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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

24 janeiro 2011

Uma Janela para a Vida



A porta abriu-se e eu dei de cara com aquela quitinete toda pintada de amarelo ovo. Achei estranho, mas a casa tinha vida própria: braços, pernas, olhos e ouvidos. Nela mora “a menina das palavras”, uma escritora e poetisa que fez de São Paulo o seu mundo, o seu lugar. 

Ela me mostrou seu cantinho com especial deferência, mas deu destaque àquela janela, uma que dá para a rua onde mora. Debruçada sobre ela, vê a cidade de um ângulo privilegiado, observa sem ser observada, espreita a vida que se arrasta preguiçosa bem abaixo do seu nariz. Incólume, assisti a tudo o que se passa: pessoas correndo, carros buzinando, motos barulhentas, ônibus fumacentos, o fluxo da vida que vem e vai. Às vezes chove, às vezes faz calor. Há dias de “trevas”, mas ela me disse que o sol sempre dá as caras...

Enquanto conversávamos, percebi que daquela janela não se vê apenas a rua, a cidade, mas o mundo. Sim, tudo pode ser observado dali, a grande passarela por onde a vida desfila, a vida como ela é – dramas e dores, medos e temores –, tudo do que gente é feito. 

Diante daquele cenário, ocorreu-me: no que pensam essas pessoas que, tão apressadamente, correm de um lado para outro? Quem são elas? Onde moram? Como vivem? Quais são seus sonhos, inquietações? Difícil decifrar... O tempo nos permite apenas um relance de olhar.

Lembrei, então, de uma citação de Jesus: “Os olhos são a candeia do corpo. Quando os seus olhos forem bons, igualmente todo o seu corpo estará cheio de luz. Mas quando forem maus, igualmente o seu corpo estará cheio de trevas”. Lc. 11:34.

O texto solto pode não nos dizer grandes coisas. Dentro de seu contexto imediato, todavia, ganha novos significados. Jesus acabara de dizer aos seus ouvintes, que lhe pediam insistentemente um “sinal”, que eles precisavam atentar para o que acontecera ao profeta Jonas.

A história de Jonas nos revela um homem acometido de uma terrível enfermidade, uma doença que lhe atacara os olhos, pois sua visão havia se tornado embotada, seu aparelho visual estava daltônico, incapaz de ver as cores, a beleza, o brilho da luz.

Jonas olhava, mas não enxergava. Sua consciência havia se cauterizado pela dureza e perversidade da sociedade na qual vivia. Era assim que ele percebia a grande metrópole de Nínive, 100 mil pessoas indo e vindo, desencontradas de si mesmas, de um propósito maior para existir..

Na “janela” de Jonas, a vida perdera a sensibilidade, a magia, a singularidade. Sobrara-lhe apenas a realidade. Ele já não possuía mais a capacidade de sonhar, de acreditar, de alçar voos e adentrar mares.

Mas algo inusitado o esperava... Ao tentar fugir de Deus e de seu destino, foi parar num dos “antros da terra”, no lugar mais improvável da existência: o interior de um grande peixe. Espero que entenda a alegoria...

Sozinho, amedrontado, desprovido de tudo, sem controle de nada, rendeu-se a si mesmo e à soberania de Deus. “Os olhos do espírito só começam a ser penetrantes quando os do corpo principiam a enfraquecer”. Platão, filósofo grego.

Ao sair dali, rumou de volta para Nínive. Seus olhos, entretanto, já não eram mais os mesmos... A escuridão na qual havia ficado lhe abrira novamente as percepções e sentidos. Agora, mesmo vendado, seria capaz de enxergar. Num relance, discerniu toda aquela miséria que o cercava, a futilidade das almas que naquela sociedade viviam, a banalidade de suas vidas, a inutilidade de seus dias.

Mas Jonas agora podia ver aquilo que antes lhe era impossível. Onde havia trevas ele viu luz; onde havia morte ele viu vida; onde havia desesperança ele viu oportunidades; onde havia dor ele viu alegria; onde havia enfermidade ele viu a cura. Sua mensagem de amor e graça deu à cidade a chance de reescrever uma nova história.


