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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

06 abril 2011

Envelheça Enquanto Ainda há Tempo


Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta”. Albert Camus.


A imortalidade e a eterna juventude são sonhos míticos da espécie humana. A procura da fonte da juventude é assunto desde os mais antigos escritos. Por outro lado, o fenômeno da velhice, estudado e constatado de forma sócio-histórica e psicológica, está presente em todas as épocas e lugares, fazendo parte da evolução das civilizações.


A velhice, já está mais do que provado, possui associada a si o componente preconceituoso e estereotipado de uma fase do desenvolvimento humano marcada por acontecimentos negativos e fatos indesejados. A verdade é que ninguém quer envelhecer. Mas, felizmente, ou infelizmente, envelhecer não é uma opção, mas um destino. Como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa".


Tenho ficado impressiona ao ver o que muitos tem feito para evitar a velhice. Algumas destas coisas, inclusive, beiram o absurdo. Estamos na era da imagem. Ela está na TV, no computador, no celular, no cartaz, na revista, no letreiro... Em todo canto, para onde nos viramos, tem uma imagem. Você já ouviu a expressão “sair bem na foto”? É a tônica dos nossos dias. Não importa quem você é, o que você faz ou como você vive, o importante mesmo é “aparecer bem na foto”. O resto disfarça-se, pois é melhor parecer ser, do que ser de verdade.


Mas o tempo é inexorável, ou como disse Ovídeo, é o “devorador das coisas”. De que então ele nos serve? Qual o seu propósito na existência? Terá ele apenas esse mórbido prazer de nos mostrar que já não somos mais o que um dia fomos? Talvez... O tempo faz destas coisas, pois “o que o ele trás de experiências não vale o que leva de ilusões”. Jules Petit-Sen.


Pois bem, tratando desta questão, acabo me lembrando de dois textos das Escrituras que me servem muito bem como exemplo. O primeiro é Atos 7:58, que diz: “E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo”; e o segundo é Filemom 1:9: “prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho e, agora, até prisioneiro de Cristo Jesus”. Entre o “jovem Saulo” e o “velho Paulo”, uma história de vida surpreendente e, em cada pedacinho dela, a força irresistível e inexorável do tempo.


Paulo sempre me fascinou. O “jovem Saulo” me assusta, mas o “velho Paulo” me inspira. Entre um e outro a maravilhosa obra que o Espírito Santo realiza na existência daqueles que desejam se parecer com Jesus, cumprindo assim o propósito de Deus em suas vidas.  


Saulo de Tarso era um jovem judeu, fariseu, zeloso e guardador dos mandamentos. Homem letrado, culto e poliglota, foi aluno de um dos maiores filósofos do seu tempo, o extraordinário Gamaliel, doutor da Lei e membro Sinédrio. Por ter nascido em Tarso, ganhou o direito de ser um cidadão Romano, o que no mundo antigo era algo importantíssimo.


Saulo era notável! Sem dúvida alguma, foi o homem mais influente do primeiro século depois de Jesus Cristo. Inteligente, impetuoso e estrategista, via no Evangelho uma grande ameaça a religião judaica e, por conta disso, encampou como desafio pessoal perseguir os cristãos com o objetivo de encarcerá-los. Ao depois, quando do julgamento, retornava para dar o seu parecer. Foi desta forma que se tornou peça fundamental na morte do diácono Estevão, o primeiro mártir do cristianismo.


Mas Deus tinha outros planos para este homem... E assim, numa viagem a cidade de Damasco, ele vê uma luz brilhante vinda do céu e ouve uma voz que lhe diz: “Saulo, por que me persegues?”. Cego, desnorteado, sem compreender o que lhe acontecera, foi orientado a ir até a casa de um discípulo chamado Ananias, onde foi batizado e recuperou a visão. Daí em diante, Saulo sai de cena e dá lugar a Paulo, o homem que “transtornou o mundo” de seu tempo com a pregação do Evangelho e a abertura de Igrejas. O apóstolo dos gentios, como era chamado, escreveu mais da metade do Novo Testamento e tornou-se o grande sistematizador das doutrinas de Cristo nos primeiros anos da era cristã.


