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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

15 janeiro 2011

"Quando não se Tem Nada a Perder Deve-se Arriscar Tudo"





A tragédia que desabou sobre as cidades serranas do Rio de Janeiro durante as chuvas desta semana é sem precedentes, mas tem antecedentes. Segundo um dos depoimentos que assisti pela TV, cada vez que chove nesta região duas coisas são certas e estão previstas: deslizamentos e velórios.

Quando a desgraça acontece, todo mundo se sensibiliza. As emissoras de televisão transmitem o “show” ao vivo e a cores; os jornais vociferam o descaso das autoridades; as autoridades atuais culpam seus antecessores por não terem feito nada; as rádios fazem entrevistas com os sobreviventes que nos mostram histórias das mais dramáticas possíveis.

Contudo, creia-me, isso não é motivo de alarde. Não se preocupe tanto. Sei que, talvez, você tenha visto cenas muito fortes, mas, saiba, elas desaparecerão de sua memória em dois ou três dias. Sim, elas sumirão assim como sumiram as imagens inacreditáveis de Angra dos Reis, de Niterói, das cidades do nordeste, todas devastadas por enchentes, arrasadas, com   milhares de mortos, cidades varridas do mapa por sinais que a natureza nos dá, cada vez mais freqüentes, de que a Terra agoniza.  

É duro de admitir, mas nos tornamos confortavelmente insensíveis. A dor do outro não nos diz nada. Quando muito, citando Sartre, o outro é o inferno.  Em poucos dias as TV’s, as Rádios, os Jornais, a Internet, precisarão de novos escândalos, de novas tragédias, de novas revelações, de novas notícias. É assim que a “máquina” gira, é assim que as coisas funcionam, é “assim que caminha a humanidade”... Tudo, tudo mesmo será esquecido...

Você acha que algo será feito? Claro que não! Alguns órgãos farão visitas, a presidente vai sobrevoar as cidades, alguns políticos vão aproveitar a desgraça para se projetarem, os bombeiros, a polícia, as igrejas, outras entidades de auxílio, a cruz vermelha, e muitos, muitos anônimos, como sempre, vão ajudar, vão se doar, vão se arriscar. Mas, no próximo ano, tenha certeza, veremos tudo de novo. Só não temos ainda como prever em qual região e em quais cidades a desgraça acontecerá. Talvez, nos mesmos lugares novamente.

No vídeo postado acima, assisti a uma das cenas mais dramáticas de toda a minha vida. Ela me lembra a frase de Laya: “quando não se tem o que perder deve-se arriscar tudo”. A mulher está ilhada numa casa semi destruída. Ali dentro tem uma história, tem a luta de uma vida, os móveis, os eletrodomésticos, documentos, fotos, poucos bens comprados com sacrifício. Mas a casa está submersa, a maior parte destas coisas já foi levada pela correnteza. O volume de água e a sua força faz com que a mulher suba até chegar ao telhado. Agora já não há mais o que fazer,  não tem mais para onde ir.

A câmera mostra a dura realidade. O que lhe sobrou foram apenas duas coisas: a roupa do corpo e o cachorro que ela segura como um filho. Naquele momento, o melhor amigo do cão era o “homem”. Ela o segura como quem segura o único e último bem que lhe restou. Parece determinada a salvá-lo a qualquer custo.

Num ato extremado, num último recurso para livrá-la da morte, vizinhos jogam uma corda para tentar puxá-la para o prédio ao lado. É uma tarefa arriscada. As chances do resgate dar certo são poucas, pois a correnteza é muito forte, o prédio é alto, apenas dois homens estão lá em cima e uma mulher de idade não tem tanta resistência para suportar isto.

A corda é lançada e ela a segura. Ao fundo ouvem-se gritos de desespero. A mulher se joga na correnteza agarrada ao cachorro e tenta salvar-se e salvar o seu bichinho. Mas a força da água impõe-lhe a dura tarefa de escolher entre a sua vida e a vida do animal. Ela agarra a corda com as duas mãos e solta o cachorro que é levado pelo turbilhão descontrolado.