Quero lhe dizer algo: a vida nem é boa nem é má – ela é como é. São os teus olhos que lhe dão sentido e significação. A maneira como você percebe as situações, os acontecimentos, é o que dará a cada fato a sua “tonalidade” própria – cinza chumbo ou azul-turquesa.


Se os teus olhos forem bons, capazes de olhar para o outro com reverência, para a dor com solidariedade, para a perda com gratidão, para o lamento com alegria, para a amargura com contentamento, para a injustiça com esperança, todo o teu corpo usufruirá disso, e você terá saúde física, emocional e espiritual, será como uma candeia em meio à escuridão.


Do contrário, tudo o que se poderá perceber através de teu olhar será um grande amontoado de fatos desconexos, uma realidade caótica, um mundo perverso, um Deus bizarro, sadista, que trata seres humanos como marionetes circenses.


Sim, você enxergará as pessoas como uma multidão de gente louca, indo do nada para lugar algum, pois, certamente, se os seus olhos forem maus, que grandes trevas habitarão o interior do seu ser. Por isso, nunca se esqueça do que disse o escritor Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos”.


Deixei o apartamento naquela tarde carregando em mim lições preciosas que a vida, por vezes, nos traz de forma simples... Aquela janela, compreendi, não dá para a rua... Na verdade, abre-se para mundos.



Carlos Moreira

21 janeiro 2011

"Todo Mundo Quer ir Para o Céu, Mas Ninguém Quer Morrer"



O problema de vocês ocidentais cristãos é que vocês têm milhões de jovens querendo viver... Nós, ao contrário, temos milhões de jovens querendo morrer!”. Osama Bin Laden.

Inicialmente fiquei chocado com a frase, pois, a primeira vista, ela não me fez muito sentido. Ao depois, entretanto, quando minhas categorias político-filosóficas-religiosas entraram em ação, aí sim, compreendi o que o famoso terrorista da rede Al Qaeda quis dizer.

O fundamentalismo religioso não é regalia dos Mulçumanos. Pelo contrário, quem conhece um pouco mais a fundo a Religião Islâmica sabe que a proposta é totalmente diferente do estigma criado, sobretudo depois do 11 de setembro de 2001, com os ataques as Torres do World Trade Center. 

Deixemos os idealismos de lado... Fundamentalismo existe em qualquer religião. Entre os evangélicos, então, o que dizer? Quer mais ortodoxia e aberrações do que temos em nossas “denominações”? Quer mais manipulação e catarse emocional do que em certos “cultos”. Quer mais espoliação e pressão psicológica na pregação de determinadas “doutrinas”? Ora, quem não conhece “o jogo” é que fica de tolo, mas a gente já está nisto há muito tempo para ser ludibriado...

A frase do Osama choca-nos não porque saibamos que há um exército de meninos e meninas sendo treinados para fins perversos, que não consegue discernir o tamanho da maldade da qual eles se tornaram vítimas, pois tiveram suas consciências cauterizadas pela “palavra” e pela subversão da “religião”. O que surpreende é o desejo dessa gente de sacrificar a própria vida em função de algo no qual eles crêem, de imaginar estar sendo usado para cumprir um propósito divino, agradar a “deus”, ser  a "vara de seu juízo" na Terra.

Nietzsche disse certa vez “no ocidente não há ninguém mais disposto a morrer, seja por um deus, pela pátria ou pela família”. De fato, ele estava mais do que certo. Nós somos a sociedade dos que querem apenas ganhar, jamais perder, muito menos a vida! A saudosa banda Blitz, sucesso da década de 1980, dizia em sua canção: “todo mundo quer ir pro céu mais ninguém quer morrer”.

porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro... E já não sei o que escolher!... desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo... para o seu progresso e alegria na fé". Fp. 1:21-25

Na perspectiva do cristianismo, morrer é um prêmio, uma coroa, a consagração de uma vida, mas morrer está relacionado a nascer, não a extinguir-se, é a partida que nos leva a encontrar o propósito para o qual fomos criados. Quem morre deixa o não-ser para tornar-se ser de fato.