Ser Saulo era uma coisa; ser Paulo era outra. Mas o apóstolo só descobriu isto caminhando no Caminho. Apesar de sua conversão, ele não era um homem fácil, pois possuía como grande adversário seu próprio temperamento. Essa característica pessoal lhe custou diversos desentendimentos e a perda de muitos companheiros e amigos, além, é claro, da conquista de poderosos inimigos.


Na ficha corrida de Paulo estão acontecimentos dos mais diversos. Ele se desentendeu com Barnabé por causa de João Marcos, discutiu com Pedro e Tiago, amaldiçoou Alexandre o latoeiro e lançou sobre Elimas, o mágico, uma cegueira temporária. Ao final da vida, parece que apenas Lucas o suportava, pois afirmou certa vez: “todos me abandonaram”.  Na Igreja de Corinto, por causa da impureza, sugeriu que se entregasse a alma dos que tais coisas praticavam a Satanás e enfrentou em toda a Ásia a fúria dos judaizantes. Esteve em perigo de morte várias vezes; foi 2 vezes açoitado, fustigado com vara, apedrejado, 3 vezes vítima de naufrágios, além de ter andado em fome, nudez e solidão. Tantas foram as suas agruras que na carta aos Gálatas disse “ninguém mais me moleste, pois já trago no meu próprio corpo as marcas de Cristo”.


Mas como diz o ditado, “numa maratona o importante não é como você começa, e sim como você termina”. Paulo, o velho, termina os seus dias de forma bem diferente de Saulo, o jovem. Lembrei de Eclesiastes: “melhor é o fim das coisas do que o seu princípio”. No fim de sua vida, Paulo era um homem manso, humilde, quebrantado, totalmente transformado pelo Espírito de Deus. Dizia “tanto sei ser humilhado como também ser honrado... tenho experiência de fartura e de fome, de abundância e de escassez. Sua morte trágica – decapitado pelo imperador Nero em Roma – não determina o fim de seus dias, mas apenas o extraordinário início de sua verdadeira vida, de sua existência na eternidade, o encontro com o propósito eterno para o qual ele foi criado. 


Saulo, o jovem, Paulo o velho. Entre estas duas personagens, vividas pelo mesmo homem, o tempo. Os anos se passaram e acabaram por produzir nele uma transformação maravilhosa. Paulo aproveitou a dádiva de envelhecer permitindo que Deus esculpisse nele um caráter inquebrantável, pois sua vida foi moldada como o oleiro molda o vaso.


Que bom seria se a velhice de todos os homens pudesse produzir o que produziu em Paulo: sabedoria, quietude, generosidade, pacificação interior, graça, poder de Deus, unção do alto. Como tudo na vida tem seu tempo próprio, há também o tempo de envelhecer. Por isso, digo sem temor: “estou envelhecendo enquanto ainda há tempo!”. É que nos nossos dias a grande maioria das pessoas fica velha e não amadurece, tornam-se idosos infantis.


Affonso Romano diz que a “gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento”. Simone de Beauvoir, em seu livro clássico sobre a velhice, mostra, entre outras coisas, que “o inconsciente não tem idade e que temos forte tendência a nos comportar, na velhice, como se jamais fôssemos velhos”. E finalmente Cícero, no seu famoso tratado falando da velhice, diz: "Torna-te velho cedo, se quiseres ser velho por muito tempo". 

Já me disseram, talvez como consolo, que a vida começa aos 40. Mas eu discordo! A vida começa a partir do momento em que Jesus 
Cristo, o Senhor, entra na nossa “estrada de Damasco”. Ela começa quando vemos resplandecer em nós a Sua luz e ouvimos a Sua voz em nossos corações! A vida começa quando estamos dispostos a ser discípulos, quando estamos disponíveis para fazer a Sua vontade e andar nos Seus caminhos. 

É um grande engodo achar que a vida começa aos 40. Que nada! Nem aos 40, nem aos 50, ou 60, mas apenas quando Ele, que é o caminho, a verdade e a vida, passa a ser o motivo pelo qual andamos, respiramos, sorrimos, choramos e nos movemos. É certo que caímos, erramos e sofremos, mas, nEle, sabemos, que somos mais do que vencedores!  

