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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

05 abril 2011

A Fila já Andou



Hoje à tarde fui ao shopping; coisa rara. Tinha que comprar um chip para o iPad e aproveitei para pagar uma conta telefônica na lotérica. O que deveria ser uma comodidade tornou-se, na verdade, um suplício. A fila era enorme, gente se apertando de todos os lados num pequeno corredor por trás das lojas.

Depois de meia hora sem sair do canto, eu já estava “viajando”. Minha cabeça, definitivamente, não se encontrava mais naquele lugar. Ouvia ao fundo um “zumbido”, mas ele não podia me tirar do meu “transe”. Foi aí que senti uma “cutucadela” nas costas. Virei-me e vi uma senhora dizendo: “meu filho, preste atenção! A fila já andou”. De fato, a fila andara e eu não havia me apercebido.

Mas não foi só a fila da lotérica que andou... Em quase 30 anos de caminhada, percebo claramente que uma outra “fila" também andou, aquela que me conduz para dentro de mim mesmo. Hoje, constato com alegria que, enquanto caminhava, desconstruí muita coisa que foi “erguida” erroneamente. A verdade é que pouco sobrou... Às vezes releio textos ou mensagens de alguns anos e não os reconheço. “Minha teologia” mudou significativamente nos últimos anos. Dores, perdas e alguns fracassos me tornaram mais humilde, mais quebrantando, talvez, mais simples.

Lembrei do Roberto Corrêa: “o simples é o contrário do fácil”. É muito comum confundirmos simplicidade com simplismo. Ser simples é ser singular; ser simplório é ser medíocre. Tenho pavor da banalidade, da unanimidade. Meu grande medo na vida sempre foi não me tornar alguém, não chegar nunca a ser eu mesmo, não me encontrar comigo.

É por isso que Jesus me fascina! Ele sabia quem era, conhecia o significado de sua existência, compreendia as implicações de sua vocação, seu propósito, discernia o que tinha de fazer, por onde devia andar, com quem precisava se ajuntar. O estilo de Jesus era singular, inconfundível.

Diferentemente de outros mestres, como Platão, que fundou uma academia, ou Aristóteles, que fundou um liceu, Jesus não fundou coisa alguma. Aliás, foi peça fundamental para afundar tradições, dogmas, ritos e mitos do “sagrado” de Israel.

Jesus era desalojado, era como o Pai, “claustrofóbico”, não podia ser “contido”, “aprisionado”. Ia às sinagogas, mas nunca quis ser membro delas, rejeitou a tentação de ser sacerdote, passou ao largo da possibilidade de tornar-se “refém” do Templo, deixou de lado a politicagem do Sinédrio e fez caso das seitas judaicas. Para Jesus, aquilo tudo tinha cheiro de morte, era a religião das aparências, da performance, do embuste, o estelionato do ser.

Por isso a escola de Jesus era na rua, nas esquinas, nos becos das cidades, nas casas, nos ajuntamentos a beira mar, ao pé das montanha ou nas colinas. Seus alunos não eram filósofos letrados, nem rabinos eruditos, muito pelo contrário, entre seus discípulos não havia pessoas com “pedigree”, apenas gente que queria aprender a ser gente.

Se não, observe! Veja se os encontros mais significativos de Jesus não foram com a rafaméia: a prostituta que ia ser apedrejada, os 10 leprosos, Zaqueu o publicano, a mulher do fluxo de sangue, o cego de Jericó, o aleijado do tanque de Betesda, a mulher Cananéia, a viúva de Naim, o endemoninhado gadareno, e outros tantos anônimos, excluídos, oprimidos, perseguidos.          

Lembro da parábola das bodas... Os convidados eram pessoas “distintas”, “nobres”, gente de “importância”, de “destaque”. Mas todos tinham seus afazeres e fizeram pouco caso do convite. Aí o Rei mandou chamar a gentalha, os estorvos, os miseráveis e os bêbados. Se fosse hoje estariam na festa viciados em crak, transexuais, lésbicas, gays, agiotas, traficantes, aidéticos, deprimidos, flanelinhas, e outros “diferentes”. Fico pensando se eu teria a dignidade necessária para me sentar à mesa com essa gente. Talvez não...