Puxada de forma milagrosa até o teto do prédio, amparada heroicamente por gente que estava no lugar certo na hora certa, ela olha pra trás e não vê mais nada. O “amigo” que tentou salvar a todo custo desaparecera para sempre. Eu tenho um cachorrinho, posso imaginar a sua dor pela sua perda. O que não poderei jamais imaginar é a dor gerada pelas outras tantas perdas deste dia que, para ela, será inesquecível: o dia em que sua vida esteve presa apenas por uma corda.

Eu não sei o nome daquela mulher. Não sei o nome dos homens que a puxaram. Não sei o nome do pequeno cachorrinho. Mas minha alma se entristeceu profundamente pela sua dor e meu coração se compungiu pelo seu sofrimento. Sua coragem em se lançar nas águas para tentar salvar-se me marcarão pelo resto da vida. Daqui de onde estou, posso apenas orar para que ela encontre forças para continuar a viver e reconstruir o que sobrou de sua existência.

A esta mulher, símbolo do desrespeito pela vida, símbolo do descaso das autoridades deste país pelo povo que vive a margem de tudo, símbolo da resistência e da vontade inexplicável de sobreviver, símbolo de dignidade, de humanidade, meus sentimentos, meu respeito e minha reverência pela sua vida, pela sua alma e pela sua dor.

Carlos Moreira 

12 janeiro 2011

É Melhor ser Cauda de Tubarão do que Cabeça de Bagre




Augusto Comte foi o filósofo a quem se atribui a criação do Positivismo, corrente filosófica do século XIX que surgiu com o desenvolvimento do iluminismo e das mudanças produzidas pelo fim da Idade Média. O Positivismo propõe uma existência construí-da sobre valores absolutamente humanos, o que o afasta tanto da metafísica quanto da teologia.

Mas foi através de seu livro “Sistema de Política Positiva” que Comte, para mim, deu seu “salto” mais ousado: a proposição de uma nova religião – a Religião da Humanidade. Para ele, as religiões do passado eram apenas formas primitivas, uma vez que se baseavam em mitos, dogmas e na metafísica. Na Religião Positiva, os “deuses” e o sobrenatural eram dispensáveis, pois a verdadeira busca por sentindo se dá na unidade moral humana, no ideal de sua regeneração social.

Sendo assim, o Positivismo se tornou uma refutação ao pensamento cristão, pois ele retirou Deus da cena humana e colocou a ciência em seu lugar. Pois bem, em nosso tempo, vimos algo semelhante acontecer com a chamada Confissão Positiva, um movimento que nasceu no seio das Igrejas pentecostais e neopentecostais e que, pasmem, acabou por retirar Deus da existência, e colocou no lugar dele o homem. A partir de então, o que temos assistido é o Criador tentando servir a criatura, e não o contrário.

A Confissão Positiva, surgida na década de 1980, teve como precursor o pastor Essek William Kenyon. Influenciado na universidade pelo pensamento de Fineias Parkhust Quimby, um curandeiro e hipnotizador, Kenyon construiu a base para a sua “nova teologia” usando técnicas do poder do pensamento positivo, doutrinas das seitas da Ciência da Mente e a metafísica do Novo Pensamento.


É fato que todo vento de doutrina se espalha com excepcional velocidade no meio evangélico. Com a Confissão Positiva não foi diferente, sobretudo quando ela ganhou adeptos de “peso” internacional como Kenneth Hagin, Morris Cerullo e Benny Hinn.

Foi esse “esquadrão” que, inicialmente, se encarregou de espalhar a “nova doutrina” mundo afora. Dessa forma, ela assumiu diferentes nuances, passando a ser reconhecida também como Teologia da Prosperidade, Evangelho da Saúde, Palavra da Fé ou Movimento da Fé.