Diz Albert Camus, “Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós”. É a dura realidade de existir. Mas com você não tem que ser assim. Se és jovem, anda em grupos, mas saiba que o tempo de envelhecer já começou. Se és adulto, anda em pares, mas saiba que a velhice está a porta. Se és velho, saiba, este é o melhor tempo da tua existência. Este é o tempo onde Deus pode ser experimentado em “profundidade”, pois o melhor ainda está por vir. Ele começa neste dia, o dia chamado hoje, o dia que o Senhor fez. Por isso você não precisa andar só, pois Jesus disse que estaria conosco todos os dias até o fim dos séculos.


Desta forma, aproveite o que ainda pode ser experienciado, e deixe de chorar por aquilo que você não fez. Este é um dos maiores desperdícios da existência humana: sofrer pelo que não se foi e ansiar pelo que não se pode ser. Viva este dia! Carpie Diem! Deus tem o melhor para você e este melhor começa justamente hoje, agora!

Carlos Moreira

05 abril 2011

A Fila já Andou



Hoje à tarde fui ao shopping; coisa rara. Tinha que comprar um chip para o iPad e aproveitei para pagar uma conta telefônica na lotérica. O que deveria ser uma comodidade tornou-se, na verdade, um suplício. A fila era enorme, gente se apertando de todos os lados num pequeno corredor por trás das lojas.

Depois de meia hora sem sair do canto, eu já estava “viajando”. Minha cabeça, definitivamente, não se encontrava mais naquele lugar. Ouvia ao fundo um “zumbido”, mas ele não podia me tirar do meu “transe”. Foi aí que senti uma “cutucadela” nas costas. Virei-me e vi uma senhora dizendo: “meu filho, preste atenção! A fila já andou”. De fato, a fila andara e eu não havia me apercebido.

Mas não foi só a fila da lotérica que andou... Em quase 30 anos de caminhada, percebo claramente que uma outra “fila" também andou, aquela que me conduz para dentro de mim mesmo. Hoje, constato com alegria que, enquanto caminhava, desconstruí muita coisa que foi “erguida” erroneamente. A verdade é que pouco sobrou... Às vezes releio textos ou mensagens de alguns anos e não os reconheço. “Minha teologia” mudou significativamente nos últimos anos. Dores, perdas e alguns fracassos me tornaram mais humilde, mais quebrantando, talvez, mais simples.

Lembrei do Roberto Corrêa: “o simples é o contrário do fácil”. É muito comum confundirmos simplicidade com simplismo. Ser simples é ser singular; ser simplório é ser medíocre. Tenho pavor da banalidade, da unanimidade. Meu grande medo na vida sempre foi não me tornar alguém, não chegar nunca a ser eu mesmo, não me encontrar comigo.

É por isso que Jesus me fascina! Ele sabia quem era, conhecia o significado de sua existência, compreendia as implicações de sua vocação, seu propósito, discernia o que tinha de fazer, por onde devia andar, com quem precisava se ajuntar. O estilo de Jesus era singular, inconfundível.

Diferentemente de outros mestres, como Platão, que fundou uma academia, ou Aristóteles, que fundou um liceu, Jesus não fundou coisa alguma. Aliás, foi peça fundamental para afundar tradições, dogmas, ritos e mitos do “sagrado” de Israel.

Jesus era desalojado, era como o Pai, “claustrofóbico”, não podia ser “contido”, “aprisionado”. Ia às sinagogas, mas nunca quis ser membro delas, rejeitou a tentação de ser sacerdote, passou ao largo da possibilidade de tornar-se “refém” do Templo, deixou de lado a politicagem do Sinédrio e fez caso das seitas judaicas. Para Jesus, aquilo tudo tinha cheiro de morte, era a religião das aparências, da performance, do embuste, o estelionato do ser.

Por isso a escola de Jesus era na rua, nas esquinas, nos becos das cidades, nas casas, nos ajuntamentos a beira mar, ao pé das montanha ou nas colinas. Seus alunos não eram filósofos letrados, nem rabinos eruditos, muito pelo contrário, entre seus discípulos não havia pessoas com “pedigree”, apenas gente que queria aprender a ser gente.

