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Jesus dizia a todos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.

05 outubro 2010

Desesperado com o Inesperado

"Na vida, você precisa ou de inspiração ou de desespero". Anthony Robbins. O desespero é algo universal e todos os homens o vivenciam, mesmo não tendo consciência plena dele.

Soren Kierkegaard, teólogo e filósofo dinamarquês do século XIX, um dos pais do existencialistmo, dedicou sua vida para entender o desespero no qual o ser humano, pela sua condição de estar no mundo, vive cotidianamente. Na sua obra "Desespero Humano - Doença até a Morte", ele procura refletir sobre o seu significado, tendo como questão principal a seguinte temática: será que o desespero advém, exclusivamente, de acontecimentos externos?

A princípio, para a grande maioria das pessoas, sim. É que a tragédia não marca nem dia nem hora para acontecer; materializa-se surgindo do nada e é sempre acompanhada por um poder avassalador. Num abrir e fechar de olhos destrói sonhos, desfaz esperanças, suspende projetos em andamento, acaba com relacionamentos afetivos, desconstrói histórias de sucesso, faz até mesmo cessar a vida, arrasa tudo o que encontra pelo caminho.

De fato, o desespero é muito mais do que um fenômeno social motivado apenas por fatores externos, mas, consiste também, de questões emocionais e interiores que podem nos remeter ao fracasso ou ao triunfo. O homem em desespero costuma se considerar uma vítima das circunstâncias, porque o desespero acaba revelando a nossa miséria e a nossa grandeza, trata da oportunidade de nos chegarmos a nós mesmos, ao nosso eu próprio. Quando esta “estação da vida” chega, surge com ela um momento singular, pois a crise pode levar-nos à superação de muitas de nossas interjeições e desencontros. Por isso, cabe perguntarmos: o que devemos fazer diante da perplexidade das tragédias? É legítimo, em situações como estas, indagar: será que existe Deus? Será que Ele me ama? Por que isto aconteceu justamente comigo?
Olhar para a tragédia exige um olhar desprovido de autocomiseração. É preciso, antes de tudo, entendê-la como sub-produto do fato de existir, do acumular nos pés a poeira que se faz pelo caminho da existência humana. Por isso, mesmo nas situações mais adversas, é possível semear no coração algo de bom, ainda que haja de se ter reverência para com a dor. Mas isto só é possível quando não sucumbimos em meio aos raciocínios simplistas, as construções fatídicas. Na verdade, o dia da perplexidade e do desespero sempre chega, e ele, invariavelmente, é solitário, por que surge da aparente indisponibilidade de Deus para conosco. Seu maior perigo não está na concretude dos fatos em si mesmos, mas nos desdobramentos que, a partir deles, podem sobrevir sobre a alma humana.
Foi justamente isto o que aconteceu com Jó, um homem atingindo por uma das maiores catástrofes narradas pela Bíblia Sagrada. Nela encontramos a “anatomia da tragédia”, a forma concatenada e quase planejada como, por vezes, a vida parece conspirar contra nós. E é aqui, neste vale da sombra da morte, onde teremos de escolher entre apaziguar o coração e aquietarmo-nos diante do inexplicável e do imponderável, ou darmos vazão a ira, ao ódio, ao medo, e permitir que se instaurem em nós as pulsões geradoras da amargura e da morte.
Mas quem é Jó? Curiosamente, não é um Hebreu, não é um “homem de Deus”, um membro da “fé institucionalizada” de Israel. Ele está para além das genealogias do sagrado, das heranças baseadas no “DNA de Abraão”. Contudo, no texto escrito cerca de 2.500 anos a.C., nos deparamos com um homem inculpe, reto, que teme a Deus e se desvia do mal. Casado, pai de 7 filhos e 3 filhas, Jó é um latifundiário próspero, dono de muitas terras, de rebanhos e manadas. Tem a seu serviço servos e servas e é tratado como o maior de todos os do Oriente. Não fosse isso bastante, é ainda um indivíduo devotado a valores – generoso, solidário e leal.