No Brasil, sua aparição se deu no final do século XX. A Confissão Positiva, ou como a chamamos no Brasil, a Teologia da Prosperidade, baseia-se numa hermenêutica fraudulenta amparada por sofríveis artifícios manipulatórios. Ela fomentou na consciência de toda uma geração o sofisma de que o crente deve reivindicar seus supostos direitos para adquirir tudo o que desejar, pois Deus está obrigado a cumprir aquilo que, inexoravelmente, tenha prometido em Sua Palavra. O resultado de tudo isso não poderia ser outro: o surgimento de um sem-número de aberrações doutrinárias, além de perversas práticas eclesiásticas.

As bases do movimento passam por um sincretismo capaz de misturar o cristianismo ao espiritismo, judaísmo, às religiões de mistérios, cultos afros e até ao gnosticismo. Seus líderes rapidamente transformaram pastores em verdadeiros feiticeiros do sagrado, intermediários exclusivos do trânsito entre o céu e a terra, profetas do apocalipse, mestres de revelações inusitadas para os últimos dias.

Infelizmente, a Teologia da Prosperidade alcançou em pouco espaço de tempo milhões de adeptos, quase sempre gente desesperada em busca de solução para seus problemas. Além do mais, as ofertas das igrejas que abraçaram o movimento tornaram-se irrecusáveis. No “cardápio” tem cura de enfermidades e saúde abundante, prosperidade financeira, restauração de casamentos destruídos, libertação de encostos, dentre outras benesses que, por fim, arrastaram nesse tsunami de heresias incautos e despreparados, os quais, espoliados de todas as formas, passam a engrossar cada vez mais as fileiras das denominações supracitadas.

A Confissão Positiva, como aconteceu com o Positivismo de Comte, criou uma espécie de nova religião, onde Deus tornou-se um ser escravizado a cumprir liturgias performáticas preestabelecidas. Fiéis de outras denominações passaram a ser considerados crentes de segunda categoria, gente que estava fora da “bênção”, do “mover”.

Nesse novo cenário, as mais variadas práticas foram surgindo, todas supostamente respaldadas nas Escrituras. Vieram os cultos de catarse emocional, os seminários de cura interior, as correntes para libertação de maldições hereditárias, os processos de mapeamento de “potestades espirituais”, coisas tão bizarras e absurdas que sou capaz de apostar que até o diabo tem dificuldade em acreditar.

Lembro bem de uma das frases usadas pelo movimento que bem simboliza o nível de consciência e fé dessas pessoas: “Deus te pôs como cabeça e não como cauda”. Era uma espécie de mantra positivista, ufanista, usado para fazer a cabeça dos discípulos e criar neles um embuste mental capaz de aliená-los e afastá-los de toda a verdade do Evangelho.

Uma das curiosidades mais intrigantes da “nova religião” é o fato de suas mensagens retornarem sempre aos heróis da fé do Velho Testamento, pois eles servem de modelo para demonstrar a bênção, a prosperidade, a vitória e a saúde. Em suas homilias, pregadores exaltam personagens como Moisés, Davi, Abraão e Salomão, todos bem-sucedidos e divinamente abençoados, como referencial daquilo que Deus deseja de Seus filhos.

O que eu gostaria, todavia, era de vê-los pregar sobre a simplicidade de Jesus, que não tinha onde reclinar a cabeça, que foi humilhado, difamado, perseguido e, por fim, morto.

Gostaria de vê-los pregar sobre as profundas dores e perdas da vida de Paulo, que dizia ter aprendido a viver na escassez e estar feliz por ter o que comer e com o que se vestir. Quem sabe, ainda, sobre o apóstolo João, já velho e calejado, preso na Ilha de Patmos, privado de tudo e de todos, agonizando sozinho e aguardando a esperança da salvação.

No primeiro século da era cristã, os líderes eram entregues à morte para que os discípulos pudessem experimentar a vida. Hoje a liderança mudou um pouco... “Apóstolos”, “Bispos”, “Patriarcas” e outras “entidades” andam em jatinhos, vestem ternos italianos, possuem um Mercedes na garagem e moram em mansões de 3 pavimentos.