Mas Paulo, que desejava ardentemente morrer, pois queria estar com Jesus, entende que viver tem um propósito: edificar e ensinar a outros, abençoá-los, servi-los, amá-los, doar-se para que eles possam encontrar o significado de existir. Assim é o Evangelho. A vida do discípulo só ganha singularidade quando se desdobra na direção do outro, quando o próximo torna-se mais importante que sua própria vida, pois sacrificar sonhos e planos em prol de alguém é prazer e privilégio.

Bin Laden está recrutando jovens para morrer. É triste, mas fato. E nós? Quantos jovens temos dispostos a morrer pela causa do Reino de Deus? Não estou falando em se amarrar a toneladas de dinamites ou de detonar um carro em frente ao um mercado público. Estou falando em entender que a fé cristã deveria nos levar a buscar da vida mais do que sucesso profissional, dinheiro no bolso, alegria, festa, riso, namoros e curtição. Nossos jovens não têm referências. Bem disse Cazuza: “meus heróis morreram de overdose”.  

Tenho pena dos jovens de hoje... Rebeldes sem causa, mesmo... São, em sua grande maioria, alienados, fúteis, frívolos, superficiais, dessignificados, vazios, insensatos, desafeiçoados, insensíveis, desencontrados de si mesmos. Mas com tristeza, admito: eles tiveram a quem puxar; tiveram excelentes fontes de referência para ser o que são: nós. Eu e você...

Carlos Moreira

19 janeiro 2011

Contra-Fluxo


A sensação é de estar remando contra a maré, indo na direção oposta, subindo quando devia estar descendo, descendo quando devia estar subindo.

“Negue-se a si mesmo”, é a voz que escuto o tempo todo, todo o tempo. Desisti de tentar impressionar a Deus, aos homens. Entendi que não será por habilidades, nem necessidades. Não será por nada que eu possa fazer. Não será “por força, nem por violência”, não será pela ciência, nem mesmo pela razão. Apenas deixo-me levar pela brisa e, caminhando no caminho, semeio o bem e colho a esperança.


Enquanto todos querem ajuntar, desejo aprender a repartir. Enquanto querem mentir, busco encontrar a coragem de andar na verdade. Enquanto querem ser desleais, pretendo me tornar mais fiel. Rio-me da ganância, desprezo a futilidade, faço caso do sucesso, da busca da felicidade desprovida de propósitos. Cresço para dentro, expandindo minha consciência, alterando meus valores, repensando minha história. Aos que desejam mandar, ofereço o servir. Aos sofisticados e complexos, ofereço a simplicidade; aos arrogantes, a humildade; aos maliciosos a pureza; aos invejosos a singularidade de ser o que sou, incompleto, imperfeito, uma “metamorfose ambulante”.

Sim, é verdade, já compreendi que seguir a Jesus implica em andar na contra-mão, pois o Evangelho é um contra-fluxo, é subversão silenciosa, é mudança de coração, é transformação dos “ambientes” interiores, uma vez que a “ética do Reino é a estética do lado de dentro”.

E será assim, sem máscaras, sem cascas, despojando-me de tudo que possa impermeabilizar minhas sensações, libertando-me do que cauteriza as percepções, largando pela estrada tudo o que não é vida e aprendendo a recomeçar que, aos poucos, me tornarei um pouco mais parecido com Ele.


E assim, como o grão de trigo, que morre para poder fomentar a vida, morro também, pois, “pra que outros possam viver, vale a pena morrer”. Não deixarei para morrer amanhã, quero morrer logo, hoje, agora! Por isso, abro mão, despojo-me de mim mesmo, abro as janelas da alma, destranco os ferrolhos do coração, e morro. Morro enquanto ainda é tempo, pois os que me propõem a “vida” andam as portas a me convidar a seguir de acordo com o fluxo, de conformidade com as "marés", na direção da multidão, do corriqueiro, do banal. Eles me oferecem a morte embalada com papel celofane, numa caixa bonita, mas, no fundo, ainda é apenas morte. E eu, que pela morte de mim mesmo abracei a Vida, insisto em seguir na direção contrária.

Carlos Moreira

Determinismo ou Possibilismo?


