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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

04 janeiro 2011

Sobre Amizade e Solidão


Nunca fui um homem de muitos amigos, se é que um dia os tive. Conto nos dedos das mãos (os dos pés ficam de fora) as pessoas que me foram muito próximas e que num lapso de extremo otimismo e inocência eu chamei de amigos.


Para falar a verdade, não existe de fato aquilo que convencionamos chamar de amigo. A figura do companheiro infalível, sempre disponível, disposto a ajudar em qualquer situação e presente em todos os momentos da vida só existe nas canções apaixonadas e emotivas de Roberto Carlos.


Sabe aquele seu amigo que nunca falhou com você? Foi só uma questão de oportunidade. Nada melhor do que o tempo para revelar a superficialidade de certas relações que acreditamos sólidas, mas que são frouxas como gelatina. As pessoas falham e nos decepcionam com mais facilidade do que imaginamos!


A melhor fórmula para cultivar uma relação de camaradagem é nada esperar daqueles que se dizem nossos amigos e fazem juramentos de fidelidade eterna. Para quem não espera nada, tudo o que vier é lucro.


Aliás, bom seria que evitássemos obstinadamente as “amizades muito finas”, como dizia a minha mãe. Entenda-se por “muito fina” uma relação onde a proximidade entre duas pessoas é tão intensa que até mesmo a individualidade de cada uma é sufocada por uma convivência constante e doentia.


É preciso certa distância para que haja liberdade e os relacionamentos sejam duradouros. A proximidade em demasia, por incrível que isso possa parecer, acaba gerando um efeito contrário ao esperado e separando ao invés de unir.


Amizade, se é que existe tal coisa, certamente não é diretamente proporcional a proximidade e ao tempo de convívio. Judas andava o tempo todo ao lado de Jesus e não hesitou em traí-lo, pois nunca foi de fato seu amigo.
Aliás, assim como aconteceu com o Cristo também acontece conosco. Somos sempre traídos com um “beijo na testa”. Traição e amizade em muitos casos moram em casas conjugadas!


Quanto a mim, os meus melhores amigos são os que já morreram e não tiveram tempo e nem foram próximos o bastante para me fazerem mal. No que diz respeito aos vivos, é mais prudente esperar um pouco mais para elogiá-los ou mesmo deixar que morram primeiro. KKKKK.


Embora Aristóteles tenha dito que o homem é um ser social, ou seja, que ele só se realiza plenamente na relação com outros homens, é também igualmente verdade que somos sós por natureza. O nosso ser é um mundo escuro e sombrio por onde vagamos sós e aflitos a procura de um caminho.


Estamos sozinhos porque os recônditos mais escuros das nossas almas e dos nossos corações são inacessíveis até mesmo àqueles que julgamos serem os nossos melhores amigos. Nesses espaços vazios do nosso ser só uma única pessoa pode penetrar e às vezes eu temo que ela esteja muito longe ou muito ocupada para ouvir-nos a voz suplicante.

André Pessoa via Século XXI

03 janeiro 2011

A Dança da Vida


A principal lição que aprendi no que ano que passou foi que, gostemos ou não, todas as coisas estão em movimento, tudo na vida “dança” e passa como fazem os componentes de um grande e expressivo balé. A dança da vida, porém, deixa desnorteado e tonto o homem que procura algo firme em que se segurar.


O que era ontem não é mais hoje, o que é hoje não será amanhã. Tudo é efêmero na existência humana, das riquezas aos prazeres, dos amores aos ódios. A vida é enxurrada descendo ladeira abaixo: destrói tudo que encontra pelo caminho e segue inexorável o seu trajeto!


Vida e morte, construção e destruição, começo e fim, marcam o passo e o ritmo desse imenso e cruel balé existencial. No palco, desprotegidos e vulneráveis, estamos nós, frágeis e românticos seres humanos. É melhor aprender logo o movimento das coisas.


Os amores “perfeitos” de hoje não existirão amanhã, o desejo ardente e as paixões loucas e oníricas também sumirão. Em nada devemos pôr a totalidade do nosso eu, pois tudo se move distanciando-se tristemente de nós. Só há segurança na insegurança; só há certeza na dúvida!


Devemos ter as coisas como se não a possuíssemos, usufruí-las sem julgá-las perpetuamente nossas. Só os tolos e insensatos julgam ser donos de qualquer coisa, por ínfima que seja.


“Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei”, disse o lendário e bíblico Jó, depois de ser massacrado pelas circunstâncias desfavoráveis e despojado da riqueza que julgava lhe pertencer. As plantas murcham, o verde perde a cor, a moeda o seu valor, o galã a sua beleza, a vida o fôlego que a mantém.


Tudo e todos estão de passagem, a caminho. Nada na paisagem da estrada nos pertence, a não ser no exato momento em que se deixa contemplar pelos viajantes. O cenário é fugidio, por isso “é infinito apenas enquanto dura!”.


Ontem as comidas, os fogos, a música, a festa. Hoje a desolação, a sujeira nas ruas, as garrafas vazias e o bêbado no chão, esse triste monumento ao transitório e ao efêmero.


Dance, cante, beije, ame, mas nunca esqueça: tudo está em movimento, se distanciando paulatinamente de uns e se aproximando vagarosamente de outros. Assim é a vida, fugidia, escorrendo por entre os dedos como a água que mata a sede, mas que também afoga!


“Tudo na terra está em fluxo contínuo: nada mantém uma forma constante e fixa. Não existe nada sólido a que o coração possa se apegar”, disse Rousseau depois de provar todos os prazeres e vaidades que a vida lhe pôde oferecer.

André Pessoa via Século XXI

O "Show" não Pode Parar!


Um dos filmes que mais marcou a minha adolescência foi “All That Jazz”. Interpretado pelo ator Roy Scheider, foi exibido no Brasil com o título “O Show não Pode Parar”. Na verdade, trata-se de um relato semiautobiográfico da vida de Bob Fosse, escritor, diretor e coreógrafo, vencedor, dentre outros prêmios, do Oscar.

Em “All That Jazz”, Joe Gideon é um produtor que está montando uma peça para a Broadway. Em sua cansativa rotina, ele sempre começa seus dias ligando o toca-fitas – tempo bom – pingando colírio nos olhos e tomando comprimidos de dexedrina. Em seguida, entra no banho, olha-se no espelho e repete a famosa frase: “It’s show time folks!” – “É hora do show pessoal!”.

Como acontece em outros musicais de Fosse, o bom e atento espectador perceberá que a ideia central do filme é mostrar que, na sociedade contemporânea, todos nós vivemos de certa forma no “mundo do espetáculo”, baseado na fantasia, na encenação.

Fico pensando se não foi esse o sentimento de Jesus quando ele observou as dinâmicas produzidas pela religião de Israel, em particular, ao analisar os contornos e entornos do que se passava no interior do templo de Salomão.

Vejamos o texto: “Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e lhes disse: Está escrito. "A minha casa será chamada casa de oração mas vocês estão fazendo dela um covil de ladrões.”, Mt. 21:12-13.

Talvez você esteja se perguntando: mais o que esta passagem de Mateus tem a ver com o filme “All That Jazz”? Eu lhe respondo: tudo!

Nessa passagem, Jesus entra em Jerusalém e se depara com o “show” montado no lugar onde era feito o sacrifício e realizadas as orações. Era o shopping da religião, onde tudo podia ser comprado, desde souvenirs e quinquilharias sagradas, até animais, comidas e plantas para se fazer ofertas.
Isso sem falar no câmbio do dinheiro estrangeiro, feito com pesado ágio. Sem dúvida, ali funcionava um grande centro de negócios, operado em pequenas barracas, que promovia um comércio farto e rentável.

Mas Jesus ao ver a perda da significação de propósito daquele lugar, ao constatar a cauterização a qual chegara a consciência da nação de Israel, ao perceber o endurecimento do coração daquela gente, partiu para cima da “moçada” com azorrague nas mãos distribuindo tabefe para todo lado e repetindo: “a minha casa será chamada casa de oração”. O barraco foi grande, não ficou nada de pé.

Eu acredito que a grande tristeza do Galileu foi ver que aquele tipo de religião era calcada em exterioridades, em ritos ocos e dessignificados. Era uma liturgia esvaziada de propósitos, com a oferta sendo banalizada, o desrespeito para com o altar, que significava a oferta, a entrega do que sobejava, a dádiva sem esforço, o arrependimento epidérmico, sem consequências ou desdobramentos, a contrição de ocasião, o sacrifício do ideal no altar da conveniência. Tudo tão semelhante com o nosso tempo...