O texto do livro que tem o seu nome, por ser de estilo poético, e não narrativo, sem as preocupações sócio-históricas que dariam contornos outros ao seu drama, não retrata com detalhes a dimensão da desgraça que lhe sobrevém. O fato é que certo dia, Jó, sem qualquer explicação, sem que haja um motivo aparente, sem que exista uma lógica mensurável, sem que se delineie uma questão plausível, é alcançado pela tragédia. Vitimado por duas calamidades da natureza, fogo do céu e ventos do deserto, perde todas as suas plantações e terras e, conjuntamente a tudo isto, recebe a pior de todas as notícias de sua vida: seus filhos, filhas e netos estão todos mortos.

O desdobramento de todos estes fatos produz a desconfiguração existencial de Jó. Alquebrado pela vida, vitimado pelo inesperado, descontruído emocionalmente, ele começa a somatizar suas perdas através de tumorações que lhe rasgam a carne, feridas que vão dos pés até a cabeça. Não fosse isto o bastante, ainda tem de lidar com três amigos santarrões que, a todo custo, tentam lhe convencer de que tudo aquilo é fruto de um grande pecado que ele cometera e que insistentemente não confessara a Deus. Até a sua própria mulher, que já não suporta mais vê-lo em tais condições, dá-lhe como conselho o seguinte: “blasfeme contra Deus e morra!”.  

Como você se comportaria diante de algo desta magnitude? Eu penso que, o mínimo a ser feito, é requerer da vida uma explicação, um motivo, uma justificativa. E Jó vai em busca dela... Ele procura respostas, pede e até as exige. A sua boca se abre e dela sai uma dor que não se compara a nada. É a dor que dói por fora e por dentro, de dia e de noite. E é aí, neste estágio, não raro extremamente perigoso, onde começam os infindáveis e insondáveis questionamentos da razão humana: por que nasci, diz Jó? Por que isto me acometeu? Por que não morro de uma vez? Por que permites isto, Senhor? Por quê? Por quê? Por quê? É a queixa de um farrapo humano desesperado com o inesperado!

Mas, para todo inexplicável, sempre há algum tipo de explicação... Os existencialistas dizem que não há qualquer padrão na ordem dos fatos e das coisas e que tudo se desenvolve a partir de um movimento desordenado das escolhas humanas. Os espiritualistas dizem que a vida desenvolve-se a partir de um carma pré-concebido e que os seres humanos têm de experimentar as tragédias para poderem purgar os males de existências passadas. Os filósofos acreditam que o universo físico é regido por leis exatas, mas que a desordem e as injustiças não combinam com a existência de um Deus soberano. Assim, a tragédia é um acontecimento aleatório e sem qualquer propósito. Os religiosos falam que o trágico é conseqüência de uma teologia moral de causa-efeito que remete o ser humano a experimentar a desgraça sempre que ele faz algo que vai de encontro a Deus. Se alguém está sofrendo, é porque pecou.

E eu, na minha perplexidade, como alguém que já se deparou com o desespero muitas vezes, que conhece estes “ambientes” não apenas de ouvir falar, não de vislumbrá-los em livros, olho para estas definições de gaveta e não me satisfaço com nenhuma delas. Sim, de fato, elas não me servem como possibilidades de explicar a dor e o desespero humano, se é que isto, em si mesmo, pode supor algum tipo explicação. Jó, como bem diz Caio Fábio no seu livro “O Enigma da Graça”, tenta a partir de sua dor e desespero descatastrofizar a existência alcançada pela catástrofe, de tal forma a poder se livrar de todos os seus medos, inquietações e frustrações. Ao final o que encontramos no seu Livro é uma porção das Escrituras que fala da Graça, e não da desgraça. É o depoimento de um homem que mesmo em meio ao caos total, busca encontrar um bem maior, um sentido mais amplo, um propósito mais sublime para o que lhe acontece, pois, diz Jó, “eu sei que o meu Redentor vive e, por fim, se levantará sobre a Terra”.  

E assim, após cessarem todas as indagações, após retirarem-se todas as indulgências pessoais, após secarem-se as lágrimas e subtraírem-se todas as lamúrias, após o mar revolto ter se aquietado e os ventos tornarem-se brisa suave de fim de tarde, quando a escuridão da noite se fez luz do amanhecer que veio abraçar o raiar do dia, Deus pôde, enfim, falar com Jó. E aquele homem, desencontrado de si mesmo e de sua própria alma, começa a ser reconstruído, de dentro para fora, num novo ser, pois diz Jó, capítulo 42:1 “sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos será frustrado”.

