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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

24 maio 2014

Sempre Fará Sentido se Você Tiver Sentido


Virei mundos atrás de um fôlego de vida, mas a maior viagem que fiz foi mesmo para dentro de mim. Andando por ruas desertas encontrei imagens que o tempo apagou, todas estampadas em letreiros desbotados, sucatas da alma, fantasmas moribundos, já não assombram mais, morreram de tristeza e desgosto.

Eu já fui um e já fui muitos. Fui pedaço, partido, perdido, fui inteiro, certeiro e conciso. Andei em voltas, fiz revoltas, espalhei pedras e grafei palavras. Se soubesse pintar e tivesse um pincel de pintor, eu faria quadros e retratos, deixaria marcas em paredes lisas e pálidas. Mas como se diz: meu ofício é outro.

A sabedoria do silêncio não compensa a angústia da solidão, pois quem observa estrelas jamais construirá calçadas. Na régua da vida, uma noite não é nada: nem um traço, nem um paço, apenas espaço. E foi por muita insônia que descobri que há homens que nascem prontos, já outros, precisam fazer-se, camada a camada, sobreposições cuidadosamente esculpidas no tecido dos dias.   

A rima do poeta é mimética, suave, mas o texto do cronista é angústia. Nada é pior do que falar e não dizer, juntar palavras, mas não expressar. Flexionar o verbo é fácil, usa-se a regra como álibi. Difícil é imprimir-lhe significados, resgatar os sentidos que rasgaram a carne no êxtase do instante.

O drama do tempo é ter memória, pois recordar é sofrer duas vezes o mesmo mal. Se não me faço entender é porque, ou você andou pouco, ou dormiu demais. No fundo, o que me aflige, são os modelos prontos, pois percebi que o cemitério da mente está nas prateleiras das lojas. Pegue, pague, peque, tudo é rotina, tudo é rapina, devaneio e desprazer. 

Se eu pudesse, ao invés de andar para frente, andaria para trás. No futuro, posso fazer ainda mais tolices do que fiz até agora. Voltando ao passado, todavia, talvez fosse capaz de concertar erros que ficaram gravados na imensa lousa de bronze. Mas o relógio, como se sabe, é obtuso em seu trabalho, nunca se cansa, nem reclama, segue devorando tudo, até mesmo o tempo.


Se eu juntasse as peças, talvez, a figura do esboço ficasse mais clara. Mas há pedaços em todos os cantos, até embaixo do sofá! Por isso é melhor ir no improviso, tateando entre ruas desertas e becos sem saída. No final, se não for como desejava, não devo ficar chateado. Como imaginava, quem foi que disse que havia alguma garantia? 

Carlos Moreira

16 maio 2014

Congregar é Preciso!



Você já se perguntou qual foi o motivo que levou Jesus a criar um grupo de discípulos para anunciar o Reino de Deus? E mais... Por que ele os mandou fazer o mesmo após sua ressurreição? Por que não saiu sozinho pelo mundo, de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, pregando, ensinado e curando?

Outra coisa: por que precisava de recursos, de gente para ajudar financeiramente – na grande maioria mulheres – de “tesoureiro” para cuidar das receitas, de pessoas que se preocupassem com a hospedaria – quando possível – ou um cenáculo – para um encontro mais íntimo, ou ainda a casa de um amigo na cidade de Betânia, para um pernoite? Por que ele, sempre que podia, ensinava nas sinagogas e não se furtou, também, de ir ao templo?

Ora, eu acredito que Jesus nunca foi contra essas coisas e sua liberdade não o tornava um ser descompromissado. Ele não era ligado à religião, nem estava preso ao sistema do templo, não se encaixava nas políticas do sinédrio, mas sabia que não dava para ser um errante transloucado gritando nas ruas sem qualquer foco ou objetivo. Definitivamente, não era como Diógenes de Sinope, o filósofo grego que discursava nas praças e morava num barril.

É certo que havia uma estratégia naquilo que o Galileu fazia, por mais imperceptível que ela pudesse parecer. Quando Paulo menciona os discípulos na ressurreição, revela-nos que, além dos doze apóstolos, havia também os setenta, os cento e vinte e os quinhentos! Obviamente, era necessário um mínimo de organização para acomodar tudo isto.

