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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

12 agosto 2009

Vem e Vê!


Para mim, Deus tem um estranho e maravilhoso senso de humor. Não raro, faz escolhas surpreendentes e toma decisões desconcertantes. Digo isto depois ter me debruçado durante anos sobre as Escrituras vendo nelas fatos curiosos e, por vezes, bizarros, punk mesmo! Pareço radical? Então veja a seguir uma “pitada” do que afirmei.

Deus fez a um homem amortecido pela idade, Abraão, casado com uma mulher estéril, a promessa de que seria pai de uma grande nação. Humor negro? Depois disto, apaixonou-se inexplicavelmente por Jacó, um trambiqueiro sem-vergonha, e aborreceu-se de seu irmão, Esaú, que, diga-se de passagem, era o primogênito. Não satisfeito com tudo isto, chamou Moisés, com nada menos que 80 anos, aposentado e palitando os dentes, criando galinha e cortando as unhas dos pés, para enfrentar o poderoso Faraó do Egito e ser protagonista da maior jornada do povo Hebreu. Aí Aquietou-se um pouco mas, logo em seguida, teve outra “inspiração”: mandou o profeta Samuel ungir como Rei de Israel, Davi, um menino franzino e de boa aparência que cuidava das ovelhas do pai no campo.

Jesus também não ficou a dever. Subverteu toda a lógica humana! De cara, chamou Mateus, um publicano, com todas as implicações inerentes, para fazer parte de sua “equipe ministerial”. Ao visitar a região de Gedara, transformou um endemoninhado num pregador do Evangelho. Em Cafarnaum afirmou que o Centurião Romano, que estava com o servo adoentado, tinha mais fé do que toda a moçada da religião de Israel e, de outra feita, falando por parábola, disse que o Samaritano era o único que, indo pelo caminho, construía um caminho com Deus.

A verdade é que o “Totalmente Outro” não parece estar preocupado com aquilo que as pessoas são, mas, com o que elas podem vir a ser. Ao contrário de nós, que sempre focamos na aparência, nas potencialidades, no currículo, no “pedigree espiritual”, Deus foca no coração, no que está encoberto aos olhos naturais.

Assim foi com Abraão, que creu que podia ser um patriarca mesmo contra todas as evidências. O mesmo se deu com Jacó, que subornou Esaú e mentiu para Isaque, pois entendia que a primogenitura era algo decisivo na vida. Não foi diferente com Moisés, que superou as limitações pessoais e o comodismo e foi encarar 40 anos de deserto e 1 milhão de pessoas para gerir. Finalmente Davi, mesmo tendo adulterado e assassinado seu general, quando confrontado, não se esquivou de suas responsabilidades, mas arrependeu-se, por isso era um “homem segundo o coração de Deus”. Estou certo: Deus não nos vê como somos, mas, como poderemos vir a ser!

“Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê”. João 1:46.

Filipe havia visto Jesus pregar e fazer milagres. Seu coração havia se compungido e ele sentira que ali estava o Filho de Deus, o Messias esperado. Sua reação imediata foi correr e contar todos os fatos ao seu irmão Natanael. Este, ao ouvir o relato empolgado de Filipe, exclamou: “ô brother: daquela terrinha lá não sai coisa boa não!”. O estigma social, cultural e religioso já estava posto há gerações. A Galiléia não era um “celeiro de profetas”. Todos sabiam que aquela região nunca produzira algo significante na história do povo de Israel. Mas Deus tem um senso de humor extravagante! Imagino-o dando boas risadas nos céus dos céus e dizendo: “tolinhos... Posso fazer o bem e produzir o que é bom da maneira como bem entender. Não me importa os condicionamentos, a aparência, o previsível, a lógica, o óbvio, ou qualquer outra coisa.”...

Chegamos a você... Talvez uma pessoa cheia de conflitos, de medos, de inseguranças. Talvez tenha sempre uma desculpa para não ser quem Deus gostaria que você fosse. Quem sabe está se escondendo atrás de uma limitação pessoal, como Moisés, que era gago, ou talvez esteja um pouco passado da idade, como Abraão, sentindo-se cansado. Talvez seja muito imaturo, como Davi, e não queira assumir responsabilidades, ou ainda seja alguém como Jacó, com desvios de caráter. Não sei se você possui traumas familiares, ou marcas de violência, se está depressivo, pessimista ou melancólico. Quem sabe está desempregado, ou fracassou no casamento, se sinta inculto, ou feio, está endividado, mal resolvido, mal amado. No fundo, que importa quem você é! Importa, sim, quem Deus deseja que você possa vir a ser!