No fim das contas, a melhor coisa que a tragédia pode fazer é nos levar a rendermo-nos a soberania absoluta e inquestionável de Deus. A dor, talvez, jamais nos deixe, mas, se serve como consolo, “temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós. De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos. Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo. 2ª Co. 4:7-10.

Carlos Moreira

03 outubro 2010

Acompanhado pela Solidão

Publicação em Jornal de grande circulação: "Obrigada por razões profissionais, me transferi para São Paulo. Encontro-me sozinha e sem amigos. A cidade me sufoca, durante o dia, e me isola à noite num pequeno apartamento de bairro. Não sei o que fazer, não tenho a quem recorrer e, às vezes, chego quase ao desespero. Quero gente para conversar e para conviver. Ajude-me, por favor.

Solidão é o estado de quem se encontra ou se sente desacompanhado ou só. É um sentir humano, complexo, e psicológico. Quem sofre de solidão vive como se estivesse fora da sociedade. Sabemos que o ser humano precisa se relacionar com outros indivíduos para aprender, desenvolver-se e afirmar-se como ser social. Quando isto não acontece, surgem os distúrbios de comportamento, principalmente nas pessoas tímidas, sensíveis, e nos que enfrentam problemas para expor idéias e interagir.

Eu não tenho dúvidas em afirmar que a solidão é um dos mais graves problemas da humanidade neste início de século XXI. O escritor francês André Malraux disse que nós integramos o que pode ser denominado de “a civilização da solidão”. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam à solidão como um dos fenômenos psicossociais que mais tem levado pacientes aos consultórios terapêuticos e a dependência de ansiolíticos e antidepressivos. Raimundo de Lima, psicanalista e professor da USP, explica que “são muitas as situações geradoras de solidão: existe a solidão gerada pelo poder, a decorrente da riqueza, a dos mal casados, a imposta pelo trabalho automatizado, a da criança cujos pais são egoístas ou inafetivos, a dos velhinhos rejeitados, abandonados pelos familiares, a dos órfãos, a solidão da loucura, a dos enfermos hospitalizados, a dos excluídos do mercado de trabalho” e, citando Kublerross, a solidão da morte, pois morrer nos nossos dias é solitário, é algo que acontece no isolamento dos CTI’s, longe dos amigos e da família.

A Bíblia Sagrada nos fala sobre a vida de um profeta solitário, vivendo as agruras de seu tempo, mergulhado num mundo desprovido de propósitos e significados. Trata-se de Miquéias, um hebreu que viveu entre 704 e 696 A.C. Sua solidão não está associada a um processo de depressão ou a ausência de companhia. É algo muito mais complexo e profundo. O texto do capítulo 7 nos expõe o que chamo de “Esquematismo da Solidão” – o conjunto de fatores e situações que desencadeiam, inevitavelmente, situações de isolamento na vida. O “mosaico” da passagem nos põe diante da fragmentação do mundo, em todos os sentidos, algo significativamente parecido com o que temos em nossos dias. Neste contexto trágico, envolto numa profunda solidão, Miquéias ora a Deus e fala consigo mesmo opinando sobre o que observa na existência ao seu redor. É a partir de sua fala que identifico estas 5 “estações” da solidão.
Em primeiro lugar, a solidão como conseqüência de UMA ALMA QUE PERDEU O APETITE PELA VIDA. Cap. 7:1 “Que desgraça a minha! Sou como quem colhe frutos de verão na respiga da vinha; não há nenhum cacho de uvas para provar, nenhum figo novo que eu tanto desejo”. Eis a fala de quem sente que o tempo passou, que o melhor da vida se foi, que a “primavera da existência” findou, e pior, que tudo, seguiu despercebido. Existir, nestas circunstâncias, gera fastio de alma, pois a vida, de tão agitada que foi, nos privou de ver e sentir coisas boas e belas. Era a nossa agenda interminável, os compromissos inadiáveis, as reuniões, e-mails, metas a bater, tantas coisas que o melhor da vida fugiu de nós. Não vimos nossas crianças crescerem, não brincamos com elas no parque, não namoramos de mãos dadas na praça, não tomamos vinho ao por do sol na praia, ou dançamos a luz do luar. A existência se complexificou tanto, que a felicidade, coisa singela e simples, tornou-se algo tão sofisticado que a perdemos. Agora, é tarde demais...