Fato mesmo é que Jesus ora estava aqui, ora ali, outra ora sabe-se lá onde. Até seus discípulos, por vezes, o perdiam de vista. Ele era ser errante, não tinha onde reclinar a cabeça, não criava “raiz”, nem amarras, sua casa era o mundo! Quando você pensava que Ele estava vindo, já tinha ido. Para Jesus a fila sempre estava andando, a vida sempre estava fluindo. Mas, desgraçadamente, aquela geração não soube reconhecer aquela “visitação”.

Olho as pessoas nos nossos dias... Elas estão sempre insatisfeitas, reclamando, querem mais e depois mais, buscam a fixidez, o concreto, a segurança, a estabilidade. Enquanto perdem tempo com suas questiúnculas, “a fila anda”, o sonho passa, a vida segue, o tempo voa. É gente insegura, gente ansiosa, gente ingrata, gente irresolvida, gente intemperante, gente que deixou de ser gente, gente que se dessignificou como gente, gente que desaprendeu a ser gente, tornou-se substrato de gente, gente partida, dividida, gente que já não é mais gente.  

Para quem chegou neste estágio, só tenho uma coisa a dizer: “a fila já andou”. Enquanto você se emaranhava com tantas questões fúteis, com tantos projetos inúteis, com tanta megalomania, “a fila estava andando...”. Havia nas esquinas da vida gente precisando de carinho, de afago, de uma mão estendida, de uma palavra de conforto, de uma ação de misericórdia, de uma atitude de solidariedade, de uma decisão corajosa, de uma posição assumida, de uma consciência renovada, de uma alma quebrantada, de um coração expandido. E você, onde estava? Onde eu estava?! Ah, nós estávamos nos templos, nas reuniões, nos encontros religiosos, nas vigílias, nos seminários, estávamos “fazendo a obra”! Mas que obra?! A obra de quem?!

Hoje à tarde eu quase adormeci naquela fila... Agora estou com medo de estar adormecido quanto à existência que me cerca, aos dramas que me rodeiam, as calamidades que acontecem a minha porta, na minha cara, na esquina da minha rua, na frente do meu trabalho, na ponte, na praça, pois nestes lugares é onde estão os bêbados, os mendigos, os gays, os travestis, os maconheiros, essa gente que eu tenho desprezo de olhar, aversão de ouvir, nojo de tocar, medo de sentir.

Entretanto, o grande paradigma em tudo isto é que são justamente estes que Jesus quer que eu convide para a “festa”, pois são eles os mais receptivos a Graça e ao Reino. Agora, se eu não me “tocar” quanto a isto, corro o sério risco de, em algum momento, ouvir dEle: “desculpe filho; "a fila já andou"; tive de usar outro em seu lugar, pois você estava muito ocupado com a sua obra”. Pense nisso...     

Carlos Moreira

29 março 2011

"Odres" Novos, "Vinho" Velho.



Durante 20 anos ministrei louvor na Igreja. Sinto-me privilegiado por ter tido por referência toda uma geração de músicos e cantores que mudaram o sentido e o significado da utilização da música como meio de adoração a Deus.



Cresci ouvindo estes homens maravilhosos e suas músicas encantadoras! Guilherme Kerr, Jorge Camargo, João Alexandre, Sérgio Pimenta, Gerson Ortega, Asaph Borba, Adhemar de Campos, Benedito Carlos e Nelson Bomilcar. Com eles aprendi sobre o significado de rendição, quebrantamento, humildade, espírito sacrificial, paixão, coisas que se tornaram obsoletas quando tratamos da música em nossos dias...


Já faz oito anos que não ministro louvor. Mas no meu entendimento, há pelo menos quinze o ministério da adoração perdeu totalmente o seu propósito e significado. Música no meio cristão tornou-se artigo de entretenimento. Músicos viraram mercadores, cobram cachê para tocar, seja onde for, seja em qualquer lugar; cantores agora são “astros pop”, saem ovacionados dos estádios, tem produção profissional, vendem milhões de cd’s e dv’s no eletrizante mercado da música “gospel”.