Uma pergunta que todo mundo faz quando acontecem tragédias como a mais recente que provocou tanto desespero na região serrana do Rio de Janeiro é se esses acontecimentos não poderiam ser evitados. A essa pergunta são dadas poucas respostas plausíveis e convincentes.


É bem verdade que ninguém pode evitar que um grande terremoto aconteça, que um tsunami venha a varrer as cidades litorâneas de algum continente ou que a chuva torrencial provoque desmoronamentos. Mesmo o mais eficaz monitoramento de possíveis catástrofes naturais não evita inteiramente os desastres, embora possa atenuá-los.


Por outro lado, sabemos que um grande número de mortes resultantes desses acidentes da natureza poderia ser evitado caso a ambição política, o descaso para com a vida de milhares de pessoas e a obstinação dos homens não fosse tão grande. As tragédias, em geral, são ajudadas, paradoxalmente, pelos próprios homens que são as principais vítimas desses acontecimentos.


Se não fosse o crescimento desordenado das cidades, as propinas recebidas pelos fiscais das prefeituras municipais para fecharem os olhos à ilegalidade e os políticos doando terrenos em áreas de risco com fins eleitoreiros, provavelmente os números dessas hecatombes não seriam tão astronômicos; e os números não mentem jamais!


Voltando, porém, á pergunta do início do texto (se as tragédias poderiam ter sido evitadas ou não) percebo que por trás desta indagação subjaz um velho dilema humano; refiro-me ao embate entre determinismo e possibilismo. Há uma força maior desencadeando os acontecimentos trágicos diante da qual os homens são impotentes ou o próprio ser humano é responsável por aquilo que lhe acontece?

As opiniões deterministas e possibilistas permearam algumas das discussões mais antigas da humanidade. Determinismo e possibilismo travam uma luta feroz que começou no mundo antigo, passou pela Idade Média, avançou através da modernidade e continua acirrando os ânimos no mundo contemporâneo.



No mundo medieval Agostinho e Tomás de Aquino foram respectivamente representantes do determinismo e do possibilismo. No século XVI e XVII, por exemplo, homens como Calvino e Armínio opuseram as suas opiniões uns aos outros ao discutirem questões ligadas à salvação da alma dentro da perspectiva cristã.


João Calvino, enfatizando mais a soberania de Deus do que a liberdade humana, afirmava que a divindade havia escolhido os homens destinados á salvação e à danação eterna antes mesmo de terem nascido ou praticado qualquer tipo de pecado (predestinação). Já Armínio, inclinado mais ao livre arbítrio, dizia que o homem contribuía com a sua salvação ao responder positivamente ao chamado do evangelho.


Passando da teologia à geografia, no século XIX geógrafos alemães e franceses também se dividiram entre deterministas e possibilistas. Os primeiros advogavam que era o meio que determinava o homem, os segundos diziam que, ao contrário do que pensavam os primeiros, é o homem que determina o meio através das mudanças que nele produz.


Nos dias atuais o debate sobre doenças como o câncer, o diabetes e até discussões de gênero acerca do homossexualismo trouxeram de novo à tona os debates entre deterministas e possibilistas. Afinal de contas, somos livres ou escravos de um “destino”? A liberdade humana evita ou contribui para as catástrofes? Somos predestinados ou escrevemos com as nossas ações a nossa própria história?


Eu confesso que não tenho uma resposta definitiva para estas perguntas, mas desconfio que a resposta mais adequada a estes questionamentos se encontra no meio do caminho, em algum ponto intermediário entre o determinismo e o possibilismo. “A virtude está no meio”, disse sabiamente Aristóteles.


Acredito que naquilo que tange á liberdade humana, o homem se encontra, para usar uma linguagem jurídica criminal, sob uma “liberdade condicional”. Somos livres, mas só até certo ponto. Desse ponto em diante talvez sejamos guiados por alguma força cega e avassaladora que nos arrasta como fez a lama dos morros com as casas da região serrana ao descer encosta abaixo.

O que é esta força? Talvez aquilo que chamamos todos os dias, por não ter uma palavra mais adequada, de DEUS.

André Pessoa via Século XXI

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