Se não, observe! Veja se os encontros mais significativos de Jesus não foram com a rafaméia: a prostituta que ia ser apedrejada, os 10 leprosos, Zaqueu o publicano, a mulher do fluxo de sangue, o cego de Jericó, o aleijado do tanque de Betesda, a mulher Cananéia, a viúva de Naim, o endemoninhado gadareno, e outros tantos anônimos, excluídos, oprimidos, perseguidos.          

Lembro da parábola das bodas... Os convidados eram pessoas “distintas”, “nobres”, gente de “importância”, de “destaque”. Mas todos tinham seus afazeres e fizeram pouco caso do convite. Aí o Rei mandou chamar a gentalha, os estorvos, os miseráveis e os bêbados. Se fosse hoje estariam na festa viciados em crak, transexuais, lésbicas, gays, agiotas, traficantes, aidéticos, deprimidos, flanelinhas, e outros “diferentes”. Fico pensando se eu teria a dignidade necessária para me sentar à mesa com essa gente. Talvez não...

Fato mesmo é que Jesus ora estava aqui, ora ali, outra ora sabe-se lá onde. Até seus discípulos, por vezes, o perdiam de vista. Ele era ser errante, não tinha onde reclinar a cabeça, não criava “raiz”, nem amarras, sua casa era o mundo! Quando você pensava que Ele estava vindo, já tinha ido. Para Jesus a fila sempre estava andando, a vida sempre estava fluindo. Mas, desgraçadamente, aquela geração não soube reconhecer aquela “visitação”.

Olho as pessoas nos nossos dias... Elas estão sempre insatisfeitas, reclamando, querem mais e depois mais, buscam a fixidez, o concreto, a segurança, a estabilidade. Enquanto perdem tempo com suas questiúnculas, “a fila anda”, o sonho passa, a vida segue, o tempo voa. É gente insegura, gente ansiosa, gente ingrata, gente irresolvida, gente intemperante, gente que deixou de ser gente, gente que se dessignificou como gente, gente que desaprendeu a ser gente, tornou-se substrato de gente, gente partida, dividida, gente que já não é mais gente.  

Para quem chegou neste estágio, só tenho uma coisa a dizer: “a fila já andou”. Enquanto você se emaranhava com tantas questões fúteis, com tantos projetos inúteis, com tanta megalomania, “a fila estava andando...”. Havia nas esquinas da vida gente precisando de carinho, de afago, de uma mão estendida, de uma palavra de conforto, de uma ação de misericórdia, de uma atitude de solidariedade, de uma decisão corajosa, de uma posição assumida, de uma consciência renovada, de uma alma quebrantada, de um coração expandido. E você, onde estava? Onde eu estava?! Ah, nós estávamos nos templos, nas reuniões, nos encontros religiosos, nas vigílias, nos seminários, estávamos “fazendo a obra”! Mas que obra?! A obra de quem?!

Hoje à tarde eu quase adormeci naquela fila... Agora estou com medo de estar adormecido quanto à existência que me cerca, aos dramas que me rodeiam, as calamidades que acontecem a minha porta, na minha cara, na esquina da minha rua, na frente do meu trabalho, na ponte, na praça, pois nestes lugares é onde estão os bêbados, os mendigos, os gays, os travestis, os maconheiros, essa gente que eu tenho desprezo de olhar, aversão de ouvir, nojo de tocar, medo de sentir.

Entretanto, o grande paradigma em tudo isto é que são justamente estes que Jesus quer que eu convide para a “festa”, pois são eles os mais receptivos a Graça e ao Reino. Agora, se eu não me “tocar” quanto a isto, corro o sério risco de, em algum momento, ouvir dEle: “desculpe filho; "a fila já andou"; tive de usar outro em seu lugar, pois você estava muito ocupado com a sua obra”. Pense nisso...     

Carlos Moreira

29 março 2011

"Odres" Novos, "Vinho" Velho.



Durante 20 anos ministrei louvor na Igreja. Sinto-me privilegiado por ter tido por referência toda uma geração de músicos e cantores que mudaram o sentido e o significado da utilização da música como meio de adoração a Deus.