Tenho apenas 44 anos, mas sou do tempo em que os jovens se reuniam para ir a um ginásio assistir a um culto com a presença dos Vencedores por Cristo. Ali ouvia-se boa música, com letras que exaltavam a Deus e glorificavam a Cristo. Havia conteúdo teológico nas canções, não as baboseiras que ouço hoje. Foi cantando estas canções que aprendi sobre o Sangue, a Cruz, a Justificação, a Santificação, o Nascer de Novo. Nas músicas recitadas agora você chama Jesus para dançar, exige restituição do que é seu, declara que receberá tesouros na terra. É tanta asneira e tanta falta de entendimento que eu não sei como essa moçada consegue fazer “sucesso”.

E levaram a arca de Deus, da casa de Abinadabe, sobre um carro novo; e Uzá e Aió guiavam o carro”. 1ª. Cr. 13:7. Não sei se você conhece esta passagem. Ela trata da tentativa de Davi de levar a Arca da Aliança de Quiriate-Jearim, que estava em Judá, para Jerusalém. A intenção de Davi era boa, mas seu entendimento sobre como realizar tal feito era nenhum.

A passagem completa pode ser lida no capítulo 13 do livro de 1ª Crônicas. Davi havia acabado de ser conclamado Rei e teve o entendimento de que deveria trazer a Arca “pois nos dias de Saul não nos valemos dela”. O Rei sabia que aquele artefato era muito mais do que uma obra de artífice, mas tinha o significado da presença de Deus no meio do Seu povo. E Davi não queria começar a governar sem que o Senhor estivesse entronizado na tenda da congregação, no meio do tabernáculo.

Mas como se diz por aí, “de idéia boa o inferno está cheio”. Ao invés de consultar os Rolos Sagrados para averiguar como Deus havia ordenado que a Arca fosse levada, Davi partiu para a “inovação”. Enfeitou um carro de boi novo, colocou um bocado de penduricalhos, e depositou a Arca em cima dele. E fez mais: para dar um tom ainda mais imponente ao cortejo, pôs dois sacerdotes paramentados para comboiarem a procissão. O resultado foi trágico! O carro de boi tropeçou numa pedra quando, a caminho de Jerusalém, passava por um riacho, e Uzá, sacerdote do Deus altíssimo, tentando dar uma mãozinha a Ele, colocou a mão na Arca para que ela não se despedaçasse no chão. Foi o suficiente para acender a ira do Todo-Poderoso, o que fez com que ele fosse fulminado e morresse ali mesmo imediatamente. 

Naquele episódio funesto, houve três problemas. O primeiro é que a arca não podia ser levada num carro de boi, mesmo sendo ele novo e emperiquitado. A Arca tinha de ser levada por pessoas, alçada sobre seus ombros. O segundo problema é que a Arca não podia ser conduzida por qualquer um, mesmo que estes fossem sacerdotes, mas apenas pelos levitas, que eram os únicos qualificados e separados para tal ofício. Finalmente, o terceiro problema é que, não havendo discernimento da parte de ninguém, perdeu-se totalmente a percepção do que a Arca simbolizava, ou seja, a presença do próprio Deus! Esse foi o motivo de Uzá ter morrido, pois ele tocou não apenas num artefato religioso, mas na santidade do próprio Deus!

Há muitas lições a serem aprendidas nesta passagem. Quisera eu que os cantores e músicos de nossos dias pudessem compreendê-las. Vejo o que fizeram com o louvor e a adoração com tristeza e até pavor. Transformaram o que deveria ser um culto em um show, com direito a fumaça, luzes, som de última geração, marketing, produção, e toda a pirotecnia utilizada pelas bandas seculares. É o “carro de boi novo”, a parafernália “gospel” tentando compensar a falta de graça e unção com som estridente e plasticidade performática.

Em lugar de “levitas”, gente consagrada e separada para a adoração, ainda que não nos moldes do velho testamento, é claro, temos agora astros e estrelas de grande popularidade. Eles precisam de figurinistas, maquiadores, cabeleireiros, personal trainer, todo um aparato periférico para que possam brilhar quando subirem ao palco. Brilham mais do que Jesus! A eles, então, seja dado todo louvor e toda a adoração!