É um contrassenso quando comparado com a afirmação de Paulo de que os apóstolos eram postos em último lugar, como escória do mundo. É triste, mas essa gente virou divindade, seres metafísicos, nem pisam no chão de tão santos que são, astros do mundo gospel, membros desta confraria de hipócritas, dessa panacéia religiosa, dessa pantomima de mambembes do sagrado.

Mas é bom saber que os dias desses pústulas es-tão contados. É fato que, cada vez mais, uma enorme legião de incautos e inocentes acorda para a verdadeira intenção do movimento da Confissão Positiva e de seus “líderes”.

O que creio, como bem disse o pastor Ricardo Gondim, é que “o século XX assistiu ao alvorecer, à consolidação, ao apogeu e ao desgaste do movi-mento evangélico, um ciclo histórico que está prestes a se encerrar. O que virá depois é uma incógnita – contudo, é possível vislumbrar que, passada a crise de pragmatismo que assola a Igreja deste início do terceiro milênio, a espiritualidade será experimentada de maneira mais viva e relacional com Deus”.

Os adeptos da Teologia da Prosperidade afirmam que Deus os colocou por cabeça e não por cauda. Pois é, há quem creia nisso... Para mim, contudo, que sou um cara que anda na contramão, prefiro ficar com outra máxima: “É melhor ser cauda de tubarão do que cabeça de bagre!”.

Carlos Moreira


11 janeiro 2011

Desigrejados, Desviados e Evangélicos não Praticantes



Danilo Fernandes


Em agosto de 2010, eu decidi coletar dados capazes de sustentar uma abordagem quantitativa de algumas questões apoquentando os que pensam nos rumos da Igreja. Nesta mesma época, a revista Cristianismo Hoje tinha na pauta este ARTIGO mirando a questão dos cansados de igreja. Pensei: Vou botar números em algumas destas questões.

Postei no site um questionário de pesquisa usando a ferramenta On-Line Survey Monkey. Em uma segunda fase, fiz uso do cadastro de 1,2 milhão e-mails de cristãos evangélicos que possuo, produzi uma amostra e enviei questionários com perguntas abertas e fechadas envolvendo temas relativos a fé e a religião. Os resultados trouxeram nada menos do que surpresas atrás de surpresas com material para muitos posts. Este é o primeiro.

Genizah: Um site de hereges de desviados?

Definitivamente não. Em termos numéricos absolutos tem muito desviado por aqui, risos. Afinal, o Genizah tem tráfego oscilando entre 8,8 – 14,8 mil pessoas por dia, mas em termos relativos a coisa não é bem assim! Um alívio (sem querer ofender os desviados) afinal, os colaboradores do site são na sua maioria esmagadora pastores, líderes, missionários, etc... Iria ficar mal pra gente, risos.

Para começar 88,5% dos respondentes se declaram membros batizados de uma denominação cristã. Para agravar nossa beatitude, 31,25% dos leitores – ver gráfico a seguir – se identificaram com a opção “FAMILIARES ECLESIA” que separamos para pastores, família pastoral, presbíteros, diáconos e líderes ministeriais.

Conclusão: Genizah é um site muitíssimo lido pela liderança da Igreja. Levando ainda em consideração que 25% dos leitores se dizem professores de Escola Bíblica Dominical e, estamos falando de até 80.000 visitas de professores de EBD por mês, não dá para chamar o Genizah de um site de desviados! Envolvidos e incomodados, sim. Subversivos, muitos. Desviados, dificilmente.

Tirando o Genizah da reta, bem-dito, alguns números saltam aos olhos e confirmam que os fenômenos recentes que formaram os grupos que muitos chamam de desigrejados, decepcionados com a igreja, reorganizados (em comunhão heterodoxa) e, claro, desviados se revelam todos mais do que estatisticamente consideráveis. São números muito representativos e deveriam estimular acadêmicos a realizarem uma pesquisa comme il faut.