Cresci ouvindo estes homens maravilhosos e suas músicas encantadoras! Guilherme Kerr, Jorge Camargo, João Alexandre, Sérgio Pimenta, Gerson Ortega, Asaph Borba, Adhemar de Campos, Benedito Carlos e Nelson Bomilcar. Com eles aprendi sobre o significado de rendição, quebrantamento, humildade, espírito sacrificial, paixão, coisas que se tornaram obsoletas quando tratamos da música em nossos dias...


Já faz oito anos que não ministro louvor. Mas no meu entendimento, há pelo menos quinze o ministério da adoração perdeu totalmente o seu propósito e significado. Música no meio cristão tornou-se artigo de entretenimento. Músicos viraram mercadores, cobram cachê para tocar, seja onde for, seja em qualquer lugar; cantores agora são “astros pop”, saem ovacionados dos estádios, tem produção profissional, vendem milhões de cd’s e dv’s no eletrizante mercado da música “gospel”.

Tenho apenas 44 anos, mas sou do tempo em que os jovens se reuniam para ir a um ginásio assistir a um culto com a presença dos Vencedores por Cristo. Ali ouvia-se boa música, com letras que exaltavam a Deus e glorificavam a Cristo. Havia conteúdo teológico nas canções, não as baboseiras que ouço hoje. Foi cantando estas canções que aprendi sobre o Sangue, a Cruz, a Justificação, a Santificação, o Nascer de Novo. Nas músicas recitadas agora você chama Jesus para dançar, exige restituição do que é seu, declara que receberá tesouros na terra. É tanta asneira e tanta falta de entendimento que eu não sei como essa moçada consegue fazer “sucesso”.

E levaram a arca de Deus, da casa de Abinadabe, sobre um carro novo; e Uzá e Aió guiavam o carro”. 1ª. Cr. 13:7. Não sei se você conhece esta passagem. Ela trata da tentativa de Davi de levar a Arca da Aliança de Quiriate-Jearim, que estava em Judá, para Jerusalém. A intenção de Davi era boa, mas seu entendimento sobre como realizar tal feito era nenhum.

A passagem completa pode ser lida no capítulo 13 do livro de 1ª Crônicas. Davi havia acabado de ser conclamado Rei e teve o entendimento de que deveria trazer a Arca “pois nos dias de Saul não nos valemos dela”. O Rei sabia que aquele artefato era muito mais do que uma obra de artífice, mas tinha o significado da presença de Deus no meio do Seu povo. E Davi não queria começar a governar sem que o Senhor estivesse entronizado na tenda da congregação, no meio do tabernáculo.

Mas como se diz por aí, “de idéia boa o inferno está cheio”. Ao invés de consultar os Rolos Sagrados para averiguar como Deus havia ordenado que a Arca fosse levada, Davi partiu para a “inovação”. Enfeitou um carro de boi novo, colocou um bocado de penduricalhos, e depositou a Arca em cima dele. E fez mais: para dar um tom ainda mais imponente ao cortejo, pôs dois sacerdotes paramentados para comboiarem a procissão. O resultado foi trágico! O carro de boi tropeçou numa pedra quando, a caminho de Jerusalém, passava por um riacho, e Uzá, sacerdote do Deus altíssimo, tentando dar uma mãozinha a Ele, colocou a mão na Arca para que ela não se despedaçasse no chão. Foi o suficiente para acender a ira do Todo-Poderoso, o que fez com que ele fosse fulminado e morresse ali mesmo imediatamente. 

Naquele episódio funesto, houve três problemas. O primeiro é que a arca não podia ser levada num carro de boi, mesmo sendo ele novo e emperiquitado. A Arca tinha de ser levada por pessoas, alçada sobre seus ombros. O segundo problema é que a Arca não podia ser conduzida por qualquer um, mesmo que estes fossem sacerdotes, mas apenas pelos levitas, que eram os únicos qualificados e separados para tal ofício. Finalmente, o terceiro problema é que, não havendo discernimento da parte de ninguém, perdeu-se totalmente a percepção do que a Arca simbolizava, ou seja, a presença do próprio Deus! Esse foi o motivo de Uzá ter morrido, pois ele tocou não apenas num artefato religioso, mas na santidade do próprio Deus!

