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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

14 dezembro 2010

Você Está Disposto a Dizer Sim ao Não de Deus?


Na vida, a gente acaba colecionando mais o erro do que o acerto, mais a tristeza do que a alegria, mais a queda do que a conquista, mais o não do que o sim. Saudosista que sou, acabei lembrando que, antes de compreender estas verdades, tinha dificuldades com o texto de Eclesiastes que diz “melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração.

Creia-me, não há nenhum masoquismo sádico na frase do filósofo. Trata-se apenas da constatação de que o sofrimento e a dor podem, em certas circunstâncias, produzir algo de bom para a vida. De fato, nunca vi nenhum empresário sentar-se introspectivo para analisar o porquê do sucesso de um grande negócio. Mas tenho visto alguns que assim o fazem quando suas empresas vão a banca rota. Não tenho encontrado pessoas quebrantadas em lugares festivos, mas percebo-as cabisbaixas em funerais ou em visitas a doentes terminais.  

É muito difícil encontrar o riso fácil na vida de uma mulher solitária ou mesmo o entusiasmo num quarentão desempregado. No fundo, a vida é feita mais de não do que sim, e isto, tenha certeza, pode produzir valor e significado a existência. Mas esta não é uma mensagem para os nossos dias, sobretudo nos círculos religiosos. A teologia da prosperidade está aí para contradizer tudo isto que eu estou pregando. Ninguém está disposto a dizer que a dor, a dificuldade, o fracasso e até a solidão podem produzir frutos extraordinários para a consciência das pessoas de tal forma a materializar no caminho um proceder diferente.

As Igrejas do nosso país estão cada vez mais amontoadas de gente em busca de um “deus” que só diga sim. Ligo a televisão e fico estupefato com as loucuras que estão sendo pregadas nos canais ditos “evangélicos”. Em termos de literatura a desgraça não é menor. Livros com aberrações doutrinárias estão aí sendo vendidos aos milhares com promessas calcadas no trinômio: vitória, sucesso e felicidade.

Mas a nossa realidade existencial é outra. Temos vivido num país onde tudo é muito precário e difícil. As pessoas pobres desta nação há muito não vivem mais, apenas empurram os dias para frente desafiando a sorte e a morte. Elas não moram com dignidade, não possuem assistência médica, não se sentem seguras, não tem acesso à educação, o crédito é concedido a taxas de juros escandalosas... Onde está então a prosperidade? Eu lhes digo: nas contas bancárias dos “bispos”, “pastores”, “apóstolos” e outros feiticeiros do sagrado!

Diante de tantos problemas, de tantos “nãos”, fica fácil entender porque as pessoas estão correndo para estas “fábricas de ilusões”, para estes lugares de engano e estelionato. Por isso, encham-se os salões, os galpões e os palácios eclesiásticos. Digam ao povo o que o povo quer ouvir! A verdadeira mensagem caducou, foi superada, caiu no desuso pela falta de “resultados”. O “evangelho” de hoje, que desgraça, não é o da graça, pois tem preço, não é “de graça”. Quem paga mais leva, e todo mundo fica feliz. A lógica  perversa do “capitalismo eclesiástico” é a seguinte: o povo quer “consumir” e os “sacerdotes” querem “vender”. E Deus? Ora, Deus parece estar disposto a fazer qualquer coisa para manter o “mercado da fé” aquecido e, desta forma, nem se importa de distribuir um milagre aqui e outro acolá.

Diante de tudo isso, quero apenas lhe fazer uma pergunta: você está disposto a dizer sim ao não de Deus? Você está disposto a mudar planos já concebidos, adiar projetos pré-aprovados, desviar por rotas inusitadas, cancelar o negócio, desfazer a compra, terminar o relacionamento, suspender a viagem, dar ouvido a consciência, desprezar as emoções, submeter-se às Escrituras? Deus é Deus de sim, e Paulo diz que “em todas as suas promessas existe o sim”. Mas, saiba: Deus também é Deus de não!

Eu creio que há, pelo menos, 3 situações na vida em que Deus diz não. Vou utilizar o texto de Hebreus 12 para me ajudar na construção hermenêutica do meu raciocínio. Assim, fica a pergunta: Quando é que Deus diz não?