Os Assembleianos, considerando todos os ministérios e divisões são o grupo que mais frenquenta o Genizah. Em seguida, os Batistas.

Em determinada questão do instrumento de coleta de dados pedimos para as pessoas marcarem a alternativa que melhor descreveria o formato de sua comunhão principal. Uma das opções disponíveis oferecia possibilidades, entre outras: membro de células, igreja em casa e comunidades. 12,5% das pessoas marcaram esta opção. Eu considerei o percentual bem alto. Não esperava que tanta gente tivesse este tipo de comunhão,primariamente. Devo admitir que há um viés da questão. Embora a formulação da pergunta fizesse uma ressalva entre opções “membros de uma igreja tradicional que tenha células ou grupos pequenos” e “igreja em células”, há a possibilidade de alguns terem se equivocado na sua resposta. Ainda assim, é alto o percentual dos internautas que tem a sua comunhão principal em um arranjo heterodoxo (célula, grupos em casa, formações alternativas, etc.). Deixando claro que o heterodoxo não carrega nenhum preconceito ou crítica, mas tão somente qualifica o que é não é ortodoxo (igreja tradicional).

Os afastados da igreja

Apesar de relevante, o achado anterior só serve para dar peso a uma descoberta ainda mais importante: O alto percentual dos que marcaram a opção “AFASTADO”. Afinal, fica estabelecido que os 7,25% dos respondentes que assim se identificam estão de fato afastados de qualquer tipo de comunhão. São crentes, mas estão afastados da igreja denominacional, seja em que formato ou arranjo for. Ortodoxo ou heterodoxo. Seria uma gente cansada de tudo que lembra uma igreja? Gente ferida pelo corpo institucional? Gente massacrada ou decepcionada com doutrinas? Vítimas da religião? As opções são muitas, contudo repito: São todos crentes. Ainda seguem com Cristo.

Na nossa pesquisa por e-mail com amostra na base dos 1,2 milhão de e-mails buscamos o reforço para este percentual de AFASTADOS. Obtivemos um resultado oferecendo uma boa consistência ao percentual já estimado, mas como disse antes, são muitos os fatores enfraquecendo a metodologia. A amostragem e o método de coleta, entre os principais. Considere que um grande percentual de evangélicos não tem acesso à internet, por exemplo. Contudo, apesar das limitações, temos aqui é um bom termômetro e, o único disponível.

Genizah é um site de líderes.


Agora, imaginem se este mesmo percentual  de afastados se aplicar a massa dos que se declaram evangélicos no país? Seriam milhões. Temos um sinal de alerta, e dos grandes, de que há algo ferindo gravemente o corpo e é tempo de despertar para a questão.

E o que dizer dos 1,25% que se declaram “SEM RELIGIÃO”? O que fazem estas pessoas em tão grande número (150 por dia!) em um site de evangélicos? E mais, os 7,25% “AFASTADOS”, o que fazem em um site de apologética? Estamos falando de um grupo entre 13.000 e 27.000 pessoas apenas entre os leitores do Genizah!

Claramente, estamos diante de fenômenos interessantes. Por um lado, constatamos percentuais relevantes de AFASTADOS e SEM RELIGIÃO em um site de interesse evangélico, indicando gente cansada de Igreja, mas não de Cristo. Por outro lado, não é nenhum disparate afirmar que um percentual ainda mais significativo de irmãos forme um grupo chamado de EVANGÉLICOS NÃO PRATICANTES, cuja quantificação deve ser objeto de pesquisa específica. Para que o leitor tenha uma ideia, da população de 1,2 milhão de e-mails de cristãos de nossa base, a amostra retornou 2,1% de respondentes declarando que são evangélicos, mas não tem comunhão em igreja por 12 meses ou mais. A seguir, as razões principais declaradas, segundo o tipo de pergunta formulada.

Em resposta fechada (múltipla escolha previamente definida): 

Cansei de dar dinheiro e ser enganado por falsas promessas.