Em segundo lugar, a solidão como resultado de UMA EXISTÊNCIA ESVAZIADA DE VALORES E CONTEÚDOS. Cap. 7:2 “
Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue; cada um caça seu irmão com uma armadilha”. Nietzsche afirma:na solidão, o solitário devora a si mesmo. Na multidão devoram-no inúmeros”. Miquéias olha para a vida e vê que já não há mais gente boa na Terra, de coração verdadeiro, que não queira tirar proveito e vantagem de tudo. É como nos nossos dias... na sociedade das aparências, da imagem, dos relacionamentos reciclados, dos encontros dessignificados, onde todo mundo “se dá” a todo mundo e ninguém é de ninguém. Isto dilui a substância interior das pessoas, a alma vira sopa, os conteúdos se desfazem, os princípios se esvaem. Na busca da felicidade a qualquer custo – a tirania de ser feliz – tudo é possível, gente é tratada como coisa; coisa é amada como gente!

Em terceiro lugar, a solidão como subproduto da ALIENAÇÃO E CORRUPÇÃO SOCIAL. Cap. 7:3,4 “Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita suborno, os poderosos impõem o que querem; todos tramam em conjunto O melhor deles é como espinheiro, e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos”. Nada mais atual. A autoridade política pede a condenação por interesse. O Juiz aceita negociar sentenças por preço. O homem rico e poderoso faz conluios e negociatas. É o dinheiro do suborno na meia, na cueca, é a morte encomendada, é o extermínio dos jovens, é o descaso com as vítimas das avalanches e enchentes, com os viciados da cracolândia, com os indigentes dos hospitais, com os desterrados da vida, com os que separam o alimento nos lixões e disputam com urubus o café da manhã. É por isso que Sartre diz que “o inferno é o outro”, pois é o outro que ocupa o nosso espaço, quer o nosso cargo, rouba a nossa mulher, deseja a nossa roupa, quer a nossa vida! Mas Jesus, de forma diametralmente oposta, nos ensina, na parábola de “Lázaro e o Rico”, que é justamente o existir sem perceber o outro que é inferno.

Em quarto lugar, a solidão gerada pela DESCONTRUÇÃO DE RELACIONAMENTOS AFETIVOS E AMOROSOS. Cap. 7:5 “Não confie nos vizinhos; nem acredite nos amigos. Até com aquela que o abraça tenha cada um cuidado com o que diz”. Aqui a tônica é: não acredite em mais ninguém! Não confie nem mesmo nos seus companheiros, pois eles podem mudar de lado conforme a conveniência. Não se apegue nem com quem você faz amor, com quem partilha de sua cama, pois ele(a) pode lhe trair! Vai casar? Faça um contrato nupcial; jamais entre num regime de comunhão de bens; não acredite em relacionamentos duradouros, pois nós vivemos no tempo da impermanência. Veja os casais: eles possuem dois carros, duas casas, duas camas, dois computadores, duas contas correntes, amigos separados, lazer separado, projetos de vida separados. É a “solidão a dois” que poetizou o Cazuza.

Em quinto e último lugar, a solidão gerada pelo ANIQUILAMENTO DAS ESTRUTURAS FAMILIARES. Cap. 7:6Pois o filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora, contra a sogra; os inimigos do homem são os seus próprios familiares”. Estarrecedor! Em nossos dias, o número de assassinato de pais contra filhos subiu assustadoramente. Os casais estão desconjuntados, as crianças são criadas a revelia, ou pelas babás, ou pela televisão. Some-se a isso os novos arranjos familiares surgidos a partir da segunda metade do século XX: as produções independentes – mulheres tendo filhos sozinhas e utilizando o “pai” apenas como reprodutor; casais de orientação homoerótica adotando crianças; filhos criados em mais de uma casa, por vezes, com dois pais e duas mães. Família hoje é apenas família nuclear – pai – mãe – filhos. Tios, avós, primos, já não fazem parte do contexto, são parentes mais do que distantes. Os idosos, não raro, são tratados sem respeito, perdem a dignidade, são lançados em depósitos humanos para “cuidados geriátricos”. O que esperar de uma sociedade que vive desta maneira?