Eu percebo ordem e método em muitas outras questões. Quando, por exemplo, Jesus quis treinar setenta destes discípulos, enviou-os de dois em dois, com instruções detalhadas sobre o que fazer e o que não fazer. Não era uma ação desordenada, apesar de ser simples, não era atabalhoada, apesar de ser leve.

Por que você acha que Jesus foi para a Judéia, depois para a Galiléia? Era tudo obra do acaso? Por que escolheu, inicialmente, pregar para os Judeus? Não tinha ele um objetivo? Ou você imagina que Jesus era um sujeito alienado andando conforme as “marés”? A verdade é que ele nunca foi contra a organização, mas contra o enquadramento, a normatização burra, a estatização da espiritualidade. Em Jesus somos livres, não irresponsáveis!

Confesso que me espanta os extremos nos quais a igreja está enredada nestes dias... Por um lado, um aquartelamento institucional, gente presa entre quatro paredes, alienada de tudo, manipulada por lobos em forma de pastores, totalmente distante da mensagem do Evangelho. Eles são vítimas da engrenagem pesada, que gira em função de si mesma, obsoleta em seus propósitos e dessignificada em seus objetivos.

Mas, por outro lado, há uma geração se formando em nosso meio com um entendimento que está totalmente equivocado! Eles falam de uma dita “liberdade” que exclui o indivíduo de tudo, pois não é mais preciso congregar, nem ofertar, nem ter compromisso com o outro, nem ser ensinado, nem participar da ceia, da imposição de mãos, das orações e da adoração. O que tem que ser feito é feito, se possível for, no “caminho”, sem qualquer compromisso com nada.

De certo, eu creio que a fé é uma experiência que se põe em prática nas dinâmicas da vida, mas isto não exclui, em absoluto, a necessidade de nos congregarmos! E para se congregar é necessário, por mínima que seja, alguma organização. 

Eu sei que em decorrência da estrutura, podem surgir problemas como a hierarquização, a “militarização”, a institucionalização, que são doenças que destroem a igreja. Mas isso não me exclui da responsabilidade de ser parte efetiva do Corpo de Cristo! Eu não sou um braço ou uma perna perambulando sem destino. Sou membro deste Corpo e sigo as instruções da Cabeça, que é Cristo! O Corpo não está esquartejado! Ele tem unidade em tudo o que realiza.

O ajuntamento e a organização são necessários e indispensáveis. Pequeno grupo, grande grupo, grupo com ações locais, grupos com ações de longo alcance, grupos pastorais, grupos missionários, grupos de oração, grupos com ações de cidadania, grupos com maior ênfase na adoração e oração e grupos direcionados a obras humanitárias. Todos são, ao mesmo tempo, Corpo e parte do Corpo, não importando se são feitos de dois, três ou de trezentos. O que os qualificará como igreja continuará sempre sendo o fato de Jesus estar ou não no meio deles.


Carlos Moreira

14 abril 2014

Bizarrices Pascoais



Começou uma campanha nas redes sociais que tem como objetivo demonizar a imagem do “coelhinho da páscoa” e do ovo de chocolate. 

Como sabemos, a “crentaiada” adora caçar fantasmas e tudo em nome da orto
doxia! Mal sabem eles que os maiores mitos pagãos estão, hoje, dentro de seus próprios templos. A doutrina da prosperidade, da batalha espiritual, da maldição hereditária e da cura interior, práticas vigentes na grande maioria das comunidades cristãs, é material mais do que suficiente para atestar o que digo.

De fato, o hábito de oferecer ovos como presente vem da tradição pagã francesa e espalhou-se rapidamente por toda a Europa e Oriente. Tratava-se da celebração a Ostera, deusa da primavera, caracterizada por uma mulher que segurava um ovo em sua mão e observava um coelho, representante da fertilidade.

Na idade média, provavelmente na Inglaterra, a tradição foi “cristianizada” para associar a troca de presentes ao período de celebração da páscoa judaica. Os costumes folclóricos foram absorvidos uma vez que era comum essa prática entre aqueles povos. 