Em primeiro lugar, Deus diz não quando eu estou disposto a obedecer a qualquer custo. Hb. 12:5 “...filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado;”. Ora, isso faz todo o sentido, pois, se eu não estou disposto a obedecer, pouco importa aquilo que Deus está dizendo! Jean Paul Sartre afirma: “é sempre fácil obedecer quando se sonha comandar”. Se eu é que comando a minha própria vida, que importa o que Deus diz, pensa, sente, ou sonha a meu respeito?

A verdade é que nossa geração é atrelada a resultados, pois somos “medidos” por aquilo que realizamos; temos metas, métricas, objetivos, números a alcançar, custos a reduzir, lucros a aumentar. Forjados sob esta mentalidade capitalista, imaginamos que Deus também está em busca de produtividade. “Quantas pessoas você ganhou este mês para Jesus? De quantos cultos participou? Quanto deu de oferta? Em quais ministérios este envolvido?”. E por aí vai... É uma lógica atrelada à produção, não a adoração! Disse o profeta Samuel ao Rei Saul: “acaso tem o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifício quanto a que se obedeça a Sua palavra?” E concluiu: “o obedecer é melhor do que o sacrificar”.

Sabe o que quer dizer isto? Que Deus não está medindo o quanto você faz, mas o porquê você faz. Ele não está contabilizando as suas ações, mas as suas intenções. Ele não está somando o seu esforço, a sua produtividade, mas a sua capacidade de se ajustar a Sua vontade a partir de uma ressignificação de sua consciência, de uma mudança de mentalidade – da “igreja-fábrica”, com vários “executivos dando ordens e exigindo metas, para a igreja-Corpo de Cristo, onde apenas o Senhor dá as ordens, pois Ele é o cabeça da Igreja.       

Em segundo lugar, Deus diz não quando as circunstâncias não vão produzir bem e paz para a minha alma. Hb. 12:10 “pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade”. Lembrei de Balzac: “os acontecimentos são assuntos que nossas almas convertem em tragédia ou em comédia”. Se aprendermos a confiar, saberemos que mesmo a tragédia pode se converter em festa, pois “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.

É fato que desde nossa infância nossos pais nos corrigem e nos ensinam aquilo que julgam ser o melhor para nós. Mas nem sempre aquilo que eles avaliam ser o melhor é, de fato, o melhor. Já com Deus, é diferente. Deus não se dobra aos nossos caprichos; Deus não se comove com nossos choramingos; Deus não se deixa influenciar por nossas chantagens. Ele sabe o que é melhor, pois está vendo o “quadro” por completo, enquanto nós temos apenas parte da visão. É por isso que o profeta Isaías diz: “os meus pensamentos são mais altos que os vossos pensamentos”.

É muito bom para mim saber que Deus conspira o tempo todo para me fazer o bem. Lembro de Habacuque: “mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação”, ou seja, mesmo que tudo dê errado, e que a lógica se transforme em loucura, que a razão se dessignifique e que a esperança sucumba, ainda assim, tenho convicção que há Deus no céu, e que Ele me ama e fará o melhor a meu respeito!

Finalmente, Deus diz não quando os meus caminhos estão em desacordo com os dEle. Hb. 12:13 “e fazei caminhos retos para os pés, para que não se extravie o que é manco; antes, seja curado”. Tenho visto como as pessoas buscam andar por seus próprios caminhos. Elas fazem seus planos, traçam suas metas, fazem suas escolhas, investem recursos, e, ao final de tudo, raramente, perguntam a Deus: “o que você acha disso?”. Por isso tanto desencontro, tanta separação, tantos negócios falidos, tanta dor, tanto desespero, tanta aflição de alma, tanta angústia, pois, conforme Isaías, “os meus caminhos não são os vossos caminhos...”.   

Mas quem quer mesmo ouvir o que Deus tem a dizer? Quem está disposto a fazer a Sua vontade? Jesus afirma: “aquele que tem os meus mandamentos e os guarda este é o que me ama...”. As pessoas me perguntam: “pastor, como faço para saber a vontade de Deus?”. E eu lhes pergunto: “você está mesmo disposta a fazer o que Ele mandar?”.