Resposta aberta (respondente marca a opção “OUTROS” e declara a sua razão livremente):

Tenho vergonha do que os outros evangélicos andam fazendo (na TV, no rádio, na Igreja XYZ, nos negócios, na política, etc.); ou algo equivalente.

Definitivamente, em nosso esforço, apenas testamos com um dedinho a temperatura do corpo. É apenas um vislumbre de diagnóstico, mas assusta. Se relevarmos a precariedade do exame, podemos dizer que estamos diante da estatística do tecido machucado pelo próprio corpo. Quase nove para cada cem! É o tamanho da cicatriz no corpo da Igreja. Estes são os amputados.

Quantos serão os mortos? Aqueles que nem sequer buscam crescimento, conhecimento da Palavra, refrigério, informação sobre rumos mais seguros. Quantos nem mesmo buscam algum tipo de comunhão em sites e redes sociais de evangélicos? Os que perderam a fé?

Os hoje feridos de morte? Os para sempre NÃO PRATICANTES? Todos são vítimas das práticas predatórias de uma porção cada vez mais significativa da igreja onde as ovelhas são cuidadas por lobos. Estes irmãos feridos e afastados hoje estão vivendo a mornidão da sua fé.


Almas sobre as quais iremos dar conta um dia. Estamos desafiando um Deus Santo!

Há algum consolo? Claro que há. Ao menos 4,7% declararam que deixaram a Igreja (não tendo adotado nenhum outro modelo de comunhão), contudo não desistiram de Jesus.

E mais: Se considerarmos as respostas destes irmãos (AFASTADOS, DESVIADOS, ETC.) não seria de se perguntar o que fazem eles, em tão grande número, em um site cristão? Eu quero crer que mesmo contra as suas declarações, o AMOR por Jesus está presente, mesmo no caso dos que se declaram ateus. O que há nestes casos é uma grande ferida que precisa de bálsamo.

Os sites e blogs apologéticos apontam as feridas da Igreja, os absurdos. Contudo, também tratam da Glória de Deus. E também de teologia, evangelismo, missões, prática cristã, humor cristão e muito mais. São todos assuntos que interessam a quem está na Igreja e a quem não está, mas ama a Cristo. E, vendo por este lado, faz até muito sentido que os irmãos que estão feridos sintam-se atraídos por sites que tratam das “armadilhas” da Igreja moderna de forma direta e sem hipocrisia. Os sites apologéticos tratam dos bandidos e de suas armas, que um dia foram usadas para ferir estes irmãos. Rever o processo do engano e perceber que há o “lado A” deste disco horripilante é consolo e incentivo.

Os blogs e sites apologéticos cresceram muito nestes dois últimos anos, na proporção do aumento dos feridos nesta guerra entre a sã doutrina e a heresia. Contudo, ao contrário de reafirmar a decepção e aumentar a ferida, o que vemos, e constatamos, na pesquisa por e-mail, é que os blogs apologéticos têm ajudado na cura das pessoas. Muitos buscaram outras denominações (com doutrina mais ortodoxa fundamentada na Palavra) ou mesmo igrejas em suas denominações atuais onde a Palavra é o centro e não há lugar para o espetáculo e a profetada. Enfim, onde não se coloca da boca de Deus promessas que nunca foram feitas. Desta forma, muitos irmãos voltam à comunhão.

Os blogs apologéticos servem para expor a ferida, rir da ferida (no nosso caso em especial), indicar o que é bom. Muitos irmãos decepcionados achavam que Igreja era aquilo que viviam no G12, MIR12, na fogueira santa de Israel, nas doutrinas de apóstolos empresários, nos moveres e atos proféticos, nas sementes e unções financeiras, e outros negócios gospel.

Outros tantos entenderam que não foi a sua vida de pecado, ou sua falta de fé que os relegaram a uma vida de decepção e ausência de conquistas. Pode-se dizer, os blogs apologéticos funcionam como vacina, inoculam a praga para propiciar a benção bereana. No primeiro momento o irmão machucado entra, sente raiva do que vê, responde com um chavão do tipo “não toque no ungido”, mas lê. Com o tempo entende o sentido de tudo. Abre os olhos (alguns nos esculacham bastante antes, claro. Risos).