Há muitas lições a serem aprendidas nesta passagem. Quisera eu que os cantores e músicos de nossos dias pudessem compreendê-las. Vejo o que fizeram com o louvor e a adoração com tristeza e até pavor. Transformaram o que deveria ser um culto em um show, com direito a fumaça, luzes, som de última geração, marketing, produção, e toda a pirotecnia utilizada pelas bandas seculares. É o “carro de boi novo”, a parafernália “gospel” tentando compensar a falta de graça e unção com som estridente e plasticidade performática.

Em lugar de “levitas”, gente consagrada e separada para a adoração, ainda que não nos moldes do velho testamento, é claro, temos agora astros e estrelas de grande popularidade. Eles precisam de figurinistas, maquiadores, cabeleireiros, personal trainer, todo um aparato periférico para que possam brilhar quando subirem ao palco. Brilham mais do que Jesus! A eles, então, seja dado todo louvor e toda a adoração!

Confesso que nunca fui a um show destes. Tenho pavor de que Deus derrame fogo do céu e consuma tudo o que estiver embaixo. Tenho medo de “tocar na Arca” sem morrer. Essa gente, devo admitir, ou tem muita coragem ou é totalmente cega de entendimento. Eles banalizam o sagrado, roubam para si aquilo que não lhes pertence – pois a glória é honra para Deus, mas veneno para o homem. Quem dela se alimentar morrerá em meio a seus próprios devaneios. Aliás, o simples fato destes falsários não perceberem o que fazem já é o atestado de que há muito estão mortos em seus próprios pecados e cobiça.

Talvez você me pergunte: “há exceções?”. E eu lhes digo: “há. Mas são pouquíssimas...". Eu gosto de alguns grupos, e acho que eles fazem um bom "trabalho". Mas são periféricos justamente porque não "jogam o jogo", não pagam "jabá", não compram canções de poetas ateus e agnósticos, não se deixam produzir por figurões da cena musical nacional. Sim, gosto de gente como Vineyard, mas sei que eles não vendem aos milhões nem enchem estádios. Sou músico, já gravei, já produzi, sei do que estou falando. Aqui não está um teórico que fez uma pesquisa na net para escrever um artigo bobo. Conheço este meio, já comi poeira nesta estrada...

Sinto saudade das “velhas” canções do MILAD e dos Vencedores por Cristo! Sinto saudade dos hinos cantados nos cultos dominicais, herança histórica da igreja. Nada contra novos ritmos, instrumentos diversos, letras contextualizadas e melodias modernas, muito pelo contrário, sempre amei o rock’n roll. Mas no fundo o que eu gostaria mesmo era de ver “vinho novo” em “odres novos”, e não “odres novos” com “vinho velho”. Aliás, para ser sincero, este “vinho” já virou vinagre faz tempo – arg! E os “odres”, Deus me livre, há muito que se tornaram vasilha vazias...

Carlos Moreira

25 março 2011

Deus Está na Próxima Esquina


Um dos temas com os quais os pastores mais se deparam em momentos de aconselhamento é sobre a vontade de Deus. Em tais situações, é muito comum ouvirmos expressões do tipo: “pastor, qual é então a vontade de Deus para a minha vida?”.

Independentemente do tema, a intrigante pergunta sempre surge para nos colocar em situação difícil. Nestas circunstâncias, sinto-me como se fosse um oráculo, um intermediário do sagrado, um profeta de ocasião, alguém que tem de dar uma resposta plausível, pois, do outro lado, há alguém angustiado e inquieto aguardando o meu “parecer”.

Sem querer teologizar muito, e botando logo os pontos nos “is”, a vontade de Deus é de Deus, não é nem minha, nem sua, nem de ninguém. Já li muita coisa a este respeito sem, contudo, jamais me sentir satisfeito. Filósofos e teólogos criam explicações mirabolantes e sistematizadas para tentar tratar de algo que, no meu entendimento, é “terreno de Deus”.

Os calvinistas vêem a vontade de Deus de uma forma, os arminianos de outra, os da teologia da prosperidade enxergam de um jeito, os da teologia relacional de outro. Há os que afirmam que Deus tem vontade descritiva – coisas pré-ordenadas, e vontade permissiva – coisas que ele tolera existir ou acontecer. Tem os que dizem que a vontade de Deus pode ser secreta ou revelada, dispositiva ou perceptiva, e por aí vai... É o homem tentando entrar nas profundezas do insondável.  