Tenho uma pergunta a lhe fazer: você se sente só? Mesmo em meio a uma multidão de pessoas, imagina-se solitário? Então quero lhe indicar uma alternativa para mudar o panorama de sua existência. E aqui não me refiro apenas a eliminar o, talvez, aparente problema de você não ter uma companhia. Isto não é solução! Fernando Pessoa escreveu:a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”. Também não se constitui alternativa, como alguns pensam, uma mudança radical na vida! Tenho acompanhado muitos que fizeram isto e pioraram sensivelmente seus estados existenciais. A saída não é mudarmos de casa, de profissão, de amor, de cidade, de igreja, de empresa, pois, mesmo fazendo tudo isto, o problema ainda persistirá. Débora Bötcher afirma: Que importa morar aqui ou lá, quando se descobre que se está sozinho em qualquer lugar?”.

A única mudança que pode provocar uma revolução em sua vida não está associada a nada exterior, mas a algo que acontece do lado de dentro do ser, e só aquEle que pode ressignificar a vida é capaz de fazê-la. Vamos voltar a Miquéias... Observemos como ele, após constatar todos estes matizes expostos acima, conclui o seu pensamento: Cap. 7:7Mas, quanto a mim, ficarei atento ao SENHOR, esperando em Deus, o meu Salvador”. É em Deus que está à única alternativa para toda a calamidade humana, para todo desencontro, para todas as nossas interjeições e contradições. Se buscarmos isto como alguém que busca o ar que respira, poderemos experimentar o que nos promete o Senhor nas Escrituras “nunca te deixarei, jamais te desampararei”. A partir deste ponto, meu mano, toda solidão será apenas circunstância existencial, pois, na companhia dEle, quem poderá sentir-se sozinho?

Carlos Moreira

29 setembro 2010

A Igreja e o Trem Fantasma

Quando eu era criança, lembro de ter olhado muitas vezes para aquela “casa mal-assombrada”, de onde um trenzinho entrava com gente eufórica e saía com a mesma moçada apavorada, mas sempre tive medo de me aproximar, pois não sabia o que iria ver, ouvir ou sentir ali dentro. Andar num trem fantasma foi uma das poucas coisas que eu quis fazer quando era pequeno, e não fiz...

Já adolescente, de férias no Rio de Janeiro, fui certo dia a um parque de diversões e me deparei com a “casinha dos horrores” – o trem fantasma. Era a grande chance, à hora da virada! Meu desejo de entrar foi tamanho que eu não me apercebi nem de outros brinquedos muito mais legais. Corri para a fila, comprei o ingresso e fiquei esperando a minha vez chegar.

Não demorou muito e o tão esperado momento aconteceu. Sentei-me sozinho no “vagão” que era feito para duas pessoas. Na minha frente e por trás de mim a meninada gritava com todo entusiasmo, um barulho frenético e ensurdecedor. De repente, um apito anunciou o início da aventura. Durante mais ou menos dois minutos fui submetido a um impressionante espetáculo de horror. Tinha de tudo: múmia em sarcófago, o conde Drácula, lobisomem, morto saindo de caixão, mulheres se arrastando num pântano, gente devorando restos humanos, uma desgraceira sem precedentes!

Por fim, veio o final do trajeto, e o trenzinho, envolto em uma nuvem de fumaça, saiu da casa e parou na “estação”. Como era de se esperar, as reações foram as mais diversas. Pouquíssimas pessoas estavam com ar tranqüilo ou mesmo sorrindo. A grande totalidade era composta de crianças chorando, adolescentes gritando, meninas em polvorosa e até adultos com cara de horror. Eu, todavia, e de forma surpreendente, sentia-me profundamente frustrado, inerte, quase sem sensações.

Analisando o fato depois, não sei se minha decepção veio por ter perdido tanto tempo com medo de algo tão infantil, ou porque havia saído quase da mesma forma como tinha entrado. Dizer que não foi legal, seria exagero, mas, de certa forma, foi brochante, e a razão era uma só: eu sabia que tudo ali era apenas ilusão, simulação, representação. Nada era, de fato, real.