Confesso que nunca fui a um show destes. Tenho pavor de que Deus derrame fogo do céu e consuma tudo o que estiver embaixo. Tenho medo de “tocar na Arca” sem morrer. Essa gente, devo admitir, ou tem muita coragem ou é totalmente cega de entendimento. Eles banalizam o sagrado, roubam para si aquilo que não lhes pertence – pois a glória é honra para Deus, mas veneno para o homem. Quem dela se alimentar morrerá em meio a seus próprios devaneios. Aliás, o simples fato destes falsários não perceberem o que fazem já é o atestado de que há muito estão mortos em seus próprios pecados e cobiça.

Talvez você me pergunte: “há exceções?”. E eu lhes digo: “há. Mas são pouquíssimas...". Eu gosto de alguns grupos, e acho que eles fazem um bom "trabalho". Mas são periféricos justamente porque não "jogam o jogo", não pagam "jabá", não compram canções de poetas ateus e agnósticos, não se deixam produzir por figurões da cena musical nacional. Sim, gosto de gente como Vineyard, mas sei que eles não vendem aos milhões nem enchem estádios. Sou músico, já gravei, já produzi, sei do que estou falando. Aqui não está um teórico que fez uma pesquisa na net para escrever um artigo bobo. Conheço este meio, já comi poeira nesta estrada...

Sinto saudade das “velhas” canções do MILAD e dos Vencedores por Cristo! Sinto saudade dos hinos cantados nos cultos dominicais, herança histórica da igreja. Nada contra novos ritmos, instrumentos diversos, letras contextualizadas e melodias modernas, muito pelo contrário, sempre amei o rock’n roll. Mas no fundo o que eu gostaria mesmo era de ver “vinho novo” em “odres novos”, e não “odres novos” com “vinho velho”. Aliás, para ser sincero, este “vinho” já virou vinagre faz tempo – arg! E os “odres”, Deus me livre, há muito que se tornaram vasilha vazias...

Carlos Moreira

25 março 2011

Deus Está na Próxima Esquina


Um dos temas com os quais os pastores mais se deparam em momentos de aconselhamento é sobre a vontade de Deus. Em tais situações, é muito comum ouvirmos expressões do tipo: “pastor, qual é então a vontade de Deus para a minha vida?”.

Independentemente do tema, a intrigante pergunta sempre surge para nos colocar em situação difícil. Nestas circunstâncias, sinto-me como se fosse um oráculo, um intermediário do sagrado, um profeta de ocasião, alguém que tem de dar uma resposta plausível, pois, do outro lado, há alguém angustiado e inquieto aguardando o meu “parecer”.

Sem querer teologizar muito, e botando logo os pontos nos “is”, a vontade de Deus é de Deus, não é nem minha, nem sua, nem de ninguém. Já li muita coisa a este respeito sem, contudo, jamais me sentir satisfeito. Filósofos e teólogos criam explicações mirabolantes e sistematizadas para tentar tratar de algo que, no meu entendimento, é “terreno de Deus”.

Os calvinistas vêem a vontade de Deus de uma forma, os arminianos de outra, os da teologia da prosperidade enxergam de um jeito, os da teologia relacional de outro. Há os que afirmam que Deus tem vontade descritiva – coisas pré-ordenadas, e vontade permissiva – coisas que ele tolera existir ou acontecer. Tem os que dizem que a vontade de Deus pode ser secreta ou revelada, dispositiva ou perceptiva, e por aí vai... É o homem tentando entrar nas profundezas do insondável.  

Em seu livro “A Soberania de Deus”, Arthur Pink nos dá uma pista de como o tema é denso e, talvez até, incompreensível: A vontade de Deus é Seu eterno, imutável propósito concernente a todas as coisas que Ele fez, para produzir certos meios para seus fins apontados: disto Deus declara explicitamente: "Meu conselho subsistirá, e farei toda Minha vontade" Is. 46:10.