Como pastor tenho conversado com muitas pessoas. Vejo em suas faces todas as dores que a vida produziu, pois aprendi que as marcas marcam mais do que os marcos. Muitas delas estão definhando pela existência, arrastando um fardo insuportável. Sentem-se como se estivessem fadadas ao fracasso, vitimizadas por um karma irreparável.

Como um bom ouvinte, tenho tentado olhar para além daquilo que é perceptível... Por trás destas dores estão, não raro, as críticas mordazes de um pai irritadiço, ou o desprezo de uma mãe insensível. Certas “confissões” produzem um prejuízo incalculável à alma humana. Pessoas nestas circunstâncias acabam se projetando, como hologramas, para incorporarem aquilo que foi “profetizado”. “Você não vai ser ninguém”, diz o chefe. “Você não vai conseguir”, diz o marido. “Você não vai superar”, diz a “amiga”. E de dizer em dizer o ser vai se diluindo.

Existem também questões de outras naturezas. É a situação social, a cor da pele, o bairro onde se foi criado ou o colégio onde estudou. São fatores aparentemente limitantes, “karmas de prateleira”, desígnios supostamente insuperáveis do destino. Tudo bobagem! Todas estas coisas têm os seus pesos próprios e, sob determinadas circunstâncias, podem provocar estragos, não tenha dúvidas, mas quero hoje lhe afirmar, de forma categórica, que não será nada disto que determinará o teu caminho na existência.

Por isso, não importa quem você é, nem de onde veio, se tem estudo ou não, se é bonito ou feio, ou se tem algum problema físico. Não importa se não tem recursos, ou se nunca teve uma chance, não importa se já roubou, ou se já matou, ou se traiu, subornou, não importa nada disso, pois, se você desejar, do fundo do coração ser diferente, Deus pode lhe transformar em alguém que você jamais imaginou ser.

“Torna-te aquilo que és”. Nietzsche.

Você não foi criado para ser um desastre! Deus não te trouxe a existência para que você existisse sem significado ou propósito. Ele tem um projeto para você, algo pensado antes da fundação do mundo, por isso, mediante o Espírito de Deus, você pode tornar-se aquilo para o qual foi concebido.

Assim, desta perspectiva, os dramas da vida passam a ter novo significado, tornam-se como sementes plantadas no jardim da nossa história, pois visam, em última instância, nos fazer pessoas melhores, parecidas com Jesus.

Eu sei que isto é possível, pois foi assim comigo... Quando era criança, algumas pessoas diziam: “esse menino não vai dar para nada”. Durante muito tempo este fantasma me perseguiu, produzindo seus próprios estragos em minha alma. Mas um dia eu conheci a Jesus, e o que para mim parecia impossível, tornou-se realidade.

Hoje, depois de tudo o que experimentei, depois do que Ele fez em mim e está fazendo por meu intermédio, posso apenas afirmar, caso estas palavras lhe façam algum sentido: “Vem e Vê!”.

Sola Gratia!

Carlos Moreira

06 agosto 2009

Ilusão de Ética


Enquanto tento “digerir” os muitos escândalos associados tanto à política quanto à economia e gestão em nosso país, lembrei de algo que pode bem ilustrar a crise na qual estamos mergulhados.

Trata-se de um exemplo usado por George Moore, filósofo inglês da primeira metade do século XX, que buscou resolver, pela filosofia da linguagem, o “problema” do ceticismo cartesiano.

Moore afirmava que, se olhássemos fixamente para a cor laranja, por exemplo, e depois voltássemos nosso olhar para uma parede branca, a cor da parede pareceria ser esverdeada. Este fenômeno, denominado de pós-imagem, revela que os olhos enxergam outra cor por causa da “impregnação” que adveio do olhar fixo sobre outra tonalidade.

A experiência de Moore, que no fundo trata de uma ilusão de ótica, assemelha-se ao que temos vivido em nossa sociedade, ou seja, uma ilusão de ética. De tanto “olharmos” para o disfarce, a dissimulação e a falcatrua como modus operandi, acabamos ficando impregnados por essa praxis distorcida.

Mesmo diante do indubitável, como em alguns casos em que a coisa foi do grotesco ao bizarro, ficamos impedidos de discernir a verdade, seja por conveniência, pois isso de alguma forma fere nossos interesses, seja por entorpecimento e cauterização da consciência.