Mas, no dia seguinte, o que você acha que aconteceu? Que os “traficantes do sagrado” estavam de joelhos no Templo? Que os “mercadores da religião, aos prantos, atiravam-se no átrio? Que os “feiticeiros da fé”, com pano de saco e cinza sobre a cabeça, faziam oblações? Nada! No dia seguinte, tudo já estava de pé novamente, refeito, e o comércio já havia voltado a operar normalmente, do mesmo jeito de antes, afinal de contas, o “circo” tinha de continuar operando!

O que sei é que, quando a vida vira rotina, precisamos escolher entre começar um novo ano, uma nova etapa, rever escolhas, valores, princípios, prioridades, ou voltar a repetir tudo de novo, as mesmas práticas e, como no filme, declarar: “É Hora do Show Pessoal!”.

Sim, não se iluda, a religião entorpece o ser, deixa dormente os sentidos, embebeda a consciência, engana o discernimento. Creia-me, até o sagrado pode se tornar enfadonho, algo mecânico, que come o ser por dentro e só deixa trevas e morte.

Entra ano, sai ano, e a vida da grande maioria das pessoas continua a mesma. Pactos são feitos, promessas, correntes, campanhas, “salamaleques” dos mais diversos, mandingas evangélicas, “boacumba”, e nada muda! Não muda o caráter, não mudam os valores, não mudam o “olhar”, a consciência, o coração, as atitudes.

Muito pelo contrário, a vida segue da mesma forma, pois tudo é parte de um grande circo, de uma encenação. É um embuste, um estelionato, a fé arrotada pela boca, à letra morta, contudo contradita pelas ações, pois não houve arrependimento – metanoia!

Por isso, vamos lá! Comecemos tudo de novo! Levantemos a lona do circo para entrarmos no “picadeiro” da existência! Acendam-se os holofotes, liberem os “palhaços da vida”, as “marionetes da religião”, os “saltimbancos anarquistas”. Deixem que comece o espetáculo, abram as cortinas para que entre em cena o disfarce nosso de cada dia. E não nos esqueçamos do principal:

“o Show não Pode Parar!”.

Carlos Moreira


31 dezembro 2010

Fechado para Balanço!


Hoje é o último dia do ano, 31 de dezembro. Como de costume, estou na empresa, trabalhando. Às 12:00h., os funcionários serão liberados, pois precisam de tempo para chegar em suas casas e se preparar para as festividades da passagem do ano. Mas eu virei à tarde... Cumprirei um antigo ritual...

No último dia do ano tenho o costume de fazer um balanço de tudo. Sento-me no sofá que há no meu gabinete e fico meditando sobre as coisas boas e ruins que aconteceram. Enquanto isso, no player do computador, uma seqüência especial de músicas embala os meus devaneios...

Sozinho na sala começo a me sentir entorpecido, lentamente. Fico absorto, vou me desconectando do mundo. Para um executivo de tecnologia, trata-se de coisa difícil, pois minha rotina é outra. Acostumado às demandas do mercado, tenho sempre de tomar decisões, estar conectado o tempo inteiro. Mas, neste dito momento, pode tocar o telefone, pode bater a porta, pode soar o skype ou apitar o e-mail, pois nada, absolutamente nada vai me remover daquele sofá. Parei! Estou fechado para balanço.

 No meio empresarial, como se sabe, esta prática é muito comum. As empresas fecham,  mesmo que internamente ainda haja trabalho, pessoas contando estoques, outras liberando produtos para queima de saldo, uns lendo relatórios da contabilidade, outros do patrimônio, acionistas analisando gráficos, distribuição de lucros, ou de prejuízos – quem sabe – fato é que, para tudo, tudo mesmo, e fecha.

Quero lhe afirmar algo: você também precisa parar! Entorpecido pela festa, absolvido por comemorações, abraços, canapés e champagne, você perderá a grande oportunidade de fazer uma reflexão. Nela poderá observar seus equívocos, a forma grosseira como, por vezes agiu, algumas injustiças que cometeu, mentiras, falsidades. Creia-me, um pouco de tempo será suficiente para trazer a tona sua insensatez, dissimulações, sua falta de prioridade com situações graves, sua frieza com pessoas queridas, seu descaso com a dor alheia, sua distância, até mesmo de Deus. Sim, meu amigo, preciso lhe dizer, nem que seja por um pouco de tempo, no último dia do ano, você precisa parar!