Mas, afinal de contas, “qual a vontade de Deus para minha vida?”, pois esta é a pergunta que não quer calar. E eu respondo: “sei lá!”. Atrevo-me apenas a exprimir o que diz Paulo aos Romanos, que ela é “boa, perfeita e agradável”. “Pastor, devo casar com fulano?”; “Pastor, devo fazer tal curso”; “Pastor, devo mudar de cidade?”; “Pastor, devo aceitar tal emprego?”; “Pastor...”. Meu amigo, minha amiga, eu, simplesmente, não sei!

O que certamente sei é que esta forma de viver a vida cristã não me parece muito adequada. Mas a verdade é que a grande maioria quer respostas exatas para tudo, acha que na Bíblia há direcionamento sobre todas as questões da existência, espera que seus líderes os aconselhem precisamente em todas as suas indecisões. Ora, isso simplesmente não existe! E é por isso que tanta gente quebra a cara por aí e depois fica culpando Deus, o Pastor, as Escrituras, a mulher, o marido, o amigo, e nunca a sua incapacidade de fazer escolhas próprias.

Para mim, a vontade de Deus está na próxima esquina. O que quero dizer com isto? Que o caminho com Deus se faz caminhando, e que uma coisa é saber sobre o Caminho e outra é caminhar por ele. Nós cristãos nos tornamos cada dia mais teóricos, mais retóricos, esquecemos que o convite de Jesus é para que andemos no “Caminho”, em verdade, pois, só assim, poderemos experimentar a verdadeira vida.

Quem caminha com Deus está construindo com ele uma história aqui na Terra. Enquanto estou, na estrada da existência, “seguindo” a Deus, no encalço de seus passos, estou na realidade permitindo que em mim vá sendo desenvolvida sua soberana vontade, e isto em cada acontecimento do cotidiano, em cada circunstância que vai se “desenhando” no meu caminhar.

Mas, de repente, Deus vira a esquina! Eu olho para frente e não o vejo mais. A “cena” na qual Deus está continua acontecendo na “rua” por onde ele está seguindo agora, mas eu não consigo discerni-la, percebê-la, compreendê-la, pois sou incapaz de enxergá-lo neste momento. O que faço então? Sento e fico adorando a Deus até que ele se revele novamente? Jejuo até que seu caminho se desnude para mim? Oro para que ele me fale o que devo fazer? Consulto um profeta para saber o direcionamento correto? Sinceramente, isto não lhe parece absurdo? Mas é desta forma que muitos estão vivendo.

Ora, de fato, a uma única coisa a se fazer é ir até a esquina e, avistando o “caminhar de Deus”, retomar novamente o seguir os seus passos, ou seja, inserir-me outra vez como parte da “cena” que continuou se desenrolando independentemente da minha presença. Preciso querer estar com Deus, e não apenas saber de Deus.
   
De uma coisa estou certo: “Aquele que faz sempre o que quer, raramente faz o que deve”. Pierre Beauchêne. Ora, se você quer fazer a sua vontade, porque pergunta para mim qual a vontade de Deus? E mais: se você quer fazer a vontade de Deus, porque pergunta para mim o que deve fazer?

Deus está caminhando – “se alguém quer vir após mim...” – siga-o! Se ele virar a esquina, vire também. Se for reto, vá com ele. Se for rápido, corra. Se diminuir a marcha, vá mais devagar. Lembre-se apenas de algo: tente nunca o perder de vista, pois isso seria uma grande tragédia em sua vida. Agora, se isto acontecer, ainda há algo a ser feito: procure algum "representante do sagrado" pergunte para ele: "pastor, qual a vontade de Deus para a minha vida?”...

Carlos Moreira

24 março 2011

Sob Pressão


A semana passada estava em São Paulo a trabalho. Num dos compromissos que tive, visitei o diretor de uma grande multinacional da área de telecomunicações.

Depois de uma rápida espera, fui recebido. “Tenho pouco tempo”, disse-me logo na partida. Conversamos rapidamente. Falei sobre o que havia programado e, de súbito, minha abordagem foi interrompida – “esta semana demiti 14 pessoas. Disseram-me que não vai haver reposição, pois trata-se de redução de custos. Tenho de fazer mais com menos. Não estou dormindo bem nem me alimentando adequadamente...”. 