Curiosamente, mas não menos preocupante, algo semelhante acontece com o cristianismo. A fé cristã tem se intitulado, ao longo da história, como depositária e mantenedora de princípios éticos e morais que deveriam reger as sociedades humanas. Mas esta prerrogativa, que no fundo é apenas ilusão, está cada vez mais insustentável.

É sem precedentes a perversão na qual está mergulhado o cristianismo nos nossos dias. Os conteúdos e princípios do Evangelho de Jesus Cristo, que deveriam ser seu esteio, foram totalmente esquecidos e dessignificados, dando lugar a práticas bizarras baseadas numa hermenêutica fraudulenta das Escrituras. Nem mesmo o dogmatismo e o fundamentalismo, como correntes filosóficas, foram capazes de conter os desvios atuais.

Entretanto, o que os cristãos não estão percebendo é que existe uma nova consciência ética se expandindo em todo o mundo, e isto fora dos portões da Igreja!

Há hoje um intenso movimento em busca do resgate de valores e padrões éticos e morais nas empresas, instituições, partidos políticos, organizações não governamentais, que busca fomentar princípios que rejam a vida do homem do século XXI.

Esta disposição, todavia, não está surgindo como resultado de uma alteração da consciência por meio da pregação da fé. Se assim fosse, teríamos como fim último a pacificação do ser e a transformação dos valores plantados no coração, de tal forma que tudo se desdobrasse em algo consequente para a vida.

Em definitivo não é isso... As mudanças em curso são fruto da percepção da sociedade da necessidade de transformação dos padrões e valores morais e éticos por questões, única e exclusivamente, de sobrevivência. Ou seja, é o capitalismo tentando acor-dar para as realidades prementes que nos cercam neste momento de nossa história, e isso com vistas a ele mesmo sobreviver.

A exploração entre países pobres e ricos, as questões ambientais – como desmatamento, aquecimento global, utilização de recursos hídricos –, as questões ligadas aos avanços tecnológicos, como a biotecnologia, dentre outras, são demandadoras de um repensar da civilização pós-moderna. Seus valores e princípios precisam ser alterados para que haja a chance de se construir algo sustentável para o planeta.

E os cristãos, alienados com o que acontece no mundo, impregnados por um olhar existencial distorcido, calcado numa ética elástica, forjado por princípios que apenas se prestam a conveniências morais da teologia de causa e efeito, vagam no mundo das alucinações, vivendo o irreal e achando tudo normal, sem perceber que, na verdade, é surreal.

Para eles, o que restará será o desmonte e o descarte, pois esta corrente ética-filosófica-existencial que está sendo demandada pela nova sociedade não necessitará nem de chancelas da Igreja nem de legitimadores “espirituais” – sacerdotes – para dar credibilidade aos seus pressupostos.

A Igreja, com seus líderes e suas doutrinas – no pretenso papel de reguladores do comportamento humano –, irá então desaparecer do cenário mundial, pois sua causa-de-ser-existir se tornará totalmente irrelevante. Em seu lugar se consolidará a Nova Era, este novo sentir-pensar que fomentará um tipo diferente de espiritualidade no coração dos seres humanos.

Você acha isso impossível? Seria o cristianismo, como religião institucionalizada, invencível? Imortal? Insubstituível? Eu não creio. Não sei nem mesmo se ainda há tempo para que tudo isso possa ser revertido, pois talvez a Igreja não acorde nunca do seu sono profundo. Confesso, todavia, que não vou ficar esperando que isso aconteça para fazer o que tem de ser feito.

Chega de ilusões de ótica e de ética. É tempo de olharmos para o que está acontecendo na sociedade, no mundo que nos cerca, mas, fundamentalmente, em nossas Igrejas! É tempo de olharmos para o que está acontecendo com o cristianismo! Chega de tanta cauterização de mente, chega de tanta letargia de alma, chega de tanto entorpecimento de coração! Chega!

É tempo de ter coragem! Tempo de abrir os “porões” de nossas denominações para constatar as podridões que lá existem: lutas pelo poder, sectarismo, maledicências, politicagens. Não somos diferentes do Congresso, apenas, talvez, nos disfarcemos melhor. É hora de começar a limpeza na casa de Deus!

Tudo o que fizemos, para atender às “demandas existenciais”, foi criar a Self-Made-Religion, a religião das conveniências, customizada sob medida para as necessidades de cada pessoa. Já não temos mais conversões, mas apenas adesões!