Deus fala de formas diferentes com cada um de nós. Usa a Sua Palavra, fala em nosso coração pelo Seu Espírito, usa pessoas próximas as nós, circunstâncias, Sua própria criação, mas quando não queremos obedecer, temos de nos render a citação do grande Heráclito “o caminho para cima e o caminho para baixo são sempre os mesmos”. É que não raro, nem mesmo a combinação de todas estas coisas elencadas é suficiente para nos demover de algo que queremos realizar. Nestas situações, tenho visto, o resultado final é sempre trágico. E o pior é que nós ainda temos a petulância de dizer: “mas Senhor, eu orei tanto por isso”. Aí, digo eu: durmam os pastores com um “barulho” desse...

Carlos Moreira

13 dezembro 2010

Mentiras Vivas


Passeando pela internet vi as fotos de uma garota conhecida. Nas fotografias ela aparecia ao lado do noivo em muitas situações e lugares diferentes.


Eram fotos tiradas na praia, em casa, nas praças e etc. Logo abaixo de cada foto uma frase curta de cunho altamente romântico tentava resumir o sentimento associado às imagens.


Uma das frases, com um clichê insuportável, dizia assim: “meu eterno amor, não sou nada sem você”. Outra dizia ainda: “Te amo, razão da minha vida”. Quanto romantismo; o amor é lindo!


Era isso que eu poderia ser levado a pensar se eu não conhecesse a garota mencionada e não soubesse que ele trai o noivo com um conhecido meu. Aliás, o noivo dela está com um semblante de quem carrega um peso nas costas, quero dizer, na cabeça!


A minha avó já dizia que a mentira tem pernas curtas. Ela estava certa, mas o seu raciocínio estava incompleto, pois a mentira, além das pernas curtas, tem também braços, noivo e endereço no Orkut.


Algumas pessoas não passam de mentiras que possuem CPF e número de identidade. Elas são mentiras que vestem roupas, vão ao cinema, freqüentam escolas, faculdades e se passam por seres humanos.


O que me preocupa nisso tudo é que agora a mentira é regra e não mais exceção. Se antes as pessoas mentiam para viver, hoje em dia elas vivem para mentir. O mundo está doente e a mentira é o seu principal sintoma!


Não quero me iludir quanto ao ser humano, acredito que todo mundo (inclusive eu) já mentiu em alguma situação. Entretanto, mentir descaradamente e compulsivamente envolvendo o sentimento alheio é sinal de enfermidade psíquica e espiritual.


Pessoas mentirosas são seres infelizes que precisam ser tratados por especialistas. A mentira é uma forma doentia de fugir de uma realidade indesejada criando uma ilusão que é um mecanismo já de antemão fadado ao fracasso.


O mentiroso é alguém em fuga, é um indivíduo tentando escapar de si mesmo e da sua própria miséria. A pessoa mentirosa está construindo com cada mentira um edifício sobre bases frágeis que mais cedo ou mais tarde desabará sobre ela.


Vencer a mentira, eis aí o primeiro passo a ser dado por quem quer viver uma existência autêntica. “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, ensinou Jesus Cristo ao mundo mentiroso de sua época.

André Pessoa via Século XXI

10 dezembro 2010

Wilson, Deus e Eu


O filme “O Náufrago” foi sem dúvida um dos melhores a que assisti em minha vida. Chuck Noland, um engenheiro de sistemas da Fedex, ao realizar uma viagem de rotina, sofre um acidente de avião e se vê abandonado numa ilha remota como único sobrevivente do desastre.

Na história impressionante de Robert Zemeckis interpretada pelo ator Tom Hanks, Chuck tem de sobreviver a qualquer custo, pois está privado de todas as regalias da vida contemporânea, tendo consigo apenas alguns poucos destroços do avião que foram parar na praia. Seu único consolo é a foto da mulher que ama, que carrega dentro de um pequeno colar que recebera momentos antes de viajar.

A película trata de um tema muito relevante, que é a necessidade do ser humano, como ser social, acostumado a relacionar-se e manter interações intensas com pessoas, de repente, vê-se isolado de tudo e de todos.

Esse é o drama de Chuck. Na sua ânsia de comunicar-se para não enveredar por um estágio de loucura, ele dá vida a um personagem inusitado, a bola de voleibol da marca Wilson, que se transforma em seu amigo homônimo. A bola ganha feições humanas ao ter o couro pintado com o sangue do próprio Chuck, que se fere ao tentar criar apetrechos para sua sobrevivência.

No fundo, o personagem sabe que fala e interage com uma bola de voleibol, mas faz isso para aplacar o desespero, a solidão e até a perda da razão. Na verdade, a bola passa a ser parte do próprio “eu” de Chuck, pois, não raro, questiona-o, re-prime-o, critica-o, como se fosse uma projeção de sua própria consciência.