Após um silêncio desconfortável, voltamos à tratativa original... Terminei a abordagem. Ele agradeceu, disse que ia analisar e retornaria. Eu, contudo, saí daquele lugar com duas certezas: (1) aquele homem não vai comprar o que eu fui vender; (2) estive por alguns minutos diante de uma das pessoas mais angustiadas de toda a minha vida.

Sob pressão. As pessoas estão sob forte pressão. Lembrei da famosa música da banda inglesa Queen “Under Pressure”. Ela foi composta em 1981, no auge da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética. Naquela década, o “conflito camuflado” ganhou contornos mais fortes por causa do aumento da corrida armamentista, motivada, sobretudo, pelo projeto “guerra nas estrelas” do Presidente Reagan.

A tensão daqueles dias era enorme. Numa das frases da canção podia-se ouvir: “É o terror de saber a que ponto chegou o mundo. Observo alguns bons amigos que estão gritando: "deixe-me sair!”. Pensei comigo mesmo: era este o sentimento daquele homem com quem estive a pouco. Ele estava tentando me dizer: “deixe-me sair”.

Também tenho vivido dias difíceis... Às vezes acho que não vou suportar. É pressão de todos os lados. Em qualquer direção para onde me viro, há algo me “comprimindo”. O apóstolo João dizia em seu tempo: “os dias são maus”. Talvez, se vivesse hoje, diria: “os dias são insuportáveis”.   

Questão: o que fazer para lidar com isto? Pressão de todos os lados. Pressão de ter de ser o melhor, o mais rápido, o que vende mais, o que chega primeiro, o que tem as melhores idéias, o que bate primeiro as metas, o que consegue mais clientes, o que gera mais resultados, o que tem a melhor formação, o que é mais competente... Me diga, com sinceridade, dá para suportar?

O que sei é que eu já vivi o suficiente para saber o que a pressão gera nas pessoas. Além de gastrite, insônia, ansiedade, desconforto torácico, dores abdominais, boca seca, dor de cabeça, dentre outros sintomas, a pressão gera dois problemas perigosíssimos para a fé: a auto-suficiência e a alienação. O primeiro trata da ilusão de acharmos que nós é que fazemos tudo acontecer, que os resultados são fruto apenas de nosso esforço. O segundo nos leva a crer que a existência é uma corrida de cem metros, que o importante é como você começa, e não como você termina, que as coisas são como são, que tudo se restringe ao aqui, ao agora, a este mundo, as realidades tangíveis, mensuráveis e concretas. Tudo engano... Tudo falácia...  

Em sua carta aos Filipenses, Paulo nos apresenta dois remédios para estes males. “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus”. Fp. 4:6-7.

Para destruir nossa auto-suficiência ele nos recomenda orar. Na verdade, fala de orar intensamente, suplicar. A oração é o reflexo de um coração que aprendeu a depender de Deus, que sabe que a vida não é ganha no “muck”, no braço, no talento ou na inteligência. Lembrei de Bill Hybel e o seu livro “Ocupado Demais para Deixar de Orar”. Sim, quem está no meio de uma grande luta, debaixo de intensa tribulação, como bem disse Rick Warren, não se dará ao luxo de ficar relaxado, despercebido, anestesiado. Não. Ele vai dobrar os joelhos e buscar a Deus com o mais íntimo de sua alma, ele vai derramar toda ansiedade e toda inquietação sobre aquele que pode apaziguar suas guerras e lhe dar quietude no ser.

A outra coisa que Paulo nos ensina é sobre viver em paz. Ele fala da paz que vence o entendimento. Trata-se, na verdade, do desafio de viver de forma diferente, baseado em princípios mais elevados. Veja o verso 8: “tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama...”. São estes valores que nos ajudam a suplantar as sistematizações e racionalizações as quais estamos expostos, pois eles nos alçam para além das circunstâncias, nos dão tranqüilidade mesmo em meio aos fatos mais negativos e perversos do cotidiano.

Quando saí daquela empresa e entrei no taxi para voltar ao escritório, fiquei pensando que certamente o que aquele homem precisava naquela tarde não era ouvir o discurso de um executivo de tecnologia, mas escutar uma palavra acalentadora de um discípulo de Jesus Cristo. E eu às vezes ainda penso que meu ministério não é de tempo integral...      

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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