Pois bem, pensando nesta experiência, e analisando o que tenho visto durante estes mais de 30 anos no dito “mundo eclesiástico”, cheguei à triste conclusão: a “igreja” dos nossos dias é muito parecida com um trem fantasma. Aliás, em alguns casos, a “igreja” apresenta um “espetáculo” muito mais pavoroso!

Para tentar comprovar minha “tese”, vou dividir as “igrejas” em três tipos distintos. Faço, obviamente, uma ressalva: nem todas as comunidades são iguais, e nem todas possuem as características que aqui irei descrever. Generalizações são, quase sempre, injustas, mas, no caso em questão, há de se pensar... Contudo e, graças a Deus, sempre existirão as exceções. Triste, todavia, é saber que o que deveria ser regra, em nosso tempo, é apenas evento extra-ordinário.

O primeiro tipo de “igreja-trem-fantasma” que quero descrever é aquela em que o sujeito entra e sai sem que nada, absolutamente nada, lhe aconteça. Tudo o que ali se passou, naquelas 2 horas de “culto” – em média – não lhe trouxe qualquer proveito, não lhe provocou nenhum tipo de sensação. Nem lhe impressionou positivamente, nem lhe chocou; nem produziu emoção, nem desprezo; simplesmente, passou de forma incólume. Nos casos mais extremos, o sujeito olha para o que ali se fez e acha que o “roteiro” é sempre demasiadamente infantilizado. Mas, empurrado pela mesmice, vai levando...

Este tipo de “igreja” produz um “cristão” alienado, robotizado, mecanizado, sem emoção ou sensações. Ele vai ao “culto” porque este ato já faz parte de sua rotina sócio-religiosa, a qual ele repete a cada domingo. Nesse ambiente “insosso”, onde a liturgia venceu a espontaneidade, a adoração deu lugar a um recital musical, e a mensagem trata dos heróis da fé ou de temas profundos da teologia sistemática, o sujeito acaba ficando confortavelmente anestesiado. Ele assiste a tudo, mas como se não lhe dissesse respeito, uma vez que nada do que ali é feito lhe acrescenta conteúdos a alma ou sensações ao coração e por isso, não pode gerar nenhuma concretude espiritual.

O segundo tipo de “igreja-trem-fantasma” é aquela voltada ao “espetáculo”. Você já nota a “coisa” logo na entrada! O “negócio” é por todo mundo em movimento, ninguém pode ficar parado. O “louvor” é uma aula de aeróbica – dança, pula, é um suadouro sem fim. A liturgia é mínima, simples, pois o “melhor” do culto ainda está por vir: a mensagem! O pregador é o rei da homilética. Voz empostada, alternância de intensidade, citações de pensadores, faz uma mensagem perfeita – rápida e objetiva – para não cansar os ouvintes. Os temas são sempre superficiais, para que ninguém saia chocado ou magoado. O importante é deixar a “platéia” feliz, pois, assim, ela voltará novamente no próximo domingo.

Este tipo de “igreja”, servindo-me de um termo utilizado pelo bispo Hermes Fernandes, é uma “igreja” sonâmbula, ou seja, tem muito movimento e pouca consciência. Ela produz um “cristão” alienado que, mesmo ouvindo verdades espirituais, sai dali para viver a vida como bem entende. Nada do que aconteceu lhe impacta para além do final do culto, pois, na segunda feira, ele voltará a viver como sempre viveu. Assim, tudo ali não passou de fantasia, de ilusão, coisa para entreter a alma, mas jamais para mudar o caráter, ressignificar a consciência ou despetrificar o coração, o que levaria a materialização de ações que fossem dignas do “arrependimento”. 