De todas as cenas do filme, uma, em particular, me marcou. É o momento em que Chuck, após construir uma jangada, consegue escapar da ilha em busca do alto-mar e da possibilidade de ser resgatado por um navio. Dias a fio sob o sol, cansado, desidratado, no final de suas forças, ele acorda e vê que Wilson havia se soltado da balsa e, empurrado pela correnteza, estava se afastando.

Sem detença, Chuck pula ao mar e tenta ir ao encontro do “amigo” para resgatá-lo, mas acaba tendo de optar entre salvá-lo ou manter a balsa, sua única chance de sobrevivência.

É aí que, em determinado momento, chorando muito, ele cai em si e vê que o que está tentando fazer é algo insano. Dessa forma, desiste de Wilson e volta à balsa. O que se vê em seguida é um homem totalmente arrasado, como se tivesse perdido alguém da família, repetindo na sua angústia e no desespero que a solidão lhe trouxera, a frase: “Desculpe, Wilson, desculpe...”.

“Mas o que para mim era lucro, passei a considerar perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo”. Fp 3:7-8.

Se há uma coisa importante que devemos logo aprender na vida cristã é que ela é feita de perdas. O próprio Jesus disse: “Quem perder a sua vida por amor a mim, ganhá-la-á”.

Infelizmente, essa é uma das frases mais mal interpretadas do Novo Testamento, saindo, não raro, da perspectiva do Evangelho, e adentrando nas correntes filosóficas estoica, cética e epicurista, que se baseiam na ataraxia, uma forma de mortificação do eu, das emoções e sensações.

Em absoluto, todavia, era essa a proposta de Jesus, pois o que Ele oferece é o abandono total da religião que, privilegiando o esforço próprio e meritório, anula a rendição que pacifica a mente e o ser mediante a graça de Deus, que já realizou tudo – Tetelestai (está pago) – e isso para todo aquele que crer.

O texto citado acima, da carta aos Filipenses, foi escrito em condições especiais. A igreja na cidade de Filipos havia sido plantada por Paulo, conforme Atos 16:9-12. Anos mais tarde, essa comunidade havia crescido e se fortalecido, o que trouxe muitas alegrias ao coração do apóstolo.

Escrita quando ele estava na prisão em Roma, manifesta o seu gozo pelo que Deus está ali realizando. Por isso a citação dos versos 7 e 8 ganham contornos muito mais profundos...

Perder parece ser condição sine qua non para todo aquele que deseja “ganhar” na vida. Ludwig Borne, jornalista alemão do século XIX, afirma: “Perder uma ilusão torna-nos mais sábios do que encontrar uma verdade”. Frase intrigante... sobretudo se contrastada com o que diz a psicanalista Judith Viorst, pesquisadora do Instituto Psicanalítico de Washington, autora do livro “Perdas Necessárias”, que afirma que, “ao fazermos a escolha por um caminho, deixamos implícitas duas decisões, uma ligada ao ganho do caminho escolhido e outra ligada à perda daquele caminho que deixamos para trás. E assim vamos, ao longo de cada dia ganhando e perdendo”.

E ela continua: “A experiência da perda carrega consigo o fim de um ciclo e o início de um novo caminhar. Desta forma, a capacidade de poder viver a perda como uma oportunidade, mesmo que sofrida, faz de nós pessoas melhores e maduras”.

Em suas últimas linhas do livro, a pesquisadora revela como é fundamental para o ser humano elucidar a própria compreensão desses processos de perda. Ela afirma que precisamos: “Compreender que a perda está implícita ao direito e à capacidade de estar vivo”.

Todos nós, mais cedo ou mais tarde, teremos um Wilson em nossas vidas que precisará ser abando-nado. Ele poderá, existencialmente, assumir muitos matizes; quem sabe, será o abandono de um amor impossível, platônico, mas que precisa ser deixado para ser levado pela “correnteza” da vida. Ou, tal-vez, seu “Wilson” seja um projeto pelo qual você trabalhou toda a vida, mas que, racionalmente falando, não tem como se desdobrar em algo viável.