Se alguns irmãos após um período sabático retornam à igreja, desta vez em busca de uma comunhão mais sadia, muitos outros seguem afastados e inalcançados.

Há muito a perguntar. Eu perguntei algumas coisas. Enviei e-mail para alguns respondentes (nestes casos, já sem valor estatístico) deste grupo de irmãos desigrejados.

Mas afinal, quem são os desigrejados?

Desigrejado não é desviado. O desigrejado se afastou do modelo ortodoxo de comunhão (igreja denominacional) e não aderiu a nenhum outro modelo heterodoxo, seja células, igreja em casa, ou ainda comunidades e novos modelos (tipo aqueles que estão reinventando o modelo tradicional de Igreja, depois de tê-lo desconstruído, risos.). O desigrejado tão pouco se desviou de Cristo, tão somente de sua comunidade, não aderindo a nenhuma outra.

E os desviados?

O desviado simplesmente desviou-se da fé. Pode-se presumir que os irmãos que se declaram SEM RELIGIÃO sejam desviados, afinal estão em um site cristão, mas isto não é certo. A maioria dos desviados, seja por feridas adquiridas na igreja, decisão própria ou qualquer outro motivo, está longe da comunhão e, quase certamente, não buscam mídias eletivas de conteúdo cristão.

Na prática, o desigrejado poderia seguir imitando a Cristo, portando sendo cristão, não fosse um pequeno detalhe, risos: Como ser cristão sem o “outro”? Sem a comunhão?  Sem o culto ao Pai, o louvor? O discipulado? Creio ser muito difícil, mas a questão é nevrálgica. Obvia para mim, mas não para todos. Deixemos o tema para outra oportunidade. O que nos interessa é tentar lançar bases para outros esforços. Penso que devemos olhar esta multidão de irmãos afastados da comunhão, a maioria esfriando na fé (feridos, machucados) e, no entanto, buscando a Cristo e algum tipo de comunhão, em sites e blogs apologéticos como uma oportunidade de:

• Reflexão sobre erros cometidos no apascentar das ovelhas, se somos líderes, pastores, bispos, etc.

 Consideração destas doutrinas antropocêntricas, em especial a confissão positiva, que é maligna, pois é uma fábrica de desilusões, desvia a atenção da Cruz para causas mundanas e ainda transforma questões normais da vida em sentimento de inadequação sério, ou desilusão com o Espiritual.

• Reflexão sobre a forma como orientamos o ambiente da comunidade, em especial, se incentivamos o amor entre os membros ou a competitividade.

• Consideração sobre as bases na Palavra que estão sendo dadas aos membros, sem as quais os mesmos ficam sujeitos a ventos de doutrinam ou a fraqueza na tribulação, pois desconhecem as promessas que podem lhes confortar.

• Repensar os modelos de comunhão à luz da tecnologia de informação.

• Pensar no papel crucial da Escola Bíblica Dominical. Seria este o ministério mais importante da sua comunidade, ou a EBD perde fácil em popularidade para o ministério da cantina, do louvor, social, etc.?

• Reflexão e planejamento na direção de trazer estes irmãos para a comunhão.

• Reflexão sobre o caráter profético da nossa missão na internet cristã, lembrando que devemos sempre de nos manter no espirito de Jeremias 1:

Olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares.

- Tudo com muita urgência.


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"Um Dia Feliz às Vezes é Muito Raro"


O escritor Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires e tornou-se um nome reconhecido mundialmente pelos seus escritos e poesias. Dentre seus textos maravilhosos, quero retirar fragmentos de um deles, talvez um dos mais conhecidos, que é “Instantes”. O texto ganha contornos mais fortes quando sabemos que foi escrito em 1986, na Suíça, quando o autor tinha 85 anos e já estava cego há 30.