O terceiro tipo de “igreja-trem-fantasma” é aquela que promove um verdadeiro show de horrores! Nestas é possível ver de tudo, inclusive exorcismo do tipo mais bizarro possível, com entrevista com o “capeta” ao vivo e a cores. Visões extravagantes também são comuns – de anjos e outros “bichos”... Este tipo de “culto” valoriza os excessos, a gritaria, os chavões repetidos sem qualquer entendimento, a catarse emocional. O sujeito entra arrumado, sai descabelado, e ainda diz: o “culto” foi uma “benção”! Todo este misancenio, contudo, é intercalado com orações espalhafatosas – para produzir “derramamentos” e “milagres”, pedidos inflamados de dinheiro – de forma abusiva, manipulatória e indiscriminada, e testemunhos de curas e de feitos extraordinários – realizados após a filiação a “igreja”, ao cumprimento das etapas de certas “campanhas”, ou do acerto financeiro de contas com o “sagrado”.

Esta “igreja” é a que tem produzido o pior tipo de “cristão”. Trata-se de um ser de conluios com a “divindade”, alguém movido a barganhas com o “todo-poderoso” – dá cá que eu dou lá. Este tipo de ambiente produz apenas uma espiritualidade sincrética, a qual adiciona a fé “evangélica”, práticas de religiões afro-brasileiras, do espiritismo e até do candomblé. As pessoas que estão ali, em sua grande maioria, buscam apenas solução para seus problemas. Elas bem que poderiam estar na macumba, ou na feitiçaria, desde que o resultado final almejado pudesse ser “alcançado”. É a religião da “prosperidade”, aquela que antecipa o céu na terra, que retira a cruz, a humildade e a abnegação do Caminho, e coloca em seu lugar a riqueza, a saúde e a felicidade.

É triste assistir a tudo isto... Um “trem” com três “vagões” – uma “igreja” com três faces: a da tradição e da inércia, que produz anestesiamento existencial; a do show “pirotécnico” e das conveniências, que agrada o “público”, mas não produz transformação de vida; e a da extravagância e dos horrores, que gera adoecimento emocional e empobrecimento espiritual.

Se minha filha Gabriela, hoje com 8 anos, quiser ir passear no trem fantasma, vou junto com ela. Mas se me chamarem para entrar num “trem” que pare em qualquer uma destas “estações” que citei acima, digo-lhes sem pudores: “tô fora”! Na verdade, o único trem que hoje eu gostaria de pegar era o “Trem Azul”, aquele da canção do Lô Borges, que lhe permite fazer a viagem com o sol na cabeça, a brisa no rosto e a paz no coração. O mais meu mano, é coisa de doido... Pense nisto...

Carlos Moreira

19 setembro 2010

Essência e Existência: Uma Dialética Possível

Quando o filósofo existencialista Jean Paul Sartre faleceu, em 1980, os jornais da França estamparam a manchete: “A França Perdeu sua Consciência”. Sartre foi, sem dúvida, um dos principais filósofos do nosso tempo. Ele criou um estilo inconfundível, pois, distanciando-se do academicismo, entrou na existência cotidiana através de personagens de romances, poesias e peças teatrais.

Expoente do existencialismo, corrente filosófica que afirma que o significado do ser humano pode ser apenas encontrado no ser existente em si mesmo, Sartre deixou como contribuição principal a idéia de que a identidade de uma pessoa não está em sua natureza, pois existir é fazer-se, é tornar-se aquilo que é.

O surgimento do existencialismo trouxe como conseqüência imediata a ruptura com a metafísica essencialista, que durante muitos séculos, dos gregos até Hegel, estudou e afirmou a essência humana – o homem é imagem e semelhança de Deus – deixando sua existência cotidiana ignorada. E foi assim, sob esta tese, partindo de Agostinho, que o cristianismo ocidental se estabeleceu.

Como era de se esperar, o choque entre estas duas correntes aprofundou ainda mais a dicotomia já existente entre essência e existência, pois muitas das doutrinas cristãs são um sincretismo do neo-platonismo com o cartesianismo e o “produto” final gerado é uma metafísica onde o material e o espiritual jamais se coadunam, pois são irreconciliáveis.

É por isso que em nossas “teologias encarnadas” encontramos tanta separação entre “coisas do mundo” e “coisas espirituais”, como se o nosso ser fosse feito de dois pedaços incomunicáveis. No nosso universo vivencial, é comum nos depararmos com conceitos tais como: “música do mundo” e música gospel; arte sacra e arte “profana”; literatura devocional e literatura existencial; vida secular e vida religiosa; e por ai vai...   