Não existem mais discípulos de Jesus, mas apenas clientes da Igreja! Será que não vemos que a mensagem não transforma mais as pessoas de dentro para fora, mas apenas as reveste de um fino e falso verniz de “ética” e “moral”?!

Minha esperança é que ainda haja consciência e coragem em uns poucos, e que estes se levantem como arautos das mudanças que urgem. Ou fazemos isso ou veremos a Igreja e a fé cristã se diluírem e se extinguirem no tempo que virá.

É hora de ação, não de retórica! Lembremo-nos, parafraseando Pierre Reverdy, poeta surrealista francês, que: “A ética é a estética do lado de dentro”, não a plasticidade performática do lado de fora.


Carlos Moreira

05 agosto 2009

Ser Líder É...


Que o mundo carece de heróis, todos já sabemos. O herói de nosso tempo, segundo o cantor e compositor Jorge Versilo, “aguenta o peso das compras do mês, sobe no telhado para ajeitar a antena da TV e fica acordado a noite inteira pra ninar bebê”. Mesmo sabendo tratar-se de um luxo, eu me satisfaria com bons líderes, ao invés de heróis, sobretudo na Igreja. Mas a safra atual é sofrível...

Por outro lado, olhando para Jesus, na tarefa hercúlea de transformar pescadores em profetas do Evangelho da Graça, reaviva-se em mim um soslaio de esperanças. De fato, o Galileu não enfrentou moleza. Imagino o desafio de lidar com os “espasmos emocionais” de Pedro, as vaidades e desejos de poder da dupla João e Tiago, a incredulidade de Tomé, além da ladroagem de Judas. Que time! Mas andar com Jesus fez toda a diferença. Por isso sempre serei um entusiasta do discipulado, pois creio que a melhor maneira de transmitir a fé é através da partilha da vida.

Vivemos no tempo da escassez, os economistas que o digam. Falta-nos quase tudo; o tempo é exíguo, o salário é pequeno, a paixão é passageira, a amizade é superficial, os desejos são fúteis... Para completar a lista, faltam-nos líderes, de todos os tipos e em todos os âmbitos: políticos, empresariais, sociais, acadêmicos e religiosos. Com tantas faltas, ainda insistimos em viver. Haja coragem!

Tenho olhado para o desafio de ser líder na Igreja. Quão grande ele é! Maior, talvez, do que eu pudesse imaginar. Se tenho conseguido ser um? Não sei, estou tentando, o tempo dirá.

Contudo, depois de tantos anos, imagino ter adquirido alguma “autoridade” para falar sobre o tema. Assim, compartilho com você umas poucas sugestões sobre o que imagino ser necessário para ser um líder. São 10 mandamentos que, creio, podem ser extremamente úteis na concretização de seus objetivos.

Se você quer ser um líder, então:

01- Desassocie mentalmente liderança de status ou poder. Líder é alguém que está disposto a servir, e não a mandar.

02- Esteja pronto para se decepcionar com as pessoas. As decepções serão muito mais abundantes que as certezas ou convicções que você tem sobre elas.

03- Aprenda a ser um “degustador” de derrotas. Você tirará mais proveito de seus fracassos do que de suas conquistas. É que as marcas marcam mais do que os marcos.

04- Seja paciente. Quase nada acontecerá da forma como você sonhou, no tempo que você imaginou ou do jeito que você planejou.

05- Conforme-se com o anonimato. Dificilmente alguém recordará o que você fez, ou reconhecerá o seu valor. Gratidão é artigo em extinção.

06- Acostume-se com a solidão, pois você se sentirá só muitas vezes.

07- Nunca perca o senso crítico e não negligencie ouvir a opinião dos outros. Você, na maioria das vezes, tem apenas fragmentos da verdade.

08- Desanime sempre que for necessário, mas não desista nunca. Desanimar faz parte da alma humana, superar o desânimo faz parte do propósito de um líder.

09- Tente construir vínculos duradouros. Sobretudo a certa idade, boas companhias lhe farão muita falta.

10- Não foque suas atenções nos que ficam pelo caminho, pois eles serão muitos. Atenha-se a investir nos que querem, e não nos que precisam, pios há uma grande diferença entre estas coisas.

Parece ácido, mas eu penso ser lúcido. Prefiro a dor da realidade a embriagues da ilusão. Se os dizeres lhe fizerem algum sentido, aplique-os a vida. O mais, você, assim como eu, aprenderá fazendo o caminho, enquanto o caminho vai sendo feito em você.

Sola Gratia!

Carlos Moreira

Como Será a Igreja Evangélica em 2058?