Examinemos e submetamos à prova os nossos caminhos, e depois voltemos ao Senhor”. Lm. 3:40. A frase solta não tem grandes significações... Não fosse a referência bíblica, poderia passar como conselho de auto-ajuda. Mais está envolta num contexto complexo, e foi proferida por um profeta, homem de dores, em meio a um canto fúnebre, uma lamentação, diante do desaguar das mágoas de sua alma que foi alcançada pela tragédia.

O livro de Lamentações, de onde a frase foi retirada, é atribuído ao profeta Jeremias. Ele tem como pano de fundo a destruição da cidade de Jerusalém pelo rei babilônico Nabucodonosor, cerca de 589 a.C. Seu texto, quase que exclusivamente, é um texto reflexivo, não obstante poético, que expressa uma dor visceral, o sofrimento de um homem que vê “sua” profecia se cumprir cabalmente.  

O escritor do livro de Lamentações descreve, em detalhes, os acontecimentos que se sucederam a catástrofe da queda da Cidade Santa: a fome, a sede, as matanças indiscriminadas, os incêndios, saques, além do exílio forçado do remanescente vivo para uma terra estrangeira. É o retrato da humilhação, do desespero e da angústia. Mas também do arrependimento, da súplica por perdão, de um sincero sentimento, ante a perda de todas as coisas, de fé e restauração.   

É diante deste cenário que o profeta adverte: “examinemos e submetamos à prova os nossos caminhos...”. Sim, façamos o que nos diz o profeta: examinemos os nossos caminhos! O que você fez este ano? O que deixou de fazer? Como ocupou o seu tempo? Em que envolveu o seu coração? São perguntas pertinentes, ainda que inquietantes, “pois onde estiver o teu tesouro, ali também estará o teu coração”.

Comparado a 2009, você saiu-se melhor? Tornou-se alguém melhor? Seu caráter foi aperfeiçoado? Seu coração dilatado? Sua consciência expandida? Sua alma está pacificada? Ou você deixou que as trevas invadissem teu interior, que crostas de ódio e rancor se alojassem nos recônditos do teu ser, que raízes de amargura crescessem para dentro de ti e, entrelaçadas a tua alma, produzissem dor e medo, ansiedade e solidão?

É tempo de examinarmos essas coisas e “voltarmos ao Senhor”. Nada está perdido. Mesmo o mais grave erro ainda pode ser concertado. Sim, talvez leve tempo, quem sabe anos, mas há esperança! É provável que você precise pedir perdão a algumas pessoas... Faça isso! Talvez, pensando numa nova perspectiva, tenha de tomar decisões difíceis... Tome-as! Não sei se será preciso rever alguns planos, ou construir novos caminhos... Mas ouse, tente, faça diferente! 

A existencialista Simone de Beauvoir afirmou “Se vivermos durante muito tempo, descobriremos que todas as vitórias, um dia, se transformam em derrotas”. Quero lhes confessar algo: não gostaria de viver o bastante para ver toda a minha vida como um grande equívoco! Seria insuportável, para mim, perceber, ao fim da caminhada, que meus dias foram gastos inutilmente, que tive uma vida fútil e frívola, seca e oca, desprovida de propósitos e significações.

Pelo contrário, minha esperança está em viver o que diz o salmista: “ensina-me a contar os meus dias de tal maneira que alcance um coração sábio”. Você sabe por que ele não pede para aprender a contar os anos? Porque o tempo, conforme Ovídeo, é o devorador de todas as coisas. Contar anos pode nos levar a perder de vista a possibilidade de, a qualquer tempo, mudar as velas do barco em direção a novos ventos.

Por isso, é melhor aprender a contar os dias, pois, assim sendo, será mais fácil e mais simples fazer as devidas correções nas rotas, nos mapas, mudar o rumo da nau, buscar outros oceanos, velejar por outros mares. Termino, pois, com Ivan Lins e sua belíssima poesia: “cortaram as amarras e os nós, deixando pra trás o porto e o cais, berrando até perder a voz, em busca do imenso, do silêncio, mais intenso, que está, depois dos temporais”. Feliz Ano Novo!

Carlos Moreira

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