Pode ser ainda uma amizade que se dessignificou, pois perdeu o sentido e o propósito. Quem sabe assuma os contornos de um sonho acalentado desde a infância, mas que diante da realidade crua da vida adulta não é mais viável. Também pode ser o abandono de um emprego, de uma cidade, até mesmo de uma igreja, do convívio de gente com quem você caminhou toda a vida, mas agora o destino lhe chama a outras paragens.

Wilson pode assumir qualquer forma ou até mesmo tomar o lugar de uma pessoa. Por vezes ele é a necessidade de superarmos uma separação profundamente dolorosa, virarmos a página, começarmos de novo.

Em outros casos, é a necessidade de sermos pragmáticos para podermos esquecer a perda de alguém que amávamos e que a morte levou em direção à Vida. Wilson, às vezes, aparece em situações extremas como, por exemplo, em crises financeiras, em que é necessário nos desfazermos de coisas que amamos e que conquistamos com grande esforço e renúncias. Seja como for, cedo ou tarde, teremos em nossas vidas um Wilson e, irremediavelmente, seremos levados a fazer uma escolha.

Para mim, a lição mais importante do filme “O Náufrago” é mostrar que o ser humano, mesmo perdido em meio a dúvidas e medos, precisa continuar a viver, afinal, a própria vida – simbolicamente identificada no filme como a maré – é capaz de nos surpreender, trazendo sempre algo totalmente novo a cada dia que amanhece.


Carlos Moreira

07 dezembro 2010

10 Homens e 1 Destino


... E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos...”. Lc. 17: 12

Não escolhemos a forma do nosso destino, mas podemos dar-lhe conteúdo”. A frase de Dag Hammarkskjod me fez lembrar deste texto de Lucas citado acima.
Trata-se da história dos 10 leprosos que foram purificados por Jesus. Um texto curto, simples, que pode passar despercebido numa leitura rápida sem que se percebam os “tesouros” nele escondidos.

Nestes últimos dias tenho pensado muito sobre o destino... Teologicamente falando, nem sou calvinista nem arminiano. Sirvo-me de algumas idéias de ambos, mas acho-me totalmente livre para interpretar os textos conforme a leveza e a simplicidade do Espírito, pois não gosto de nada commoditizado. E é olhando desta forma que encontro neste texto de Lucas 2 lições preciosas para a vida, sobretudo para aqueles que estão a caminho, no caminho, caminhando. Por isso, gostaria de compartilhá-las com você.

E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia” v. 11. A primeira vista, parece uma citação de caráter geográfico, que tem como objetivo único situar o leitor no tempo e espaço. Minha percepção, todavia, é que a passagem oferece conteúdo fenomenológico, aquele abordado na teoria do filósofo Husserl. Na prática, a fenomenologia é uma investigação sobre a consciência geral, comum a todos os sujeitos cognitivos e que chega, através da redução fenomenológica, a essência de um determinado fenômeno.

Para mim, é característico que, no caminho do sagrado – “Jerusalém” – sempre se tenha que passar entre Samaria e a Galiléia. Historicamente e culturalmente, estas províncias têm significados que se projetam para além de suas realidades materiais, e, desta forma, acabam por representar arquétipos existenciais.

A Galiléia do tempo de Jesus era a terra da aflição, do paganismo, do esvaziamento do ser, da vida dessignificada, do povo que “jazia em trevas”, da existência que ainda não encontrara um propósito. Historicamente era menosprezada porque esteve durante aproximadamente 50 anos sob o governo da Fenícia. Com isso, acabou por desenvolver uma diversidade cultural e religiosa que apresentava costumes pagãos. Era a terra dos “gentios”, daqueles considerados estranhos e alheios as leis e preceitos dos judeus.

Samaria, por sua vez, tinha outra significação histórica. Sua população representava cerca de 15% dos habitantes da Palestina e eles eram descendentes diretos da nação que se estabeleceu no norte da região, após a deportação das dez tribos de Israel. Apesar desses gentios terem aceitado a religião judaica, na prática, criaram uma nova religião, inclusive com um templo próprio e, assim, sincretizaram elementos hebraicos com costumes pagãos. Por esse motivo, os judeus os consideravam um povo impuro.