No século XVIII, confeiteiros franceses tiveram a ideia de produzir os ovos de chocolate, o que fez com que o costume ganhasse contornos econômicos. Hoje, o que temos nada mais é do que a utilização da tríade: tradição – religião – mercado, sendo maximizada pelo marketing para fazer girar a engrenagem de consumo capitalista. Não há nem demônio nem maldição em nada disto, business is business. 

Para finalizar, vou lhe dar uma sugestão: se você tem problemas com o “famigerado coelho”, ao invés de dar um de presente a meninada, troque por um boneco do Thales, o qual pode ser achado neste linkhttp://www.lojathallesroberto.com.br/produtos/54/bonecos ao preço de aproximadamente R$ 20,00. Com esse simples ato, ao menos, seu paganismo será gospel! 

Feliz páscoa para você! E não coma ovo demais. Eles não causam embaraços espirituais, mas podem produzir complicações intestinais...


Carlos Moreira


31 março 2014

Deixe-me ser Coerente com Minhas Incoerências



Quem foi que disse que o traço perfeito tem de ser reto? Há muito mais beleza nas curvas, no “torto”! Cartilhas do viver, convenções, estereotipagens, tudo bobagem. Quem é andarilho da vida sabe que há planos que se fazem enquanto se caminha, o destino nem foi alcançado e já há mudança de rotas.

Talvez isso seja nossa herança cartesiana, tudo sensato demais, lógico demais... Num mundo dominado por máquinas, os sentimentos viraram software, esboço automatizado do que um dia existiu como desrazão no coração. Em nosso tempo, até amar é mecânico, previsível e chato.  

Odeio a ditadura, sobretudo aquela que tenta serializar o pensamento. Neste sentido, ninguém consegue ser mais fabril do que a religião. A fé deixou de ser uma expressão da relação pessoal com o sagrado para se tornar um conjunto de normas e fluxos aceitos pela convenção do sindicato do clero. Quem crer diferente, está fora! Basta ser normal para não caber na “caixa”...

Os anos, creia-me, passam depressa depois dos quarenta. Um dia hoje vale muito mais do que valia há dez ou quinze anos atrás. Eu olho com interesse redobrado o caminho que trilhei. Quando se é jovem, não há motivação para se guardar nada. Ao depois, todavia, surge certa sensação de perda, dá vontade de colher os pedaços de nós que vão ficando pelo caminho para depois colar e vê no que dá. 

E foi olhando para dentro de mim, para os muitos “eus” que compõem o mosaico de quem sou, que percebi essa enorme desarrumação! Sim, eu já fui Quixote um dia, amante dos impulsos, poeta pessimista, lutando contra moinhos... Mas também fui apolíneo, um Hércules invencível, aquartelado em fortalezas miméticas, prisioneiro do saber e da razão.    

Há uma glória, contudo, que não me pode ser negada: a de que eu fui muitos e único, nunca existi para fora, fugi o mais que pude dos recursos estéticos que plastificam a vida. Na minha incoerência, sempre houve coerência, eu expus no letreiro toda a anarquia interior que, na fábrica do coração, um dia, se fez amor e paixão.  

Portanto, não me amole, não me esfole, nem me moleste com seu senso de perfeição. Não me diga que não dá para ser desse jeito, que é preciso recondicionar minha alma para que o apetite pelo démodé se torne prato do dia. Fique com seus códigos, no meu sistema, o caos é o padrão, não há rotas, a nau se entrega as correntes e vai...

Hoje eu sou, mas, amanhã, quem sabe? Hoje é assim, contudo, tudo pode mudar! Hoje acredito, mas posso vir a duvidar... Já tens quase tudo de mim, não me tire essa loucura derradeira. Há tantas câmeras me filmando, quase me tornei controlável, dá-me, então, um pouco de espaço para ser o que você tem medo até de pensar. 

É que “pau que nasce torno” não vira mobília em museu, só serve para ser vara de boiadeiro rasgando o chão duro da Terra, comendo barro e poeira, descobrindo o sabor das manhãs... 

Carlos Moreira

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