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser perfeito; relaxaria mais. Seria mais tolo do que tenho sido; na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvetes... teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida... Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora... Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua... e brincaria com mais crianças.. Mas vejam, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...”.

Agora desejo trazer-lhe uma pequena porção das Escrituras, Eclesiastes capítulo 12: “Sim, lembre-se dele, antes que se rompa o cordão de prata, ou se quebre a taça de ouro; antes que o cântaro se despedace junto à fonte, a roda se quebre junto ao poço”. Você deve conhecê-lo. Ele trata da velhice, de lembrar de Deus enquanto “ainda se pode achar” como bem disse Isaías, pois virão tempos em que diremos “não tenho neles prazer”. Sua beleza, para mim, está nas profundas e delicadas alegorias que o autor usa para falar da velhice e faz isso sem ser rude e sem, contudo, mascarar absolutamente nada.

Não sei sei você sabe, mas estamos vivendo num país que envelheceu. Segundo dados do IBGE, “O país caminha velozmente rumo a um perfil demográfico cada vez mais envelhecido. Em 2008, para cada grupo de 100 crianças de 0 a 14 anos existem 24,7 idosos de 65 anos ou mais. Em 2050, o quadro muda e para cada 100 crianças de 0 a 14 anos existirão 172, 7 idosos”. Entre nós, todavia, há uma sensível diferença em relação às outras nações: nossos velhos são vistos como um problema, tratados sem humanidade, sem respeito, sem dignidade. Isso é facilmente observado desde a prestação de serviços públicos, dos mais essenciais, aos cuidados e acolhida dos familiares. Para lidar com o “problema”, asilos foram criados, melhor seria dizer, depósitos humanos, casas de “misericórdia” para abrigar aqueles que chegaram a estação outonal da existência. Triste destino terá os quem forem, um dia, parar num deles...

O versículo que citei acima possui diversas interpretações exegéticas. A minha, todavia, é para o hoje, é mais poesia e filosofia do que teologia. Talvez lhe sirva... Há quatro elementos citados que representam as estações da existência. O cordão de prata retrata a idade da adolescência, é o presente de 15 anos, que serve não só para adornar o pescoço da criança, que está virando mulher, mas também para mostrar-nos que neste tempo da vida tudo é beleza, alegria e felicidade. A taça de ouro é a estação das comemorações e conquistas; é o casamento, a formatura, o primeiro emprego, o primeiro carro, a primeira casa, tempo de celebração, de festa, de champagne! O cântaro fala da vida adulta, da rotina de “ir à fonte”, ou seja, da necessidade de subsistência, do trabalho, das responsabilidades, das contas a pagar, das crises relacionais – com o cônjuge, os filhos. Finalmente, a roda de moinho, aquela que, envelhecida, se desfaz junto ao poço. É a mesmice final da existência, a roda que gira, mas não pode mais sair do lugar, que realiza o seu círculo em torno de seu próprio eixo, que cumpre a ingrata rotina, todos os dias, e que parece apenas esperar o fim chegar.

Tenho uma avó com 95 anos de idade. Vejo-a pouco, pois a vida que vivo, ou que não vivo, não me permite visitá-la com freqüência. Contudo, cada vez que a encontro, tenho a sensação de que seus dias estão se acabando, agora, mais rapidamente do que antes. Mas há uma sensação boa quanto estou com ela: é que eu percebo que aquele dia, um dia raro, mesmo que o tempo que permaneça lá seja pouco, transforma-se num dia feliz...

Eu sei que muito em breve estarei velho também. Sinto os sinais no corpo, que não reage mais como antes. Algumas enfermidades próprias da idade atual, 44 anos já chegaram. Preciso de óculos para ler, tomo remédio para pressão, durmo menos, vivo mais tenso, reflexivo, solitário. Por isso, estou aproveitando os anos que ainda me restam para fazer aquilo que Jorge Luís Borges recomendou... Não quero terminar meus dias nem com os seus “recalques”, nem com a melancolia do filósofo do Eclesiastes. Será que conseguirei?...

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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