não materializa com a vida. A melhor forma que há para se dizer as pessoas quem é Jesus é a partir de sua própria encarnação dEle – “já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” – como se você fosse um dublê, alguém que assumiu o papel do outro. Isso, de forma alguma lhe descaracterizará, pelo contrário, você será mais você tanto mais a vida dEle esteja simbiotizada com a sua, pois o propósito eterno de Deus é ser o Pai de uma grande família de muitos filhos semelhantes a Jesus! 

Finalizo com as palavras sábias de São Francisco de Assis: “viva o Evangelho. Se necessário, fale sobre ele”. 

18 outubro 2012

Casamento “Amarrotado”, mas de “Papel Passado”


O personagem de Alexandre Borges na novela “Avenida Brasil”, da Rede Globo é, sem dúvida, um dos papéis mais hilários do ator. “Cadinho”, um rico empresário, bon vivant, é casado com 3 mulheres ao mesmo tempo e possuí 3 filhos, um com cada uma delas.

Até aí, levando-se em consideração as idiossincrasias dos “tempos modernos”, dá para entender, pois, decerto, o cara é mesmo bom de enganação. O inusitado, todavia, é que em certo momento da trama, “Cadinho” passa a viver simultaneamente com as três mulheres, e isso de forma consensual, ou seja, ele torna-se uma espécie de marido on demand, tendo que cumprir uma agenda semanal na qual busca atender as necessidades de cada uma delas.

Não obstante tudo isso, mesmo não podendo ser “casado” com todas as “esposas”, tendo sobre si as implicações legais, os relacionamentos de “Cadinho” são legítimos, uma vez que ele mantém um convívio estável com cada uma delas. É que no Brasil não existe crime de “poligamia”, mas de “bigamia”, previsto no artigo 235 do código penal, o qual trata do fato de você tentar fazer o registro em cartório de um casamento já tendo outro registrado anteriormente.

Assim, do ponto de vista civil, pode-se ter quantas mulheres quiser, sem que isto incorra em crime, mas apenas um casamento registrado em cartório, não esquecendo que uniões estáveis possuem os mesmos direitos daquelas de “papel passado”. Quem consentir em viver nestas condições, que o faça, de livre e espontânea vontade.   

Na verdade, “Cadinho” tem, ao mesmo tempo, três mulheres e nenhuma. Sim, por que ter um casamento não significa ter filhos em comum, ou uma casa, bens, dormir no mesmo quarto, na mesma cama, ir junto a lugares, festas, fazer supermercado, pagar contas, e até ter relações sexuais! Nada disto define um casamento! Casamento não é uma existência a dois, mas, dois que, na existência, se fazem um em essência.

É triste, mas há muitas pessoas “casadas” que jamais se casaram. Elas se “deram” no papel, mas não se entregaram no coração, juntaram coisas, mas não partilharam sonhos, conviveram, mas não compreenderam o significado de conjugalidade, habitaram o mesmo ambiente, mas nunca os "cômodos" da alma um do outro, fizeram sexo e não amor, geraram filhos, mas não puderam criá-los tendo o casamento como referência de relacionamento.

Neste sentido, a bíblia nos dá uma dica sobre o que é casamento: “... Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne”. MT. 19:5.

Há três implicações profundas para que algo desta natureza possa se estabelecer sobre o passadiço da vida: (1) “deixar pai e mãe”, que tem a ver com a quebra dos vínculos emocionais, ou seja, é a emancipação do sujeito como indivíduo capaz de dar rumo e significado a própria vida.

(2) “Unir-se a sua mulher”, que diz respeito ao ato público de assumir um estado existencial com as prerrogativas de poder mantê-lo e provê-lo de todas as suas necessidades sociais. Uniões só se estabelecem de forma duradoura quando partilham de valores e princípios, pois, como disse o profeta Amós: “como andarão dois juntos se não houver entre eles acordos?”.

(3) Finalmente, “ser uma só carne”, que trata das implicações espirituais daqueles que se unem fisicamente para o bem, pois sexo não é apenas coito, mas um ato que “mistura” a essência das pessoas. Sim, nele há a liberação do que de mais íntimo há em nós, e não apenas de fluídos, com desdobramentos para além dos sentimentos, pois depositamos um pouco de quem somos no outro e trazemos para nós um pouco daquilo que o outro é. Sexo é simbiose de alma e partilha de espírito, é troca para além da matéria, é coisa transcendental, muito antes de ser carnal.

Portanto, preste bem atenção no tipo de relacionamento que você está construindo! Não chame de casamento o que é apenas um contrato por cotas limitadas, com objetivos comuns, divisão de tarefas, participação nos resultados e geração de ativos.

Contudo, se quiser mesmo viver um casamento, dou-te um conselho: pense mais no outro do que em você, entregue-se sem receios ou reservas, ame com toda a intensidade, sabendo que amor é uma opção, não um sentimento, faça filhos por amor e sexo sem pudor. Não esqueça, todavia, o principal: peça para que Deus lhe ajude a construir uma família, não uma empresa.

Carlos Moreira

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