O grande problema de tudo isto é que no mundo moderno não dá mais para sustentar este tipo de proposição e por uma questão muito simples: nossa sociedade vive sob a cultura da globalização, das tecnologias interconectáveis, do saber interdisciplinarizado, dos textos plurisignificados, ou seja, toda compartimentação, todo isolamento, todo hiato torna-se obsolescente e perde imediatamente sua razão de ser.

A conseqüência disso é que nós cristãos estamos ficando isolados do mundo que nos cerca, não só das realidades existenciais, mas, principalmente, das pessoas. Nossa doutrina é um ensinamento desarticulado, carente de uma ressignificação hermenêutica; nossa linguagem é “gíria de gueto”, cheia de chavões; nossos dogmas são muros intransponíveis, e porque não dizer, insustentáveis; nossas igrejas tornaram-se ambientes fechados, “escolas de profetas”; nosso comportamento é caricaturado, normatizado, um código de conduta inspirado no método de Procusto.  

Por isso, não é sem motivo que a grande maioria das pessoas hoje é refratária a Igreja e ao cristianismo. A explicação, dentre outras coisas, está no fato de que nós nos tornamos seres de outro planeta! E pior do que isto: nem mesmo o que afirmamos como mensagem se materializa como fé e prática em nossa vida. Somos muito mais performáticos do que autênticos. Parecemos, mas não somos de verdade. Amargamos existir para fora como um embuste, uma fraude.

Ora, o que você imagina que este tipo de “espiritualidade”, baseada no trinômio – mente cauterizada, coração impermeável e alma esvaziada, pode produzir? Eu lhe digo: uma consciência que não se ressignifica pelos valores do Evangelho, e por isso nem é transformada nem pode produzir transformação; um coração endurecido e brutalizado por todos os matizes da sociedade de consumo, incapaz de perceber o planeta ou de se solidarizar com a humanidade e, finamente, uma alma confortavelmente anestesiada por antidepressivos e ansiolíticos, paliativos alternativos que nos ajudam a suportar não só as pressões e contradições que experimentamos, mas também nossa total incapacidade de encontrar propósito e significação no chão da vida.

Todos os dias encontro pessoas desejosas de construir uma fé centrada, articulada, instigante, que produza um viver sustentável. Elas querem ter uma experiência com o transcendente a partir do imante. Mas, desgraçadamente, do jeito que está hoje, o cristianismo não lhes serve como opção neste propósito, pois não é capaz, sequer, de lhes chamar a atenção. Sobrará, então, como opção “religiosa”, abraçar as filosofias e crenças orientais ou as doutrinas espiritualistas.   

Chega de tanta radicalidade! Chega de tantos paradigmas! Eu acredito que essência e existência são coisas que caminham juntas e que podem ser conciliadas para corroborar na construção de um ser humano melhor. A transformação da consciência produz uma nova matriz existencial e a caminhada cotidiana, as experiências vividas e processadas, retroalimentam e renovam a consciência.

Veja se não foi justamente isso, olhando para as Escrituras, que Jesus afirmou: “vinho novo em odres novos”. Vinho novo tem a ver com os valores do Evangelho e as verdades do Reino de Deus, os quais são capazes de reconstruir a consciência. Odres novos são pessoas, tem a ver com o novo caminho existencial que cada um deverá encarnar para que a fé se materialize nas dinâmicas de cada dia.

Meu sonho, neste momento difícil, é que o cristianismo seja menos verborrágico e encontre a coragem de fazer uma reflexão crítica sobre seus pressupostos: proposições teológicas, crenças dogmáticas, sistemas eclesiológicos, práticas sacramentais e sistematizações litúrgicas. Ignorar isto é correr sério risco de falência múltipla, pois apenas se estará perpetuando – até quando? Não se sabe – a agonia provocada pelo que já se tornou uma infecção generalizada.  

Agora, se quisermos mesmo mudar, que sirva-nos de inspiração a famosa frase de Soren Kierkegaard, filósofo dinamarquês em sua reflexão: “quanto mais eu penso, menos eu sou”. “Traduzindo em miúdos”: a existência vivida é muito mais rica que a existência pensada. É hora de agir, não de falar!

Solo Christus!

Carlos Moreira

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É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da "argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.

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