Pois bem, eis aí a representação histórico-arquetípica para todo aquele que quer andar na dimensão do sagrado: harmonizar a convivência entre os que estão na região da sombra da morte, sem entendimento da vida, sem propósito ou significação existencial – tal qual os da Galiléia – e também com os que simbiotizaram uma religião e um deus feito para suas conveniências, misturando no mesmo “caldo sócio-religioso” elementos do zeitgeist (espírito do tempo) – assim como os samaritanos. Ser luz em meio a estas “trevas” é o desafio que nos cabe, acolhendo o diferente, amando o excluído, aceitando aquele que não pensa igual a nós, não tem o nosso “pedigree”, mas que precisa transcender, encontrar-se com o “totalmente outro”.

Nossa desgraça é a nossa alienação. É a falta de percepção destes dois pólos, destes dois “mundos”, destes dois “povos”. Nós vivemos como se o “outro” não existisse, pois nossa fé tornou-se religião de gueto, nossos credos e dogmas só afastam as pessoas, nossos encontros são para gente igual à gente, nunca para o diferente. Mas Jesus ensina que é preciso “trafegar” entre Samaria e a Galiléia, pois é lá aonde estão os famintos de Deus, os miseráveis de alma, os quebrantados de coração, os desejosos de justiça, os sedentos de esperança.

E Jesus, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz; E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano”.

De fato, “o caminho se faz caminhando”. Lembro de Isaías: “então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti...”. Ele fala da espiritualidade que agrada a Deus. 10 homens leprosos receberam uma ordem de Jesus: “vão se apresentar ao sacerdote”. Era o que mandava a Lei de Moisés. Mas Jesus era maior do que a Lei, do que Moisés e de que o sacerdote, pois seu sacerdócio era segundo a ordem de Melquisedeque – sem princípio e sem fim. E assim, de repente, no meio da jornada, a cura se estabelece e a lepra, simplesmente, desaparece.

Quero lhe dizer algo: a “cura” sempre se materializa no caminho, pois é no pó da estrada que a existência ganha significado. Por isso o salmista diz que os que semeiam em meio a lágrimas colheram com alegria, pois a dor, a perda, o medo, a angústia, estes matizes que se manifestam nas estações próprias de cada existência é que fazem em nós aquilo que pode nos tornar pessoas melhores. A dor é o adubo por excelência para a alma, pois ela é capaz de tornar triste o rosto, mas fazer melhor o coração.

10 homens caminhavam no caminho. Todos iam na direção do sacerdote, da Lei. Ao se apresentarem tinham de ser examinados, perscrutados, interrogados. Depois vinham as “prescrições legais”; o afastamento e o isolamento por uma semana para que pudessem retornar e ser reavaliados. Era a segregação, a discriminação, o banimento, a acepção, coisas da velha religião. Só cumprido os “requerimentos litúrgicos”, era que a pessoa poderia ser decretada “limpa”. Mas a cura de Jesus se deu no caminho, sem prescrições, sem liturgias, sem intermediações, sem leis ou ditames, tudo de forma simples, como simples é o caminhar daqueles que, com coração pacificado pela graça, andam em paz com Deus e com seus semelhantes.

9 homens seguiram para os enquadramentos da Lei, para as bulas sacerdotais, para as fórmulas do sagrado. Mas apenas 1 homem notou que sua cura não dependia de nada mais daquilo, apenas do fato dele crer que aquEle que lhe dera a Palavra era poderoso para garantir-lhe a salvação. Voltou sem detença. Abandonou os ditames, as convenções, as crendices, correu de volta ao lugar onde encontrara o Nazareno e, vendo-o novamente, lançou-se aos seus pés. Curioso, entre tudo, é que este homem era o expurgado, o rejeitado, o discriminado, aquele de quem nada se espera, pois além de leproso, era samaritano. E Jesus o abraçou e o recebeu com reverência pela sua vida e com respeito pela sua alma:  “Apenas este estrangeiro voltou para dar glória a Deus”. 

10 homens e 1 destino. 9 seguiram no curso da religião, das prescrições, das “correntes”, das “mandingas” do sagrado, das doutrinas humanas, dos preceitos caducos da letra morta, da intermediação dos “feiticeiros sacerdotais”. Mas um homem mudou o seu destino porque entendeu que o justo vive pela sua fé. E foi isso que Jesus lhe disse: “vai, a tua fé te salvou”. Vai, anda pela vida, livre, leve, solto, semeando o bem, colhendo a paz, amando o teu semelhante, acolhendo ao necessitado, adorando a Deus.

E você, o que deseja? Quer também mudar o seu destino? 


Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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