Em seu livro “A Soberania de Deus”, Arthur Pink nos dá uma pista de como o tema é denso e, talvez até, incompreensível: A vontade de Deus é Seu eterno, imutável propósito concernente a todas as coisas que Ele fez, para produzir certos meios para seus fins apontados: disto Deus declara explicitamente: "Meu conselho subsistirá, e farei toda Minha vontade" Is. 46:10.

Mas, afinal de contas, “qual a vontade de Deus para minha vida?”, pois esta é a pergunta que não quer calar. E eu respondo: “sei lá!”. Atrevo-me apenas a exprimir o que diz Paulo aos Romanos, que ela é “boa, perfeita e agradável”. “Pastor, devo casar com fulano?”; “Pastor, devo fazer tal curso”; “Pastor, devo mudar de cidade?”; “Pastor, devo aceitar tal emprego?”; “Pastor...”. Meu amigo, minha amiga, eu, simplesmente, não sei!

O que certamente sei é que esta forma de viver a vida cristã não me parece muito adequada. Mas a verdade é que a grande maioria quer respostas exatas para tudo, acha que na Bíblia há direcionamento sobre todas as questões da existência, espera que seus líderes os aconselhem precisamente em todas as suas indecisões. Ora, isso simplesmente não existe! E é por isso que tanta gente quebra a cara por aí e depois fica culpando Deus, o Pastor, as Escrituras, a mulher, o marido, o amigo, e nunca a sua incapacidade de fazer escolhas próprias.

Para mim, a vontade de Deus está na próxima esquina. O que quero dizer com isto? Que o caminho com Deus se faz caminhando, e que uma coisa é saber sobre o Caminho e outra é caminhar por ele. Nós cristãos nos tornamos cada dia mais teóricos, mais retóricos, esquecemos que o convite de Jesus é para que andemos no “Caminho”, em verdade, pois, só assim, poderemos experimentar a verdadeira vida.

Quem caminha com Deus está construindo com ele uma história aqui na Terra. Enquanto estou, na estrada da existência, “seguindo” a Deus, no encalço de seus passos, estou na realidade permitindo que em mim vá sendo desenvolvida sua soberana vontade, e isto em cada acontecimento do cotidiano, em cada circunstância que vai se “desenhando” no meu caminhar.

Mas, de repente, Deus vira a esquina! Eu olho para frente e não o vejo mais. A “cena” na qual Deus está continua acontecendo na “rua” por onde ele está seguindo agora, mas eu não consigo discerni-la, percebê-la, compreendê-la, pois sou incapaz de enxergá-lo neste momento. O que faço então? Sento e fico adorando a Deus até que ele se revele novamente? Jejuo até que seu caminho se desnude para mim? Oro para que ele me fale o que devo fazer? Consulto um profeta para saber o direcionamento correto? Sinceramente, isto não lhe parece absurdo? Mas é desta forma que muitos estão vivendo.

Ora, de fato, a uma única coisa a se fazer é ir até a esquina e, avistando o “caminhar de Deus”, retomar novamente o seguir os seus passos, ou seja, inserir-me outra vez como parte da “cena” que continuou se desenrolando independentemente da minha presença. Preciso querer estar com Deus, e não apenas saber de Deus.
   
De uma coisa estou certo: “Aquele que faz sempre o que quer, raramente faz o que deve”. Pierre Beauchêne. Ora, se você quer fazer a sua vontade, porque pergunta para mim qual a vontade de Deus? E mais: se você quer fazer a vontade de Deus, porque pergunta para mim o que deve fazer?

Deus está caminhando – “se alguém quer vir após mim...” – siga-o! Se ele virar a esquina, vire também. Se for reto, vá com ele. Se for rápido, corra. Se diminuir a marcha, vá mais devagar. Lembre-se apenas de algo: tente nunca o perder de vista, pois isso seria uma grande tragédia em sua vida. Agora, se isto acontecer, ainda há algo a ser feito: procure algum "representante do sagrado" pergunte para ele: "pastor, qual a vontade de Deus para a minha vida?”...

Carlos Moreira

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