Daqui a cinquenta anos serei um velhinho octogenário. Se Jesus não houver buscado Sua Igreja, ou se eu mesmo não tiver ido de outra forma, estarei aqui nesta Terra com meus cabelos brancos, uma família bem grande e muita história pra contar aos meus netos. Mas, como estará a Igreja brasileira? Que Igreja as minhas cãs verão? Vamos fazer uma projeção mambembe?
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Daqui a cinquenta anos o Brasil será uma nação evangélica. Teremos passado por um presidente da República evangélico, um ministro do STF evangélico, e muitas autoridades políticas evangélicas, como vários senadores de destaque. Muitos deles terão cometido crimes de corrupção, improbidade administrativa, e haverá escândalos em diversos Municípios e Estados com o franco envolvimento de pastores, líderes evangélicos e igrejas.

A maioria dos crentes evangélicos em 2058 será nominal. Dizer a palavra "evangélico" será como anunciar uma importante insígnia, o termo cairá na boca de todo mundo como açúcar. Ser evangélico abrirá muitas portas, e fechará outras a quem não se identificar como tal. Em razão de disputas de poder, haverá grandes divisões nas maiores denominações do país. Todas as denominações ficarão rachadas em vários pedaços. O pentecostalismo passará por uma transformação enorme, quase desaparecerá debaixo de heresias e duros golpes dos sensacionalistas e personalistas, que se apoderarão de suas igrejas. Mas alguns crentes verdadeiros sobreviverão a isso, tendo que se reinventar.
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Crescerá um movimento informal de igrejas menores, pequenos grupos que se reunirão por extrema necessidade espiritual, não por uma questão de estratégia de crescimento, nada disso. Haverá pastores sendo consagrados por sua vocação, dentro desses pequenos grupos, e não por causa de promoções políticas dos sistemas eclesiais.

Para se distinguir dos poderosos e hereges evangélicos do futuro, os verdadeiros crentes adotarão o nome que lhes for dado. Não me arrisco a antecipar essa nomemclatura, porque não sou vidente, mas será alguma coisa pejorativa, uma alcunha dada pelos outros, que acabará redundando num modo de designação de diversos grupos heterogêneos.

Muitos dos popstars serão evangélicos. Eles gravarão músicas para igreja e para bailes funk ou coisa do gênero, tudo num só album. Haverá evangélicos em todos os setores artísticos, e a maior rede de televisão e rádio será evangélica.

Será muito difícil pregar o Evangelho em 2058. As pessoas terão preconceito, porque buscarão apenas o nome "evangélico", mas não o Jesus do Evangelho. Quando os crentes verdadeiros quiserem pregar, serão tratados com o típico respeito da indiferença, no mesmo sentido do ainda vivo pluralismo. O evangélico "normal" será uma pessoa materialista, que criou um estilo diferente de se vestir e de falar, com sua cultura musical e artística específica, cada vez mais influente. Falar de Jesus entre os evangélicos será como falar de um líder que fez coisas extraordinárias para mostrar o que se pode esperar desta vida.

Daqui a cinquenta anos, a Bíblia continuará sendo tratada como um rol de variados segredos motivacionais, como um pacote de amuletos, e, mais do que isso, será vista até pelos evangélicos como um livro sagrado dentre tantos outros. Haverá forte expansão da demitologização das Escrituras, os milagres e o sobrenatural serão vistos como figuras de um poder cósmico que a Bíblia atribui a Deus. Os líderes farão da Bíblia o que quiserem. Isso não será a exceção - será a regra, a tese majoritária, a doutrina oficial, a ideologia da classe dominante nas igrejas, e, enfim, do País.

Os crentes de verdade não apreciarão em nada esse estado de coisas, e por isso não terão alternativa senão envolver-se em grupos menores, de comunhão, primeiro em casas, depois em prédios destinados a esse fim, mas com o surgimento de líderes proeminentes que buscarão pastorear esse rebanho e resgatar pontos doutrinários fundamentais, com interesse reformista.

...E eu, do alto de meus 81 anos, ficarei em casa conversando sobre tudo isso com minha família, principalmente com a minha esposa, a Miriam. Não tendo mais forças para falar em público, nem sendo mais convidado a lugar nenhum, dobrarei meus joelhos frágeis e orarei ao Deus do Céu, para que tenha misericórdia daquela geração tosca e fútil.

Não se apoquente: não sou profeta. Este é apenas um pequeno exercício mental e literário, sem nenhuma conotação profética.

Fonte: Alex Esteves via Genizah

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